A Magia do Submundo

16 Demônios da Ganância


Notas iniciais
Hello! Dando continuidade à parte final deste ato, e Arco também, este capítulo é completamente focado em combate. Hehehe. Boa leitura ^^

A enorme criatura que era Mamon olhava com desprezo para as bruxas. Entretanto, quando bateu o olhar em Luna, deu uma gargalhada. Pareceu mais um rosnado bestial.

— Veja só. Uma mestiça tola. Parece que o Azazel realmente se tornou inútil, hein? E como vai sua mãe, mestiça? Imagino que não tenha sobrevivido ao parto de uma amaldiçoada inútil como você. É isso o que acontece quando um demônio tenta copular com uma humana. Elas morrem.

Luna olhou para ele, e seus olhos verdes foram substituídas por íris vermelhas. Antes que avançasse, no entanto, Jason segurou-a pelo pulso.

— Você não vê a aura dessa coisa?! Ele não é algo que você pode enfrentar!

Luna bufou, mas sabia que Jason tinha razão. Ela não poderia esperar fazer frente a um Príncipe Demoníaco.
Selena, Alice e Lily encaravam Mamon. Notando isso, Arvak sorriu sem graça. “Se essas três e Lorde Mamon começarem a lutar, meu último desejo é estar perto”, pensou ele.
O Sacerdote de Mamon saiu correndo na direção da passagem à direita dos invasores. Lily apontou para ele.

— Luna, Jason!

Os dois jovens assentiram e saíram correndo em sua direção. Mamon ameaçou avançar, mas Alice disparou um raio flamejante nele. Este dissipou-se ao entrar em contato com as escamas de Mamon, mas foi o suficiente para chamar a atenção do Pecado Capital.

— A sua briga é conosco — disse Lily.

Mamon rosnou, divertido.

— Uma Torre e duas Pacificadoras. Bem, eu não poderia pedir oponentes melhores. Só se aqueles traidores do Azazel e do Belphegor aparecessem, mas imagino que não seja possível. Venham, bruxas.

Mamon chicoteou a cauda no chão. Selena preparou-se.
Quando o demônio avançou, o chão rachou com a pressão do movimento. Ele investiu contra Selena mirando um soco com um de seus punhos, mas a Torre ergueu uma barreira de terra entre ela e o demônio. Quando Mamon atingiu a barreira, esta rachou.
Alice disparou uma coluna de chamas contra Mamon, mas o demônio cruzou os braços, e as chamas foram dissipadas. Lily não esperou, e disparou uma rajada de vento contra Mamon. O demônio fora arremessado contra a parede, e rachou-a quando seu corpo atingiu-a. Mesmo assim, apenas gargalhou.

— É tudo o que vocês têm?! Mostrem-me mais!

Alice enfureceu-se. Surgiu na frente de Mamon, apontando ambas as mãos para o Lorde Demônio da Ganância. Uma grande esfera de chamas começou a concentrar-se entre as palmas das mãos de Alice, fazendo Mamon sorrir.
“Mostre-me o seu poder, jovem bruxa”, pensou ele, mostrando seus afiados dentes.
Alice disparou as chamas na forma de um raio contínuo de puro fogo mágico, que atingiu Mamon e o fez atravessar a montanha enquanto era punido pelas chamas. Estava surpreso pela quantidade de poder que aquela bruxa tão jovem conseguiu reunir.
Mamon explodiu a parede da montanha e foi arremessado contra as árvores. Estava do lado de fora da ilha.
Alice, Lily e Selena entreolharam-se.

— Atrás dele. E rápido.

As três bruxas então saíram correndo pelo buraco que Alice abriu. Não pensaram nem por um segundo que tinham conseguido vencer Mamon. Afinal, os Príncipes Demoníacos eram criaturas com uma resistência que superava a compreensão humana.

*

Jason e Luna corriam atrás de Arvak. O sacerdote estava alguns metros na frente dos dois, mas nenhum deles queria desperdiçar energia com um ataque com poucas chances de sucesso. Precisavam alcançá-lo primeiro.
Estavam em um extenso corredor repleto de símbolos desenhados à base de sangue. Luna não teve tempo de descobrir o que eles significavam. Não podia deixar Jason ir atrás de Arvak sem nenhum tipo de apoio. Ela conseguia reconhecer que o sacerdote era um demônio de alto nível.
Enquanto corriam, Luna sentiu uma pontada. Cambaleou, e Jason parou de correr.

— Luna, o que foi?!

— Vai atrás dele! Eu alcanço você!

Jason não discutiu. Assentiu e tornou a correr.
Após recuperar a capacidade de se mover, Luna percebeu que estava a uns cinco metros dos outros dois. Ela começou a correr. Podia ver Arvak e Jason passarem pela porta no fim do corredor e virarem a direita.
Quando Luna alcançou a tal porta, porém, todos os símbolos desenhados em sangue brilharam em tom carmesim. A mestiça sentiu suas pernas bambas e vomitou. Com certeza, era algo projetado para impedir que outros demônios passassem pelo corredor. Afinal, segundo ouvira, Arvak odiava a companhia daqueles demônios com quem convivia.
“Merda. Tenho que dar um jeito de me livrar disso”, pensou Luna, furiosa. Por que mandara Jason continuar?! Ele não tinha chance nenhuma com um demônio daquele nível.

*

Jason continuava correndo. Luna estava logo atrás. Ele não podia permitir que Arvak escapasse. Agora que Mamon estava no mundo humano, precisavam acabar com o líder de seu culto imediatamente.
Viraram a direita no corredor, e havia uma nova ponte que levava a um cubo negro que provavelmente era o aposento pessoal de Arvak. Jason praguejou. Estava pegando trauma de pontes.
Peecorreram quase metade da ponte, até que Arvak virou-se para ele. Os olhos do homem brilhavam em vermelho-sangue, o que fez Jason perceber que ele podia usar suas habilidades demoníacas mesmo em forma humana. Isso indicava que ele só poderia ser… um demônio de terceira classe. Um Vassalo Obscuro.

— Ora, garoto. Não seja iludido. Acha mesmo que pode me vencer sozinho?

— Eu e a Luna podemos acabar com você!

— Mesmo se fosse verdade, o que não é, sua mestiça não pode ajudá-lo. Ela estará presa naquele corredor por alguns minutos graças aos selos de sangue que existem ali. É mais do que o suficiente para acabar com você, bruxinho inútil.

Talvez fosse verdade, mas Jason não podia dar-se por vencido. Ele apontou para Arvak, e uma lufada de vento arremessou o sacerdote contra a porta de seu aposento pessoal. Ele quebrou a porta e caiu no meio do aposento.
Quando levantou-se, viu Jason passando pela porta. Agora ambos estavam um na frente do outro, a menos de três metros de distância.
Arvak atacou. Surgiu ao lado de Jason mirando um soco no garoto, mas este interceptou o golpe com a haste da lança negra, logo girando o bastão e atingindo Arvak na cabeça, fazendo-o cambalear.
O demônio recuperou-se rapidamente, e apontou para Jason. Logo, dois demônios de sexta classe haviam surgido ao lado de Arvak.
O Sacerdote de Mamon sorriu.

— Invocação de demônios é minha especialidade.

Os dois demônios atacaram Jason. O bruxo recuou e girou o bastão. Para a surpresa de Arvak, a magia elemental foi canalizada pela arma do bruxo e criou um minúsculo tornado que bagunçou a sala e disparou os três demônios contra a parede.
Jason não esperou. Correu até um deles e deu três estocadas em seu corpo, e o demônio sumiu em uma fumaça negra.
O outro demônio recuperou-se e pulou contra Jason, que paralisou o corpo do inimigo no ar e começou a arremessá-lo contra as paredes, chão e teto sem parar, como fez com o Corruptor. Sem dúvidas, aqueles inimigos eram muito inferiores ao criador de demônios artificiais, pois o demônio de sexta classe desapareceu em névoa negra após o último arremesso.
Arvak bateu palmas.

— Veja só. O bruxinho humano não é tão inútil assim.

Jason fechou a cara e atacou. Disparou duas rajadas de vento em Arvak, mas este cruzou os braços, evitando boa parte do dano. Mesmo assim, deu tempo do bruxo chegar até ele.
O garoto começou a desferir golpes incessantes em Arvak, mas o demônio parecia absorver grande parte do dano e até sorria com desdém.
Enquanto Jason atacava-o, Arvak começou a falar.

— Sabe, sobre o Corruptor, não fique achando que só porque baniu ele com alguma trapaça obscura você pode me vencer. Eu te vi expulsá-lo.

— Ah, jura? — indagou Jason sarcasticamente, entre os intervalos de seus ataques. — E por que não fez nada?

— Eu não podia. Um bruxo miserável não me deixou fazer nada.

— Bruxo?

— Não importa.

Arvak segurou o bastão e deu um soco na barriga de Jason, mandando-o contra uma mesa do local e quebrando-a. O Vassalo Obscuro olhou para o cilindro negro em sua mão e, com toda a força, arremessou-o na direção da porta destruída de seus aposentos.
A arma de Jason caiu da ponte e desapareceu. Mesmo assim, o bruxo levantou-se, tremendo.

— Ainda não acabamos.

— Haha, com toda a certeza. Eu ainda só estou começando a te espancar.

Jason ergueu telepaticamente uma mesa próxima a Arvak e arremessou-a na direção do demônio, mas este saltou no ar e, com um chute giratório, dividiu a mesa em duas.
O bruxo começou a erguer qualquer objeto que via no local e a arremessá-los em Arvak, mas o demônio era forte, rápido e ágil, destruindo ou desviando dos objetos que Jason disparava.
Jason concentrou magia elemental e disparou uma poderosa rajada de vento contra Arvak. O demônio não teve tempo de desviar e foi arremessado contra a parede. A rajada não parou, e a parede começou a rachar.
Quando acabou, Arvak caiu no chão, ajoelhado e ofegante. Realmente, não esperara por aquilo.
Antes que pudesse perceber, duas mesas vinham em sua direção, uma de cada lado. Elas atingiram-no com força, e Arvak gritou de dor. Logo em seguida, no entanto, empurrou as mesas para longe e olhou furioso para Jason.

— Humano tolo. Não pense que pode derrotar um demônio. Você é fraco, e isso nunca vai mudar.

Arvak avançou contra Jason. O garoto sentia sua magia começar a oscilar. “Não tenho muito sobrando”, percebeu ele.
O Sacerdote de Mamon chegou até ele, dando um soco em seu estômago e fazendo Jason subir alguns centímetros acima do solo. Então, agarrou a cabeça do garoto e levou-a de encontro a seu joelho.
Os golpes de Arvak fizeram Jason perder as energias, caindo no chão e espirrando sangue. O demônio sorriu e chutou-o para o outro lado da sala. Jason bateu contra a parede e ficou imóvel no chão, esgotado.
Arvak gargalhou.

— É disso que eu estou falando! O que um humano pode fazer para vencer um demônio?! É simplesmente inimaginável! Ridículo! — zombava o sacerdote, rindo histericamente. — Agora… conheça a sua morte!

Entretanto, antes que Arvak avançasse, ouviu uma movimentação atrás de si. Desviou bem a tempo de não ser atingido pelo cilindro negro que voltava para a mão de Jason.
O garoto levantou-se com dificuldade, apoiando-se nos próprios joelhos e segurando o cilindro negro. Ele olhou para o objeto e fora como se uma ideia estivesse formulando-se em sua mente. Afinal, aquele item parecia ser um excelente condutor mágico.
Transformou-se em uma espada. E ela foi sendo rodeada por um poderoso e furioso vento.

— V-você já atacou, Arvak. É minha vez.

Cortou o ar com a espada duas vezes. Rajadas de vento cortantes, como aquelas que Lily conseguia produzir (algo que exigia grande concentração para moldar o vento em uma forma tão letal), foram na direção de Arvak. O sacerdote desviou sem muita graça, assustado pelo bruxo ter conseguido fazer isso mal se aguentando em pé.
Jason transformou a espada em uma lança. Esta começou a ser imbuída com magia elemental do vento, e Arvak sentiu todo o poder daquela arma.
“Isso não é um bastão comum”, percebeu ele. “Poderia ser? Uma Arma Amaldiçoada… mas isso significa que esse garoto tem…”
Jason arremessou a lança contra Arvak, e a arma rasgou o solo com a pressão do ataque. Arvak sentia todo o poder, e sabia que não seria rápido o suficiente para desviar nem forte o suficiente para bloquear.
Só havia uma opção.
Uma ventania foi feita nos aposentos de Arvak. Tudo estremeceu. Jason foi arremessado novamente contra a parede. E, quando a ventania passou, o garoto suspirou, praguejou, e deixou-se cair no chão.
Onde antes estava um homem baixo de túnica vermelha, agora estava uma criatura humanoide pálida, de dois metros de altura, magro, com braços longos que terminavam em garras afiadas. Tinha orelhas ponturas e um par de asas de morcego, e levitava alguns centímetros acima do solo.
Havia parado a lança com o dedo.

— Tsc. É uma pena — rosnou Arvak, com uma voz monstruosa. — Acabou.

— Ou não.

Quando ambos olharam para a porta, Luna estava parada diante deles, sorrindo. Arvak olhou com desprezo para ela, enquanto Jason sorriu.

— Segurei ele para você — murmurou ele, e caiu no chão, completamente esgotado.

Entretanto, Luna suspirou aliviada. Ele ainda estava vivo. Ela não sabia se conseguiria se perdoar se o bruxo tivesse morrido.
Agora, olhou para Arvak. Este destransformou-se, voltando à forma humana.

— Acabei com um. Tenho de acabar com a outra? Ainda estou disposto a te perdoar e te aceitar no Culto Carmesim.

— Vá à merda, Arvak.

— Como queira. Então irei despedaçá-la.

Os dois prepararam-se para investir um contra o outro.

*

Mamon, aquele monstro dracônico de três braços, olhava para o rastro de destruição que arremessou-o para o exterior da base. Estava no meio de inúmeras árvores que cobriam toda a superfície da Ilha de Yuvik, e resquícios de chamas percorriam todo o trajeto por onde o canhão de chamas de Alice arrastou-o.
Não estava especialmente ferido. Fumaça saía de seu corpo, e suas escamas estavam levemente chamuscadas. Mesmo assim, não estava com nenhum ferimento verdadeiro.
Mamon apenas observou as três silhuetas femininas surgirem em meio à fumaça. Selena, Lily e Alice olhavam sérias para ele. Mamon gargalhou.

— Veja só. As bruxinhas não me deixam aproveitar o ar fresco. — Enquanto dizia isso, Mamon levantava-se. Sua cauda serpenteava atrás dele. — Não entro em um combate sério desde que matei aquele desgraçado do Lúcifer, alguns anos atrás. Espero que vocês me deem uma luta à altura.

Selena bateu o pé no solo. Pilares de terra começaram a surgir e a ir em direção a Mamon. O Lorde Demônio gargalhou e, com um giro de sua cauda, uma forte pressão estilhaçou os pilares de terra.
Lily mandou diversas rajadas e cortes de vento contra Mamon, que mal se movia para dissipar os ataques. Selena ergueu as mãos, e duas rochas enormes surgiram uma de cada lado de Mamon.
Selena uniu as mãos, e as duas rochas esmagaram o Príncipe Demoníaco. Nem bem ele foi esmagado, uma explosão de aura desintegrou as rochas.

— Ele consegue movimentar a sua aura de modo tão potente que pode afetar objetos sólidos sem nenhuma dificuldade — analisou Lily. — De fato, poucos seres podem fazer isso.

Alice começou a correr para a direita e a disparar diversas bolas de fogo contra Mamon, que golpeava as chamas com suas garras e elas simplesmente desapareciam.
Selena correu para a esquerda. Telepaticamente, comunicaram-se sobre o que queriam fazer. Lily assentiu e começou a mandar diversas rajadas de vento contra Mamon.
O Pecado Capital da Ganância bloqueava com facilidade, mas perdeu de vista Selena que surgiu atrás dele. A Torre ergueu grossas e longas raízes que investiram contra Mamon, imobilizando-o.
Alice aproveitou a abertura. Mirou o imobilizado Mamon e começou a disparar diversos raios de fogo contra o demônio. O Príncipe Demoníaco viu os disparos e liberou toda a sua aura. Os cipós de Selena, bem como as chamas de Alice, foram destruídos e varridos pela presença poderosa de Mamon.
Lily surgiu na frente de Mamon. Selena, entendendo o que a amiga desejava, mandou um pilar de terra contra Mamon. O pilar atingiu com força a cabeça do demônio, mandando-o para o céu.
Quando já estava a uns vinte metros do chão, Lily girou a mão em gestos complicados enquanto murmurava uma fórmula mágica. Mais de cem círculos mágicos brancos surgiram ao redor de Mamon, e deles lâminas de vento surgiram pelo céu e começaram a cortar Mamon de todas as direções. O demônio finalmente começou a sentir algum dano em seu corpo.
Quando já havia sido atingido tantas vezes, enfureceu-se pela primeira vez naquela luta. Soltou um rugido estridente e chamas douradas rodearam seu corpo. Um pulso de chamas varreu as lâminas de vento, afastou as nuvens e deixou o céu estrelado com uma visibilidade perfeita.
Mamon caiu no chão, e uma onda de choque ergueu o solo. Aquela criatura era verdadeiramente poderosa.

— Certo — murmurou Alice. — Vou tentar uma abordagem diferente.

— O quê?! — exclamou Selena. — Alice, eu proíbo-a de…

Alice ignorou. Saiu correndo na direção de Mamon enquanto disparava bolas de fogo. O demônio defendia-se com desdém.

— De início, pensei que fosse mais poderosa, garotinha das chamas — zombou ele, dissipando uma nova bola de fogo.

Quando a esfera flamejante sumiu, Mamon pôde ver Alice diante dele. Para a surpresa do Lorde Demônio, ela segurava um machado de fogo que devia ter uns cinco metros. Era gigantesco, e suas duas lâminas deviam ter o tamanho de uma mesa.
Alice atingiu Mamon com o machado. Ele sentiu seu corpo tremer e foi arremessado para trás. Alice começou a balançar o machado, e labaredas de fogo começaram a ser disparadas contra o Príncipe Demoníaco. Eram intensas.
“Essa bruxa tem poder”, admitiu ele, mentalmente. “Quando morrer, garantirei que sua alma se torne um demônio. Será uma de minhas generais.”
Alice girou o gigantesco machado novamente, mas Mamon segurou-o com dois de seus braços robustos. Apenas depois percebeu que Alice já não segurava o machado.
A jovem e animada bruxa estava alguns metros afastada, murmurando uma fórmula mágica enquanto deixava um de seus braços levantado acima da cabeça. Então, um círculo alaranjado e repleto de runas formou-se acima do Príncipe Demoníaco.

— Sabe usar Círculos Arcanos?! Impossível! É jovem demais!

Aparentemente, Alice não parecia ligar para a descrença de Mamon. Entretanto, por dentro, fervia de raiva. Odiava ser taxada de incapaz por sua idade.
Baixou o braço com força, e um pilar de chamas desceu contra Mamon. Tudo foi destruído, e até Lily e Selena, que estavam vários metros afastadas, sentiam o calor oriundo daquele pilar de destruição.
Lily olhou surpresa para Selena.

— Desde quando ela consegue usar Círculos Arcanos?

— Eu não sei — murmurou Selena. — Ela nunca me mostrou isso.

— Tsc. Bem, ela é uma das bruxas cogitadas para ser Torre no futuro. Deve mesmo estar cheia de surpresas.

Os cabelos e as roupas de Alice balançavam pela proximidade com o pilar de chamas que emanava uma presença mágica extremamente potente.
O pilar finalmente dissipou-se. Havia uma grande cratera onde antes estava Mamon. Fumaça negra saía do local, dificultando a visão.

— E-eu consegui?! — exclamou Alice, espantada e empolgada.

Notou uma movimentação em meio à fumaça. Antes que pudesse preparar-se, Mamon surgir em sua frente, com vários cortes por todo o corpo — onde suas escamas haviam sido arrancadas pelo ataque de Alice —, girou sob seu próprio eixo e, usando sua longa cauda, atingiu Alice, que foi arremessada contra uma árvore, quebrando-a e desmaiando no processo.
Mamon então olhou para as outras duas bruxas. Lily e Selena levantaram a guarda.

— Mostrarei a diferença entre um Príncipe Demoníaco e estes vermes que vocês matam diariamente.

Então, Mamon atacou novamente.

*

Luna e Arvak voavam um contra o outro repetidas vezes em velocidade tão elevada que, se Jason estivesse acordado, mal conseguiria acompanhar. Os dois eram infinitamente mais rápidos do que o garoto estaria acostumado. Tanto os olhos de Luna quanto os de Arvak brilhavam em vermelho-sangue.
A mestiça atingiu uma voadora no demônio, e ele foi arremessado contra a parede. Seu impacto fez com que a parede rebatesse-o na direção de Luna novamente, que deu uma cotovelada em sua cabeça, mandando-o contra o chão.
“Merda. Eu já estou meio ferido por causa daquele bruxo maldito, mas isso não é desculpa. Essa maldita mestiça é realmente mais rápida que eu…”
Arvak estendeu os braços, e dois demônios de sexta classe surgiram um de cada lado do demônio. Os três então atacaram Luna.
A meio-demônio deu uma cambalhota. Três adagas surgiram no ar e voaram na direção dos demônios. Arvak e um deles conseguiram desviar, mas o outro não teve tanta sorte, sendo perfurado na cabeça e tornando-se apenas uma fumaça sombria.
O Sacerdote de Mamon chegou até Luna, mas a garota desviou de seu punho e atravessou sua barriga com uma lança que havia criado, logo em seguida chutando o demônio e arremessando a lança na direção dele. O demônio que Arvak havia invocado saltou na direção da lança, e foi perfurado no lugar do mestre.
Luna gargalhou.

— Parece que você não é tão incrível quanto diz ser. Com todo aquele papo de acabar comigo e me despedaçar, você tá levando uma bela surra.

Arvak caiu de joelhos e tossiu sangue. Então olhou para a mestiça com ódio.

— Muito bem. Então mostrarei a você o poder de um demônio de terceira classe, para que você, mestiça maculada, se ponha no devido lugar.

Uma energia sombria rodeou o corpo de Arvak, e logo ele estava na forma de uma alta criatura pálida com asas de morcego.
Luna notou o poder da aura de Arvak crescer muito, e invocou um enorme machado de aço que era maior que seu próprio corpo. O demônio não pareceu intimidado.
Luna voou contra o demônio, acompanhada de seis espadas que giravam no ar em direção a Arvak. O ser pálido sorriu, mostrando suas presas sobressalentes, e estendeu as mãos para frente.
As mãos de Arvak foram rodeadas por um tipo de energia vermelha que não parecia completamente física, sólida. Mesmo assim, estas enormes energias varreram as espadas de Luna. Arvak então fechou-as contra Luna, que interceptou-as com o enorme machado.
“Isso é magia demoníaca”, observou a mestiça. “Talvez eu realmente tenha que usar tudo o que tenho…”
Arvak saltou na direção de Luna, batendo as asas. Uma ventania balançou os cabelos negros da garota, que viu o inimigo aproximar-se enquanto os braços astrais imobilizavam-na.
Luna pulou para trás, e seu machado foi completamente esmagado pelos braços astrais de Arvak. O demônio continuou voando contra ela.
Assim que a filha de Azazel estava começando a pensar em algo, Arvak foi engolido por sombras e saiu atrás de Luna. A mestiça girou o corpo rapidamente, mas o inimigo atingiu-a, e ela atravessou a porta do aposento e só parou na metade da ponte do lado de fora daquele espaço onde antes lutavam.
Luna levantou-se, e viu Arvak aproximar-se com soberba.

— Você tinha uma escolha! — rosnou o Sacerdote de Mamon. — Podíamos criar um mundo onde demônios não precisam viver escondidos. Mas não! Éramos nós, ou eles. E você escolheu eles!

Luna endireitou a postura e olhou com desprezo para Arvak.

— Está bem animado hoje, senhor Arvak. Está falando tanto, mas não está chegando a lugar nenhum — comentou Luna, com o sarcasmo evidente em sua voz. — Se a sua intenção era me intimidar, ou fazer com que eu me arrependa, saiba que não conseguiu nenhum dos dois. Agora… vejamos o que o destino reserva. Pois eu posso te garantir: só um de nós dois sairá vivo desta ilha, e eu já sei quem.

Então, Luna transformou-se. A transformação dela não era tão extravagante quanto a de Arvak, nem alterava tanto de sua aparência. Seus cabelos ficaram brancos, chifres e garras negras surgiram e sua presença aumentou muito. A sede de sangue da garota era tão grande que até Arvak hesitou por um momento.
“Ela deve estar guardando isso por tanto tempo”, percebeu o demônio. “Eu sou o primeiro oponente que ela enfrenta que é forte como ela. Essa mestiça vai descontar em mim anos de sede de sangue retida.”
Luna sumiu da visão de Arvak. Ele nem viu quando o punho da mestiça atingiu seu rosto e mandou-o contra a montanha. Antes que Arvak voltasse, Luna flutuava diante dele. Atrás da meio-demônio, centenas de lanças surgiam e apontavam para o Vassalo Obscuro.
Luna avançou. As lanças dispararam contra Arvak. O demônio criou quatro braços vermelhos espirituais que formaram uma proteção entre ele e as armas que Luna criava.
A mestiça saiu de uma sombra atrás dele e desferiu um chute nas costelas visíveis da magra criatura.

— Você não é o único que sabe viajar nas sombras — sussurrou Luna, ameaçadoramente, sentindo a excitação tomar conta de seu corpo. Quanto tempo fazia que ela não se soltava?! A última vez fora há mais de oito anos, em um descontrole infantil.

Luna viu suas lanças sumirem e Arvak voltou os braços astrais para a mestiça enquanto ele próprio atacava a garota. Ela sumia de sua frente e reaparecia constantemente.
Quando atingiu uma joelhada que fez Arvak sair voando e estourar a ponte, o Vassalo Obscuro gritou. Cerca de cem demônios de sexta classe surgiram por toda a extensão do buraco em que lutavam.
Para desespero de Arvak, Luna apenas abriu um sorriso ainda maior. Um sorriso insano. Aos poucos, embora sua face não estivesse sofrendo nenhuma mutação, Luna estava ficando cada vez menos parecida com um ser humano. Sua sede de sangue provavelmente podia ser sentida de norte a sul da Ilha de Yuvik.

— Esta garota é um problema — constatou Arvak, suando frio. Como uma mera mestiça podia ostentar tanto poder?!

Afinal, como Arvak poderia saber que ela era filha de um Príncipe Demoníaco?
Os cem demônios atacaram Luna. Àquela altura a mestiça já havia invocado dois machados gigantescos. Asas semelhantes a asas de morcego começavam a se formar nas costas da bela descendente de Azazel.
Luna girava como um pião, mutilando e decapitando demônios que surgiam em seu caminho. Arvak nunca viu alguém superar seu pequeno exército pessoal como se não fosse nada.
A meio-demônio jogou um dos machados em uma dupla de demônios, e ele dividiu os dois ao meio antes de desaparecer. O segundo machado foi arremessado no próprio Arvak, mas sua magia de invocação sanguínea interceptou o ataque.
Os demônios não hesitavam, e os mais de cinquenta restantes avançaram contra Luna, que lutava contra eles no ar. A mestiça invocou duas enormes correntes com uma maça estrela nas extremidades.
Luna começou a girar, criando um tornado de membros de demônios esmagados e ossos arrancados. Logo, ela começou a se contorcer no ar e a rir de maneira insana. Dezenas de correntes com pontas afiadíssimas começaram a sair de suas costas e começaram a estraçalhar os demônios que Arvak criava.

— O-o que é você?! Uma mestiça imunda não deveria conseguir fazer algo assim!

Quando todos os cem demônios invocados por Arvak desfizeram-se em névoa negra, Luna virou a cabeça de maneira animalesca para Arvak. Ela não estava mais resistindo. Chorava de noite por ter essa vontade assassina impregnada em seu corpo, e naquela noite ela poderia finalmente descontar isso em um oponente sem ter medo de machucar aqueles ao seu redor.
As correntes tremularam e sumiram. Luna gargalhou e foi engolida pelas sombras, surgindo ao lado de Arvak logo em seguida. O demônio de terceira classe segurou o punho da garota que mirava sua face e sorriu.

— Uma cria de uma relação com um ser humano não tem poder para me vencer — declarou ele, orgulhoso.

Luna deu outra risada histérica, apoiou os pés no peito de Arvak e impulsionou-se para trás. O braço dela, que ainda estava sendo segurado por Arvak, foi arrancado com o recuo da garota que afastava-se de Arvak.
“O que diabos foi isso?!”, pensou Arvak, espantado. “Demônios possuem senso de autopreservação. Ela simplesmente arrancou o próprio braço sem hesitar!”
Naquele momento, uma energia negra explodiu do braço decepado de Luna, tanto no ferimento de Luna quanto do que estava sendo segurado por Arvak. A energia negra conectou os dois e Luna deu um salto. Então, usou a energia que estava reconectando seus membros como impulso e voou contra Arvak novamente.
“Essa regeneração… Apenas os Pecados Capitais deveriam ter esta capacidade!”
O pensamento de Arvak não importava. Luna estava diante dele com um sorriso sádico, segurando uma espada montante na mão livre.
Arvak largou o braço de Luna e bateu as asas, voando para longe do perigo. Quando Luna pousou onde antes estava Arvak, a conexão sombria começou a recuperar seu braço. Logo, era como se nunca tivesse sido arrancado.
O Vassalo Obscuro gritou novamente, e os braços de energia vermelha começaram a circulá-lo como dúzias de serpentes repletas de espinhos. Luna criou diversas armas dos mais variados tamanhos e formas e atacou novamente.
As mãos de Arvak não podiam protegê-lo. A garota estava em um estado psicótico, e despedaçava a energia astral como se não fosse nada. Girava com o enorme machado em suas mãos, abrindo caminho até Arvak. Finalmente, saltou na direção dele erguendo o machado.
Assim que o Sacerdote de Mamon viu Luna, ele entendeu que aquele era o fim. Luna desceu o machado, sorrindo com prazer, e Arvak teve seu corpo dividido no meio, explodindo em uma névoa negra logo após.
Os braços astrais desapareceram, e Luna saltou novamente até a ponte. Ria de maneira macabra, e encolheu-se em posição fetal, murmurando coisas sem nenhum sentido.
Seus cabelos foram readquirindo pigmentação. Seus olhos vermelhos tornavam-se verdes. As asas, chifres e garras sumiam. Quando voltou à sua forma humana, suspirou pesadamente. Fazia muito tempo que não usava seu poder demoníaco daquela forma. Ela nunca encontrava oponentes que exigiam isso dela.
Então Luna olhou para o outro lado da ponte, onde viu Jason parado na porta, apoiado em seu bastão. Via a expressão de espanto no rosto dele. Luna sentiu-se empalidecer. Não queria que ele tivesse visto aquilo.
Desde quando ele observava? Havia visto seu pequeno momento de descontrole? Havia visto Luna deixar seu lado demônio acordar?
Jason começou a caminhar lentamente na direção da garota. Ela não tinha coragem de caminhar em direção a ele.
O garoto finalmente chegou até a meio-demônio. Ela olhava para baixo, pois temia o que poderia encontrar se olhasse-o nos olhos. Aquilo era diferente. Jason já viu sua transformação, mas nunca a viu comportar-se como um verdadeiro demônio.
Para a surpresa de Luna, ela sentiu os braços do bruxo envolverem seu corpo. Olhou de olhos arregalados para Jason, que não prestava atenção.

— Acabou, não é? Arvak se foi. Você voltou ao normal.

— Jason…

— Não se preocupe — sussurrou ele, calmamente, ainda abraçando Luna. — Agora acabou. Vamos atrás da minha mãe, e da Lily e da Alice.

Ficaram naquela posição por mais alguns segundos, até Luna finalmente se desvencilhar e sorrir.

— Às vezes acho que você é compreensivo demais.

— Ora, prefere que eu te julgue?

— Não. Vamos atrás das bruxas. Das bruxas, e de Mamon.

Notas finais
Aeee. Luninha venceu. Mas agora falta o verdadeiro chefão, porque o Mamon não vai ser vencido tão facilmente ;-;