A Maldição De Afrodite
11 Run and Gun
Chegando à casa grande, me foram oferecidos um banho e um prato de comida. Quíron estava furioso, após me alimentar e gritar comigo por alguns minutos ele saio com pressa em direção a floresta.
Como eu estava sentindo nesse momento? Bom, isso é algo difícil de explicar. Conforme o tempo passava no acampamento eu amadureci mais, porém quanto mais tempo eu passava aqui, mais angustiado eu me sentia. Mesmo tendo escapado, nunca me senti como se tivesse superado minha infância, e agora não tinha mais minha irmã para servir de apoio para mim. Não só isso, mas a angustia de não saber como Rin estava ou nem mesmo onde ela estava era algo insuportável para mim. Não sabia lidar com ok problemas do meu passado então eu simplesmente ficava irritado, triste.... De forma que isso fazia eu me afastar de qualquer tipo de contato com as pessoas do acampamento, a única pessoa que eu sentia alguma forma de afeição não sentia nada por mim e estava ocupada demais sendo feliz com outro homem.
Isso tudo fez eu me tornar uma pessoa completamente diferente de antes. Dizem que meu pai, o deus da guerra, tende a ser alguém maldoso que sente prazer em guerrear e tirar vidas de incontáveis soldados que estivessem em seu caminho. Acredito ter herdado essa parte dele.
Ao mesmo tempo em que parte de mim estava conflitada se perguntando do porque de eu ter matado alguém que não tinha condição alguma de revidar, outra parte estava completamente satisfeita por ter finalmente matado o homem que fez de minha vida um inferno. Parte de mim tinha finalmente superado todo o ódio que eu sentia por Kikuo, outra estava sentindo ódio de si mesmo por ter feito algo tão grotesco com um sorriso no rosto.
Um barulho na janela do quarto em que eu estava fez eu sair desse transe. Eu não conseguia abrir a janela nem que fosse a força, mas Sarah não teve problemas em abrir ela e entrar em meu quarto sem ninguém a ver. Ela sempre foi expert em entrar e sair de lugares que ninguém mais conseguiria, consequência de se viver da maneira que ela viveu.
—Sarah? Você est... — Fui interrompido por um tapa dela, acredito que essa foi a primeira vez que ela levantou a mão para mim.
—O que você pensa que esta fazendo?!? – Disse enquanto me puxava pela camisa, ela falava baixo, mas com um tom irritado pois não queria alarmar ninguém. – Quer voltar a morar na rua?!? Nós finalmente achamos um lugar onde poderíamos ter uma vida tranquila e você faz aquilo, eu quase fui pega!
—Vida tranquila só se for para você. – me soltei dela. – Não tem um dia aqui que foi tranquilo para mim, você sempre soube pelo que eu estava passando e nunca se importou de ir atrás de mim!
— .... Ok, agora tenho certeza, você está louco. Eu tentei diversas vezes me aproximar de você, mas você estava sempre treinando! Nem me olhava nos olhos quando falava comigo e agia como se quisesse distancia de mim. Sempre que te chamava para ir a alguma atividade ou até mesmo comer juntos, você nunca me respondia direito.
— Isso porque você sempre estava com a droga do seu namorado por perto! – nesse momento eu perdi a calma e comecei a gritar. – Eu não olhava para você porque não consigo encarar o fato de que você se apaixonou por outra pessoa! – No mesmo momento em que desabafei dessa forma, senti arrependimento, nunca havia confessado o que sentia por ela diretamente. Naquele momento, porque eu sabia um pouco do lado dela da história, a verdade me atingiu como um caminhão e eu comecei a pensar se ela não teria tentado se aproximar de mim antes, mas eu estava tão irritado que não percebi isso. Afinal como que ela poderia saber que eu a amava se nunca havia dito nem demonstrado nada sobre isso? Aquilo me fez sentir culpado e perceber que talvez parte da solidão que eu sentia existia parcialmente por culpa minha.
—Idiota, não grita! – Ouvi um barulho vindo de fora do quarto quando ela me deu um golpe de judô me lançando pela janela do segundo andar da casa grande (delicada como sempre), me fazendo assim cair de costas ao lado de duas malas já prontas. Ela pula da janela ao meu lado e puxa de volta a corda que usou para chegar a minha janela em primeiro lugar. – Nós podemos discutir isso depois, agora temos que ir atrás de sua irmã.
Ela me entrega minha mala e espadas e juntos corremos em direção da fronteira do acampamento, apesar da briga ela me ajudou a escapar da casa grande e estava disposta a char Rin comigo, não discuti com ela novamente até ver de longe Marco já nos esperando com uma mala nas costas.
—O que esse cara está fazendo aqui?!? – perguntei a ela enquanto corria
—Ele vai com a gente para nos ajudar, disse que não vai me deixar ir sozinha a uma viagem dessas e que sua experiência em missões anteriores poderia nos ajudar. Ele também pareceu interessado em salvar sua irmã então não reclama!
—Eu posso fazer isso sem a ajuda dele.
Encaramos-nos sem falar nada enquanto corríamos e chegamos ao pinheiro de Thalia onde o velocino de ouro estava, junto do dragão que o protegia cujo estava dormindo tranquilamente.
—Vocês estão bem? – perguntou Marco quando nós chegamos até ele, ninguém falou nada, eu e Sarah ficamos nos encarando em silencio. –.... De qualquer forma, temos que ir logo, logo seremos descobertos e ai não teremos muito tempo para correr, você sabe como centauros podem ser rápidos.
Assim que ele terminou de falar, uma luz roxa apareceu em nosso lado de repente. –Não é como se vocês fossem muito discretos de qualquer forma, crianças. – Quando me virei uma mão me agarrou pela camisa e então eu vi o rosto do deus Dionísio me encarar nos olhos. – Quem você pensa que é para matar alguém dentro do MEU acampamento?
Meu primeiro pensamento foi: “Droga.”. Ele me encarava tão intensamente que eu conseguia ter uma imagem nítida em minha mente sobre o que ele queria fazer comigo. Não era nada muito agradável então vou te poupar dos detalhes.
—Onde pensam que vão? – disse ele ainda me segurando.
—Resgatar minha irmã!– o encarei de volta tentando não aparentar tão desesperado quanto eu realmente estava. – Vocês podem fazer meu julgamento quando quiserem, mas eu irei salvar ela antes de morrer! Depois que ela estiver em segurança não me importo com o que aconteça comigo.
—Ah é mesmo? Tudo bem então. – Ele me soltou e assim que eu coloquei os pés no chão, ele colocou sua mão esquerda em meu peito. Ele não fez nada além de me tocar, mas eu senti uma onda de choque como se tivesse levado um soco. Quando finalmente recuperei meu folego vi que meu peito brilhava em um tom fraco de roxo. – Isso é um marcador que coloquei em você, se tentar fugir nós saberemos. Você tem 1 mês para achar ela, se não jogar conforme as regras.... Bem, digamos que você vai descobrir qual a outra finalidade desse marcador.
Senti um aperto no peito na mesma hora, mas não me importei muito com isso, planejava trazer Rin de volta ao acampamento de qualquer jeito.
—Mais uma coisa – ele se inclinou perto do meu ouvido e com um sussurro assustador disse– Corra. – E desapareceu em fumaça novamente no mesmo instante.
Assim que ele desapareceu, um bafo de fogo veio em nossa direção, eu não consegui reagir em tempo, porém Marco se jogou na minha frente e usando uma magia para conjurar uma parede de fogo ele conseguiu nos proteger em tempo, imagino que esse tipo de reflexo tenha se desenvolvido após dele ter participado de diversas missões.
Assim que me levantei vi uma flecha viajando em nossa direção, consegui desembainhar minha espada e proteger a perna esquerda de Marco de uma flechada que cortaria seus movimentos com certeza. Mesmo estando de noite consegui reconhecer Quíron na distancia.
Assim que o dragão parou de cuspir fogo para recuperar seu fôlego, nós três saímos em disparada, assim que conseguimos descer o morro em que o pinheiro ficava e Quíron já estava se aproximando, nós nunca conseguiríamos vencer dele em uma corrida.
–Vocês dois, vão! – disse Marco. – Eu o seguro aqui.
Antes mesmo de Sarah ter a chance de tentar convencer ele, (Ok, eu talvez falasse algo também.) Um barulho alto chamou a atenção de todos. Uma biga de metal puxada por maquinas construídas para imitar cavalos apareceu pulando por cima do morro em grande velocidade como se estivesse em uma cena de algum filme de corrida, assim que ela pousou ao nosso lado eu vi que quem a puxava era o meu filho de Hefesto favorito.
— Franky! – disse com animação. – O que está fazendo aqui?
—Venham comigo se quiserem viver! – disse ele imitando a uma fala do filme “Exterminador do Futuro” e abrindo um sorriso como se tivesse esperado uma semana inteira para dizer isso.
Subimos na Biga o mais rápido possível, sempre que Quíron tentava atirar flechas em nós (geralmente mirando em nossas pernas, ou agora nas rodas da biga) Marco conjurava uma barreira de fogo para nos proteger.
—Não vou conseguir fazer isso por muito tempo pessoal, vamos logo!
Assim que disse isso os cavalos entraram em ação com potência máxima, nos puxando atrás em uma incrível velocidade. Quíron teve que se esforçar muito para nos manter ao alcance de seu arco, mas nem ele conseguiu aguentar por muito tempo e logo foi ficando para trás.
—Eles são incríveis Franky, você que os construiu?
—Sim, esses dois cavalos têm mais de quinhentos cavalos de potência dentro de si, dá para acreditar? Quando eu não estou fazendo atividades diárias do acampamento e sendo incrível por aí, eu estou em meu quarto sendo incrível e construindo coisas incríveis como isso!
Olhei para baixo e vi que ele também carregava uma mala parecida com a nossa.
—Como você sabia disso tudo Franky? E porque você esta se arriscando tanto por mim e minha irmã?
—Isso é culpa minha. – disse Sarah, ainda visivelmente irritada. – Eu sabia que precisaríamos correr se não quiséssemos ser seguidos ou bater de frente com monstros que poderiam estar fora da barreira, então eu sabia que precisava de um filho de Hefesto. Por sorte nossa, uma das poucas pessoas que não te odeiam nesse mundo é um filho de Hefesto que também estava louco para sair em uma missão.
—Coloca sorte nisso, vocês realmente escolheram o melhor filho de Hefesto que o dinheiro pode comprar! Ou no meu caso, pizza e coca cola.
—É eu talvez tenha precisado subornar ele um pouco. – disse Sarah enquanto fazia as contas de quanto ela teria que gastar para saciar Franky, e quase chorando logo em seguida.
—Mas vocês são meus amigos, e eu não deixaria vocês na mão de qualquer forma. – Assim que disse isso os cavalos mecânicos começaram a fazer barulhos estranhos e soltarem fumaça. – Não.... Não, não! Meus bebes!
A biga lentamente perdeu velocidade até parar completamente, por sorte nós já estávamos chegando perto da cidade mais próxima ao leste do acampamento, Nova York. Então decidimos ir a pé o resto do caminho.
—Parece que vamos ter que ir o resto do caminho a pé... – desci da biga e tentei pegar minha mala, mas não conseguia levantar ela por mais que eu tentasse. Por algum motivo ela devia pesar quase tanto quanto a biga em si – Parece que meu karma está tão ruim que nem minha mala quer cooperar comigo mais.
—Na verdade, essa mala é minha. – disse Franky levantando ela sem problema nenhum. – criancinhas como você usam essa mala. – brincou comigo enquanto entregava minha mala a segurando na ponta do dedo. Isso me irritou imediatamente, mas eu não era louco o suficiente para brigar com ele. Mas não deixei de me perguntar o que havia dentro da mala dele.
Não preciso nem dizer que eu estava me sentindo horrível nesse momento, né? Não só por ter colocado o acampamento meio-sangue (o mais próximo que eu tinha de um lar) contra mim, mas também pelo que fiz e falei com meus amigos, sem contar que todos se arriscaram por mim. Quando começamos a andar na direção da cidade eu planejava aproximar-me à Sarah para pedir desculpas, mas logo que cheguei perto o Marco passou o braço pela cintura dela em uma tentativa de conforto depois disso tudo, ela estava aparentemente abalada, não só pela briga entre nós dois, mas também pelo fato de que agora nós quatro éramos fugitivos do acampamento. Todos estávamos um pouco abalados de uma forma ou outra. Decidi me afastar dela novamente quando Franky chegou perto de mim.
—Você parece bem pra baixo, não que eu entenda muito sobre isso claro já que eu só sei tocar guitarra. – Aparentemente nada abalaria o amor dele por piadas ruins. – mas você está bem?
—Não se preocupe com isso. – disse olhando para baixo quando pensei em algo importante. – diga, e os restos da biga que você construiu? Vai apenas deixar aquilo no meio da estrada?
—Ah sim, quase me esqueci disso. – Disse ele quando tirou um controle remoto parecido com aqueles usados para trancar o carro sem precisar da chave em si. Ao apertar um botão especifico ouvimos uma explosão vinda de onde a biga havia parado. – minhas construções sempre têm um botão de autodestruição, coisa de cara prevenido, sabe? Só espero que Quíron tenha desistido de nos seguir a esse ponto, seria bem ruim descobrir que a explosão o pegou também.
Tentando afastar esse pensamento eu e o resto do recém-formado time de resgate de irmãzinhas seguimos a estrada até chegar em Nova York.
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