A Magia do Amor
5 "Não era um sonho! Mas se tornou um pesadelo"...
Notas iniciais
Dolorido e cheio de pequenos hematomas espalhados pelo torso, Milo agitou-se entre os lençóis amarrotados na tentativa frustrada de livrar-se deles, sua temperatura corporal parecia mais elevada mesmo naquela manhã de clima ameno, onde o sol brilhava de forma fraca no céu e o vento soprava num sussurro.
Despertou completamente quando pequenos focos de luz solar invadiram seu quarto e o aperto dos dedos em sua cintura se intensificou. Num movimento quase mecânico, ele girou cabeça lentamente para ver o rosto bonito do francês que ressonava baixinho ao seu lado, totalmente entregue ao sono.
Não era um sonho…
Seu corpo ainda experimentava uma leve sensação de torpor como resultado da noite surreal que tivera com sua grande paixão, da qual ele mal podia acreditar. Sobre a pele nua e arrepiada ele era capaz de sentir um doce formigamento onde o aquariano lhe tocara.
O estado de Camus não era melhor do que o dele próprio, mas pelo menos no ombro do aquariano não havia uma grande e arroxeada marca de mordida. Sorriu ao tocar o estigma deixado por ele num momento intimo de total prazer e entrega.
Em todas as fantasias das quais ele e Camus eram protagonistas em sua mente, Milo sempre o imaginou como um homem fervoroso, e acima de tudo apaixonado, muito diferente da usual fachada fria e reservada que ostentava. Comprovar que além de ser alguém de sangue quente, o francês se tornava uma pessoa voraz e ardente na cama era algo além de suas expectativas e surpreendente melhor.
Roçou o nariz e os lábios na pele macia repleta de sardas numa suave carícia, sentindo o outro se encolher e virar para o outro lado com um gemido baixo. Aquele gesto inconsciente foi suficiente para enviar ondas de calor para o seu baixo ventre.
Assisti-lo e tocá-lo, Milo poderia fazer aquilo o resto do dia e da noite sem ao menos se cansar, mas seu estômago roncou alto e ele foi tirado daquele momento de contemplação, e assim muito contrariado foi lidar com suas necessidades primeiro.
Estava morto de fome e era provável que Camus acordaria faminto também, então por que não surpreendê-lo com um belo café da manhã ao estilo grego? Era uma excelente oportunidade de exibir seus dotes culinários ao amante e, diga-se de passagem, quando inspirado o loiro cozinhava como ninguém.
Rumo à cozinha, Milo passou pela sala de estar e se deu conta do verdadeiro caos que o ambiente se encontrava. Algumas latas e garrafas vazias estavam espalhadas pelo chão e na pequena mesa de centro, tigelas e embalagens de salgados adornavam a superfície assim como o bolo de chocolate que Camus trouxera na noite passada.
O escorpiano coçou a cabeça ponderando sobre suas prioridades e desviou dos obstáculos pós-festa, mas acabou batendo a perna na quina da mesa e tombou no sofá com a dor.
Uma garrafa balançou e caiu no chão chamando a atenção dele.
“Eu não guardei isso ontem?”
Olhando-a com curiosidade por alguns instantes, tentou lembrar se realmente havia guardado aquele recipiente como imaginou. Com um esforço a mais um momento exato lhe veio à mente como um déjà vu, ele a analisava exatamente como fazia agora quando Camus chegou e esqueceu-se de tudo.
Quando pegou a garrafa, Milo a soltou imediatamente como se tivesse levado um choque.
Seus olhos dobraram de tamanho ao perceber que ela estava vazia. Abriu a tampa e virou para baixo, nenhuma gota sequer. Verificou o recipiente mais uma vez e não tinha nada escrito, não havia como saber do que se tratava.
“Puta que pariu!”
Como um filme a noite anterior passou em flashes curtos em sua cabeça e pouco a pouco o escorpiano ficou pálido. A principio, Milo fingiu não acreditar no óbvio — Camus não bebeu aquilo e todo aquele fogo e viço era fruto de um desejo antigo do qual ele nunca verbalizou — no entanto, ao abrir os olhos depois de fecha-los com força viu a garrafa vazia no chão.
Desse jeito, ele foi forçado a abandonar qualquer esperança tola a qual quisesse se agarrar.
Lembrou-se das palavras de Afrodite no restaurante: “Apenas sete gotas... não me responsabilizo se algo acontecer”.
Sentou-se no sofá num baque pesado e ali ficou alguns minutos em meio à bagunça, seu corpo tremia levemente enquanto seu pensamento se voltou ao aquariano. Com alguma dificuldade o escorpiano deixou seu nervosismo de lado por um momento e se pôs a refletir friamente. Para ele, a noite que passaram juntos poderia ser descrita como mágica, de longe a melhor coisa que poderia ter acontecido. Mas e para Camus? Não foi algo que partiu de sua própria vontade, mas uma situação praticamente induzida por uma bebida da qual ele nem sabia a origem.
Milo sentiu-se enojado e decepcionado consigo mesmo. A simples ideia de fazer algo contra a sua vontade o machucava e o amedrontava a um nível difícil de suportar.
Como ele o encararia de agora em diante?
A poucos metro dali, Camus que acabara de acordar assistia a cena sem entender a expressão indecifrável no rosto do grego. Sentindo seu interior borbulhar ao mirá-lo distraído, o olhar indiferente normalmente estampado em sua face desapareceu dando lugar a um olhar terno e ao mesmo tempo incandescente. De costas, Milo ainda não havia percebido a proximidade do aquariano que lentamente movia seus pés como se flutuasse em uma nuvem cor de rosa. Seu coração começou a bater com violência dentro do peito ao chegar mais perto do outro, toda a sua carne estremecia ao recordar dos momentos que experimentaram um em cima do outro há poucas horas atrás.
As mãos naturalmente frias deslizaram pelos ombros expostos e se afundaram no cabelo loiro. Com pouca habilidade, Camus fez um coque improvisado deixando o pescoço do escorpiano à mostra, não resistindo ao impulso ele beijou após morder aquele local. Sob o olhar de Milo, o francês sentiu derreter-se e o cercou em torno de um abraço desajeitado, apoiando o queixo no topo de sua cabeça.
A abordagem do aquariano assim como o contato físico o pegou totalmente desprevenido. Tomado pela tensão e o receio, ele não tinha mais duvidas sobre o que tinha acontecido, aquele homem ultrapassou a linha imposta que os colocava apenas como amigos, conscientemente ou não, graças à magia de Afrodite.
Milo ainda não sabia o que fazer quando Camus saltou sobre o sofá e se aninhou sobre ele, o beijando desde a bochecha até a curva de seu pescoço.
O escorpiano se enrijeceu no lugar, o outro pareceu não perceber.
— Por que não me chamou, hm? — o francês fez uma carranca e apertou as bochechas de Milo como se ele fosse uma grande criança fofa.
— Achei que estivesse cansado, por isso não quis te acordar.
— Eu descansei bastante, já estou bem. Me chame da próxima vez, ok?
Próxima vez...
Aquele “incidente” voltaria a acontecer? Ele quis perguntar.
— Isso dói?— Camus indagou preocupado, acariciando a marca feita por ele no ombro de Milo — Está bem feio.
— Não se preocupe — sorriu sem jeito e ajeitou uma mecha de cabelo do aquariano — Não dói.
— Me perdoe, eu te machuquei Soleil. Eu estava fora de mim, quando nós...
Ele não conseguiu concluir, suas orelhas assim como seu rosto coraram no mesmo tom de vermelho brilhante. Era vergonhoso para si mesmo que um homem adulto não pudesse dizer certas coisas sem ficar extremamente constrangido, mas esse era um defeito seu e não havia nada que pudesse ser feito. Camus não estava familiarizado com diálogos desse tipo, muito menos com relacionamentos amorosos.
Não era como nunca tivesse se relacionado antes, mas seus namoros quando somados eram apenas dois.
Como se pedisse desculpas, os lábios do aquariano pressionaram sobre o local suavemente. Milo fechou os olhos sentindo o calor sutil de sua respiração sobre a pele, enquanto procurava uma maneira de minimizar seu desconforto para que Camus não percebesse.
— Está com fome, não é? Eu vou preparar o café enquanto você toma um banho.
— Por que não vamos juntos? — perguntou o francês, com uma nota de ansiedade na voz.
— Não iriamos tomar banho, Camus. — Milo desviou o olhar dele e foi em direção à cozinha — Você conhece o caminho, vá primeiro.
Com um muxoxo cômico o aquariano partiu desanimado rumo ao banheiro. Depois de perdê-lo de vista no corredor, Milo arrumou a sala como pôde e rapidamente foi em busca de seu telefone e discou o numero da única pessoa capaz de ajuda-lo naquele momento.
“Afrodite, precisamos conversar”...
***
A uma distância segura um do outro, Milo e Afrodite se entreolhavam incertos de quem se pronunciaria primeiro. Tomando a iniciativa, o grego discorreu sobre a noite anterior sob o olhar critico do pisciano que não disse uma palavra sequer. Aflito e cheio de incertezas sobre o que aconteceria com Camus a partir daquele momento, Milo esperava impaciente alguma resposta do amigo.
— Vamos ver se foi isso mesmo que ouvi... — O sueco levantou-se e rodeou o sofá onde o escorpiano estava o fulminando com o olhar — Camus tomou até a última gota da poção que eu lhe alertei mais de uma vez que só se deve tomar sete gotas, é isso?
— Eu te disse que foi um acidente, ele não sabia e eu não estava aqui para impedi-lo.
Afrodite afastou-se dele cruzando os braços, deixando bem clara sua insatisfação.
— Sabe por que a quantidade usada para uma pessoa é tão pequena? Isso não é à toa, Milo. Mesmo que você não acredite, o que ele bebeu é uma magia extremamente poderosa!
— Tudo bem, entendi... Eu já percebi que funciona e me sinto mal o bastante por isso — frustrado, o grego passou ambas as mãos pelo rosto — Só me diz o que acontece agora.
— Eu... não sei.
— Você sabe! Me diga a verdade, merda!
Afrodite respirou fundo e sentou bem próximo do amigo.
—Eu quero que você entenda a gravidade da situação e tenha em mente que muitas coisas podem acontecer com ele — ralhou e o segurou no lugar olhando-o de forma severa — Agora, Camus está apaixonado por você e mesmo que seja reciproco de sua parte, isso está longe de ser uma coisa boa.
— Por que diz isso?
— É muito simples. Primeiro: ele está apaixonado e envolto numa bolha onde só existe você e nada mais. O francesinho não verá e muito menos ouvirá ninguém. Segundo: os sentimentos dele se tornarão cada vez mais intensos e confusos, logo ele não conseguirá administrá-los. Diferente do que você possa imaginar, isso não se trata de uma paixonite juvenil e sim uma paixão avassaladora e irracional que pode consumi-lo em pouco tempo.
— O... O que isso quer dizer? — indagou, apavorado pelo o que viria a seguir.
— Ele pode se tornar alguém obsessivo ou... — o pisciano vacilou, escolhendo melhor as palavras.
— Ou?
— Na pior das hipóteses, ele pode acabar enlouquecendo.
Ao ouvir isso o escorpiano sentiu o próprio sangue congelar sob as veias.
— Isso é mentira... Você está brincando comigo — repetiu mecanicamente com os olhos injetados, cheios de revolta.
— Eu não mentiria pra você numa situação dessas, Milo. Infelizmente, é uma possibilidade.
“A linha entre a paixão e a loucura é muito tênue, meu amigo. Eu nunca imaginei que isso aconteceria, mas temo que você não tenha mais paz. Quanto mais você der, mas ele irá querer. Não haverá fim.”
— O que eu faço agora? O QUE EU VOU FAZER? — um grito potente rasgou a garganta do grego. Transtornado e sob uma onda de fúria e pânico o escorpiano atirou uma xicara contra a parede que se estilhaçou muito próximo do pisciano.
Como se não fosse suficiente para aplacar sua raiva, Milo lançou para longe tudo o que apareceu em sua frente. Em alerta máximo, Afrodite reuniu coragem e avançou sobre ele, o agarrando por trás e segurando seus braços com toda sua força. Caindo de joelhos com os membros superiores seguros ele deixou algumas lágrimas caírem.
Condoído, o pisciano o manteve imobilizado por mais algum tempo até que se acalmasse e o ajudou a levantar.
— Nós vamos encontrar uma maneira, Milo. Confie em mim!
— Eu não posso fazer isso com ele! Eu não posso condená-lo a loucura, não...
Inalando uma respiração profunda, o sueco empenhou-se em se tranquilizar primeiro. Era uma situação delicada tanto para si próprio quanto para o amigo que nutria sentimentos verdadeiros por Camus, infelizmente ele não poderia poupá-lo da verdade, pois o grego não o perdoaria nunca. Com ânimos de Milo exaltados a única alternativa que restou ao pisciano era manter a cabeça fria para lidar com o caso do aquariano.
A mente avoada de Afrodite fervia enquanto buscava rapidamente uma solução para o problema de Milo, que não muito longe de si parecia fora do ar após o acesso de raiva.
Não seria fácil, ele bem sabia.
O pisciano teria que dissecar uma imensa e extensa coletânea de livros de magia, incluindo alguns sobre Wicca, na qual ele estava mais familiarizado. Levaria semanas ou até meses de profundo estudo e imersão para encontrar algo que o pudesse auxiliar, porém o sueco temia não ter tanto tempo assim a seu dispor. No geral, as reversões de encantamentos eram menos comuns e mais difíceis de executar, por conta disso os manuscritos sobre o assunto eram praticamente escassos. Até mesmo na coleção pessoal de Afrodite, diga-se de passagem, um aficionado por todo tipo livros de magia — ele possuía apenas um exemplar.
Em meio ao silêncio sufocante que se instaurou entre eles a voz melodiosa de Afrodite tirou Milo do transe.
— Me dê duas semanas... Eu farei o possível para reverter à situação.
O grego não respondeu de imediato, firmando-se sobre suas pernas ele caminhou até a entrada e abriu a porta, esperando que Afrodite saísse.
— Duas semanas, nem um minuto a mais.
Quando o sueco despediu-se e cruzou o batente, Milo finalmente estava sozinho. Ainda confuso e abalado, ele tomou a decisão que julgou ser mais acertada naquele momento.
Ele se afastaria de Camus, definitivamente.
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