Notas iniciais
****ATENÇÃO**** **** AVISO DE CENAS FORTES**** Gente nesse capítulo teremos que abordar temas mais pesados. EU (Hamal) e Rosenrot tentamos ao MAXIMO aliviar as cenas e deixar o mais sutil possível. Mesmo assim precisamos colocar as ações de Seth no texto. Procuramos não descrever em detalhes em respeito aos leitores e a nós mesmas, mas infelizmente não há como fugir da natureza demoníaca que Seth tem agora. Era de suma importância citar os feitos no texto para que compreendam o horror do deus do Caos. Agradecemos a comprienção.

Na noite negra Seth cortava fronteiras em uma velocidade alucinante.

Sombras e névoa densa deitavam-se sobre as planícies do Leste europeu feito um cobertor gigantesco, e em poucos minutos a criatura já havia deixado o solo austríaco, passado pela Polônia, Ucrânia, Romênia, e antes de chegar à Bulgária se teleportou para a Turquia, sem parar de correr por um só minuto.

Em sua bocarra animalesca trazia Shaka, que encaixado entre seus dentes pela cintura procurava se apoiar como podia na tentativa de amenizar aquele sacolejo frenético, ao mesmo tempo em que gritava, inutilmente, tentando chamar Mu à razão.

Pela ligação sanguínea partilhada com o Nut, o sumo sacerdote sentia que ele corria sem rumo, movido apenas pela fúria bestial e irracional de seu instinto; e era justamente esse que agora o fazia executar uma manobra primordial à sua sobrevivência: Seth estava caçando!

O Nut havia perdido quase toda sua energia, primeiro na batalha, depois devido à terrível metamorfose que sofrera, e agora a fome assolava sua alma condenada e colocava seu corpo em um estado de torpor excruciante, pois sendo maior e mais selvagem esse agora exigia quantidades muito maiores de sangue vivo.

Shaka por sua vez, ainda ferido e enfraquecido pela batalha, além de faminto, sabia que contra Seth seus poderes de nada serviriam, então usava o elo sanguíneo que o ligava a Mu para induzir a criatura a seguir por caminhos menos visados, o afastando dos grandes centros populacionais. Precisava evitar o pior, caso contrário tanto a sociedade vampírica quanto Mu estariam condenados, uma vez que se Seth chegasse às grandes cidades haveria um extermínio sem precedentes, e aos olhos do mundo todo. Assim, com muito custo o Setita o guiou através das áreas desérticas da Síria, passando pela fronteira com o Iraque, Irã e Paquistão até chegarem ao extremo norte da Índia.

Ali Shaka sabia que Seth estava em seu limite, também que o amanhecer não estava longe, então o fez correr até Oeste do país, e na região de Bengala o induziu a embrenhar-se na floresta de Dow Hill, a qual já era por si só cercada de mistérios, lendas e ritos macabros os quais justificariam bem uma possível chacina atribuída a uma entidade desconhecida.

Nos arredores da floresta haviam alguns pequenos povoados, e estes logo foram rastreados por Shaka, que em uma manobra audaciosa usou a escassa energia que ainda lhe sobrava e se teleportou da boca da criatura surgindo a poucos metros de distância no chão.

Shaka sabia que Seth havia rastreado o vilarejo, como ele, mas a fome do Nut era muito maior e mais voraz, e era para a cidade mais próxima que ele rumava, no entanto, o Setita não podia permitir que Mu expusesse sua figura de tal maneira a chamar a atenção da mídia local. Mesmo assustado, Shaka tinha consciência de que ele era a única parte racional que cabia aos dois, por isso tinha que atraí-lo e fazê-lo saciar-se com o gado que residia na periferia da floresta, então ele correu, o mais rápido que pode, para dentro da trilha que conduzia a uma clareira onde estava instalada a vila.

Como esperado, Seth havia parado de correr na mesma hora em que Shaka fugira de sua boca, então cravando as garras no solo úmido coberto por folhas e raízes, virou-se para a direção na qual o sumo sacerdote se teleportara, franziu o nariz rangendo os dentes e soltou um alto e furioso sibilo. A criatura sentia uma ligação muito forte com Shaka, não conseguia compreender o que era, mas em sua racionalidade primitiva sentia-se responsável por ele, como se o loiro fosse parte de seu ser, de modo que não o queria longe.

Todavia, Seth estava cansado e fraco demais para impedir a fuga com seus poderes, por isso teria que reaver o sumo sacerdote de modo mais primitivo.

Apoiando-se nos quatro membros, o Nut saltou na direção de Shaka, que só não foi pego novamente porque também saltou para o lado rolando entre os arbustos e esgueirando-se entre as árvores.

O Setita sabia que apenas o elo sanguíneo partilhado com Seth não seria suficiente para convencê-lo a rumar para o vilarejo, uma vez que a cidade oferecia muito mais presas, então teria que fazê-lo chegar até a clareira... Além de ter que sobreviver àquela perseguição.

A cada salto e investida do Nut, Shaka sofria um arranhão grave nas costas ou nos braços, mas seguia correndo e embrenhando-se na mata sem olhar para trás, até que finalmente chegou ao grande círculo de árvores que formavam a clareira que se abria para o sombrio firmamento.

Nela havia cinco casas simples erguidas com distâncias relativas umas das outras, e mais três estruturas que pareciam servir de celeiro e galpão. Foi para a construção mais próxima que Shaka correu assim que adentrou a clareira, e de onde rastreou três humanos.

Ao todo o sumo sacerdote farejou no vilarejo treze pessoas. Era o suficiente para alimentar Seth e a si mesmo naquela noite, só torcia para que a fome do Nut fosse maior que a fúria direcionada a si devido sua fuga.

E de fato Seth estava furioso!

Sim, a fuga de Shaka era o principal motivo, porém a fome e seu instinto lhe alertando acerca da proximidade do alvorecer o tornavam ainda mais feroz e descontrolado.

Viu quando o loiro correu para dentro de uma das casas e imediatamente seguiu para lá a invadindo de forma violenta ao chocar seu corpo contra uma das paredes, abrindo um enorme buraco.

Quando encontrou o sumo sacerdote cravou seus olhos bestiais aos dele e se ergueu, se pondo de pé, então rosnou feito uma fera enquanto avançava alguns passos na direção de Shaka o obrigando a recuar até que batesse as costas contra a parede. Encurralado, o sumo sacerdote temeu por sua pós-vida, enquanto Seth encarava a pequena criatura à sua frente tentando entender por que não a matava, mesmo ela sendo tão desobediente.

Sem poder compreender o que o amarrava a um ser tão insignificante, o Nut agarrou Shaka com ambas as mãos, o ergueu do chão e o trouxe para bem perto de sua bocarra, salivando raivoso enquanto lhe lançava um olhar dardejante.

Shaka por sua vez, encarava os olhos da Besta, hipnotizado. Então aquele era o verdadeiro monstro que habitava o interior de seu doce Mu.

Assim eles ficaram por alguns segundos, até que Seth soltou um urro hediondo e pavoroso que fez o sumo sacerdote fechar os olhos e contrair todos os músculos da face, esperando pelo pior.

Logo o rugido troante de Seth se misturou a outros gritos na noite.

As pessoas da casa, que haviam acordado e saltado da cama com o estrondo, agora bradavam aterrorizadas na sala diante do demônio, que assim que as percebeu ali arremessou Shaka ao fundo do aposento e saltou sobre elas, trancando as portas com uso de telecinese para evitar que fugissem e arrastando um móvel até o buraco aberto na parede. Deleitava-se com o bater acelerado dos corações e o terror impregnado em seus corpos.

Do chão simples de cimento batido o sumo sacerdote ergueu a cabeça e olhou, estupefato, para a Besta devorando as presas. Não que já não tivesse visto Mu se alimentando, mesmo sob todos os protestos do Nut que se envergonhava por ser amaldiçoado pelo Consumo Conspícuo, mas nada se comparava à atual selvageria de Seth.

No mesmo tempo em que segurava o homem mais velho pela cintura, provavelmente o pai daquela família, e abocanhava sua cabeça para devora-la toda de uma vez, Seth comprimia com as mãos o corpo para liquefazer os órgãos e ossos internos e assim poder beber os fluidos corporais. Tendo bebido a maior parte do sangue, em seguida engoliu a carcaça com duas bocadas, como quem come um petisco.

O rapaz mais jovem foi o próximo, e enquanto Seth o devorava em uma velocidade impressionante, triturando ossos com os dentes com a facilidade de quem mastiga uma fruta macia, mantinha os olhos infernais cravados na mulher parada rente ao batente da porta. Esta tinha a boca aberta de espanto, os olhos escuros encharcados, os músculos paralisados trêmulos e o rosto contorcido em completo horror.

Segundos após devorar rapidamente as vísceras do jovem, o Nut lançou a carcaça desguarnecida para um dos cantos, e ainda encarando a mulher franziu o nariz repetidas vezes. Havia algo diferente nela.

Seth a estava farejando.

O demônio então caminhou lentamente em direção à mulher. Hábito bem incomum, visto que a fome incessante e voraz que sempre consumia seu corpo lhe induzia a devorar suas presas sem nem ao menos olhá-las na face, quanto muito encara-las e prestar atenção desmedida a seu odor, o que chamou a atenção do sumo sacerdote.

Aflito e curioso, Shaka se levantou do chão bem devagar para não chamar a atenção de Seth, e o que viu em seguida o fez ficar hirto, preso ao solo, incrédulo e paralisado pelo choque. Choque esse que traduzia o óbvio, mas que Shaka, movido pela paixão cega que nutrira por Mu desde o seu despertar, se negou a aceitar.

“Não pode ser!”, pensou ele observando a cena, descrente.

Diante dos olhos arregalados de seu sumo sacerdote, Seth havia decapitado a mulher, e enquanto sorvia o sangue quente direto do pescoço estuprava seu corpo de uma forma tão horrenda, bruta e selvagem que o destruía e desmembrava a cada nova investida. Nem com o corpo quase todo destruído a criatura parava com o ato da cópula.

A cena era demasiado repulsiva e grotesca até mesmo para um vampiro violento como Shaka, que tinha o rosto contorcido em completo terror.

Os urros da Besta enquanto saciava o instinto sexual naquela carcaça disforme deixaram o sumo sacerdote nauseado e perturbado. Por isso, aterrorizado Shaka fugiu dali saltando por cima do móvel que bloqueava a abertura na parede. Não queria presenciar aquela cena perturbadora. Aquele não era Mu, era um monstro irracional movido apenas pela necessidade de satisfazer seus instintos.

Em choque, acometido por um torpor horrendo, fruto da repulsa que a cena e o medo lhe causavam, do lado de fora Shaka se deparou com os outros moradores do vilarejo, que também despertos pelo barulho deixaram suas casas munidos de armas rudimentares para correr ao socorro da família em perigo.

Houve gritaria quando viram Shaka ali, então o sumo sacerdote deixou os sentimentos pessoais de lado e agiu o mais rápido que pode, saltando sobre um dos homens e o arrastando em uma velocidade alucinante para dentro da floresta. Precisava se alimentar.

Quando os moradores cogitaram ir atrás do Setita na mata, Seth surgiu na frente deles como num passe de mágica, rugindo ferozmente e ainda mais alucinado devido ao prazer da caça e ainda instigado pelo sexo.

Em poucos minutos o vilarejo inteiro tinha sido completamente dizimado pelo demônio do mundo antigo, que não sabendo mais distinguir a fome do desejo sexual primitivo, para o qual fora desperto recentemente, estuprou mais algumas mulheres que estavam ou em seu período fértil, ou em pleno ciclo menstrual. O odor delas dizia diretamente a seu instinto que deveria procriar, mas sua fúria primitiva o levava a devora-las ainda antes ou durante a consumação do ato, transformando Seth em uma Besta ainda mais cruel e hedionda.

Deixando a nefasta marca da morte naquela clareira, o Nut sentiu falta da pequena criatura que o acompanhava e mergulhou na floresta ao encalço de Shaka, guiado pelo elo sanguíneo e também pelo odor do sumo sacerdote, o encontrando entre alguns arbustos, atracado ao pescoço do homem que arrastara consigo.

Enfurecida por Shaka ter se afastado, a criatura o agarrou pelos cabelos loiros e o lançou para longe, depois fez levitar o corpo quase sem vida da presa até que pairasse acima de sua cabeça, então abriu a boca e usando a Dominação da Carne liquefez o corpo para beber tudo a goladas.

Há alguns poucos metros dali, Shaka se punha novamente de pé sobre o solo úmido da mata. Felizmente tinha bebido quase a presa toda antes da chegada do Nut e aquilo era suficiente para si até o próximo anoitecer. Isso se conseguisse sobreviver à presença de Seth até lá.

Ainda perturbado pelo que tinha presenciado na casa do vilarejo, o Setita agora podia compreender claramente o motivo da família de Mu tê-lo privado dos instintos sexuais, além de perceber o quão leviano fora ao desperta-los no Nut.

Sexo e violência sempre estiveram interligados, assim sendo, o verdadeiro demônio dentro de Mu se tornou ainda mais cruel e perigoso agora que era guiado pelo instinto da cópula, tornando ainda mais difícil reverter a transformação e agravando a situação atual de Shaka, que tinha consciência de que, como prisioneiro, se a Besta descobrisse que havia sido o parceiro sexual de Mu certamente iria querer copular e o mataria no ato.

Momentaneamente saciado, e sentindo que o alvorecer se aproximava, Seth aproximou-se de Shaka mostrando os dentes imundos de sangue, e com um movimento tão rápido que pegou de surpresa o sumo sacerdote, tornou a abocanhar sua cintura para em seguida voltar a correr em disparada floresta adentro.

Diferente de momentos antes, quando caçava, Seth agora procurava por um abrigo, e com seus instintos muito mais aguçados e primitivos logo rastreou uma caverna jamais explorada pelo homem, pois situava-se em uma parte extremamente fechada da mata. O Nut só foi capaz de encontrar aquele covil devido a seus ouvidos que agora funcionavam como sonares, tal qual os dos morcegos, e produzindo um som agudo que saia do fundo de sua garganta logo encontrou a passagem, mas esta era tão estreita que para entrar foi preciso teleportar a si mesmo e a Shaka para o interior.

Já dentro, a passagem continuava afunilada, então Seth seguiu avançado até que chegou a um espaço um pouco mais amplo. Naquele ponto estavam embrenhados tão profundamente nas rochas que claridade, ar fresco, nem coisa alguma entrava ali, porém havia ainda muito a desbravar, mas quando julgou ser o suficiente para que estivessem protegidos do Sol e do calor, Seth parou. Inclinou ligeiramente o pescoço para baixo e soltou Shaka, sentando-se à sua frente enquanto o encarava com seus olhos infernais.

Agora mais calmo, longe de batalhas, sem fome ou outros instintos a lhe dominar, a Besta tentava entender melhor o que era aquela criatura que tanto significava para si.

Apesar da escuridão esmagadora, tanto o Nut quanto o sumo sacerdote eram capazes de enxergar claramente um ao outro, e enquanto Seth examinava Shaka com curiosidade este tinha os olhos em completo terror cravados na figura nefasta do demônio.

Temendo aquela proximidade angustiante e o olhar da Besta que parecia lhe congelar a alma, Shaka recuou alguns passos até que suas costas se chocaram com o paredão de rochas. Soltou um baixo gemido e fez uma careta ao sentir como se algo o houvesse espetado, então virou-se para ver com o que havia se chocado.

O Setita não tinha se dado conta, uma vez que no percurso todo, desde a fronteira austríaca até ali, a velocidade com que Seth corria era tamanha que se tornava impossível qualquer percepção de espaço, mas agora notava que estavam há algumas centenas de metros da superfície, embrenhados no seio da Terra, pois nas paredes rochosas e também no solo haviam milhares de cristais, alguns gigantescos, outros nem tanto. Um inclusive lhe machucara também o pé quando pisou em sua ponta proeminente.

Shaka então olhou em volta e percebeu parcas luzes cintilando tímidas em uma camada mais abaixo de onde estavam. Inclinou o corpo para o lado e viu ali um pequeno rio subterrâneo que formava um lago de águas cristalinas, onde nadavam algumas criaturas bioluminescentes produzindo um gracioso balé de luzes frias que se refletiam nos cristais rochosos, próximo a água.

Admirado, o sumo sacerdote não pode negar que Seth escolhera um covil tão exótico quanto bonito, mesmo que ao acaso, porém não se sentia nada confortável, tampouco seguro, em ter de dividi-lo com ele, principalmente depois das cenas horríveis que presenciara no vilarejo e que agora lhe atormentavam a mente.

Temeroso, e voltando os olhos para a criatura que o divisava fixo e insistente, enquanto franzia o focinho parecendo farejá-lo, Shaka procurou um espaço livre dos cristais e se sentou abraçado aos joelhos. Ele também olhava insistentemente para a fera, para ver se conseguia enxergar além daqueles olhos primitivos algum traço remanescente de Mu, seu companheiro, o vampiro doce e gentil com quem firmara um laço eterno de amor, mas tudo que via, e também o que sentia através do elo sanguíneo, era ferocidade, instinto e primitivismo. Nenhuma razão. Nada naquela Besta ancestral lhe dizia que Mu pudesse ainda estar ali.

Essa constatação causou no loiro extremo sofrimento. Em agonia sentiu vontade de chorar, pois de que valia ganhar a guerra se havia perdido Mu?

Mesmo assim, na hora em que sua esperança parecia morrer, diante do medo e da incerteza, uma nova força cresceu dentro de si, pois mesmo de frente para o Caos Shaka nunca perdeu a sua fé.

— Mu. — disse o Setita em tom baixo, porém firme, em mais uma tentativa de comunicação.

A resposta do demônio veio imediata.

Seth lhe mostrou os dentes e sibilou de uma maneira nada amigável.

A voz do sumo sacerdote incomodava a fera, já que não conseguia entender os sons que ele fazia.

Shaka apenas estreitou os olhos e não desistiu. Em vez disso, levantou-se lentamente e avançou um passo em direção à criatura.

— Eu sei que está aí, Mu... Não o sinto, não o vejo, mas eu sei que está aí. — disse, depois esticou um dos braços na intenção de tocar o enorme focinho — Será que pode me ouvir?

O tom de voz e a proximidade do sumo sacerdote causavam confusão à criatura, uma vez que o elo sanguíneo que partilhavam lhe transmitia sentimentos intensos, e sem o raciocínio para lhe orientar tudo o que a presença de Shaka lhe causava era interpretado como algo nocivo a si, perigoso, por isso Seth rosnou e tornou a sibilar ferozmente, mas apesar na negativa o sumo sacerdote não desistiu.

Olhar para aquela Besta hedionda e realizar que seu companheiro pudesse estar preso em algum lugar dentro da consciência primitiva dela corroía o coração morto de Shaka. Não podia permitir que seu amado Nut fosse condenado a tão terrível maldição, por isso, numa manobra ousada e desesperada, o sumo sacerdote ativou o dom do Serpenthis, e fazendo uso do Domínio das Feras encarou os olhos de Seth na esperança de domá-lo para assim tentar despertar a consciência de Mu.

Os olhos de Shaka agora eram Olhos de Serpente, e através do poder concedido por eles tentou contato mais uma fez com o Nut.

— Mu! Eu sei que está aí! Eu não vou desistir de você! — disse, agora em tom mais alto e autoritário, depois deu mais um passo à frente determinado em domar a Besta — Fale comigo, Mu! Sou eu, Shaka! Me obedeça! Fale comigo! — gritou, quase num rosnado.

Por alguns segundos, que pareceram anos devido à tensão do momento, Seth ficou parado apenas olhando para os olhos hipnóticos de Shaka, enquanto a voz do sumo sacerdote lhe punha em uma espécie de transe, já que lhe soava familiar. Por segundos também a Besta se perdeu admirando o vampiro à sua frente, o tom azul da pele nas extremidades do rosto e mãos, os cabelos muito claros... Quando de repente balançou a cabeça num gesto efusivo, ergueu a enorme mão munida de garras letais e atacou Shaka com um safanão tão violento que o atirou contra a parede rochosa como se fosse uma boneca de pano.

Ao se chocar com a parede o sumo sacerdote veio ao chão, e mal tinha se dado conta do que havia acontecido quando um peso brutal pressionou sua cabeça contra o solo rochoso. Então ouviu o pavoroso ronco da criatura.

Furioso, com a mão sobre a cabeça de Shaka, Seth o mantinha ali de bruços em posição submissa, mostrando claramente quem mandava, e que jamais poderia ser dominado.

De fato a Besta que habitava Mu era poderosa demais para se deixar dominar tão facilmente, e o sumo sacerdote sabia disso, no entanto não podia deixar de tentar. Tinha que fazer algo para libertar seu companheiro daquela prisão sem muros, e se Seth era extremamente poderoso, Shaka era insistentemente persistente.

— Mu! — dessa vez gritou em desespero, apoiando ambas as mãos na rocha e forçando o corpo para cima em uma tentativa vã de libertar-se da fera — Ouça minha voz! Não é possível que essa maldição não possa ser revertida! Fale comigo! Fale, Mu! Por favor, me de um sinal!

Shaka sentia medo de enfrentar o demônio daquela forma.

Ainda mais depois de saber do que ela era capaz, mas nenhum medo iminente era maior do que a constatação provável de que talvez Mu jamais voltasse a sua forma humana.

Sem poder compreender o que Shaka dizia, Seth ficou ainda mais furioso. A criatura não gostava que gritassem consigo, e já teria matado o sumo sacerdote se não fosse o elo sanguíneo partilhado com ele, visto que esse lhe fazia sentir que aquela criatura irritante que gritava era importante, uma vez que sentia tudo que ela sentia, a tristeza, angústia e o medo.

Por isso, dentro de sua percepção limitada Seth se preocupava com Shaka, com seu bem estar, tal qual as feras selvagens se preocupam com suas crias teimosas e abusadas.

Sibilando ferozmente soltou a cabeça de Shaka, o agarrou pela cintura e o levantou do chão para trazê-lo junto a si, bem perto de seu focinho, então cheirou seu corpo inteiro, esfregando o nariz escamoso e enorme contra a pele fria do Setita, que naquela hora temeu pelo pior e instintivamente começou a se debater tentando se livrar da criatura.

Com um chacoalhão forte e um ronco gutural, Seth jogou Shaka no chão e prontamente se colocou por cima dele, para completo desespero e terror do líder do clã dos Seguidores, que em pânico interpretou os sentimentos e sensações que vinham da fera como desejo sexual.

— NÃO! NÃO, FAÇA ISSO! MU! POR FAVOR! — o sumo sacerdote gritou a plenos pulmões, aterrorizado.

Temendo ter o mesmo destino das mulheres do vilarejo Shaka tentou fugir dali se teleportando, mas já era tarde. Seth agora o mantinha paralisado com a Dominação da Carne.

O sumo sacerdote nunca havia sentido tanto pavor em milênios de existência. Tentou gritar novamente, mas suas cordas vocais estavam sob domínio de Seth, que agora voltava a cheirar seu corpo de maneira frenética até encontrar o que procurava.

Uma ferida no pé de Shaka sangrava ligeiramente. Os cristais que existiam no solo da caverna possuíam pontas tão afiadas que pareciam lâminas. Nenhuma injúria causavam para os pés de Seth, grandes e poderosos, mas machucavam os do sumo sacerdote.

Com calma e até certa delicadeza, o demônio botou a língua para fora lambendo a ferida para que se regenerasse. Não era capaz de entender a razão, mas se aquela pequena criatura que sentia a necessidade de manter junto de si emanava tristeza e agonia, isso deveria ser pelo fato de estar ferida.

Assim era o raciocínio primitivo do Nut. Se acabasse com a dor de Shaka acabaria com os sentimentos e sensações horríveis que vinham dele.

Alheio ao terror que suas ações haviam causado no Setita, além de exausto, Seth então saiu de cima dele, o libertou da paralisia e se deitou, já se ajeitando para dormir. Instintivamente puxou Shaka para junto de seu corpo, e este, ainda em choque devido ao susto, mas aliviado por não ter sido violentamente estuprado e desmembrado, não se opôs. A criatura estava preocupada com outra possível fuga, por isso usou parte do seu peso para prendê-lo abaixo de si.

Seth iria finalmente entregar-se ao sono, mas se Shaka sumisse de seu abraço sentiria na mesma hora e o buscaria de volta. Ele era seu.

Preso nos braços do demônio, e ainda tentando se reestabelecer do choque, Shaka procurava entender tudo que aconteceu até ali.

A postura agressiva, porém protetora da fera para consigo o intrigava. Não imaginava qual era a intenção da Besta em mantê-lo ali, se estava em um cativeiro ou se era uma futura presa, a única certeza que tinha era de que precisava despertar a consciência de Mu e trazê-lo de volta, ou o futuro de tudo que existia estaria condenado. Inclusive o seu.

Mu havia se tornado uma criatura cujo único objetivo era matar, comer e copular, e esse último desejo primitivo tinha sido desperto por sua culpa.

Atormentado, o sumo sacerdote se perdia em meio a pensamentos conturbados e punitivos: “Como eu fui leviano! Como pude me contrapor aos designíos dos deuses? Deveria ter imaginado que... É muito pior do que eu julguei...”, pensou angustiado. “Se não conseguir trazer Mu de volta o Caos vai reinar absoluto na Terra.”

Igualmente exausto, não que ambos sentissem cansaço físico, uma vez que seus corpos estavam mortos, mas porque suas mentes estavam dilaceradas, Shaka sentiu-se esgotado emocionalmente, então desistiu de pensar e se ajeitou como pôde em meio aos braços longos da Besta, que o enlaçou possessivamente, e melancólico logo caiu no sono.

***

Um dia se passou, e quando o negro manto da noite se estendeu sobre as terras indianas Seth despertou como esperado: faminto.

Sem pestanejar se levantou, chacoalhou os pelos e a longa crina para ajeita-los, cheirou Shaka algumas vezes e sem aviso algum correu para a saída da caverna.

O sumo sacerdote havia despertado junto da criatura, e quando fez menção em ir atrás dela esta, furiosa, sibilou o repreendendo.

A cada tentativa que Shaka fazia de segui-lo, Seth lhe punia dando diversas patadas em meio a rosnados e rugidos, indicando-lhe que voltasse ao covil, e somente quando o sumo sacerdote pareceu entender seu desejo e ficou quieto no lugar onde haviam descansado foi que a Besta teleportou-se dali o deixando sozinho.

Mas, Shaka não ficaria ali parado. Temia que Mu atacasse um grande centro urbano e fosse descoberto pelo gado, ou até pelos próprios vampiros locais, por isso esperou apenas alguns minutos e mais uma vez se arriscou, desobedecendo as ordens do demônio e deixando a caverna logo em seguida.

Sua estratégia seria a mesma da noite anterior. Usaria o elo sanguíneo para atraí-lo para outros vilarejos em locais mais ermos evitando as cidades, enquanto continuaria tentado despertar a consciência de Mu quando a Besta estivesse saciada.

Foi uma manobra muito arriscada, pois Seth interpretou a saída de Shaka do covil como uma nova tentativa de fuga, não entendendo que na verdade o sumo sacerdote o estava protegendo de si mesmo. Isso causou intensa fúria na criatura que perseguiu e puniu o sumo sacerdote com ainda mais violência.

Foi em meio a essa dinâmica de fugas e caçadas que se passaram mais três noites.

Seth saia do covil assim que o Sol se punha no horizonte, Shaka fugia, era recapturado e punido brutalmente com muitas patadas, chacoalhões e rosnados grotescos.

Uma das vezes a fúria da Besta fora tamanha que ela arremessou o sumo sacerdote no lago que havia mais abaixo do covil.

As tentativas Shaka em tentar despertar a consciência de Mu nunca cessaram.

Todas as noites, entre saídas e caçadas, entre rosnados e olhares curiosos, Shaka tentava tocar a consciência de Mu dentro da fera, sempre usando o dom do Serpenthis, mas nada surtira efeito.

O sumo sacerdote também tomava alguns cuidados especiais.

As propriedades rurais daquela região atacadas por Seth e Shaka eram queimadas no dia seguinte pelos moradores dos vilarejos próximos, que acreditavam estar sofrendo um castigo atribuído à ira da deusa hindu Kali, uma vez que Shaka, sendo conhecedor das lendas locais, sempre tinha o cuidado de deixar uma marca feita com sangue de sua mão direta na porta ou parede das casas atacadas, junto de uma língua decepada e um par de olhos, marcas da deusa.

Também evitava presenciar as cenas de bestialidade, estupros e necrofilia cometidos por Seth, tanto para se poupar de tamanho horror, quanto para que a Besta não o viesse e por algum motivo viesse a deseja-lo como parceiro sexual.

Como uma ironia do destino, Shaka agora se comportava exatamente com a mesma conduta estabelecida pela família de Mu há milênios, evitando sempre qualquer tipo de situação ou insinuação sexual, reprimindo até mesmo lembranças ou sentimentos românticos direcionados ao companheiro, em nome de sua segurança.

As ironias do destino... Agora lhe acertavam em cheio, como um tapa dado direto em sua face.

Na quarta noite, porém, a Besta mudou seu jeito de agir.

Seth associou as constantes fugas de Shaka às suas saídas para caçar e copular. Sendo assim, cansado de tanto perseguir aquela criaturinha teimosa e desobediente, antes de deixar a caverna usou o dom da Dominação da Carne contra o Setita o mantendo paralisado no covil até sua volta.

Aquele fora um golpe cruel.

Desesperado e impotente, Shaka sentiu suas esperanças se abalarem, vendo o quão pequeno era diante do poder de seu deus, e o quão inútil foram seus esforços. Em extremo sofrimento constatou que nada podia fazer a não ser esperar pelo regresso de Seth, e sua angústia naquela hora era tamanha que se entregou ao choro. Uma fraqueza que em milênios poucas vezes sucumbira.

Aos prantos Shaka monitorava através do elo cada passo de Seth, pois mesmo sendo um vampiro poderosíssimo nada o impedia de cair em uma emboscada armada pelos vampiros que dominavam aquele território, ou pior, poderia ser descoberto pelo governo dos homens e então a Máscara cairia por terra.

Uma coisa era certa. Seth não poderia continuar existindo na Terra. Ele era uma ameaça direta aos homens e aos vampiros. Se a sociedade humana descobrisse a existência dos filhos da noite uma guerra sem precedentes se daria e ambos os lados sairiam completamente lesados. Com Seth existindo daquela forma bestial o único futuro possível para a civilização humana e vampírica era o Caos.

Com o coração morto oprimido dentro do peito inerte, Shaka chorava copiosamente.

Nunca sentiu sua fé ser abalada antes, como agora, mas como buscar forças, como orar para um deus que era justamente a razão de todas as suas angústias e medos, de toda sua falta de esperança?

O choro do líder dos Seguidores de Seth ainda ecoava alto e aflito através das paredes rochosas daquela furna quando o demônio regressou, imundo de sangue e de terra, trazendo na boca uma carcaça do que um dia fora um homem de meia idade.

O Consumo Conspícuo não permitia a Seth parar de comer até matar a vítima, no entanto, depois de morta esta já não lhe interessava mais, por isso, em algum lugar de sua mente primitiva a criatura sabia que Shaka precisava se alimentar e o resto de sua caça era para ele.

Aproximou-se lentamente do sumo sacerdote, que estava sentado no chão já livre da paralisia, e encarando seu rosto coberto de sangue deixou cair a carcaça à sua frente, a empurrando com o focinho para perto dele. Em seus olhos infernais havia uma ordem explícita: coma.

Porém, o que a mente irracional da fera não levava em conta era que os filhos da noite não podiam beber sangue de humanos mortos, visto que este se tornava venenoso para eles. Shaka nem ao menos comia carne viva, apenas bebia sangue, então aqueles restos mortais despedaçados eram simplesmente intragáveis para o sumo sacerdote.

Todavia, para a Besta a única coisa que lhe importava era que a criaturinha irritante comesse. Ele precisava se alimentar, ali estava a comida, e era bom que obedecesse!

Com um sibilo feroz a criatura indicou que Shaka se movesse, pois este mantinha a cabeça abaixada enquanto encarava aqueles restos mortais fétidos, sujos e repugnantes com nojo.

Irritado, pois não estava nem um pouco disposto a ter sua oferta negada, Seth ergueu a pata, agarrou os cabelos de Shaka e com violência desmedida forçou sua cabeça para baixo, metendo o rosto do sumo sacerdote naquela carne morta repulsiva. O segurou ainda por alguns segundos nessa posição, mesmo sobre protestos e gritos abafados, depois soltou seus cabelos e recuou alguns passos, sem desviar os olhos dele.

Shaka ainda tentou levantar a cabeça e encarar a fera, mas esta novamente lhe deu um safanão metendo seu rosto no cadáver hirto no solo.

Sem alternativa, o sumo sacerdote passou a fingir que comia, deixando que seus cabelos longos caíssem por seu rosto tinto de vermelho devido as lágrimas que o ajudavam na farsa.

A criatura o observou por mais alguns instantes, até que satisfeita deu meia volta e saltou dentro do lago. Sentia-se imunda e precisava se livrar de todo aquele sangue e terra em seus pelos.

Do alto da rocha onde ficava a toca, Shaka finalmente pode se livrar daquela carcaça nauseabunda arrastando-se para o lado e a teleportando para longe dali, depois passou a observar Seth no lago enquanto sua mente divagava melancólica.

Passaria o resto da eternidade daquela maneira?

Ainda amaria Mu se ele nunca mais voltasse a sua forma humana?

“Queria tanto lhe mostrar o Mundo Novo, meu amado... Mas, temo que as paredes de rochas dessa caverna sejam tudo que verei pelos próximos anos, até que tenhas instaurado o Caos na Terra e então... Quando não houver mais nada, o nada o consumirá para sempre.”, pensou imerso em angústia. Estava ainda se recuperando das punições que sofrera pela última “fuga”, mas a tristeza era o que na verdade o debilitava mais.

No lago, bastante satisfeito com a refeição farta de momentos antes, Seth sentia-se mais calmo. Rolava na água e brincava distraído com os peixes bioluminescentes que viviam ali.

Saltou para fora quando sentiu os pelos limpos, então balançou o enorme corpo para tirar o excesso de água e escalou de volta o paredão de rocha para regressar à toca, onde estava seu prisioneiro.

A primeira coisa que fez foi conferir se ele tinha comido a carcaça, e não a vendo ali ficou satisfeito.

Encarou o rosto de Shaka, o vendo todo sujo de sangue seco, então sentindo a tristeza que vinha dele o puxou para junto de si e passou a lambê-lo com demasiado zelo.

Seu instinto lhe dizia que deveria limpa-lo e cura-lo de possíveis feridas que o faziam sofrer, sem sequer passar por sua mente limitada que o sofrimento daquela pequena criatura não era físico e sim emocional.

Quando não deixou mais nenhum vestígio de sangue sobre a pele pálida do sumo sacerdote, Seth o aninhou em seus braços para que dormissem, mas, diferente das noites anteriores não colocou seu peso sobre ele, o deixando livre, então encostou sua cabeça próximo ao rosto de Shaka para que pudesse olhar em seus olhos.

Seth não tinha consciência, mas algo naquele vampiro, sua beleza extraordinária, seu odor instigante, sua presença familiar, mexia demasiadamente consigo, como o gotejar insistente de uma goteira que lhe perturbava. Sentia uma necessidade visceral de o manter próximo a si e seguro. Queria poder de algum modo acabar com o medo e a tristeza que via quando olhava diretamente nos olhos dele.

Assim como Seth, Shaka também não conseguia tirar os olhos da mirada hipnótica da Besta, pois esta, apesar de toda a metamorfose que sofrera, ainda parecia guardar no fundo das pupilas fendidas a essência de seu companheiro Nut.

Bem que tentou evitar e reprimir suas emoções, porém depois do dia todo aguardando angustiado o retorno de Seth, era com alívio, amor e saudades que Shaka olhava para ele. Saudades de Mu, do pouco tempo que estivera com ele, mas que valera muito mais que milênios infindos de existência...

Num rompante inconsciente Shaka ergueu o braço e tocou o focinho de Seth com delicadeza fazendo uma carícia. Surpreendeu-se ao ver que, diferente das outras vezes, a criatura não ofereceu reação, permanecendo dócil e imóvel, enquanto ainda lhe encarava com vigor, o que era surpreendente, pois desta vez não o estava hipnotizando através do Serpentis. Então, rendido pela falta que sentia do amado, e dominado pela saudade, Shaka deixou-se levar e esticou-se todo para acariciar a pelagem arroxeada sem relutância ou medo, com toques suaves e ternos.

“Ainda não acredito em como o destino foi cruel conosco. Eu o amo... Mesmo que esse amor agora custe a minha existência e todo o destino do mundo.”, disse usando telepatia, sem esperar resposta e sabendo que a Besta não o compreendia, mas precisava desabafar todo aquele sofrimento e angústia que assolavam sua alma condenada.

“Sinto tanto a sua falta, Mu, que sua ausência me causa dor física. Meu peito dói, meu corpo definha... A Besta sabe, ela sente, mas não há nada que ela possa fazer para me curar... Eu preciso de você.”

Triste o sumo sacerdote se aninhou na curva do pescoço do Nut e pousou a cabeça sobre sua garganta o abraçando com força, então fechou os olhos.

Seth era tão grande que seus braços mal conseguiam lhe rodear o pescoço.

Abria seu coração tanto para seu companheiro, quanto para o demônio que o habitava, em um perigoso momento de fraqueza.

“Eu o amo tanto... Te amei quando ainda apenas acreditava em sua existência, depois te amei quando o vi pela primeira vez sem saber quem de fato era, e ainda o amo agora. Sempre te amarei através dos milênios até o fim de todas as coisas, Mu... Volta para mim... Será que pode me ouvir? Será que consegue sentir o meu amor? Se isso não for possível, então por favor, Seth, eu lhe rogo que não me condene a uma eternidade de tristeza. Acabe de uma vez com meu sofrimento.”

Como imaginado não houve nenhuma resposta. Ao contrário, a criatura parecia ignora-lo completamente.

Imerso em um sentimento terrível de derrota, o sumo sacerdote então se deixou consumir pela tristeza. Embrenhou-se ainda mais entre os pelos da fera, buscando algum conforto, pelo menos agora ela se deixava abraçar, e quando Shaka não esperava mais resposta alguma, eis que o inesperado aconteceu.

Do fundo da garganta de Seth um som grave e repetitivo soou tão forte que fez vibrar toda a carne que envolvia sua garganta. Assemelhava-se ao barulho de um fraco motor e pode ser claramente ouvido e sentido por Shaka, que arregalou os olhos na mesma hora, assustado.

Poderia parecer loucura, ou quem sabe fruto de sua imaginação devido ao desespero, mas a Besta parecia estar ronronando. O que era completamente absurdo, já que o ronronar é produzido automaticamente pela passagem de ar pelas cordas vocais de um felino no ato da respiração, quando este está em momentos de relaxamento ou alerta, porém os mortos não respiram.

Shaka não somente sabia disso como conhecia o significado implícito do ronronar para os felinos, que era: continue o que está fazendo!

O sumo sacerdote quase recomeçou a chorar tamanha a emoção que o tomou ao sentir aquela vibração constante. Sem pensar duas vezes, continuou a acariciar os pelos em torno do pescoço da Besta, em completo espanto e assombro, pois podia estar naquele simples gesto a chave de toda a questão.

Se Seth não respirava, mas estava ronronando, significava que movia seu tórax de maneira voluntária e proposital para atrair o ar para dentro dos pulmões e depois expeli-lo produzindo o som. Ou seja, era claramente um ato racional, pensado e muito bem intencionado.

Shaka não conseguiu mais conter a emoção e deixou escapar um sorriso que veio junto de uma lágrima, a qual tinha o tom e o sabor de uma esperança renovada, já que para um vampiro sangue significa vida.

Aquele ronronar só podia ter um significado. Mu estava tentando se comunicar, uma vez que a Besta não falava, e o ronronar foi a linguagem que o Nut encontrou para avisar a Shaka que estava ali, que mesmo aprisionado naquele corpo feral e hediondo sua consciência ainda estava viva em algum canto da mente primitiva daquela criatura, e que o estava ouvindo.

Tentando controlar a euforia, pois para Shaka estava claro que era Mu quem estava por trás daquele sinal, o Setita enxugou a lágrima com as pontas dos dedos, voltou a abraçar o amplo pescoço de Seth e lhe depositou um beijo sobre o pelo espesso.

“Eu entendi seu recado, Mu. Eu vou te trazer de volta, meu amado. Nós vamos conseguir.”, falou por telepatia, e sua voz ecoou na mente na fera que deu um fraco sibilo sem nem abrir os olhos, já quase entregue ao sono, apenas se remexendo no lugar para aninhar o corpo do sumo sacerdote ao seu, e quando estavam bem juntinhos e encaixados, e a Besta encontrava-se vulnerável, e com a mente entorpecida pelos instantes antes do adormecer, o som do ronronar se intensificou ainda mais.

O corpo todo da Besta agora ressoava abraçado pelo sumo sacerdote, e ali Mu e Shaka finalmente se reencontraram depois de dias separados um do outro.

Com a alegria da descoberta Shaka adormeceu nos braços de Mu e de Seth, decidido com aquele sinal a mudar sua postura frente à fera.

Todas as tentativas anteriores falharam, ou resultaram apenas em mais violência por parte da Besta. Seu momento de fraqueza e entrega é que fora a chave do seu pequeno sucesso. Por isso, se antes procurava domá-la numa disputa de força e influência, agora aceitaria sua condição submissa.

Não era com força e dominância que ia trazer Mu de volta, mas com paciência, estratégia e amor.

Notas finais
Como vocês puderam, temos cenas de estupro e necrofilia. Porem deixamos o tema de modo superficial, pois não é nosso intuito fazer cenas chocantes e bárbaras. Poderíamos ter descrito o ato em detalhes mas acreditamos que não é necessário levar o texto a tal ponto apenas para chocar os leitores. Espero que tenham gostado do capítulo e estamos só a 2 do fim =X um grande beijo a todos que nos acompanharam até aqui. Tumblr da Rosenrot https://rosenrotstuff.tumblr.com/ Nosso grupo no face " Fics trio ternura" : https://www.facebook.com/groups/1522231508090735/ Grupo do mushakismo, pra quem gosta de Mu e Shaka https://www.facebook.com/groups/554678934699718/