A Máscara de Seth
25 Capítulo 25
Notas iniciais

Após a noite no Egito, onde Shaka e Mu fortaleceram alguns dos membros do clã Setita com o ritual milenar do Sanguienem Mitto, e Afrodite se instalara na mansão de Camus na França, ao meio dia do dia seguinte na Romênia, um caminhão frigorífico estacionava na área dos fundos da mansão presidencial, sede do Conselho vampírico.
Dentro dele, além das peças de frios que eram entregues rotineiramente para a alimentação dos mortais que ali viviam, entre servos, carniçais e humanos que serviam de bolsas de sangue apenas, cerca de vinte e cinco membros do clã Espectro das Sombras, que compreendiam a elite em matéria de hierarquia de poder, colocavam em ação o plano traçado na noite anterior pelo general Radamanthys.
Entre eles, Minos, Lune, Flégias e o próprio líder do clã das Sombras, Hades, infiltravam-se com facilidade nas dependências da morada de Saga e boa parte do clã Patricii, escondidos no caminhão.
A estratégia traçada por Radamanthys era ousada. Consistia em invadir o Conselho à luz do dia para pegar desprevenidos tanto os Patricii que compunham a guarda pessoal do Presidente, quanto vampiros de outros clãs que ali estavam a serviço do Conselho. Uma tocaia, por isso a manobra exigia ser executada por um grupo tático altamente treinado e poderoso.
Apesar de arriscado, o plano de Radamanthys foi muito bem aceito por Hades, que já havia infiltrado espiões há algum tempo naquela sede e, por isso, conhecia a rotina de Saga e seu clã.
Era uma prática usual dos Espectros das Sombras manter espiões humanos nos clãs mais influentes e poderosos do mundo vampírico para constante vigia.
A medida era genial. Os Espectros conseguiam informações valiosas dos inimigos ao mesmo tempo em que recrutavam servos leais e obstinados que no futuro engrossariam o contingente do clã que já era o mais populoso daquela Era.
Esse sistema de recrutamento baseado na recompensa foi implantado por Radamanthys há algumas décadas, e consistia em uma postura de acordos baseados na fidelidade entre os participantes. Para Hades e todo o clã, era a forma mais fácil de conseguir informações cruciais para lhes colocar à frente dos demais clãs, mas para Radamanthys era muito mais que isso. O experiente ex-general nazista aos poucos ganhava a admiração e o respeito dos novos membros do clã das Sombras, já que lhes atingia em seu ponto mais vaidoso e primitivo, a ambição!
Radamanthys recrutava cada vez mais mortais os seduzindo com o sonho partilhado por todo e qualquer ser humano, a imortalidade. Através de acordos e trocas simples o pagamento era feito, então mais um servo fiel a seu senhor nascia, disposto a entregar a própria vida para segui-lo onde quer que ele fosse, sem saber que a paga que o nazista lhes oferecia era uma existência imortal de geração medíocre.
Mas isso não importava a Radamanthys e principalmente a Hades, já que o que eles precisavam de imediato era um grande contingente de vampiros obedientes para poderem dar início ao golpe que há séculos traçavam. Precisavam de números e não de poder.
O poder viria depois. Assim que tomassem o Conselho derrubando Saga dos Patricii e desvendassem o segredo do Serpentis, um extraordinário poder contido no sangue de Shaka dos Seguidores de Seth.
Hades e Radamanthys acreditavam que com o Serpentis seriam capazes de dominar o mundo, tanto dos homens quanto dos vampiros, uma vez que esse dom, um legado do próprio Seth segundo as Escrituras Setitas, concedia a seu detentor a capacidade de despertar um medo primordial em qualquer criatura, vivente ou não, permitindo, assim, sua submissão e controle total.
E o domínio através do medo era tudo que Hades mais desejava, e esse desejo tão vaidoso quanto insano foi o que levou o líder dos Espectros a estar ali, naquele caminhão, entre peças de carnes e caixas resfriadas de enlatados, prestes a por em prática uma estratégia de ataque tão genial quanto suicida.
Através das informações levantadas pelos espiões Espectros, souberam que os Patricii nutriam apreço pelo refino e conforto, e que esse se estendia também a sua dieta. Ali, Saga e os membros mais poderosos mantinham um rebanho de humanos cativos com o qual se alimentavam diariamente. Era cerca de cinquenta pessoas, todos jovens, muito belos, saudáveis, e que foram escolhidos a dedo para a missão de servir a todos os moradores da sede.
Sabendo da rotina da população que vivia ali, na noite que precedia a invasão um enviado dos Espectros, treinado para ser silencioso e invisível tal qual uma sombra sorrateira em noite sem luar, invadiu a sede do conselho e envenenou a água dos humanos com um elixir inodoro de ação imediata. O veneno de curto prazo não era nocivo ao gado, mas aos imortais agia como um entorpecente.
Uma vez ingerido por vampiros o veneno agia de forma rápida causando sonolência, mas o seu poder destrutivo se mostrava de fato no momento em que a vítima tentasse usar seus dons do sangue, ou mesmo quando assumisse sua forma vampírica, provocando um dano devastador em sua fisiologia, uma vez que alterava a composição do sangue afetando sua capacidade de coagulação. Assim, a forte hemorragia atingiria desde as fibras musculares, causando paralisia flácida, até o coração, dificultando a oxigenação cerebral e capacidade cognitiva.
Radamanthys tinha pensado em tudo.
Não existia na Terra um antídoto que agisse de imediato contra esse veneno, dada a dificuldade de sua fabricação pela raridade dos ingredientes e condições ideais de preparo. No entanto, repouso absoluto e sangue fresco em abundância bastaria para que a vítima se restabelecesse em poucas horas, mas era justamente para impedir esse fato que Hades estava pessoalmente naquele caminhão, na linha de frente da batalha e em plena luz do dia. Aproveitariam da fraqueza do inimigo não lhes dando a possibilidade de se recuperarem.
Foi quando o Sol atingiu o ponto mais alto no céu que o passo mais arriscado do plano suicida dos Espectros das Sombras teve início. A invasão propriamente dita.
Armados até os dentes com balestras carregadas com finas estacas de madeira, espadas e adagas com lâminas enfeitiçadas e toda a sorte de armas de fogo que traziam no pente balas banhadas à prata, os vinte e cinco vampiros, mais seu poderoso líder, desceram do caminhão frigorífico assim que este estacionou estrategicamente nos fundos da mansão, dentro da garagem blindada contra luz solar.
Os vampiros e carniçais que montavam a guarda ali foram rapidamente abatidos sem que nenhum ruído fosse produzido.
Igualmente silenciosos os Espectros adentraram a propriedade por um corredor que levava à cozinha, atravessando, em seguida, todo o pátio da dispensa até alcançarem o lugar onde, naquela hora, havia uma grande movimentação de funcionários que preparavam o almoço para o gado. Os que portavam armas com silenciadores assumiram a frente e abateram cerca de dez carniçais, outros usaram seus dons contra vampiros menores que por ali perambulavam supervisionando o serviço dos humanos, os dizimando em segundos.
Hades vinha por último, observando com seus olhos fantasmagóricos a sede do Conselho ruir aos poucos sob seus pés.
Antes de prosseguirem para o corredor que dava acesso à parte principal da construção, onde estava concentrado o maior número de inimigos, a formação parou, esperando as orientações de seu líder.
Após a declaração de guerra na noite anterior, era de se esperar que a segurança da sede do Conselho, que por si só já era pesada em tempos de “paz”, fosse reforçada em primeira instância, portanto não foi surpresa alguma para os Espectros encontrar tantos vampiros naquele local. A surpresa de fato ficaria para os Patricii, já que nem em sua mais delirante imaginação poderiam prever que o clã de Hades lhes armaria uma emboscada tão imediata, e em plena luz do dia.
Assim que Hades lhes inclinou a cabeça dando o aval para que prosseguissem, os vinte e cinco vampiros seguiram pelo corredor que levava ao amplo espaço que compreendia a sala de jantar e uma enorme biblioteca, ambas no primeiro andar da mansão. Pararam em frente à porta, esperando a ordem de seu líder para invadir.
Usando seu dom de sangue, Hades fechou os olhos e através das sombras das velas que se projetavam do outro lado do recinto pode ver o que os aguardava. Quarenta homens, carniçais treinados e armados, faziam a vigília. Alguns se punham ao pé da escadaria que levava ao segundo andar da morada, mas a grande maioria se amontoava em outro setor do cômodo. O pórtico que dava acesso ao porão.
Os Espectros não se intimidaram nem um pouco com o número de sentinelas, e quando Hades lhes deu uma ordem muda arrombaram a porta e invadiram o recinto, limpando rapidamente o local sem dar chance aos serviçais do Presidente do Conselho de disparar um só tiro.
Hades então separou o grupo em dois, e mandou que o primeiro subisse pelas escadas, enquanto o segundo rumasse para o porão, onde acreditava estar os vampiros mais poderosos do clã Patricii, incluindo Saga.
Quando o primeiro grupo chegou ao topo da escadaria, sua ação furtiva foi denunciada por um dos oito carniçais que fazia a guarda do primeiro corredor do segundo andar. Todo o grupo invasor era rápido e eficaz, mas não o suficiente para impedir que um dos últimos homens daquela ala acionasse o alarme de emergência, o qual disparou ruidoso acordando toda a mansão.
Em segundos, sobressaltados os moradores mortais, e também alguns vampiros, deixavam os quartos aos gritos e urros guturais para em seguida caírem mortos abatidos por tiros direto em suas frontes ou por estacas de madeira atravessadas em seus peitos.
Humanos que residiam ali fazendo companhia a seus senhores, imortais de clãs aliados e também do clã Patricii, todos, um a um, iam sendo abatidos como moscas.
O elemento surpresa já havia caído por terra naquela hora, e a ordem agora era eliminar todo e qualquer morador daquela sede, não deixariam testemunhas. Uma verdadeira chacina.
Em poucos segundos o corredor amplo de decoração requintada e luxuosa se tornava um cenário dantesco, de morte e horror desmedido.
Em uma euforia caótica, humanos corriam sem rumo tentando se salvar, vampiros tentavam lutar, mas, envenenados como estavam, quando conseguiam desviar das estacas e tentavam fugir fatidicamente eram pegos pelos Espectros que utilizavam de seus poderes das sombras para executa-los em segundos.
O chão logo se tornou um grande tapete de corpos fétidos mutilados e ensanguentados, e nele agora os Espectros caminhavam com suas pesadas botas de sola de borracha dura, avançando, matando, eliminando.
Contudo, o massacre no segundo andar da mansão estava longe de atingir um só dos lados.
Mesmo que com muita dificuldade os Patricii que protegiam o presidente, tanto os que dormiam no segundo andar, quanto os que, mais fortes, repousavam no porão, partiram para a reação tão logo ouviam gritos de horror ecoarem pela morada. Mesmo em clara desvantagem armaram sua defesa, e o plano de Hades e dos Espectros começava a não ser tão eficiente como ele e Radamanthys imaginaram.
Ao que o grupo de invasores alcançou a passagem que dava para um segundo corredor onde ficavam outros quartos, um contingente significativo de Patriciis e vampiros de clãs aliados leais ao Presidente já os aguardava em guarda. Eram em torno de cinquenta membros, a maioria de gerações altas a ponto de serem percebidas e temidas pelos Espectros, apesar da debilidade que o veneno lhes impunha. Abatidos, sonolentos, vertendo sangue pelos olhos, boca e nariz, eles bravamente se perfilaram e em uma ação ensaiada avançaram sobre os invasores, os inimigos declarados do Conselho.
Concomitantemente, na galeria subterrânea que dava acesso ao porão da mansão, a mesma carnificina ocorria.
Vampiros ferozes, movidos por um ódio e fúria primitiva, lutavam com tudo que tinham. Armados com o que encontrassem às pressas em seus aposentos ou câmaras de descanso, como pistolas, escopetas, espadas de diversos tipos, adagas e até mesmo tacos, Patriciis avançavam contra os Espectros usando também seus dons de sangue quando conseguiam.
Mesmo envenenados e com suas habilidades severamente comprometidas, os Patricii não eram oponentes fáceis. Em combate eram extremamente temerários, autoconfiantes, fortes e rápidos. Todos muito bem treinados e peritos em combate corpo a corpo e manejo de armas de todas as espécies, de fogo ou brancas, formando uma poderosa defesa que não era facilmente atravessada.
Os Espectros das Sombras se esforçavam ao máximo para derrubar a defesa dos Patricii, tanto usando de armamento bélico quanto do controle das sombras, mas eles eram muitos, e tinham a vantagem de estar lutando em território conhecido, usando as galerias e câmaras a seu favor para se esquivarem dos golpes dos invasores. A vantagem numérica dos Patricii logo fez a diferença e Hades percebeu que teria que colocar em prática seu Plano B.
Enquanto assistia a seus soldados caindo em combate, um a um, mas ainda assim resistindo com bravura e eficácia ao contra-ataque do Conselho, o líder dos Espectros das Sombras decidiu partir para o objetivo principal daquela batalha: executar o Presidente.
Hades então usou o dom do sangue que lhe conferia a capacidade de se movimentar incauto pelas sombras para fugir daquele combate inútil entre vampiros menores e seguir corredor adentro em busca de Saga.
Com ele foram Minos e Lune, dois de seus soldados mais poderosos, que usaram da mesma técnica para escapar da turba de vampiros que se digladiavam em fúria insana. Logo chegaram a uma grande porta de madeira maciça entalhada com figuras luxuosas que representavam anjos e demônios.
— É aqui. — sussurrou o líder dos Espectros estreitando os olhos faiscantes — Já posso sentir o cheiro pútrido daquele miserável Patricii...
— Início do Flashback -
Momentos antes, assim que ouviram os primeiros gritos e alertas ecoarem pelas galerias, Saga se ergueu de seu caixão na companhia da esposa, ambos alarmados até o último fio de seus cabelos, já sentindo os devastadores efeitos do veneno agirem em seus corpos mortos.
Mesmo que suas gerações fossem das mais baixas de seus clãs, sendo os mais poderosos dentre os seus, e ambos compartilhando do mesmo dom vampírico da Fortitude, o qual lhes conferia maior força, vigor e resistência física, ainda assim não puderam se manter ilesos ao poderoso veneno que aos poucos consumia seus corpos.
Na noite que precedeu o ataque, assim como em todas as anteriores, o casal presidenciável banqueteara-se do gado que residia na sede. Dentre todos os imortais que dividiam aquela morada, o Presidente era o que mais se fartava todas as noites. Um hábito antigo que agora selaria seu destino. Seu e de sua consorte, uma vez que Geisty dividia o banquete consigo todas as noites, fartando-se do gado em igual proporção.
O primeiro golpe cruel daquela emboscada se deu quando, despertos pelo barulho do outro lado da porta, ainda zonzos e confusos, Saga e Geisty ativaram seus poderes vampíricos. O agressivo veneno imediatamente acometeu seus corpos os fazendo sofrer espasmos violentos e experimentarem uma dor excruciante.
Em agonia apoiaram-se um ao outro para se manterem de pé. Apesar do dom da Fortitude, nada podiam fazer contra a falta de coagulação e o enfraquecimento muscular. Suas mentes também sofriam com o efeito nefasto daquela poção amaldiçoada. Estavam confusos, sonolentos, enquanto sangue começava a escorrer de seus olhos, narizes e bocas de forma incontrolável.
Geisty, em estado mais débil que Saga, sofreu um espasmo súbito levando a mão à boca na tentativa de conter o sangue viscoso e fétido que dela vertia. Segundos depois afastou a mão e olhou para os dedos sujos.
— É... é veneno! — murmurou em voz entrecortada a cigana, que apoiada nos ombros do companheiro tinha o semblante em assombro — Mas... como? — ergueu os olhos e encarou a face contorcida do amado.
— Como... Ainda não sei, mas... quem... — grunhiu o Patricii, que tentava manter-se equilibrado sobre as próprias pernas. Uma violenta vertigem teimando em atirar-lhe ao solo —... Posso presumir.
— Hades. — Geisty exclamou em espanto.
— O quê? — Saga interrogou alarmado.
— Hades está aqui... eu posso... senti-lo! — sussurrou a cigana segurando com firmeza nos braços do amado enquanto direcionava o olhar para a porta maciça de madeira. Do outro lado, os gritos, sons de pancadas e tiros pareciam ficar cada vez mais nítidos — Os Espectros... posso sentir o ódio deles... Hades veio tomar o Conselho! — fixou seus olhos de brilho violáceo nos heterocrômicos do companheiro de tantos séculos e pronunciou o que mais temiam.
— Então o miserável veio até aqui pessoalmente para tomar o Conselho e nos eliminar... — o Presidente sussurrou, então de súbito seu semblante em agonia se transfigurou numa expressão de puro ódio e fúria desmedida —... Tolo! Este Conselho jamais pertencerá a uma escória como ele e seu clã decadente, e nós... nós jamais nos renderemos!
Geisty ergueu a cabeça procurando equilibrar-se por si própria. Apesar da dor, dos espasmos e da debilidade, a cigana iria cumprir o papel para o qual escolheu estar ali, ao lado do homem que amara através das Eras.
— Jamais... meu amado. Estou com você. — ela sussurrou.
— Mesmo que todas as nossas defesas caiam... Mesmo que o Conselho sucumba a essa guerra maldita... Mesmo que esse seja o nosso último ato, Geisty, minha amada, levaremos Hades conosco. — o Presidente esticou o braço e trouxe para junto de si a companheira. Beijou-lhe a fronte ternamente, sendo abraçado pela vampira que agora descansava a cabeça em seu ombro.
— Juntos até o fim. — disse Geisty.
— Juntos até o fim. — ele repetiu e momentos depois soltou-se dos braços da cigana e caminhou trôpego até uma parede de pedras lisas que ficava no fundo do cômodo onde, presa a um suporte de ouro, estava sua antiga espada, legado de quando foi um cavaleiro templário.
Saga tentava, mesmo que de forma pouco eficiente, contornar os efeitos do veneno em seu corpo usando gradualmente seus dons vampíricos, mas isso cobrava um alto valor de si, pois sua sede em breve seria voraz, dolorosa, principalmente para seu estado debilitado.
Já Geisty tentava se concentrar para controlar o cansaço físico que lhe atingia cada fibra muscular. Cambaleante caminhou até o lado oposto da mesma parede ao fundo da câmara até alcançar um baú de mogno com detalhes em cobre, que ao ser aberto revelou um arsenal de armas brancas.
Com agilidade a cigana amarrou junto à sua cintura um coldre de couro, e nele prendeu dois punhais mouros na parte traseira e um do lado esquerdo. Nos coldres dos antebraços prendeu adagas médias, e em cada coxa fixou um coldre que continha mais quatro pequenos punhais. No tornozelo prendeu uma faca curta.
De dentro do baú também apanhou uma cinta grossa de couro munida com um punhal longo à esquerda e uma adaga à direita. A prendeu na cintura de Saga, e enquanto o fazia aproveitava para divisar, atenta e apaixonada, seu rosto severo uma última vez antes partirem para a luta.
— Fim do flashback –
Saga tomou a frente partindo em disparada em direção à porta, com a espada templária em punho, pronto para se juntar à batalha que acontecia fora da frágil segurança de seu aposento, mas antes mesmo que conseguisse chegar à porta uma sombra, densa e soturna como a mais negra das noites, esgueirou-se pelo vão entre a madeira e o piso escuro do quarto, ganhando forma de tentáculos longos e vorazes que serpentearam alucinados em busca do alvo.
Era Hades invadindo o aposento em sua forma sombria.
O Presidente do Conselho recuou com um salto ligeiro para trás, enquanto Geisty apressadamente fez uso da Ofuscação, sua habilidade de se manter incólume, para poder correr até uma das pilastras de mármore que sustentavam o aposento, escondendo-se ali dos tentáculos negros que varriam o chão.
Tanto a cigana quanto o Patricii sabiam que Hades, mesmo sendo o vampiro mais poderoso de seu clã, não seria capaz de sustentar por um período longo uma batalha em sua forma tenebrosa, por isso Saga avançou contra os tentáculos com todo o potencial que era capaz.
Entre um golpe e outro da afiada espada do Patricii, o líder os Espectros das Sombras enfim retornou à sua forma original, partindo também para o ataque com fúria desmedida.
O que Hades não esperava era que Saga ainda possuísse uma incrível resiliência contra seus golpes mesmo sob o efeito poderoso do veneno.
A cada ataque brutal do Espectro, o Patricii revidava com um ainda mais feroz, fazendo uso de toda sua experiência de ex-comandante Templário, atingindo Hades em cheio com golpes de espada em diversas partes do corpo.
Logo ficou claro para o líder Espectro que sozinho não conseguiria derrubar aquele vampiro, mas felizmente seus dois fieis soldados haviam vindo consigo.
Lune e Minos se juntaram ao combate dentro da alcova do Presidente do Conselho também passando pela fresta inferior da porta ao assumirem suas formas tenebrosas. Duas sombras odientas que rastejaram pelo solo entre os moveis até reassumirem suas formas originais e se colocarem em posição de ataque, de frente para Saga.
Na iminência do ataque, o Patricii, ágil e habilidoso, agiu primeiro surpreendendo a ambos, os atacando primeiro com sua espada.
Minos esgueirou-se para a esquerda a fim de fugir do golpe e pegar Saga em um contra-ataque, enquanto Lune partiu para a direita, mas com um giro no ar tão veloz quanto um raio que corta o céu tempestuoso, Saga surpreendeu o Espectro em seu curso e com um golpe certeiro lhe decapitou.
O ruído seco da cabeça de Lune a rolar pelo assoalho escuro do aposento chocou, e ao mesmo tempo chamou a atenção de Hades e Minos.
Ambos agora olhavam atônitos para a sombra do Espectro, antes espalhada pelo cômodo, se recolher ao perímetro de seu corpo destruído no chão.
Um urro encolerizado trovejou pelo cômodo. Hades, tomado em fúria insana, avançou novamente contra o Presidente retomando a batalha ferrenha, agora com o reforço de Minos.
Para o assombro de ambos os Espectros, mesmo débil e ferido o Presidente parecia ainda mais ágil em seus movimentos. Sua esquiva mais parecia um bailar ensaiado, e suas mãos lépidas agora faziam zunir no ar as lâminas de dois punhais mouros implacáveis.
Além da extrema agilidade, força e poder de ataque, outro fator também surpreendia a dupla de Espectros. Eles não eram capazes de manipular a sombra do Presidente do Conselho, o que os colocava em uma situação de desvantagem, dada a perícia na luta corpo a corpo que o Patricii possuía.
— Pelos infernos! — rosnou o líder Espectro — O que está acontecendo?
Definitivamente aquilo não estava nos planos de Hades.
Era certo de que conseguiria manipular a sombra de Saga e usa-la contra ele, até que algo surpreendente aconteceu bem diante de seus olhos alucinados.
No mesmo instante em que Hades erguia sua adaga junto a Minos, para golpear o Presidente, sua visão periférica avistou um vulto que em segundos ganhou forma e avançou sobre si com as ganas de uma besta sedenta.
Ágil, Hades girou o corpo para o lado e não pode acreditar no que seus olhos lhe mostraram.
Ali estava Saga. Idêntico ao que lutava concomitantemente contra si e contra Minos, e na perplexidade daquela visão absurda que por milésimos de segundos lhe distraiu teve o peito atravessado pela espada afiada empunhada pelo Patricii, que por muito pouco não acertou seu coração.
— Argh!... Não... pode ser! — urrou o líder dos Espectros encarando os olhos flamejantes de Saga sobre si — Como pode... haver dois de... você?
Nenhum dos espiões que mandara aquela sede havia lhe informado acerca da duplicidade do Presidente.
Agora chegava a pensar que era devido à ela os banquetes sempre tão opulentos que Saga exigia para si todas as noites. Precisava alimentar duas bocas, e durante décadas o Conselho era enganado.
Hades havia engendrado uma tocaia, mas era ele quem havia caído nela.
No entendo, nem tivera tempo para refletir no que acontecia.
Com uma ferida profunda na lateral do tórax e a lâmina da espada de Saga ainda cravada em si, Hades agora lutava para desviar de um segundo golpe, agora de punhal longo, contra seu pescoço.
— Maldita escória! — bradava o Presidente ao desferir um golpe atrás do outro.
— Meu senhor! — gritou Minos, que mesmo ainda lutando contra o outro Saga mantinha-se atento ao mestre.
Com dificuldade Hades consegui arremessar um móvel contra Saga e usar os poucos segundos de vantagem para remover a espada cravada em seu torso. Livre dela fez uma nova tentativa de usar seu dom das trevas contra o Patricii, e dessa vez teve sucesso, finalmente aprisionando Saga em seus tentáculos de sombras.
Oportunista como era, o líder dos Espectros partiu em direção ao Patricii desenrolando uma luta corpo a corpo desleal, já que mantinha Saga preso pela sombra, limitando seus movimentos já prejudicados tanto pelo veneno em sua corrente sanguínea como também pela fome.
Rolavam por cima da mobília e pelo chão, e em meio a essa luta violenta o Presidente conseguiu sacar de seu coldre preso à cintura uma adaga, a qual tentava cravar a lâmina no coração do Espectro abaixo de si, que a todo custo segurava suas mãos o impedindo de realizar o golpe.
Enquanto Saga e Hades se digladiavam, no outro canto do aposento Minos enfrentava o outro Saga.
O que o soldado Espectro não sabia era que aquele era uma mera ilusão. Seus olhos viam a figura imponente e poderosa do Presidente do Conselho, sem se darem conta de que era com Geisty, a bela e letal Pietone, com quem lutava na verdade.
Esse era um dos dons das trevas da cigana. A ilusão. E era com ele que ela enganava e manipulava o Espectro.
Minos tentava, inutilmente, manipular a sombra da Pietone, mas esta o impedia apenas utilizando seu dom de sangue, uma vez que sua geração era muito menor e mais poderosa, deixando a luta em clara desvantagem para o Espectro.
Ágil e fatal, a cigana golpeava o invasor com múltiplos golpes, mal lhe dando chances de revidar ou mesmo se defender. Foi quando ouviu o tilintar estridente de metal raspando contra o solo de pedra escura. Levantou o olhar para conferir a luta do companheiro com o líder Espectro e com perplexidade e pavor viu quando Hades cravou a própria espada de Saga contra o peito do Patricii, sentindo imediatamente a mesma dor, já que partilhavam do elo de sangue.
— NÃO!
O grito de terror da cigana retumbou pelo ambiente, chamando imediatamente a atenção de Hades, que desviou os olhos da figura moribunda do Presidente a agonizar sob si e então viu a cigana, agora em sua plena forma, livre de ilusões.
— Mas o que... — balbuciou o vampiro de longos cabelos negros e olhos de magma.
O líder dos Espectros das Sombras ainda tentava entender quem era, e o que fazia ali, aquela mulher, quando a viu girar ambos os punhais mouros no ar e cravá-los, num só golpe, nos olhos de Minos, atravessando seu crânio com extrema facilidade.
No instante seguinte a vampira retirou do coldre do antebraço esquerdo uma adaga média e num golpe fulminante decapitou o Espectro, separando cabeça de corpo. Somente quando ela saltou, feito fera que dá o bote na presa, sobre si foi que Hades, num momento rápido recuou, abandonando o corpo do Presidente.
— Saga! — ela gritou em desespero, então segurou na empunhadura da espada e com um tranco livrou o amado dela — Saga!
— Geisty... — balbuciou o Patricii levando uma das mãos à ferida e cuspindo para o lado o sangue enegrecido que lhe vertia pela boca.
Enfurecida, a cigana virou-se para Hades. Seus olhos soltavam faíscas púrpuras.
— Maldito! Eu vou acabar com a sua existência! — ela gritou antes de avançar contra o Espetro.
Hades sustentou o olhar fixo e colérico da Pietone contra si, ainda se perguntando quem era ela e o que fazia ali, mas sem deixar a concentração na luta lhe distrair, e a poucos centímetros da lâmina da adaga de Geisty lhe atingir ativou seu dom das trevas e usou as sombras para se defender.
Seus tentáculos enrolaram-se nos pés da cigana a arremessando contra uma enorme estante de madeira.
Em choque ele olhou para a vampira sem acreditar no que via, e pela primeira vez desde que invadiu aquela sede temeu por sua situação.
— Não pode ser! Uma... Pietone! — sussurrou com a voz trêmula ao reconhecer a que clã aquela vampira pertencia devido suas características físicas, tais como a pele morena, os olhos violetas, que em sua forma vampírica faiscavam um brilho púrpura, e alguns dentes encapados com ouro. Além disso, ela usava joias características do clã cigano, o que facilitou seu reconhecimento imediato pelo Espectro.
Desesperou-se, pois se deu conta de que estava trancado em um aposento, sozinho, com um dos mais fortes membros dos Patricii e agora também com uma Pietone, cuja Presença nem mesmo fora capaz de sentir, o que já era um claro sinal de que era bem mais poderosa do que podia imaginar.
Estava definitivamente encurralado.
Contudo ele era Hades, o poderoso líder e criador do clã que regeria uma nova Ordem na sociedade vampírica, e não se deixaria intimidar, tampouco ser derrotado.
— Então você estava manipulando o Patricii e liderando o Conselho!... Ardilosa!... — caminhou lentamente em direção a ela, que agora estava estirada no chão em meio aos livros que caíram da estante com o impacto —... Como todos os de sua raça... Seria uma excelente aliada na minha gestão, mas eu prefiro descarta-la. MORRA!
As sombras que permeavam todos os objetos daquela sala, como em um passe de mágica transfiguraram-se em lanças negras, afiadas como a morte certa, que pairaram momentaneamente no ar até apontarem para Geisty, ao pé da estante, e para Saga, caído no meio do aposento.
Então com o comando de Hades elas foram lançadas contra os alvos, feito balas disparadas por arma de fogo... Mas de súbito pararam. Congeladas no ar.
— O QUÊ? — bradou o Espectro, alucinado.
Como um pesadelo lento e desesperador, as sombras sólidas de Hades aos poucos se dissipavam, e em meio à bruma escura que se formava em torno de seus pés surgiu a figura de Geisty, em posição de guarda e olhos injetados em fúria que vertiam sangue.
— Quem vai morrer aqui, hoje, é você! — rosnou a vampira, que na mesma hora sacou dos coldres presos em suas coxas dois punhais e os arremessou em direção a Hades, na altura dos olhos, repetindo o golpe com o qual tinha executado Minos.
Mas o líder Espectro não era o mais poderoso de seu clã à toa.
Ainda mais rápido que as armas que cortavam o ar em sua direção, Hades assumiu sua forma tenebrosa transformando-se em sombra e rastejou pelo piso, passando entre as pernas da cigana para depois materializar-se atrás dela.
Os punhais cravaram-se na parede na mesma hora em que o Espectro armava seu contra ataque, porém esse foi impedido por Saga, que mesmo debilitado como estava juntava-se à luta em defesa da amada.
Em uma estratégia desesperada, Hades novamente criou lâminas feitas de sombras e as atirou mais uma vez contra os dois vampiros, que agora avançavam sobre si coléricos, mas de novo elas foram congeladas no ar e se desfizeram como areia que escorre pelos dedos.
— Quimerismo! — o Espectro rosnou, depois saltou para trás desviando dos ataques diretos de Saga e Geisty.
Não podia mais usar suas sombras como armas, uma vez que o Quimerismo conjurado pela cigana agia diretamente em sua mente criando ilusões das quais ele não tinha como se defender, já que a vampira que as criava era bem mais poderosa que si.
Acuado, ferido e desesperado, ele viu quando a Pietone avançou com a adaga em mãos e o Patricii com a espada em punho. Seria abatido ali pelos dois e provavelmente canibalizado para sua completa humilhação.
Foi quando uma última, e tão ousada quando suicida, estratégia se desenhou na mente do Espectro.
Fixando febrilmente os olhos raiados de vermelho nas faces bestiais de Saga e Geisty, Hades assumiu sua forma tenebrosa transfigurando-se em sombra e deslizou com absurda rapidez pelo aposento até alcançar a fresta inferior da porta.
O Patricii e a cigana Pietone correram atrás dele, abrindo a porta com um tranco ligeiro a tempo de ver a sombra espectral deslizar pelo corredor, deparando-se com um ambiente completamente caótico.
Todo o carpete que recobria o espaço estava ensopado em sangue, assim como paredes, portas, teto e tudo que os cercava. Pelo chão, corpos mutilados, de Espectros das Sombras e Patriciis misturavam-se aos de humanos que moravam da mansão.
Mas não havia tempo para contarem seus mortos. A sombra de Hades logo ganhou as escadas.
— Não deixe que fuja! — gritou Saga saltando por entre os corpos. Geisty vinha logo a seu lado.
Conforme subiam para o primeiro piso da construção, o Presidente e sua companheira se deparavam com os últimos focos daquela luta sangrenta.
Os poucos Patriciis que ainda resistiam eram abatidos pelos moribundos Espectros restantes e a batalha na sede do Conselho encaminhava-se para seu trágico fim.
Fracos, debilitados e feridos, o casal sabia que sua chance de sobrevivência agora era quase nula, porém, se iriam deixar de existir levariam consigo o líder dos Espectros da Sombra.
A perseguição se deu ferrenha até que Hades, em sua forma de sombra, atingiu o segundo piso da casa correndo para a ala que compreendia os fundos da construção. Em seu encalço vinham, ferozes, Saga e Geisty.
O Patricii vinha mais à frente, quase alcançando seu inimigo, enquanto a cigana vinha mais atrás, bem mais atrasada, pois suas feridas e a intensa hemorragia a faziam tropeçar e fraquejar, a tornando lenta.
Quando Saga já estava no meio do enorme salão, quase alcançado Hades, o líder Espectro deslizou por entre os corpos no chão até uma das enormes janelas de vitral colorido que havia ali, as quais eram cobertas por grossas cortinas de couro marrom e veludo, e para completo assombro do Presidente do Conselho, ergueu seus tentáculos tenebrosos e golpeou a janela com força, estilhaçando vidro e rasgando o tecido da cortina, em uma manobra tão covarde quanto desesperada.
Como um demônio sedento, o Sol, em seu calor mais intenso, invadiu o ambiente lambendo com suas labaredas sagazes tudo que tocava, incluindo Hades, mas este se aproveitou de sua forma sombria e misturando-se à sombra dos móveis do ambiente arrastou-se até o corredor escuro mais próximo, extremamente ferido, fugindo dos raios mortais.
Surpreendido por aquela ação kamikaze, Saga, que estava muito próximo à janela quando esta foi quebrada, não teve tempo de se esquivar e foi atingido em cheio pela luz mortal do dia.
Seu grito de dor, choque e desespero ecoou por toda a sede do Conselho.
Seus joelhos se dobraram e ele foi ao chão enquanto o fogo consumia com uma velocidade incrível suas vestes, pele, cabelo, alma.
Geisty, que mais lenta ainda subia as escadas, teve tempo se proteger recuando escada abaixo quando viu a luz do dia inundar o recinto.
— NÃOOOOOOOOOOOO! — o grito da cigana era de dor, não apenas a compartilhada pelo elo com Saga, mas seu coração estava se consumindo junto ao do Patricii, seu companheiro através dos milênios, e seu único amor.
Um amor milenar, cultivado sob adversidades, pactos e juras amaldiçoadas, e que agora se extinguia tão rápido quanto o passar dos séculos para os imortais. Eram tão unidos que se transformaram em apenas um, e seria para ela impossível viver pela metade, sem Saga a seu lado.
Por isso, num último ato de desespero, Geisty soltou as adagas que trazia em ambas as mãos deixando que o aço produzisse um tilintar estridente ao se chocar com o chão.
Hades não importava mais.
O Conselho não importava mais.
Sua existência não possuía mais sentido.
Enquanto o Sol consumia o corpo robusto de seu amado, seu coração, já morto, experimentava uma dor ainda maior.
Não via sentido em manter sua existência sem que pudesse partilha-la com ele, então decidia galgou os últimos degraus da escada.
A cigana sentiu o corpo queimar assim que a luz do sol entrou em contato com sua pele. Mesmo em extrema agonia, e já sentindo as chamas a consumirem, Geisty caminhou trôpega na direção de Saga.
Com o olhar fixo na fogueira ardente a qual ele se tornara, a cigana prosseguiu cambaleante, já com o corpo completamente em chamas, até que caiu de joelhos diante dele e com um esforço hercúleo estendeu o braço para tocá-lo.
Mesmo ardendo pelo fogo voraz, Saga também estendeu o seu, segurando na mão da companheira com seus dedos de ossos carbonizados já prestes a virar cinzas.
De mãos dadas, Saga e Geisty ficaram pelos segundos finais que se seguiram, soltando um último suspiro guardado em seus pulmões mortos até que o Sol consumisse seus corpos completamente e restassem apenas pó.
Nos andares de baixo da mansão, ainda sofrendo os danos extremos da exposição ao Sol, Hades rastejava entre os corpos dos caídos em batalha até o caminhão frigorifico que ainda estava estacionado na garagem a espera dos sobreviventes.
O líder Espectro foi o único a retornar daquela chacina, mas, ainda assim, pagara um terrível preço.
Com mais da metade do corpo queimado estava na iminência da morte, por isso precisava ir imediatamente até o pequeno abrigo improvisado por seu clã para a operação, ali na Romênia, o qual ficava nas proximidades, já que sua única esperança de sobreviver era beber o sangue dos Espectros que em sua fé cega se voluntariaram em sacrifício caso seu líder estivesse em perigo.
Com gritos de dor e angústia desmedida Hades entrou no baú do caminhão com a ajuda do motorista humano, um servo dedicado, finalmente se jogando exausto em meio às carcaças dos animais abatidos.
— DEPRESSA!... TIRE-ME DAQUI! — ele gritou para o carniçal — Vá para a guarita do clã nas colinas. DEPRESSA!
Imediatamente o caminhão partiu, cruzando a erma estrada em torno de uma floresta densa que rodeava a sede do Conselho até, minutos depois, adentrar um galpão escuro entre as montanhas.
Assim que sentiu o veículo parar e desligar os motores Hades arrastou-se até a porta do baú, e quando ela se abriu deixou-se cair para o lado de fora, soltando um gemido de dor devido o impacto de seu corpo ferido contra o chão de terra.
— Me... ajudem... depressa... preciso de sangue, meus leais... — sussurrou, quase sem forças, e de súbito calou-se, mas seu silêncio abrupto não se dera devido seu estado lamentável, mas ao que viu quando abriu seus olhos.
Hades esperava ser recebido por seus leais soldados, mas no lugar deles um amontoado de corpos ressequidos e sangue fétido a encharcar o chão o recepcionaram.
— Mas... o que significa... isso? — o líder Espectro murmurou estarrecido. Os olhos feridos arregalados corriam agitados pelos corpos sem vida procurando entender aquele cenário imprevisto, enquanto os dedos em carne viva fechavam-se na terra úmida sob si.
Súbito o som de passos se aproximando fez Hades erguer o olhar e com certa dificuldade divisar a figura que agora se colocava de pé à sua frente.
— Radamanthys! — balbuciou sôfrego — O que...
Novamente as palavras morreram em sua boca e houve silêncio por alguns minutos, então, de repente, o ex-general nazista gargalhou horrendamente.
— Ora, não me diga que em séculos de existência, na posição em que você se encontra agora, e na que eu me encontro, não sabe o que isso significa? — disse o vampiro, depois avançou um passo e com a sola pesada de madeira dos sapatos que calçava pisou em uma das mãos que o líder Espectro tinha espalmadas no solo, sentindo os ossos trincarem conforme imprimia força.
— Argh! — Hades grunhiu de dor.
— Oh, sim! Você sabe! — repetiu Radamanthys.
— Aaah... Um gol-golpe! — Hades gemeu as palavras em extrema agonia, tentando reagir, mas ferido como estava era praticamente impossível enfrentar Radamanthys.
— Bingo! — sorriu o Espectro.
— Está cometendo um erro... — gemeu, atônito, enfurecido, indignado — Desgraçado!... O que pensa que... está fazendo ARHG! — gritou conforme tinha a mão esmagada pelo general — Sua ambição sem limite vai levar os Espectros à ruína... Miserável!... — ergueu os olhos novamente e encarou a face de Radamanthys — Você sabia... Sabia da Pietone!
Radamanthys ergueu as sobrancelhas com simplicidade e ironia, deixando escapar um riso de escárnio.
— Mas é claro que sim. — respondeu com a voz mansa — E a julgar pelo seu estado deplorável ela lhe foi uma adversária e tanto! No entanto, eu sabia que você daria um jeito de dar cabo da existência dela, e também do Presidente, e deixaria o caminho livre para mim...
— Como pode... Aaaah... seu...
— Ardiloso? Maquiavélico? Hum... Devo admitir que jamais subestimei o seu poder. Oh, não! Tanto que o quero para mim!... Precisarei dele para cumprir a segunda fase do meu plano.
— Plano?... TOLO... Você é um tolo, Radamanthys!... Se acha que me eliminar e... tornar-se líder dos Espectros será suficiente para obter o poder que almeja... — grunhiu Hades, que tentava chutá-lo na esperança de conseguir ao menos fugir dali —... Saiba que nem se consumir todo o sangue do meu corpo conseguirá potencializar esse seu sangue ralo e fraco, seu miserável traidor!... Vai apenas nos destruir... Sua fome insana por poder será o fim dos Espectros... das Sombras!
— Eu devo, humildemente, discordar. — disse calmamente o ex-general nazista, que fazendo uso de seu dom racial projetou dois tentáculos a partir das sombras projetadas pelo farol traseiro do caminhão com as quais imobilizou Hades.
— Arhg! Não!... Não faça isso!... Radamanthys! — gemeu Hades, que agora era erguido do chão pelos tentáculos até ficar no mesmo nível do rosto do alemão, que tinha os olhos dourados faiscantes cravados nos seus.
— É a minha fome insana por poder que será a glória do nosso clã! — disse o general, que sem titubear esticou o braço e agarrou nos cabelos negros de Hades puxando com força sua cabeça para trás, deixando sua garganta exposta — E tem razão... Apenas o seu sangue não me será suficiente para me tornar capaz de matar Shaka e aquele Nut que anda com ele, mas ele me tornará apto para executar a segunda fase do meu plano! O seu sangue, Hades, me dará poder suficiente para consumir a minha mais ousada e estimada experiência!
Dito isso, Radamanthys cravou suas presas na garganta de Hades, bebendo o sangue do líder de seu clã até que sua vida fosse completamente extinta e ele tomasse seu lugar, selando o destino dos Espectros das Sombras para sempre.
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