A Máscara de Seth
6 Capítulo 6
Notas iniciais

O cheiro forte e adocicado do incenso embalava o mantra que o sacerdote Setita entoava enquanto se preparava para o ritual.
Não havia espelhos na casa, visto que não tinham nenhuma utilidade, pois quando se é amaldiçoado pela dádiva da eternidade há de se esquecer tudo que um dia fizera parte de sua vida passada e abraçar a morte com indelével remorso, e isso inclui esquecer sua própria imagem.
A imortalidade tem seu preço, e um deles é existir sem que se possa constatar a própria existência.
Sentado à frente de sua penteadeira de madeira negra, Shaka deslizava a tinta azul turquesa sobre sua testa e têmporas com uma perícia ímpar, a qual tornava de fato qualquer espelho obsoleto.
Era com a mesma habilidade que o sumo sacerdote também mergulhava as pontas das longas unhas em uma tinta dourada, com a qual adornava o próprio corpo com símbolos ritualísticos da cultura egípcia.
A seu lado, observando a tudo com olhos atentos, Afrodite segurava uma bandeja de ouro, onde traziam dispostas as joias que Shaka iria usar aquela noite.
Pronta a pintura corporal, uma a uma o sumo sacerdote vestia as joias com a ajuda do servo, até estar completamente paramentado para o culto de logo mais.
As Serpentes, que é como os Seguidores de Seth são chamados pelos outros imortais, iriam se reunir em uma igreja católica que ficava na zona rural londrina. A sede Setita na verdade ficava em Londres, e era a própria mansão de Shaka, mas naquela noite o sumo sacerdote pretendia fazer um ritual de sangue para apresentar o novo membro ilustre da seita, Mu, e tal ritual exigia solo sagrado.
Já pronto, o sumo sacerdote ouviu quando o carro negro que os levaria ao local do culto encostou na frente da casa. Apressado, olhou para Afrodite que ia até a cama apanhar a capa negra com capuz que ele sempre usava nos cultos Setitas e então caminhou até ele e o puxou pelo braço.
Com o susto do gesto inesperado o servo deixou a capa cair no chão e encarou os olhos do sacerdote, apreensivo.
— Espere. Ainda não. — disse Shaka em tom firme — Ainda vou buscar o Mu... Mas antes...
A medida que seus olhos azuis assumiam um tom âmbar intenso num faiscar cintilante, Shaka puxou o servo para junto de si, colando seus corpos. Com máxima delicadeza, acariciou o rosto pálido com as pontas dos dedos, os correndo em toda a extensão do braço de Afrodite até segurar firme em seu punho e num único gesto afoito puxá-lo para cima, de encontro a sua boca ávida já aberta.
O músico estreitou os olhos soltando um leve gemido de dor ao sentir as presas do vampiro lhe rasgarem a carne e o sangue ser sugado de maneira esfomeada, exercendo forte pressão. Porém, o ato em si, aliado ao olhar enfeitiçado ao qual o sumo sacerdote lhe submetia, lhe colocavam em transe e dor logo se convertia em um frenesi inconsistente.
Após ingerir generosos goles daquele elixir revigorante, Shaka lambeu a ferida cuidadosamente e ainda arrebatado pela vida que agora corria dentro de si, acariciou com ternura os cabelos sedosos do músico, enquanto, de olhos fechados, sentia seus órgãos voltarem intermitentemente a vida.
— Aaaaaaaaaaahhh... Agora, sim... Pegue minha capa. — esboçou um leve sorriso.
Enquanto se abaixava para pegar a capa, Afrodite, ainda sentindo o êxtase do beijo do vampiro percorrer todo seu corpo como uma descarga elétrica, perguntou sobre o paradeiro do novo Mestre, que agora morava com eles, mas que quase nunca via.
— E onde está o senhor Mu? Não o vejo há dias... Ele... O senhor Mu não gosta de mim, Mestre? Ele nunca quis me provar. — estendeu a capa a Shaka, lhe entregando junto um olhar questionador.
— Acredite, meu caro... — respondeu enquanto vestia a peça — Mu gosta muito de você. Justamente por gostar de você é que ele não quis te provar. — com um sorriso sínico caminhou até a porta do quarto e a abriu — Vá para o seu quarto e não saia de lá até eu voltar. Daqui a meia hora um carniçal virá aqui fazer um serviço para mim e não o quero bisbilhotando.
— Eu não sou bisbilhoteiro. — resmungou tomando o rumo da porta, mas se deteve ao passar por Shaka, parando a sua frente e o encarando nos olhos, que voltavam a assumir o tom azul celeste costumeiro — Mestre... Dê-me um pouco.
O pedido saíra sussurrado, encabulado, mas de pronto fora atendido.
Fazendo uso de um anel de escaravelho, cuja ponta pontiaguda lhe servia como aresta, Shaka perfurou o próprio pulso.
— Abra a boca. — ordenou, ao mesmo tempo em que segurava no queixo do músico com a mão que ficara livre após ter removido o canulo de ouro de sua veia. Fazendo Afrodite tombar ligeiramente a cabeça para trás, deixou gotejar seu sangue escurecido entre os lábios do jovem — Gosto quando você pede.
O sueco sorvia aquela seiva como se fosse um néctar divino. De olhos fechados ele arfava, passando a língua entre os lábios, enquanto engolia com anelo o líquido quente e de sabor ferroso, completamente alheio ao deleite de Shaka, que o observava instigado.
Muitas vezes fazia de proposito. Não dava de seu sangue a Afrodite, para assim o obriga-lo a implorar, já que isso lhe era aprazível.
Quando julgou ser o suficiente para que seu domínio sobre o outro através do sangue fosse mantido, o sumo sacerdote espalmou a mão na testa do músico e o empurrou para fora de seu quarto.
— Já chega. — disse, lambendo a ferida que fizera em si mesmo — Agora vá para seu quarto.
Ainda arfante, mas agora de arrebatamento, sentindo como se todo seu frágil corpo fosse tocado por notas musicais que o levavam à uma sensação de prazer e torpor indescritível, Afrodite soltou um suspiro e deu um sorriso.
— Sim, mestre. Tenha uma boa noite. — respondeu, dando as costas ao loiro e tomando o rumo do corredor.
Shaka então foi buscar Mu.
No fundo da antiga casa, havia um grande terreno vazio coberto por grama e terra batida, com algumas árvores plantadas e uma pequena construção que mais parecia uma capela, a qual abrigava um alçapão que levava a um templo subterrâneo onde eram realizados os rituais dos Seguidores de Seth.
Debaixo das árvores, um vulto de cócoras sobre a grama dava trancos violentos nos últimos pedaços de carne que restavam na carcaça que devorava.
O cheiro do sangue e das vísceras era forte, pronunciado, e o som dos ossos sendo triturados pela mandíbula veemente figurava a selvageria com que a criatura se alimentava.
Shaka parou a certa distância dele, o observando em silêncio por alguns minutos. Era uma visão perturbadora, mas que aos olhos do sumo sacerdote se anunciava divina, até instigante!
Tão logo o Nut notou a presença do Setita ali, largou a carcaça virando-se de costas. Tinha muita vergonha de ser visto se alimentando, principalmente quando esse alguém era Shaka.
Já não lhe bastava precisar da ajuda do sacerdote para se banhar, agora também dependia dele para comer, uma vez que, caso saísse para caçar, sua maldição, o Consumo Conspícuo, o privava da razão e o faria comer quem encontrasse, onde estivesse. Sendo assim, Shaka caçava o gado e trazia até Mu, tornando o quintal da mansão do sacerdote um cemitério enorme e improvisado de restos de membros, ossos, e tecidos dilacerados.
Ao fim de sua refeição, um carniçal era convocado para dar cabo das carcaças as enterrando ali mesmo.
— Não olhe. — rosnou feroz.
Shaka virou-se de costas em respeito ao pedido.
— Não estou olhando. — disse calmamente — Vim busca-lo, pois o carro que nos levará ao culto já chegou e todos os membros já devem estar à nossa espera. Se terminou...
— Sim, eu terminei. — respondeu de pronto se levantando e deixando o local, surgindo da penumbra de entre as árvores para ter seu corpo banhado pelo véu de prata do luar — Mas preciso me lavar.
— Eu sei. — o sacerdote respondeu em baixo tom, então estendeu o braço direito ligeiramente para trás, mostrando a palma da mão para o Nut — Eu o ajudarei a se banhar.
Não demorou muito até que Shaka sentisse o outro lhe tomar a mão. Entrelaçou seus dedos aos de Mu e lentamente o puxou, até ficarem de frente um para o outro.
De cabeça baixa, visto que estava envergonhado, o Nut se permitiu ser conduzido para o interior da casa e juntos seguiram até o banheiro.
Como sempre fazia, Shaka ajudou Mu a se despir das vestes imundas, enquanto encarava os olhos negros do vampiro completamente fascinado.
Mu já havia aprendido algumas coisas nesses dias que passaram juntos. Tomar o seu próprio banho sozinho era uma delas. Agora sua higiene pessoal não dependia mais da ajuda do sumo sacerdote, mesmo que Shaka não abrisse mão de ajuda-lo, já que era na hora do banho que aproveitava para colar seu corpo ao do Nut para sentir o calor delicioso que exalava dele logo após ter se alimentado. Era também no banho que Shaka, fazendo uso da desculpa em se evitar o desperdício do elixir da vida, lambia o corpo todo do vampiro ancestral, num deleite extasiante que o excitava e instigava Mu.
Findado o banho, ambos seguiram para o quarto de Shaka, onde o Setita entregou uma túnica egípcia ao Nut e algumas joias.
Mu ficou olhando as vestes por algum tempo e analisando os adornos a ele entregues, até que ergueu o olhar para o sumo sacerdote e disse algo que surpreendera até mesmo a si próprio.
— Uma pena você ser privado da própria imagem... — disse percorrendo os olhos, que agora voltaram a reassumir as íris verde esmeralda, pelo rosto de Shaka -... Fica incrivelmente belo com essa pintura.
Shaka deixou escapar um sorriso brando dos lábios, ao passo que Mu, encabulado, baixou o rosto e se pôs a vestir a túnica de linho que lhe fora entregue.
— Acredite... Às vezes, o único conforto da minha alma é justamente guardar na memória a lembrança de quem eu era antes do abraço. — disse, então esticou as mãos e olhou para as próprias unhas longilíneas e pontiagudas — Certamente não me reconheceria no que me tornei... Não que não seja grato ao presente das trevas, mas... — guardou as mãos nos bolsos da longa capa negra —... Não ver o que nos tornamos pode ser uma forma de manter viva nossa existência passada.
Mu ouvia a cada palavra como se fossem ditas para si.
O jovem aldeão que outrora corria feliz pelo vale do Nilo, decerto em nada lembrava o demônio faminto que o tomara. Fechando os olhos num breve momento de reflexão, imaginou-se brincando com os irmãos nas águas do fértil rio africano. Ria, saltava as pedras, rolava na terra... Era feliz, vivia uma vida simples e plena. Até que veio a peste e fora abraçado pela morte, mas não morrera, tornara-se um demônio.
O sumo sacerdote não ostentava seu título à toa. Realmente ser privado da própria imagem poderia ser uma benção!
— Na minha época, era comum os reis pedirem aos escribas que retratassem suas figuras por meio de pinturas. – disse, enquanto colocava as joias que Shaka lhe cedera — Yuzuriha, minha irmã, era muito vaidosa, além de incrivelmente bela. Aprendi a arte com os escribas e passei a desenhá-la. Fiz inúmeros retratos dela...
— Sendo sua irmã não poderia ser diferente. Ela deveria mesmo ser lindíssima! — disse o sacerdote abusando da sensualidade empregada no tom de voz.
Mu, porém, dessa vez não se acanhou, e dando um passo em direção a Shaka ficou bem próximo a ele, tocando em seu rosto com delicadeza, encarando os olhos azuis.
— Não ria de mim, mas... Quando o vi pela primeira vez, naquela praia, achei que essa era a cor da sua pele. — confessou referindo-se ao azul turquesa na parte superior do rosto de Shaka, e também nas pontas dos dedos — Fica muito bonito com essa tinta na pele, sumo sacerdote.
Shaka sorriu. A cada dia Mu parecia mais enroscado em sua rede de sedução e esse fato era um regozijo para sua alma.
Deu um passo ao lado e foi apanhar dentro do closet o cetro de ouro que levava consigo sempre que iria presidir um ritual de sangue.
— A tinta azul é uma forma que encontrei de não me desligar totalmente de minha cultura natal. — disse, já voltando para o quarto com o artefato em mãos — O hinduísmo se fez muito forte na família em que nasci e Kali, ou Parvati, era a deusa pela qual aprendi a ser devoto quando era vivo. Quando fui abraçado, Seth ocupou seu lugar em meu coração e pensamento. Só Seth é meu deus agora e é somente a ele que confio minha fé. — parou de frente para Mu, olhando em seus olhos — Mas, assim como guardo a minha própria imagem em minha memória por apego ao que fui em vida, também guardo Kali na lembrança e a levo junto a mim nos rituais Setitas pintando de azul minha pele, a cor da pele dela, apenas por gratidão.
Mu ouvia ao relato do sacerdote admirado.
— Então, você agora segue a um outro deus, porém sem abandonar totalmente a divindade pela qual fora doutrinado a adorar.
— Não. — respondeu Shaka — Não adoro a Kali, não mais. Seth é meu deus, por Kali nutro respeito.
— Entendi. É uma criatura de muita fé, sumo sacerdote Shaka. E, assim como nós, a fé é algo que não morre, apenas é transferida. Se ainda leva Kali consigo, esteja certo de que ela também não o abandonou totalmente. Creio que esteja duplamente protegido e guardado. Há no mundo mistérios que devem permanecer indecifráveis. A fé, a força do pensamento e do desejo, o destino... são alguns deles. — disse em tom sério, como numa constatação a si mesmo, já que agora imaginava ter sido algo muito além de sua própria compreensão que fizera o sacerdote despertá-lo mesmo que não fosse ciente do que estava fazendo.
A ligação que sentia com Shaka não era trivial e agora começava a galgar por terrenos místicos, pois pela primeira vez teve a sensação de que não fora o acaso que levara Shaka até sua catacumba e sim a fé que movia o sacerdote. Talvez fora a devoção do outro que movera o tempo e as eras para que se encontrassem exatamente naquele local, naquele dia.
Prendeu os cabelos para trás usando uma tiara de ouro adornada na fronte com um escaravelho esculpido em jade, colocou braceletes e anéis. Tudo minuciosamente acompanhado pelos olhos sequiosos do sumo sacerdote, que o observava se paramentar com as joias, admirando sua beleza a cada movimento executado.
Mu era tão bonito que nem precisava de adornos que o enfeitasse, mas aos olhos de Shaka o ouro intensificava ainda mais sua beleza. Sentia uma vontade descomedida em tocá-lo, apalpá-lo, abraçar seu corpo com veemência, morder sua carne, sentir novamente seu gosto e se excitar arrebatadoramente com o ato.
Contudo ele se continha. Seu empenho diário em conquistar a confiança do Nut e seduzi-lo, estava dando frutos e não perderia a cabeça, até porque, antes de apenas atração física, Shaka sentia algo muito maior por aquele imortal. Algo que lhe assustava toda vez que olhava para Mu e sentia que não seria mais capaz de viver sem tê-lo a seu lado, sob seu domínio.
— Está divino, Mu! — disse Shaka ao vê-lo dar os últimos retoques no lenço que amarrava na cintura.
— Vou conhecer seu clã, tenho que causar uma boa primeira impressão não é mesmo? — respondeu descontraído.
— Que poderá ser o seu clã também. — disse Shaka, apanhando uma capa negra de cima do biombo de madeira ao lado deles — Basta você querer. Tome. Vista a capa e vamos. O carniçal já nos espera na entrada.
Mu vestiu a capa, ocultando a cabeça e quase todo o rosto com o grande capuz, depois seguiram lado a lado até a parte de fora da casa, onde rapidamente entraram no carro negro que os conduziu até a igreja onde seria realizado o ritual.
O lugar era ermo, bem afastado do centro de Londres. Ficava em um dos municípios vizinhos e em seu entorno só haviam algumas propriedades rurais.
Sempre que um novo membro era ligado ao clã, um ritual de sangue era feito.
Fora assim em todas as eras. Os sacerdotes e alguns membros mais influentes e poderosos se reuniam na casa de Shaka, bebiam o sangue de seu servo, iniciavam o novo membro com as leituras dos papiros sagrados e faziam libações em louvor a Seth, sempre rodeados de muitas serpentes, sangue e sacrifícios.
No entanto, dessa vez seria diferente.
Mu não era um Setita. Mu era um Nut. Um dos primeiros!
Mu também não podia compartilhar o sangue de um humano com os demais membros da seita, devido à maldição do Consumo Conspícuo.
Sendo assim, Shaka optara por um ritual onde apresentaria Mu aos demais Setitas como um membro honorário, mas já fazendo o ritual de sangue para legitimar o compromisso.
Ao chegarem ao local, três carniçais vieram recepciona-los quando desceram do automóvel, os acompanhando até a entrega dos fundos da pequena igreja onde outros servos mantinham uma vigília obstinada.
Entraram, Shaka na frente seguido de Mu coberto por capa e capuz.
O Nut sentira seu ânimo vacilar durante a viagem de carro até ali. Odiava aquelas maquinas modernas que pareciam jaulas barulhentas e fétidas, mas quando desceram e sentiu a presença das outras crianças da noite, seu espírito mudara completamente.
Se houve algo que Mu aprendera em seus 2.000 anos de morte-vida, era ostentar uma pose imponente!
Seu clã governara o Egito Antigo por eras em que os ritos cerimoniais, cortejos e celebrações eram constantes. Desde seus primeiros anos como governador, quando ganhou o título de Seth, Mu aprendera a impor respeito através de sua Presença e postura firmes, já que sua aparência era extremamente frágil, por isso avessa a seu título de nobreza.
Foi essa imponente Presença que todos ali sentiram quando ele adentrou o salão seguindo os passos do sumo sacerdote. Não permitia que ninguém olhasse para seu rosto, oculto pelo capuz, mas lhes permitia sentir o seu poder. Sabia que todos ali notavam sua ancestralidade, assim como ele próprio podia sentir o quão jovem eram as crianças da noite que ali estavam.
Num breve gesto, Shaka virou-se para trás e olhou para o rosto de Mu, percebendo a mudança repentina em seu semblante. Ele lhe figurava agora imponente como nunca e isso chamou a atenção até de si.
Era ótimo sentir a Presença esmagadora dele, assim as Serpentes não o aborreceriam com perguntas vãs. A própria altivez de Mu calaria suas mentes curiosas e suas línguas ferinas.
Caminharam pela trilha entre os bancos de madeira até o altar.
Olhos ávidos e curiosos seguiam os passos de Mu até que este se posicionasse no local onde Shaka lhe indicara, ao lado de Asmita, que dera um passo para o lado cedendo espaço ao visitante, espantado com o poder que exalava de sua ancestralidade.
Todos ali se perguntavam quem ele era, mas ninguém se atreveu a questionar o sumo sacerdote antes de ele mesmo se pronunciar.
Sendo assim, foi ao som de apenas alguns buchichos dos mais impacientes e exaltados, que Shaka atravessou a sacristia e caminhou até o altar, o qual já havia sido preparado, apresentando muitas velas dispostas pelo chão, também incensos e desenhos de hieróglifos que representavam o nome de Seth grafados em sangue nas paredes.
Em cima da bancada de mármore, onde é realizado o rito sacramental, uma jovem nua, de longos cabelos ruivos ondulados, jazia deitada sobre um tecido vermelho de veludo.
Em seu corpo, mais hieróglifos foram desenhados em pontos estratégicos; peito, testa, ventre e tornozelos.
Cravava os olhos vidrados na abóboda acima do altar, imóvel. Estava em transe.
Em torno dela sobre o mármore, por todo o chão e em volta da bancada, inúmeras serpentes arrastavam os ventres inchados no solo, disputando espaço com um amontoado de escorpiões negros e escaravelhos agitados.
Shaka logo se posicionou à frente da bancada, olhando para a jovem que nela estava deitada e em seguida para Mu, que na primeira fileira ao lado dos quatro sacerdotes principais o encarava curioso. Ao redor de seus pés, muitas serpentes rastejavam alvoroçadas, porém nenhuma o tocava.
Mu não se incomodou com elas. Na verdade lhe eram indiferentes, e em seu íntimo se perguntava de onde viera a crença de que ele, Seth, gostava de serpentes! Sinceramente, gostava bem mais dos escorpiões! Porém, como tudo no novo mundo mudara, não era de se surpreender que os rituais seculares também tivessem sofrido alterações. Desta forma, resolveu ignorar os detalhes e se ater ao que o sumo sacerdote faria, vendo até onde toda aquela balburdia se estenderia.
Pelo menos a jovem sobre a mesa sacramental ainda parecia ser um vestígio ancestral dos rituais vigentes em sua época, onde eram oferecidas libações de sangue humano aos deuses que caminhavam à noite.
Concentrado na figura imponente do sumo sacerdote, Mu o viu retirar o manto negro, deixando que o tecido escorregasse por seu corpo até o solo. Em seguida, observou Shaka virar-se de costas para os presentes e caminhar poucos passos até o fundo do altar, onde abriu um grande livro disposto sobre um pedestal, o qual abrigava os papiros milenares considerados pelos primeiros Seguidores de Seth como sendo as escrituras Sagradas do clã.
De posse do livro, Shaka virou-se de frente novamente para os membros dispostos de pé entre os bancos de madeira e mais uma vez se aproximou da jovem sobre a bancada. Tocou sua testa com a ponta da unha do dedo indicador da mão direita. A esquerda segurava o pesado livro, o qual começou a ler dando inicio ao rito.
— *“Eu caminho pelas areias do Egito. Terra natal e primeira morada de meu clã. Venho à procura da verdade que um dia surgirá.” — a voz era grave, poderosa.
Descendo os olhos para a jovem sobre a mesa sacramental, Shaka enterrou a ponta da unha em sua testa, fazendo o sangue escorrer imediatamente entre os olhos verdes vidrados ainda presos ao teto da igreja.
— *Eu, Shaka, sumo sacerdote dos Seguidores de Seth, ofereço este sangue virgem e jovem a ti, Seth, que é o Vácuo, o Terrível, o Invisível, o todo poderoso deus dos deuses!
Correndo a mesma unha por toda a extensão do rosto da garota, traçou um caminho de sangue até o peito nu e arfante.
Liberando sua Besta interior, o Setita juntou os demais dedos da mão e lentamente os enterrou na carne trêmula e tórrida da jovem de cabelos vermelhos, abrindo espaço por entre a carne, afastando ossos, rasgando tecidos e separando músculos com uma facilidade insólita, até envolver completamente o coração vivo e pulsante da menina com seus dedos esguios.
— *Aquele que espalha a destruição e causa a desolação. — prosseguia, agora segurando o órgão vital em sua mão — Aquele que é o próprio Caos na Terra!
Com um tranco único e rápido, Shaka puxou o coração para fora do peito da garota, respingando algumas gotas de sangue nos que estavam mais próximos, e enquanto o órgão fibrilava frenético entre seus dedos ensopados pelo líquido ainda vivo, proferiu os últimos dizeres ritualísticos:
— *Ofereço essa vida a ti, Seth! Quando vós fostes expulso do Egito e aclamado como aquele que a tudo destrói e constrói, nós nos resignamos a esperar pela sua volta! Pois tu és o Invencível!
Dito isso, Shaka abocanhou o coração, arrancando boa parte daquele músculo pulsante com suas presas e maxilar poderosos, mastigando o tecido que se contraia e se distendia entre seus dentes antes de ser engolido.
Da primeira fileira do séquito Setita, Mu observava a tudo muito concentrado. Sua força de vontade por horas vacilava, pois o cheiro do sangue, o som do corpo vivo ainda sobre o altar e a visão do sumo sacerdote se banqueteando em seu nome lhe soava como um espetáculo para os sentidos.
Domava seu espírito com furor, contento a Besta dentro de si que clamava por sair com uma força inimaginável.
Não podia deixar de achar certa graça em todo aquele “circo”, e era justamente esse aspecto que amansava a Besta. Não que o ritual em si fosse digno de qualquer desmerecimento. Muito pelo contrário. Em seu tempo, rituais de sangue eram muito comuns, assim como oferendas e libações aos deuses.
Mu achava graça apenas dos atributos destinados a si, Seth. Como os anos puderam deturpar tanto sua figura? Essa era certamente uma pergunta que ele se fazia naquele momento, enquanto pensava em como seria se descobrissem que o próprio Seth estava ali, entre eles.
Enquanto via Shaka remover os outros órgãos vitais da garota com as próprias mãos e os oferecer aos quatro sacerdotes principais do clã, Mu só conseguia imaginar como reagiriam se ele se revelasse naquele momento, se dissesse que é Seth, agradecesse a oferenda, comesse os órgãos e pedisse que lhe trouxessem mais cento e cinquenta corações como aquele, porém que deixassem o gado vivo e solto, pois a caça fazia da carne muito mais saborosa, já que a adrenalina do medo a temperava.
Não.
Jamais se revelaria de forma tão leviana. Tinha que estudar aquele clã que adorava sua figura como a um deus e, principalmente, tinha que entender a estranha ligação que sentia com o sumo sacerdote e líder deles.
Sendo assim, baixou a cabeça e permitiu que o capuz do manto negro lhe ocultasse ainda mais a face, uma vez que sua forma bestial vinha à tona e alguns ali já começavam a se agitar diante sua Presença perturbadora.
O ritual seguiu como de costume.
Shaka entoou outros mantras descritos no Livro de Seth, enquanto, em comunhão e cantando em uníssono junto a seu líder, os membros do culto se enfileiravam para provar do sangue do sacrifício.
Sem que ninguém soubesse o motivo, Shaka fez uma pequena mancha em sua própria testa usando uma gota de sangue, entre os olhos, misturado à tinta azul. Em uma prece silenciosa e íntima, ofertou aquele pequeno gesto à deusa hindu Kali, em honra à memoria de sua família, sua casta e dos anos em que andou entre os vivos a adorando.
Findado o ritual, o sacerdote desceu do altar e caminhou até Mu, passando por entre os membros que baixavam as cabeças em respeito. Shaka era o porta-voz de Seth na Terra e era quase adorado pelas Serpentes como o próprio deus do Caos.
De frente para Mu lhe estendeu a mão, que de pronto fora apanhada pelo Nut.
Conduzindo o novo membro até o altar, o sumo sacerdote se colocou lado a lado com ele e pediu a atenção de todos elevando o tom de voz e também sua Presença.
— *Seguidores de Seth, quero apresentar a vocês o mais novo membro de nosso clã, que na verdade será adotado por nós, como nosso irmão e nosso leal membro honorário! Como sabem, semanas atrás estive no Irã, chamado para uma reunião extraordinária do Conselho das Serpentes, a qual teve um desfecho trágico... Infelizmente perdemos membros importantes do nosso clã. No entanto, sabemos que Seth nada faz sem propósitos maiores. Seth é poderoso e nos guia sempre para o caminho que devemos seguir... Por isso, após uma luta ferrenha contra os Espectros das Sombras, os sedentos pelos segredos guardados pelo nosso sangue, fui agraciado com uma benção do Senhor do Caos, que mandou a nosso seio um filho da Noite!... Este é Mu! — disse Shaka erguendo a mão de Mu, a segurando firme contra a sua — Mu é um Nut!
De imediato ouviu-se uma explosão de balbucios e murmúrios que denotavam a surpresa de todos ali presentes, os quais olhavam fixamente para Mu com seus olhos cintilando curiosidade e estupefação.
Nunca haviam visto um Nut, visto que era de conhecimento geral terem sido extintos muito antes de a Máscara ser estabelecia entre eles, ou seja, muito antes de qualquer um ali ter recebido seu presente amaldiçoado, o abraço da morte.
— *Mu tem 6.100 anos. — continuou Shaka, agora elevando o tom de voz, já que a comoção geral não podia ser contida — Eu sei que notaram a Presença ancestral dele e isso prova a veracidade de minhas palavras. Mu é um Nut poderoso que escolheu ser um de nós.
Sem que esperassem, um membro mais eufórico tomou a frente e num gesto passional e destemperado jogou-se aos pés de Mu, abraçando seus tornozelos.
— *Louvado seja Seth! — gritava em tom alto e decidido — Oh, Terrível e Indomável Seth! Isso só pode ser um sinal de sua volta! Um Nut entre nós!
— *Sim! — respondeu outro membro que também já se acercava de Mu — Um filho da Noite entre nós! Um Nut! Seth está nos abençoando! Está ouvindo nosso chamado! Louvado seja o Invencível!
Asmita, Shijima, Fudou e Shun, que eram os quatro principais sacerdotes do clã Setita, olhavam para o rosto de Mu surpresos, admirados e extremamente curiosos. Podiam sentir seu poder, mas em seus íntimos cada um com seu pensamento, se perguntavam até que ponto seria seguro ter alguém tão poderoso entre eles.
— *Sim, meus irmãos imortais! — a voz de Shaka novamente chamou a atenção de todos — Mu viera a mim após um ataque covarde e muito bem arquitetado. Tudo me leva a crer que procuram a sabedoria contida em nosso sangue milenar, visto que os Espectros são o clã mais jovem de nossa sociedade. Para que? Ainda desconheço, mas minha intuição me diz que pode ser uma tentativa de golpe, um levante contra nós e contra o Conselho. Através do sangue Setita eles podem regredir gerações e tomar o poder, mas não permitirei que façam isso. Meus irmãos, Seth, nosso deus, nos mandou Mu, um Nut, para lutar a nosso lado!
— *Louvado seja Seth, o Terrível! — todos louvaram em uníssono, enquanto Shaka olhava para o rosto de Mu observando sua reação.
Diante de tudo aquilo, as palavras do sumo sacerdote, as demonstrações exaltadas das crianças da noite que louvavam a si sem nem mesmo saberem que estavam diante do que ele mesmo julgava ser uma farsa, já que Seth, ele, não era um deus, era um imortal como eles, muito mais poderoso sim, mas condenado a uma maldição vergonhosa, e Seth era apenas um título de poder, concedido a si por seu pai, Rá, outro imortal apenas.
Naquele momento, diante do louvor do clã Setita, confuso e até mesmo assustado, tudo que conseguia pensar era que tomara a melhor decisão em não se revelar a Shaka, nem a ninguém ali. Pelo menos não sem antes saber como lidar com a situação atual em que se encontrava, já que os Setitas esperam um deus raivoso, perverso, disposto a mudar o mundo, criar o Caos e destruir a ordem, e ele era o oposto de tudo isso. Apenas queria entender porque havia dormido por milênios, acordado sozinho num mundo completamente transformado e principalmente, por que sentia uma atração nunca dantes experimentada pelo líder daquele clã.
Imaginava que revelar sua identidade, tão diferente do que os papiros antigos postulavam, a ponto de nem Shaka o reconhecer, seria leviano e até mesmo perigoso.
Não. Teria que pensar. Muito. Antes de fazer qualquer revelação daquela magnitude.
Sendo assim, tudo que fez foi soltar a mão de Shaka, da maneira mais cordial que lhe cabia, puxar o capuz para trás da cabeça e se livrar do manto que ocultava sua figura, o deixando escorregar por suas costas até o chão, finalmente se revelando ao clã vampírico liderado pelo imortal que o despertara naquela era.
Liberando apenas um terço de seu poder, permitiu que todos ali sentissem o quão ancestral ele era. Um vampiro de terceira geração, quando a maioria dos membros presentes naquela noite eram de vigésima quinta, a despeito dos quatro sacerdotes Setitas, cujas gerações eram menores.
Olhou a todos diretamente em seus olhos, os quais lhe devolviam um olhar questionador e curioso, além de admirado, e lendo os dons das trevas de cada um ali, através de suas Presenças, disse com voz firme e em tom poderoso:
— *É uma honra, para mim, conhece-los. Nesta noite, e em todas as que se seguirem, adoto o clã Seguidores de Seth como minha segunda família. Há milênios meu clã fora exterminado da Terra e hoje eu caminharia só, mas, ao ser acolhido ao seio das Serpentes, o considero meu segundo lar e estejam cientes de que empregarei meus dons e meu poder, além de fazer o que tiver a meu alcance, para sua proteção.
Com o compromisso selado através das palavras do Nut, o pacto fora firmado.
Setitas eram por si só um clã cujos próprios membros poderiam ser seus piores inimigos. Corruptos, degradados e traiçoeiros, mesmo que ali estivessem reunidos membros escolhidos a dedo por Shaka, por quem o sumo sacerdote imaginava poder depositar um mínimo de confiança, cada um ali olhava para Mu sem pensar no bem que o clã poderia fazer a ele, um vampiro do mundo antigo à procura de adaptação no mundo novo, já que todo imortal sabia ser ela, a adaptação ao tempo, a verdadeira essência da imortalidade.
Não. Ali eles apenas o viam sob o crivo egoísta que alimentava a vaidade Setita, o viam como um Às na maga, um aliado poderoso à suas disposições e que, caso desse problema, seria descartado por ser um intruso.
Havia também quem o visse ali como uma possível fonte de poder, uma vez que Mu era um Nut e seu sangue poderia regredir a geração daquele que o consumisse.
Alheio, em parte, ao julgamento intimista de cada Serpente naquela abadia, Mu recebia os cumprimentos dos membros um a um, percebendo suas boas e más intenções, mas sem verdadeiramente se incomodar ou sentir-se ameaçado por elas.
A seu lado, Shaka conversava com o pároco daquele templo católico, um carniçal a serviço dos Seguidores de Seth, e o instruía, como de praxe, a não deixar vestígios do que fora dito e feito ali.
Enquanto os membros se dirigiam para a parte de fora da igreja, as serpentes, escaravelhos e escorpiões invocados durante o ritual também deixavam o local rastejando por entre frestas, fissuras nas paredes ou simplesmente mergulhando na terra em torno da construção.
O culto havia terminado
* = traduzido do egípcio antigo
** = traduzido do sânscrito
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