A Mais Bela Flor
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Em segundo lugar, quero muito agradecer à Filha de Apolo por ter feito a primeira recomendação da fic. Sério, você nem fazem ideia da alegria que eu tive ao abrir a página da história e ver essa surpresa. Muito obrigada mesmo pelos elogios, adorei a recomendação que você escreveu :)
Agora, chega de enrolar. Senta que lá vem história!
Perséfone até podia ser a deusa das flores e da vida jovem, mas ela não era tão ingênua. Ela sabia para onde o deus dos mortos a estava levando. E isso não animava a deusa nem um pouco.
Ela tentou se desvencilhar várias vezes de Hades, porém este possuía as mãos muito mais fortes do que aparentava e segurou sua cintura com força, enquanto desciam cada vez mais e mais. As lágrimas já brotavam nos olhos dela, que estavam fechados. Não podia acreditar no que estava acontecendo.
Os outros deuses virão me salvar, disse para si mesma. Hermes, Apolo e Hefesto já demonstravam interesse nela: certamente iriam apoiar a pobre Deméter no resgate de sua filha. Isso consolou Perséfone por alguns instantes, até finalmente chegarem ao seu destino.
Ela estava com os olhos fechados, mas sabia que havia chegado ao submundo quando Hades soltou sua cintura. Uma mudança na luz e o som de gritos também denunciaram isso.
- Chegamos, meu amor – ela ouviu a voz de Hades, tão doce com ela. – Pode abrir os olhos.
Mas a deusa não abriu. Não queria. Não conseguia. Só deixava as lágrimas caírem por sua face pálida, a expressão tão triste que mataria qualquer um, deus ou mortal, do coração. Sentiu o deus dos mortos chegar mais perto dela, com passos leves.
- Minha querida... Está... Chorando? – a voz dele a surpreendeu, de tão perto que estava. Por um segundo quis abrir os olhos, mas preferiu deixá-los fechados. Sentiu então a mão dele no seu rosto, enxugando as suas lágrimas com tanta delicadeza que ela até se assustou.
- Abra os olhos, por favor.
A voz de Hades era tão triste que ela não pôde dizer não. Também já estava se cansando e suas pálpebras tremiam. Decidiu parar com a sua atitude infantil, afinal, uma hora ela teria que encarar a realidade a sua volta. Abriu os olhos.
Estava num lugar que ela nunca pensou que pisaria os pés um dia. O céu era escuro, sem estrelas, lua ou qualquer outro astro aparente. O chão em que pisava era um tipo de terra muito negra e batida, com milhares de pegadas ao redor. Estavam em frente a um palácio também negro, com várias torres e estátuas. Seria até bonito se não fosse tão sombrio. Dali dava para ver os jardins, que eram compostos de árvores com frutas estranhas e arbustos cheios de espinhos. Também eram visíveis, a alguns quilômetros, campos do que pareciam ser trigo negro.
Tudo ali era escuro e sem vida. De fato, Perséfone era a única cor naquele lugar; o único raio de luz que um dia entrara no submundo. Hades também parecia achar isso, porque seu rosto se iluminou num sorriso quando a viu olhando todos os cantos. Ela era, certamente, o brilho, a alegria e a cor que faziam agora parte de sua vida.
- Esse palácio será seu, Perséfone – ele disse, passando as mãos pelo cabelo dela – Poderá ter o seu jardim também. Farei de tudo para que você seja feliz, meu amor.
Pensou que tudo estivesse resolvido, mas a deusa das flores de repente começou a chorar de novo. Doía muito vê-la tão triste.
- Eu quero ir embora! Esse lugar é muito escuro... Eu não me sinto bem aqui... Deixe-me ir, por favor! – os olhos da dela brilhavam. O seu vestido rosa já estava ensopado de lágrimas e seu rosto estava vermelho. Sua expressão era de pavor e tristeza profunda.
- Não posso, eu a amo.
- Se me ama, deixe-me ir!
Ele não disse nada. Apenas se aproximou dela, tentando tocar o seu rosto, mas ela se desviou. Olhava com o mais profundo desprezo para o deus dos mortos.
- Nosso casamento é amanhã. – ele comentou como alguém comenta o tempo.
Perséfone sentiu que iria desmaiar. Era muito para um dia só.
- Monstro... – Ela disse, perdendo os sentidos. A última coisa que viu foi o deus dos mortos correndo para ela numa agilidade impressionante e a segurando nos braços, com os olhos cheios de lágrimas.
XoooXoooX
Perséfone acordou.
Esperava sentir a luz clara do sol beijando a sua face, a consolação perfeita para o pior pesadelo que já tivera até então. Porém, a luz do sol nunca chegou às suas íris e ela se viu forçada a encarar a realidade a sua volta.
Revirou-se incomodamente na confortável cama na qual repousava. Os seus olhos ainda estavam apertados de cansaço, de modo que ela não podia enxergar o cômodo em que se encontrava. Os lençóis eram macios e frescos, o que a fez querer ficar para sempre ali.
Mas não podia. Com muito esforço se forçou a abrir as pálpebras que teimavam em se fechar. Talvez ainda estivesse em seu quarto no palácio de sua mãe. As ninfas poderiam ter se esquecido de abrir as cortinas. Ou talvez ainda nem fosse manhã. A deusa tomou uma boa dose de coragem e abriu as pálpebras.
Com um sobressalto, percebeu que estava num quarto de paredes negras como a noite. Alguns móveis da cor de tabaco estavam dispostos organizadamente pelo cômodo, com pequenos vasos – sem flores, Perséfone observou resignada – colocados cuidadosamente em sua superfície lisa. As portas de vidro da varanda estavam abertas, mas nenhuma brisa fresca entrava por elas. Lá fora o céu estava escuro, quase do mesmo tom das paredes do quarto.
A deusa das flores olhou para a própria cintura e percebeu que ainda estava com o mesmo vestido que usara na noite anterior, quando fora no bosque com as ninfas. Os lençóis de seda branca se enrolavam em suas pernas, mas ela nem se importou. Tentou se lembrar do que poderia ter acontecido para ela dormir sem se trocar e o motivo de ter acordado naquele quarto, mas não conseguiu.
- Ainda bem que despertou, Lady Perséfone – uma voz feminina falou de repente, ao que parecia ,vinda da porta – Temos que começar o nosso trabalho. Seu casamento é hoje.
E então Perséfone se lembrou.
Lembrou-se de que tinha ido ao bosque com as ninfas, que elas fugiram misteriosamente e que fora seqüestrada por Hades para que se casasse com ele. Também lembrou-se de quando chegara naquele lugar e de como desmaiara. Olhou mais uma vez a janela e constatou que estava mesmo no mundo Inferior.
- Senhora?
E então a deusa sentiu que poderia desmaiar de novo. A voz feminina que a chamara anteriormente era a de uma criada, que com passos leves e surdos se aproximou dela. Quando a criada parou na sua frente, Perséfone constatou que a mulher era um fantasma.
- Desculpe o susto, minha senhora – a mulher fez uma reverência. Era quase que transparente, com os contornos borrados e oscilantes. Parecia possuir cabelos longos e loiros, olhos escuros e pele branca. Suas feições eram bonitas. Usava um longo vestido cinza de alças grossas, como uma típica grega. Em suas mãos trazia uma bandeja de café da manhã repleta de guloseimas – Mas foi uma exigência do senhor Hades que a senhora fosse tratada por espíritos femininos e não por criados invisíveis. Disse que era para vossa senhoria se acostumar e não se chocar tanto.
- Como assim? – Perséfone despejou, finalmente. – O seu senhor que rapta e me traz para esse lugar deplorável contra a minha vontade e ainda tem a audácia de querer que eu não me choque? Isso é o fim!
E a deusa começou a chorar novamente, agora sentada eretamente na cama. A criada olhou com pena e logo disse:
- Senhora, me desculpe a intromissão – ela disse, pousando a bandeja em uma mesinha — Mas o senhor Hades é um deus muito bom e...
- Não quero saber! Só quero voltar para casa!
- Infelizmente não é possível, senhora. E, se me permite, temos que começar a arrumá-la. O casamento é daqui a algumas poucas horas. Ah, apenas para me apresentar, Lady Perséfone: Sou Elyon. Agora, penso que é bom comer a sua refeição matinal.
Perséfone não respondeu, e Elyon apenas suspirou cansada. A deusa se deu por vencida e se levantou contra a vontade, nem tocando nos alimentos da bandeja. A criada sorriu para ela e, juntas, foram para o pequeno quarto de banho que estava localizado dentro do quarto. Lá havia uma grande banheira cheia de espuma branca e vários sais de banhos e ervas organizados em potes nas prateleiras.
Elyon ajudou a deusa a se despir, dando uma triste olhada na peça cor de rosa em suas mãos. Perséfone ainda estava chateada e triste, mas não pôde ignorar aquele olhar que parecia ser mais doloroso do que o seu próprio. Enquanto estava na banheira, com os cabelos castanhos cobertos de água e sendo banhada pela criada, ela perguntou:
- Elyon,não é? Por que lançou um olhar tão triste ao meu vestido?
- Ah – a criada suspirou, enquanto apertava a esponja cheia de água no corpo de Perséfone – Bem, quando eu era viva adorava costurar e comprar vestidos. E hoje eu não posso possuí-los: fantasmas não trocam de roupa, minha senhora.
Mas aquele foi o único momento em que Perséfone conversou com alguém naquele dia. Quando saíram do banho as lágrimas escorriam pela sua face. Chegando ao quarto, foi apresentada a mais um fantasma, uma moça mais velha chamada Agnes. A deusa apenas deu um pequeno aceno de cabeça e se sentou em uma cadeira de madeira, onde seu cabelo foi penteado, sua pele hidratada e seus lábios pintados com uma tinta vermelha.
- Não chore, minha senhora – disse Agnes, a voz doce e com uma irritação controlada – irá estragar o nosso trabalho. E ai de nós se o senhor Hades pensar que a senhora está mal apresentada!
Mas Perséfone não se importou e continuou chorando a menção do nome de Hades. Porém, isso não estragou nem um pouco a sua beleza e sensibilidade. Ainda sentada, esperou as criadas buscarem o vestido de noiva. Quando o viu, não pôde reprimir um pequeno susto. O vestido até era bonito, com a cintura marcada, um decote não tão grande, as alças grossas caindo dos ombros para os braços e a saia longa esvoaçante. Lindo. Porém a cor dele era negra como o céu lá fora. E preto era uma cor que Perséfone pensara que nunca usaria.
Porém, não fez objeções. Levantou-se e Elyon colocou o vestido nela, Agnes dando alguns ajustes. Um diadema de bronze com algumas pedras preciosas foi colocado em seu belo cabelo. Quando se olhou no espelho, viu que até estava bonita. O vestido a valorizava e o diadema brilhava, porém sua expressão era triste.
- Está magnífica, senhora! – exclamaram as criadas, sorrindo.
- Agora vamos. Já está na hora! – disse Elyon.
Perséfone não encontrava nem mais lágrimas para chorar. Deixou ser conduzida pelos corredores escuros e longos do palácio de Hades, não querendo nem imaginar em como seria o casamento. Logo o momento chegaria e tudo estaria perdido. Mas ela ainda tinha a esperança de ser salva.
O vestido se arrastava no chão de mármore frio sem fazer nenhum ruído. Não havia nenhum tipo de conversa com os dois fantasmas ao seu lado. Perséfone se sentia só, se sentia triste, se sentia abandonada e se sentia traída. Faria o possível para não chorar ou não mostrar fraqueza. Hades iria ver que ela não era mais uma donzela frágil.
Eu irei fazê-lo sofrer e se arrepender de tudo o que fez comigo.
E então,o corredor deu em uma grande e luxuosa sala, com um grande trono negro e colunas da mesma cor. Havia muitas pessoas, dentre fantasmas,monstros e até alguns deuses. E, bem na frente do trono, estava Hades.
Ele olhou para ela e sorriu.
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