O que faz uma pessoa ser má? Ganância? Inveja? Poder? ...Tantos motivos aparentes. A verdade é que se soubéssemos essa resposta o mundo seria um lugar melhor. Essa história não se trata de um confronto entre o bem e o mal, mas sim uma reflexão sobre o que se passa na cabeça de alguém que só quer a ruína, ou é a ruína.

Tudo começou quando eu tinha doze anos. Eu morava com meus avós e meus dois irmãos em um pequeno vilarejo chamada Tullic. Me lembro o quão calmo e sereno era aquele lugar. O sol sempre brilhava, as árvores eram altas e majestosas e tudo tinha cheiro de rosas. Até aquele momento, minha infância era feliz. Meu nome é Hareta, sou a mais velha dos irmãos Ryudi. No solstício de inverno nós sempre nos reuníamos em uma roda e acendíamos uma fogueira. Pulávamos, brincávamos e sempre terminávamos a noite com as medonhas histórias de terror do vovô. Foi nessa noite que aconteceu... Um urso estranho surgiu na mata, provavelmente tivesse sido atraído pelo cheiro bom da comida da vovó, e atacou. Meu avô logo puxou um galho em brasas da fogueira e tentou afugentar o animal. O urso ignorou o calor e com um golpe fatal desfigurou o rosto do meu avô que caiu e não sé moveu mais. Minha avó vendo o perigo me pegou pelo braço e me jogou pra perto de meus irmãos, ficando em nossa frente. Vendo mais de perto o urso tinha uma cicatriz no olho esquerdo, usava uma coleira e tinha algo elástico preso em sua pata direita. Minha avó estava aos prantos porquê sabia qual seria seu destino. Soluçante, ela sussurrou para a gente:

- Quando eu correr para ele, quero que vocês fujam até o rio.... Vovó ama vocês! — Disse a velha quase sem voz.

No ato de maior coragem que eu já vi, ela se lançou contra o urso para conseguir tempo para a gente fugir. Assim que se aproximou, o animal deu-lhe uma patada que a arremessou contra uma arvore. Em menos de cinco minutos tudo que era importante pra mim havia partido desse mundo. Peguei meu irmão mais novo no colo e segurei minha irmã pelo braço e comecei a correr floresta a dentro. Haley não parava de chorar e gritar enquanto o pequeno Coldi dormia tranquilamente em meus braços. Lágrimas desciam de meus olhos, mas diferente da minha irmã, era lágrimas de ódio e raiva. Naquele momento senti alguma energia que me fazia bem subir por todo meu corpo. Nunca havia sentido aquilo, mas era muito bom.

Depois de andar por algumas horas e os meus pés estarem cheios de bolhas, decidimos parar e descansar debaixo de uma árvore. Ainda iria demorar até o sol nascer, mas calculei que o urso não teria nos perseguido até lá. Como fui ingênua... Estávamos em uma árvore bem grande, porém velha. Ela era oca por dentro, então seria perfeito para repousarmos um pouco. Harleu estava exausta e o pequeno Coldi estava sereno e calmo, dormindo mesmo depois de tudo o que ocorreu. Deveria ser umas três e meia da manhã. A mata da floresta era densa, o que impedia que a luz da lua iluminasse tudo. Os irmãos tinham uma visão muito limitada apenas com alguns raios de luz do céu e postes de luz localizados perto do rio.

Depois de ter posto minha irmã pra dormir um pouco, me sentei em uma raiz da arvore e fiquei pensando sobre aquela sensação estranha que tinha sentido durante a fuga. Entre meus devaneios nem pude perceber que algo estava se aproximando. Com um pulo e um rápido golpe, o urso surgiu e partiu a árvore em dois, deixando meus irmão alvos fáceis. Pulei da raiz e tentei me aproximar mais, mas o ataque do urso chegou primeiro. Suas garras penetraram o peito de meu irmãozinho, o matando instantaneamente. Haley começou a chorar de novo e aquilo irritou mais o animal "quase" que racional. Ele se virou pra ela e fico sobre duas patas. Ele iria atacar. Vendo que a vida de minha irmã iria acabar ódio, raiva e fúria e surgiram em mim e eu simplesmente liberei isso tudo em um grito. Nesse momento o urso se virou para mim e esqueceu minha irmã por um segundo. Pude olhar a fera no olho e ver apenas dor e sofrimento. Mas eu não tinha pena. Uma aura negra surgiu ao meu redor enquanto lágrimas escorriam de meu rosto. Quando ele preparou seu ataque e seu rugido final eu gritei mais alto e toda aquela energia ficou mais forte. Ela se espalhou e expandiu por todo meu corpo. O animal percebeu algo diferente e se pós um passo atrás. Com outro grito e um olhar penetrante, a energia se manisfestou e correu direto para a ameça do urso e o envolveu com os raios negros. Ergui minha mão e comecei a fecha-la de pouco em pouco enquanto a aura fazia o mesmo com o pescoço do urso. A energia estava entrelaçado e em instantes o animal caiu no chão inconsciente. Nesse momento meus olhos se encheram de dor e mais ódio ainda e fechei a mão. Um 'clack' surgiu e o urso não tornou a levantar. Um sorriso de prazer surgiu em meu rosto me admirando pelo o que acabara de fazer. Nunca me senti tão viva, tão bem... Tão poderosa. Mas a fraqueza logo surgiu. O choro de Harley não parou depois que o urso caiu morto no chão. Agora EU era a ameça para ela. Quando tentei me aproximar, vi seus olhos... Olhos de quem temia a morte, olhos de pureza contaminados pelo medo. Tendo aquilo em minha cabeça eu simplesmente não aguentei ficar de pé e cai. Quase desmaiando, pude ver minha irmãzinha correndo, fugindo de mim enquanto minhas forças se esgotavam...

[...]

Havia se passado três dias. Eu estava no hospital ao soro e uma mascara no rosto. Minha visão estava meio embaçada mas o quarto parecia todo negro. Aos poucos fui capaz de levantar um pouco e minha visão melhorou. Era um quarto de hospital sim, mas ao invés de branco as paredes estava negras, um negro similar ao da energia que desencadeie naquela noite. Meu maior susto foi quando olhei para baixo e vi dois corpos. Um médico com um gigante corte no pescoço e banhado em sangue. Assim que tirei a mascara percebi que o cheio estava horrível. Logo vi algumas moscas passando por ali. Quando me levantei e senti o sangue dele nos meus pés quase gritei de desespero e nojo. Mas aquilo não era nada. Logo olhei para frente e vi a enfermeira. A pobre mulher foi decapitada e colocaram a cabeça em cima do criado-mudo, me observando. Eu sei disso porque seus olhos estavam saltados para fora, como se alguém os tivesse puxado. Peguei o balão do soro e tratei de sair daquela sala medonha.

No resto do hospital, silêncio. Não havia uma alma viva por lá, apenas o barulho do vento. Pelo menos as paredes tinha a coloração branca como de costume. Eu já estava com medo e sozinha, o que mais poderia acontecer? Vaguei pelos corredores do hospital, deixando minhas pegadas de sangue por todo o chão branco. Quando abri a porta da saida um tiro me acerta do ombro de repente. Logo eu estava de joelhos e a minha frente duzias de carros da policia. Fazendo uma conta rápida deveria ter uns 60 soldados ali e 30 policiais. Todos estavam fortemente armados. Um homem negro então sobre o capo de um carro e grita para mim:

- Aqui é o Investigador Kivy. Não se aproxime mais ou o próximo tiro vai ser no seu coração

Eu não estava entendo nada. Parecia que todos estavam contra mim e aquilo me assustava muito. Novamente as lágrimas voltaram a descer e o medo cresceu. Junto dele pude sentir a presença da energia novamente. Dessa vez foi mais fácil de acolhe-la. Novamente ela cresceu mais e mais ao se juntar com meu medo de solidão. O investigador que percebeu que algo acontecia mostrou uma feição de medo, com os olhos arregalados e muito medo. Ele não poderia exitar. Ergueu sua mão e gritou:

- Abrir fogo!

Nesse segundo parece que tudo parou e só eu estava fazendo alguma coisa. Em minha frente a energia começou a moldar alguma coisa, um ser de características humanoide. Não dava pra ver seus olhos e nem se estava sorrindo ou triste, apenas conseguia ouvir sua voz. A voz dele e era igual a minha, só que mais maligna. Nesse momento não me recordo bem, mas tivemos uma breve conversa:

- Eles irão mata-la.

- Eu vou morrer? — Disse a ele enquanto enxugava algumas lagrimas com a roupa do hospital

- Sim... A não ser que você peça minha ajuda, menininha.

- Por favor, me ajude. Eu não quero morrer...

Logo o tempo voltou a correr normalmente e pude ver as balas vindo. Sabendo da morte iminente eu simplesmente grite, colocando pra fora todos os meus sentimentos juntos. Pudera eu imaginar o que esse grito causaria. A energia armazenada em meu corpo logo se expandiu para fora e funcionou de escudo, me protegendo dessa fatalidade. Quando me senti mais aliviada ergui a cabeça e logo minha expressão de alivio mudou para pavor puro. Todos os homens, todos que estava em sua frente sumiram. Era impossível eles terem corrido tão rapidamente assim. Comecei a tremer de medo. Estava expirando muito rápido e estava bem frio. A manhã ia de mal a pior.

Decidi então ir até um carro da policia tentar contatar alguém pelo rádio. Estava apavorada e não sabia o que fazer. Enquanto andava até o primeiro carro da fileira, pude ouvir uma risada bem baixinha, como se fosse um deboche de mim. Era estranho porque não havia ninguém perto de mim naquele momento. Ignorei a risada e continuei. Assim que abri a porta do carro, um jornal caiu. Assim que li a notícia meu corpo gelou e deixei o jornal cair. Sua foto estava na primeira página com um titulo perturbador:

"Herdeira da Maldição deRafethy descoberta: Seu desejo de sangue apenas começou"

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.