A Maldição do Cisne

9 Sua Vez DE Ser Feliz


A noite correra muito rápido. Em algum momento, os dois haviam dormido ali mesmo, ao relento. Bastien foi o primeiro a despertar, com medo de que Maríade pudesse fugir, mas ela estava cansada de correr.

Mar, já em sua forma humana nua, olhou nos olhos de Bastien, que não desviou o olhar também. Os dois se mediam, tentando adivinhar a reação do outro após aquela noite de descobertas. Parecia uma batalha silenciosa, mas ninguém ganhou. Ela falou primeiro:

— Estou surpresa por ainda estar aqui, sabe. – Deu de ombros.

Bastien permaneceu quieto por um tempo, mas logo respondeu, de forma sarcástica.

— Estou surpreso que não tenha fugido enquanto eu estava dormindo.

Ela torceu a boca, irritada com o sarcasmo desnecessário.

— Está me chamando de covarde, Sens?

Ele balançou a cabeça, sua expressão mais séria do que ela já havia visto, apesar da ironia que pesava em sua língua.

— Se serve para você, quem sou eu para discordar? – A secura na voz de Bastien era cortante.

Mar baixou os olhos. Estava exausta por estar sempre brigando, de sempre estar armada ao redor de todos. E claro que a resistência que ele tinha a ela era sua culpa, não dele, então não revidou como gostaria.

— Sinto muito. Descobri que fazemos mesmo coisas estúpidas quando gostamos de alguém.

Mais uma pausa pesada. Quando o silêncio ameaçou esmagá-la, Bastien acariciou sua cabeça, como fez em sua forma de Cisne. Mar arregalou os olhos e encarou sem acreditar no sorriso carinhoso que despontava no bonito rosto dele.

— Acho que gosto mais do Cisne. – Ele riu, e voltou a falar, suspirando. – O que aconteceu? Eu já descobri seu segredo, não existe mais motivos para esconder nada.

Ela entendeu que ele falava do início da maldição. Bufou pesadamente, se preparando para os julgamentos, mas ele pareceu ler seus pensamentos.

— Não vou te julgar, se é o que está pensando. Quer dizer... acho que depois de tudo que me fez, não tem espaço para te odiar em mim. Eu perdoei seus coices e humilhações. O resto não é grande coisa. – Ele ainda fazia cafuné nos cabelos dela, os dois ignorando a nudez de Mar.

— Jura? Eu duvido um pouco, é bem... condenável. – Ergueu uma sobrancelha.

— Tente. Não duvide de mim depois dessa noite – desafiou-a.

Mar inspirou lentamente.

— Bem... primeiro, você precisa saber que Eleanora é minha mãe, não minha irmã.

Bastien arregalou os olhos, incrédulo.

— O que?! Ela é muito nova para ser sua mãe, Maríade. – Seu olhar ficou mais assombrado. – A menos que....

— É. Ela também foi amaldiçoada, mas há bem mais tempo que eu e Hellina. E Eleanora foi uma merda de mãe para mim a vida inteira – falou em um tom amargurado pela lembrança, seus olhos em seus próprios dedos, que estavam pousados na grama verde. – Ela sempre apontava meus defeitos, me comparava com Hellina. Dizia que eu deveria ser mais como ela para não acabar sendo uma fracassada, uma derrotada. E eu ouvia isso desde os oito anos, que foi quando a Hell foi morar conosco. – Bastien segurou sua mão, dando o apoio que ela precisava para continuar. Voltou sua atenção para ele outra vez. – E, depois, ficou pior, sabe. Porque tudo que a minha mãe falava começou a se tornar realidade. Os homens todos se encantavam pela Hell e todos comentavam como ela adorável e graciosa e linda. Todas as mães queriam uma nora como ela, perfeita. E sempre olhavam para mim com cara de... desaprovação. Cochichavam sobre as minhas mãos calejadas e como homem nenhum gostaria de uma mulher que não lava e não cozinha, ou que não quer ter filhos. As pessoas viviam comparando as duas Thomps, uma o inverso da outra. Quando presenteavam, era a Hellina. Quando elogiavam, era a ela também. Nem mesmo minha arte era valorizada, eles queriam uma arte mais delicada, como o canto de Hell ou pinturas. – Um sorriso duro despontou em sua face. – Aí Hell se apaixonou por Julien Sens.

— Meu avô – exclamou, assombrado pela revelação inesperada.

— Exatamente. – Acenou em concordância. – E tudo conseguiu atingir um estágio pior. Porque a mãe dele era a pessoa mais preconceituosa do universo. Elaine era o tipo que seguia as regras da sociedade à risca e desprezava quem não estava naqueles padrões. Ela vivia me humilhando, me mostrando como eu era inadequada. Eu odiava ela. – Mar rangeu os dentes. – E a Hell... estava presa em uma lua de mel eterna, realizada com aquele idiota romântico e os planos que faziam e todas as atenções estavam neles e naquele maldito casamento. E nisso a minha mãe me torturando, dizendo que eu deveria ser mais como Hellina, que ela estava no topo do mundo e eu com o pé no fundo do poço já... Eu estava saturada, Bastien. Cheia das palavras ruins que me diziam no meu coração. Um tempo depois, descobri que Hellina, a perfeita Hellina, tinha transado com Julien antes do casamento e tinha engravidado. Resolvi interromper os pombinhos, assustar eles dizendo que iria contar para todos que haviam consumado o casamento antes do tempo. Aquilo seria um escândalo, eu queria que eles se sentissem um pouco menos felizes, porque eu estava infeliz. Muito infeliz. – Ela fez uma pausa, desviando o olhar. Estava com vergonha, porque, embora não tivesse tido a intenção de interromper a gravidez da prima, não se arrependia de suas atitudes naquele dia. Bastien deslizou um dedo em seu pescoço, a arrepiando. Ela continuou, encorajada novamente pela falta de desprezo no olhar do amado. – Basicamente, surtei e avancei em Julien. Ele tinha colocado a Hell atrás dele, e quando o empurrei, ela caiu com tudo, a barriga bateu no chão. Ela teve um aborto espontâneo. E a maldição foi ativada.

O silêncio reinou por um instante, Bastien absorvendo o relato, não mais olhando em seus olhos, mas ainda segurando uma mecha de seu cabelo, tocando em seu pescoço arrepiado.

— O que é a maldição? Ela foi ativada porque matou o bebê de Hell? – Mar se encolheu com a escolha de palavras. Ela não se considerava uma assassina.

— Não. Isso só foi o fator que fez de mim o Cisne Negro, o pior de todos. A maldição foi ativada porque interferi no amor de Hellina, uma mulher de alma pura. Ninguém deve se intrometer no amor verdadeiro e eu destruí eles e envolvi a vida de um inocente – revelou, sua voz dura, ainda magoada por tê-la chamado de assassina.

Bastien balançou a cabeça e pegou seu rosto entre as mãos frias.

— Não fique chateada, Maríade. Eu não acho que seja uma assassina. Fatalidades acontecem – falou suavemente, mas ela se afastou de seu toque.

O coração de Mar batia em sua boca. Era agora ou nunca. Bastien parecia ter aceitado, mas... quem não a acharia um monstro? Ele estaria reprimindo seus sentimentos? Que futuro teriam? Até agora, ela não havia se entregado, mas e quando o fizesse?

— E agora? – questionou em um sussurro.

— O que aconteceu com meu avô? Porque ele e Hell não ficaram juntos, se se amavam tanto?

Ele desviou de assunto e Mar só sentiu mais medo. Ela tinha que ir embora, já estava acabando o tempo estipulado por Imogen, mas a julgar pela falta de bruxas ao seu redor, talvez ganhasse mais uns minutos. Era terminar de contar sua história e partir. Ela sabia que sua mãe estava dentro de casa, dando-lhe privacidade para se despedir.

— A maldição tem a condição de que se o amor é prejudicado, o homem deverá ter sua memória apagada, para poder recomeçar do zero, sem ter que conviver com uma família amaldiçoada.

Bastien ficou calado, absorvendo. Eles não mais se tocavam. Mar sentia cada vez mais que precisava partir.

— E agora? – ele repetiu sua pergunta.

— Eu preciso ir – respondeu simplesmente.

— O que? – exclamou, indignado. – Mas...

— Não, Bastien! – Aumentou o tom, para ser ouvida. – Eu não estou fugindo! Juro para você. Te falei ontem que havia sido expulsa e não menti. Eu deveria ter partido ontem à noite.

— Mas e nós? – A voz de Bastien falhou.

— Eu sinto muito, Bastien – chorou. – Não temos futuro. Eu estou nessa forma há cem anos. Se eu te aceitar, vou estar atrapalhando Hell outra vez e sua memória será apagada. Se... por um milagre isso não acontecesse, você aceitaria envelhecer ao meu lado, enquanto permaneço a mesma? E sua faculdade? Não posso voltar aqui nunca mais, Bastien.

Bastien passou as mãos pelos cabelos emaranhados, parecendo um pouco desesperado.

— Se eu me esquecesse... você poderia me conquistar de novo! – Segurou seus ombros. – Se me apaixonei por você com todas as patadas, imagina se desde o início me quiser, Mar!

Mar negou com a cabeça, tristemente.

— Você não está entendendo. Eu vou embora hoje e não posso voltar mais. Como te conquistaria? E mesmo que me seguisse antes de perder a memória, o seu eu de agora me aceitou com toda minha bagagem. Quem garante que o outro aceitará?

— Quem disse que eu perderei a memória?! – gritou, indignado outra vez.

Mar olhou para o céu, pedindo forças.

— Como não perderia?! Eu atrapalhei seu romance com Hellina! Se te aceitar, estaremos selando seu destino!

— Que romance? Mar, nunca houve romance! E outra! – Naquele instante, Mar viu uma transformação. Bastien pareceu aliviado até a alma, até mais feliz, como se tivesse resolvido a maior questão do universo. – Uau, porque não pensei nisso antes? Mar, se fosse para eu ter perdido a memória, não acha que quando me beijou isso teria acontecido? Naquele dia, na festa. A Hellina já estava correndo atrás de mim há bastante tempo. Nosso beijo teria confirmado a interferência, não teria? E Hell também nunca foi apaixonada por mim, então você não atrapalhou nada!

Mar parou. Havia certa lógica em seu raciocínio. Realmente, Hell não era apaixonada por Bastien, e o beijo que trocaram naquela tarde havia sido o momento em que confirmaram sua paixão. No entanto, o medo ainda cravava suas garras em suas entranhas.

— Eu... não sei.

— Maríade, caralho, só diga que sim e o resto nós resolvemos! – Ele estava muito irritado àquela altura. – Você tem medo de quê?!

Ela tentou fugir mais uma vez. Mar nunca se considerou uma covarde, até conhecê-lo.

— Você não quer saber porque Hell queria tanto ficar com você?

Bastien bufou e braços cruzados.

— Não. Ela claramente procurava pelo meu avô em mim e se decepcionou. Deve ter achado que por sermos da mesma família éramos iguais.

Mar negou, séria.

— Não, Bastien. Não era porque é neto de Julien. Ela o procurou porque é o único meio de quebrar a maldição.

Bastien ficou chocado. Ele claramente não esperava por isso, e parecia agora tirar conclusões próprias. Mar quase podia ouvir o coração acelerado, seu cérebro correndo pelos mil obstáculos que haviam entre eles.

— Quer dizer que... eu não ficar com Hell é o motivo por você ainda estar amaldiçoada?

— Não, não! – Tentou tirá-lo dessa culpa. – Mesmo que você tivesse decidido ficar com ela... se ela não se apaixonasse por você, nada teria acontecido. A maldição só será desfeita quando tudo voltar ao início. Com um descendente do amor dela. Ela deve ter um filho com um Sens que ame e a corresponda. E, como você disse, desde o começo ela procurou por um homem que você nunca foi, então...

Ele balançou a cabeça. Subitamente a abraçou, agarrou seu corpo com força, encostando o nariz em seu ombro, sentindo o aroma suave e a pele delicada e branca.

— A minha personalidade, Mar, é egoísta. Você se condena, talvez até mesmo não se ame, depois de tudo que ouviu – ele murmurava em seu ouvido. – Mas a verdade é que sou igual a você. Apenas tive uma criação diferente. Me perdoa por ser mesquinho, mas eu não ligo. Não ligo se estou arruinando sua chance de voltar a ser humana. Não ligo se todas as noites vou ter que deitar ao lado de um cisne ou se sua prima vai estar sofrendo por causa das minhas escolhas. Eu não me importo se você provocou um aborto em Hellina e não me importaria se tivesse assassinado alguém, mesmo sendo da minha família. Isso foi no passado, e no presente, você é mais importante do que tudo isso.

Mar chorou, soluçando em seu pescoço. A crueldade das palavras se encaixavam com sua alma podre. O momento era lindo, mesmo com palavras tão horríveis. Era tudo que ela queria. Seu sonho, o que ela nunca se permitiu sonhar.

— Então, Maríade, não acha que é sua vez de ser feliz?