Notas iniciais
Hello! Já faz um tempo, hein? Bem, voltei com este capítulo mais curto que o normal. Em breve a história volta de maneira mais... definitiva. Bem, boa leitura ^^

Amanda Fortner sorria enquanto olhava ao redor. Sempre ficava animada quando tinha de visitar o Santuário.
O local em que estava agora era belo. O céu noturno tinha suas estrelas refletidas pelo lago que ficava abaixo da enorme ponte onde estava naquele momento. Além da ponte larga e comprida acima do lago, havia uma enorme escadaria que levava ao topo de um monte coberto de árvores. No fim daquela escadaria, era possível ver um arco de prata e ouro que provavelmente precedia o Santuário.
Amanda observou mais uma vez ao redor, esperando que mais alguém aparecesse. Se havia uma coisa que a loira podia dizer que odiava, esta coisa era ir ao Santuário sem nenhuma companhia. Tinha a esperança de que Alice viesse. Era uma das poucas com quem podia ser ela mesma sem medo de ser criticada.
Finalmente, o círculo de teletransporte brilhou, e dele saiu uma mulher elegante, de vestido esverdeado e cabelos de um tom castanho com um brilho dourado em alguns fios. Eram cabelos magníficos, longos e livres.
Assim que viu Amanda, a mulher sorriu.

— Que bom encontrá-la aqui, senhorita Fortner. Sua presença é sempre um alívio para meu tédio.

— S-senhora Torre Clarisse — murmurou Amanda, envergonhada. Era extremamente desconfortável estar na presença de uma Torre.

— Ora, não seja tímida. Se aprouver à senhorita, gostaria que me acompanhasse até o Santuário.

Amanda rapidamente assentiu e pôs-se ao lado da Torre. As duas bruxas então seguiram pela ponte, enquanto a mais nova sentia seu coração acelerar a cada passo. A ansiedade oriunda das reuniões das bruxas era algo inevitável e, por vezes, irritante. O fato de haver sempre uma parcela diminuta de bruxas jovens como Amanda faziam-na sentir-se pequena.
Enquanto avançavam escadaria a cima, Amanda ouvira o teleportal entrar em ação novamente. Ficou curiosa para olhar quem seria a recém-chegada, mas Clarisse não o fez, de modo que Amanda ficou envergonhada em tentar.
Passaram pelo arco decorado no fim dos degraus e então viram o Santuário, um enorme e belíssimo palácio. Clarisse aproximava-se com passos confiantes. Amanda pôde ver duas bruxas conversando do lado de fora, decerto esperando o horário da reunião. Quando a Torre aproximou-se da barreira mágica que circulava o Santuário, passou por ela como se não existisse. Amanda aproveitou a brecha para saltitar atrás de Clarisse.
As duas adentraram o palácio. Amanda sempre suspirava admirada quando via o interior dourado e celestial daquele lugar. Clarisse não parecia ter a mesma reação. Apenas fechou os olhos, calma, e começou a realizar cálculos.
Quando chegou à conclusão de que a hora da reunião aproximava-se, ela encarou Amanda.

— Vamos. Não devemos deixar a Grande Anciã esperando.

A bruxa mais nova assentiu rapidamente e acompanhou a Torre pelo palácio. Tomaram o corredor à esquerda e guiaram-se pela bela construção até chegar a um ponto no andar mais elevado do Santuário, onde a proteção do teto e das paredes era deixada para trás, e à frente das duas bruxas havia uma ponte de pedra que levava a uma atalaia enorme e que conseguia ser mais bela que o próprio Santuário.
Abaixo das bruxas, era possível ver apenas as inúmeras árvores. Amanda não estava acostumada àquele cenário. Onde morava, a vegetação não era tão densa, e, consequentemente, a presença de árvores altas era rara.
Clarisse avançou pela ponte. Amanda olhou para o céu, limpo e repleto de pontinhos brilhantes. Por algum motivo desconhecido até mesmo pela bruxa, sentia que aproximava-se uma tempestade. Então, resolvera seguir a Torre apressadamente.
No momento em que Amanda passou pela metade da ponte, sentiu um calafrio e inclinou levemente o corpo. Sabia que aquele sentimento era originado pela peculiar proteção da atalaia: um campo antimagia, que anulava qualquer meio de realizar feitiços em seu interior.
Quando entraram na atalaia, puderam ver que seu interior era iluminado por lustres onde queimavam chamas surpreendentemente maiores do que o normal. No interior da construção, puderam ver muitas bruxas com túnicas de diversas cores. Aqueles que chamavam mais atenção eram a Grande Anciã, com seu vestido vermelho e Noah, com sua túnica branca.
Amanda procurou alguma outra conhecida. A cidade em que vivia tinha pouca atividade demoníaca, então estava sozinha lá. As reuniões eram a sua chance de conhecer novas bruxas, fossem elas jovens inexperientes ou (o que era mais comum) sábias veteranas.
Percebera que, das Cinco Torres, Selena não estava presente. Clarisse e Noah estavam lá, bem como Ingrit e Lara. Com isso, quatro das Torres do continente estavam lá. Além deles, claro, havia muitas outras bruxas. Infelizmente, Amanda não achou Alice. Fazia sentido, afinal, sua parceira também estava ausente.
Amanda saltitou até uma mesa com algumas guloseimas e, o mais sorrateiramente possível, pegou doces suficientes para três pessoas e correu furtivamente para um canto escuro, onde poderia comer sem ser perturbada.
Assim que todas as muitas bruxas se reuniram, a Grande Anciã subiu em uma plataforma no centro da torre e pediu silêncio.

— Primeiramente, quero dar as boas vindas às senhoras e aos senhores que aqui estão reunidos.

“Senhores”, embora Noah fosse o único bruxo vivo.
“E, segundo os rumores, o garoto da Selena”, lembrou-se Amanda.

— Bem, tenho um anúncio muito importante para fazer — declarou a Anciã. — Mas, antes de tudo, gostaria que as senhoras dessem uma salva de palmas ao senhor Torre Noah Scheneizel, que ontem completou cento e treze anos de vida.

Todas as bruxas começaram a bater palmas, enquanto Noah fazia uma leve reverência. Após alguns momentos, as palmas começaram a diminuir, até que todos deveriam ter parado.
Entretanto, ainda havia aplausos. Estes começaram a diminuir até que apenas uma pessoa batia as mãos, em um ritmo tão lento que era possível perceber o desdém. Quando Amanda — e literalmente todas as pessoas naquela torre — viraram-se para ver quem era a bruxa que estava atrapalhando o silêncio, perceberam que não se tratava de uma bruxa, mas de um homem alto de manto negro, com uma máscara. Ele ficou batendo palmas por mais dez segundos antes de parar.

— Boa noite, senhoras, senhor. É uma honra estar na presença de todas as bruxas do continente. Bem, nem todas. Faltam três. Quatro, mais precisamente.

— Quem é você e o que faz aqui? — perguntou a Grande Anciã, ameaçadoramente calma.

— Hum… O meu nome realmente não importa pra você. O que apenas importa é como vos farei morrer.

— Então surgiu aqui para nos matar? — perguntou a Torre Lara.

— Como entrou aqui? — indagou Ingrit, logo em seguida.

— Como eu entrei? Bem, eu já estava esperando ali no canto desde o começo. Eu, e minhas amigas.

Logo, das janelas e das entradas da atalaia começaram a surgir diversas mulheres. Provavelmente, tratavam-se de bruxas que abandonaram a Irmandade. Elas surgiam de todos os lugares, e aos poucos estavam cercados.
A Grande Anciã não se intimidou.

— Como acessou a Torre da União?

— Isso também não importa — respondeu Savan, bem humorado.

— E o que pretende fazer agora? Nos matar?

— Sim. Exatamente isso. Esta noite, a Irmandade da Bruxaria virará pó. Posso garantir isso.

— E como pretende nos matar? — perguntou a líder da Irmandade, calmamente.

— Usando magia — respondeu Savan, como se fosse algo óbvio.

— Rá! — exclamou Clarisse, cínica. — Pela sua entrada dramática, eu pensei que fosse mais esperto. Ou você é tolo, ou simplesmente desatento em um nível que supera um aprendiz. A Torre da União é um lugar de amizade, protegida por uma barreira antimagia criada por poderosas bruxas da antiguidade, incluindo os Arquimagos. Não é possível realizar magia nesta atalaia.

Savan ouviu tudo atentamente e então assentiu com deboche.

— Quase tudo o que você disse está correto. O único erro foi o tempo verbal.

— O que quer dizer? — indagou a Grande Anciã.

Savan encarou-a e sorriu, embora ninguém pudesse ver.

— Que não ERA possível realizar magia nesta atalaia.

Com um gesto de desprezo, Savan moveu o braço para o lado violentamente. A barreira antimagia invisível trincou como vidro rachado e estilhaçou-se. Amanda não podia acreditar. A barreira erguida há séculos pelos mais poderosos feiticeiros que já existiram, destruída sem que o mascarado proferisse uma única fórmula mágica.
Sem esperar por nada, o bruxo criou um caminho de gelo que matou duas bruxas. As renegadas começaram a disparar chamas, pedregulhos, jatos de água e lufadas de vento. Enquanto algumas bruxas morriam, outras aproveitavam a queda da barreira para teletransportar-se da atalaia.
Amanda olhou para a Grande Anciã, e arregalou os olhos, pois Noah havia atravessado o peito da mulher com a mão envolta em chamas.

— Hoje inicia-se outra era — anunciou Noah. — Adeus, Calime.

O mais velho bruxo vivo chutou o cadáver da Anciã. Clarisse agarrou o pulso de Amanda.

— Temos que sair daqui imediatamente — anunciou ela.

A Torre Lara já havia se teleportado, mas Ingrit avançava contra Savan, o destruidor da barreira, com sangue nos olhos. Amanda Fortner queria ajudar, mas sabia que não tinha chances contra aquele bruxo mascarado. Além disso, o maldito Noah era um traidor. Bastardo filho da puta. Como pôde assassinar a Grande Anciã, ainda mais de maneira tão covarde?!
Amanda seguiu Clarisse. As duas correram pelos disparos mágicos que voavam para todos os lados, indo em direção à ponte. Amanda não tinha poder para alcançar o círculo de teletransporte, e pediu para a Torre à sua frente fugir de lá.

— Não vou te abandonar — rosnou Clarisse, criando um relâmpago e transformando uma bruxa renegada que entrou em seu caminho em cinzas.

As duas mulheres correram da atalaia. Disparos de chamas voavam acima de seus ouvidos, e Clarisse protegia-as sempre que um chegava muito perto.
Chegaram no palácio e começaram a correr, descendo as escadas. No caminho, um cão infernal barrou sua passagem, mas um relâmpago de Clarisse transformou o demônio — e a parede atrás dele — em cinzas.
Desceram as escadas, correram pelos corredores, passaram pelo salão principal, tudo isso eliminando diversos demônios que surgiam. Em sua maioria, cães infernais, mas havia outros demônios, estranhos, mais estranhos do que os demônios costumavam ser naturalmente.
Clarisse mandou Amanda ir na frente quando dois demônios surgiram às suas costas. A Fortner avançou e saiu do palácio, e continuou correndo.
A Torre também saiu do palácio e correu até o arco, e então começou a descer a enorme escadaria que levava ao círculo de teletransporte. Conseguiu ver Amanda, muitos degraus à frente. Quando pensou que conseguiriam fugir, ouviu uma agitação do vento atrás de si. Quando olhou, o mascarado de manto negro olhava para ela sorrindo (embora, é claro, ela não pudesse ver).

— Clarisse, Torre da Irmandade — cumprimentou Savan. — Espero que minhas realizações esta noite tenham sido dignas de sua atenção.

— Desgraçado. Quem é você, e o que quer?!

— Sinceramente? Eu quero exterminar as bruxas deste lugar. Algumas fugiram, mas eu gostaria de matar pelo menos a senhorita Fortner antes de tudo acabar.

— Então você está sem sorte.

— Por quê?

— Porque só há um caminho até a Amanda. Precisamente este que estou bloqueando.

Savan gargalhou. De ambos os lados de seu corpo, estacas de gelo começaram a surgir. Clarisse sorriu, e aos poucos, começou a chuviscar. Em breve, viriam os raios e trovões. Aquela seria uma batalha digna das Torres.
Savan, entretanto, disparou uma estaca de gelo contra Amanda. Clarisse tentou defendê-la, mas o mascarado mandou diversas estacas contra ela também. Mas Amanda não poderia ver. Saiu correndo até o portal. Quando alcançou o círculo, olhou para trás. A única coisa que pôde ver foi espinhos de gelo, turbilhões de água e relâmpagos no meio das escadarias. Entendeu que Clarisse estava lutando, e pensou em correr até ela. Então, sentiu algo atravessar seu corpo em alta velocidade. Quando olhou para baixo, sangue escorria. Neste momento, o círculo mágico brilhou, e Amanda foi disparada contra o teleportal.

*

Amanda, com lágrimas nos olhos, terminou seu relato.

— Acabou, entendem? Seja lá o que tentemos fazer, a Irmandade foi destruída, a Grande Anciã, e muitas outras bruxas, foram mortas, Noah nos traiu e esse mascarado destruiu tudo. Agora, nada impede os demônios de atravessarem a Muralha.

— Está errada! — rosnou Selena. — T-tem que estar. N-não pode ser verdade.

A erva de amadina começou a terminar o processo curativo. Alice derrava lágrimas abertamente, enquanto Selena estava com uma expressão de terror. Luna esforçou-se para manter a calma.

— Foco! — bradou a mestiça. — A Muralha, mesmo sem as bruxas, pode resistir! Entretanto, nós não podemos fazer nada com esse cara de máscara por aí.

— Nós? — ironizou Amanda. — Desde quando trabalhamos com demônios?

— Ela é confiável — afirmou Selena. Com a morte da Grande Anciã, as Torres eram a autoridade absoluta da Irmandade. Se Selena afirmara isso, Amanda, a contragosto, era obrigada a aceitar.

A bruxa ferida então olhou para Jason.

— O que aconteceu com o garoto?

A expressão de todas tornou-se séria.

— Conversamos sobre isso depois — disse Luna, evasivamente. Em seguida, olhou para Selena. — Senhora Torre, eu posso cuidar do Jay.

— Por que está dizendo isso?

— Porque você é a única de nós com poder e conhecimento suficientes para encontrar esse mascarado. Se houver barreiras mágicas, você poderá desfazê-las.

— Selena — interrompeu Amanda. — Seja lá quem for esse homem de máscara, ele é inteligente, e possui um conhecimento e poder mágico… assustadores. Ele desfez uma barreira antimagia feita por Arquimagos, então, por favor, tome cuidado. E, se você achar o esconderijo desse homem, Noah pode estar lá também.

Selena assentiu séria. Olhou uma última vez para Jason e deu as costas para as demais mulheres. Alice levantou-se.

— Você vai agora?! Não dorme faz tempo!

— Não temos “tempo” para perder dormindo — retrucou Selena.

— Eu vou com você!

— Não, Alice. Você e Amanda precisarão cuidar de Fairyshall enquanto eu procuro pelo mascarado e pelo maldito do Noah.

— Luna pode f…

— Não! Luna precisa ficar com o Jay. — A Torre então olhou para a meio-demônio. — Ele vai precisar da sua ajuda mais do que nunca.

— Não posso ajudar sem saber com o que estou lidando. O que era… aquilo?

— Eu… Leve-o para o seu pai. Ele saberá o que fazer. Vocês dois vão precisar ajudá-lo com sua nova… natureza.

Luna ergueu a mão para mais perguntas, pois tinha várias, mas Selena apenas saiu da casa e fechou a porta. Um silêncio constrangedor reinou por alguns segundos, e então Luna perguntou:

— Hã… Alguém aí sabe que gansos têm dentes na língua?

Notas finais
Irmandade destruída, Calime (e uma boa galera) morta, Savan quebrando o campo antimagia e agora sim o próximo Ato começa de verdade Até o próximo capítulo ^^