A Máscara
3 A Mansão em Ruínas, A Origem do Mal

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Na calada da noite, Miyu sentiu um vento gélido cortar o ar quente de verão. Aquele vento era tão anormal quanto a presença seguida por ele.
– Reiha...
Miyu viu aquela figura de aura sinistra surgir diante de si. Com a pele branca como a neve e um sorriso tão delicado quanto misterioso.
Ela flutuava próxima de si, tendo Matsukaze em seus braços.
– Boa noite, Miyu. –seu tom era doce, acompanhado pelo seu costumeiro sorriso. Tal sorriso era indecifrável para alguns, porém Miyu a conhecia muito bem.
– O que esta fazendo aqui, Reiha? –fala Miyu, ignorando a simpatia da shinma.
– Olha só, a gatinha já colocou as garras para fora. –ironiza Matsukaze .
– Poxa, Miyu. –fala Reiha, fingindo-se sentir ofendida.- Eu só vim fazer uma visita para uma velha amiga. Já faz tanto tempo que nós não nos vemos...
– Não brinque comigo, Reiha. –fala de forma impaciente.- Por que esta aqui?
– Se você quer que eu vá direto ao ponto... Soube que estão tendo muitos desaparecimentos por aqui. Perguntei-me onde estava a guardiã, enquanto todas aquelas pessoas simplesmente sumiam... E aqui esta você.
– Um fiasco. –completa Matsukaze.
Miyu cerra os punhos, apoiados em cima do telhado do cemitério. Ela sabia muito bem o que estavam insinuando. Era por essa razão que estavam aqui?
De repente, uma presença surge em meio à escuridão. Alarmada, Reiha esquiva-se levemente para trás, semicerrando os olhos.
– Voltem de onde vieram. –uma voz grave ressoa no ar.
Uma figura alta, de vestes tão negras quanto a noite, surge ao lado de Miyu. A princesa apenas observa seu guardião, suavizando sua expressão.
– Que ameaçador... –fala Reiha, com a mão graciosamente sobre os lábios.- Tínhamos nos esquecido do seu servo, Miyu. Hu, hu, hu... Parece que nem mesmo ele foi o suficiente para dar cabo do Shinma que se instalou por estas redondezas. A não ser que...
– A não ser que o que, Reiha? –pergunta Miyu, já irritada.
– A não ser que o shinma que estamos procurando seja ele. –fala Matsukaze.
– O que estão dizendo?
– Hum, faz sentido... Talvez seja por isso que ainda não pegou o shinma. Esta acobertando o seu servo. Quem diria ein, Miyu? –completa Matsukaze.
– Não falem besteiras. Larva nunca seria o responsável por isso!
– Se o que você diz é verdade... –fala Reiha.- Por que ainda não conseguiu acabar o shinma?
Miyu nada mais diz. Reiha... Ela havia descoberto sua fraqueza. A shinma das neves sorria vitoriosa.
– Vamos embora, Matsukaze.
O boneco suspira aborrecido:
– Tudo bem. Mas não se esqueça que estaremos de olho em vocês dois. E é melhor repensar na sua posição de guardiã, Miyu. Não perdoaremos qualquer deslize.
– Cuide-se, Miyu. –fala Reiha, sorrindo uma última vez. E assim como surgiu, ela desaparece na forma de um vento gélido, deixando Larva e Miyu sozinhos ali.
Miyu fecha os olhos, suspirando pesadamente. Enfim, haviam ido embora. Larva a fitava, imaginando o que estava se passando em sua mente. Ela abre os olhos, tendo uma expressão de cansaço.
Cansaço este que também se refletia em sua voz:
– Reiha sempre foi assim. Pronta para tomar o meu lugar a qualquer momento. Se ela o quer tanto assim...
Miyu se levanta, mas sente a força deixar suas pernas, sendo amparada por Larva. Ele a segura pela cintura, impedindo sua queda. Ambos ficam em silêncio. Larva encarava Miyu, que tinha a cabeça baixa.
– Assim como eles... Você também percebeu, não é? –levantando sua cabeça, seus olhares se encontram.
– Há muito tempo, Miyu... Eu não consigo entender. Você tem se alimentando normalmente, mas suas forças...
– Eu também não consigo entender, Larva... Há uma sede que queima a minha garganta. Mesmo quando acabo de fazer uma vítima, ela não desaparece.
Larva surpreende-se. Era como se Miyu estivesse descrevendo o que ele sentia. Os olhos dela tinham um tom dourado-fosco. Era mais um dos reflexos de sua fraqueza. Porém, ela ainda continuava simplesmente encantadora para ele. Tão próximo a ela, Larva podia contemplar os lábios pálidos de sua princesa e sentir seu perfume. O olhar dele passeou por seu corpo, chegando até seu pescoço alvo, ao qual podia levemente enxergar suas veias.
Larva trinca seus dentes. Aquela aproximação era muito perigosa. Cada momento junto a ela era uma tortura.
Na tentativa de se controlar, Larva estava prestes a desvencilhar Miyu de seus braços, mas para quando sente as mãos dela sobre sua máscara.
Novamente, aquela máscara. Aquelas correntes cruéis que tanto os distanciavam.
Houve um tempo em que palavras não eram necessárias. Os dois compreendiam-se tão bem.Porém, agora estavam desconéxos de tal forma...
Aquela máscara ocultava os pensamentos de Larva, e deixava Miyu completamente perdida. No entando... tirando sua máscara, ela poderia ter um vislumbre daqueles olhos que tudo lhe diziam.
Mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, Larva segura delicadamente seus pulsos, deixando claro que não queria que ela prosseguisse.
Lá estava ele... Afastando-a novamente.Isso era algo que Miyu não conseguia compreender.
Ela já estava cansada de viver apenas com duvidas e suposições a respeito de Larva.Pouco a pouco, deixou que seus pensamentos se transformassem em palavras:
– Afinal de contas, o que esta acontecendo, Larva? Por que você esta agindo de uma maneira tão estranha? Há alguma coisa incomodando você?
Miyu sentia uma pontada dizendo aquilo. Julgando pelo modo que ele a afastava, supos que o incomodo poderia ser ela. Porém, na esperança de que fosse por outro motivo, continuou:
–Você esta com algum problema? Pode contar para mim.
Miyu retira suas mãos da máscara de Larva. Ela sentia-se insegura. Não sabia ao certo como prosseguir.
– Me desculpe por isso... Mas você não me fala mais nada sobre você. Então, eu quis... ver a verdade em seus olhos.
A expressão e voz de Miyu continham uma melancolia que cortava o coração de Larva. Mesmo depois de te-la afastado tanto, ela ainda se importava com ele daquela forma.
– Você também tem agido de uma maneira estranha, saindo para caçar de uma forma descuidada e... tão frequente.Você não esta conseguindo encontrar presas que o alimentem bem?
Larva apenas permanece em silencio. Miyu não podia mais suportar aquelas duvidas que tanto a rodeavam. Por fim, perguntou:
– Por que nós nos distanciamos tanto, Larva?
Aquele momento de silêncio mais lhe pareceu uma eternidade. Porém, o que veio a seguir era algo que Miyu não podia prever:
– Por que os meus instintos clamam por algo que não posso ter.
Atônica, Miyu não sabia o que pensar. Não sabia como agir. Seus pensamentos transformaram-se em uma confusão. Afinal, o que significava aquilo?
Repentinamente, seus pensamentos são interrompidos por uma aguda voz infantil.
– Miyu!
Miyu e Larva viram-se, se deparando com o pequeno e afoito Shiina, que pulava repetidas vezes.
– O que aconteceu, Shiina? –pergunta Miyu, aproximando-se do pequenino.
– Eu vi! –cessando seus pulos, Shiina levanta uma de suas orelhas, revelando seu olho demoníaco.- Ali! -ele indica uma densa floresta, que se encontrava ao Sul do Cemitério Sakawa.- Sinto uma energia sinistra vindo daquela floresta! O Shinma esta em ação!
Aquela era conhecida como a "Floresta Amaldiçoada". Ali existiam apenas as ruínas da Mansão Aikawa. Haviam histórias sobre aquela casa... Falavam sobre o que poderia ter sido um surto de histeria coletiva da familia Aikawa. Mortes, um terrível incêndio e nenhum sobrevivente.
Isso já havia acontecido há muito tempo atrás. Porém, as pessoas tinham medo daquele lugar. Ninguém ousava entrar naquela casa. Por esta razão, Miyu e Larva já haviam averiguado a área, tanto a floresta quanto a mansão. O que havia sido há muito tempo atrás. Não havia nada lá. Pelo menos, não um shinma.
– Esta mansão novamente...
Shiina estava apreensivo:
– Miyu, não havia nenhum shinma por lá. Mas aquele lugar sempre teve uma energia sinistra.
– Verdade. Naquela época, existiam apenas os fantasmas do passado que ainda viviam lá. Mas isso não fazia parte da nossa jurisdição. –fala calmamente.
– Até agora. –fala Larva.- Esta energia parece ter atraído o nosso inimigo. E ele atraí as suas presas para lá.
– Não podemos perder tempo. –fala Miyu, com um semblante sério.
Agora não estavam mais sem direção. Sabiam onde poderiam encontrar o causador de tantos problemas. Finalmente, iriam ter a chance de confronta-lo.
Miyu estava pronta para seguir o caminho até o shinma, mas é interrompida por uma voz grave e severa.
– Miyu, este não é o melhor momento para entrar em um combate.
A guardiã franze o cenho:
– Não há tempo para pensar em coisas como esta, Larva.
Porém, o seu guardião continuou:
– Você esta sendo imprudente, se arriscando dessa forma.
– Imprudência é negligenciar o meu dever, deixando este shinma fazer o que bem entender.
– Miyu... Sinto muito, mas temos que ser realistas. Você esta enfraquecida e não esta pronta para uma batalha. E este não parece ser um shinma comum, sabe disso.
Larva sentia-se impotente de todas as formas. Miyu era uma pessoa que, quando decidida a fazer algo, não poderia ser impedida por nada. Nem mesmo por ele, que tantas vezes a aconselhou em vão. Sempre é assim, quando se trata de humanos.
Miyu havia abaixado a cabeça, ficando em silencio.
Haviam tantas contradições e sentimentos em conflito dentro de si. Já não sabia o que pensar ou em que acreditar. Por vezes, Larva simplesmente a ignorava. Não tinha mais certeza dos sentimentos que Larva tinha por si como tinha antes.
Apesar de todas estas controvérsias, sabia de suas limitações, porém... ignorar alguém em perigo ia contra suas convicções.
– Larva... Essas pessoas que precisam de ajuda são a minha razão de existir. São o nosso motivo de estar aqui. Uma pessoa pode estar em perigo agora mesmo... E nossa discussão não é tão importante quanto a vida dela. Por isso, temos que prosseguir.
Ao ouvir aquilo, o guardião suspira derrotado. Realmente, quando determinada, nada podia impedi-la.
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– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!!
Um grito ecoava na escuridão. Uma jovem garota corria desesperadamente pelas ruas desertas, indo rumo a uma densa floresta. Por mais tolo que pudesse parecer, o desespero não a permitia pensar com lógica.
A medida em que corria, as luzes se apagavam atrás de si. Via apenas uma luz vinda do interior da floresta e corria até lá, sem pensar duas vezes.
Ela quase podia sentir a escuridão a envolvendo.
Makoto... Por favor, me ajude ...
– Por que? –uma voz fantasmagórica quase lhe soprava a nuca.- Por que chama pelo nome de quem a faz sofrer? Por que tenta proteger com tanto afinco algo que ninguém dá valor? Algo que nem ao menos você dá valor?
O medo a dominava de tal forma que viu tudo ao seu redor escurecer, sentindo seu corpo perder as forças e cair rumo ao chão frio.
Inconsciente, ela não pode ver o clarão. As chamas que atravessaram seu perseguidor e o afastaram de si.
– UAHAHAHAHAHAAHAHAHAHHHH! -a mesma voz fastasmagórica preenchia o ar. As chamas pareciam nada fazer ao inimigo. Ele se dissipou em meio a escuridão e os dois guardiões se revelaram.
– Minhas chamas parecem não te-lo afetado. –Miyu franze o cenho, indo em direção a menina desmaiada no chão.
Larva apenas fica em silêncio, refletindo sobre a batalha que acabara de acontecer.
Virando seu corpo, antes de bruços, Miyu constata que ela parecia estar ilesa. A não ser por alguns ralados no nariz e na bochecha. Nada anormal, considerando o modo como caiu. Sobretudo, ela estava bem.
Miyu sente novamente uma grande energia maligna emergindo em meio a floresta. Porém, agora mais forte do que antes. Ao longe, em meio as árvores, conseguia ver: A mansão. A luz que a jovem seguia.
Ela sabia, aquela era a origem de todo o mal.
A guardiã escuta passos apressados vindo em direção à eles. Um garoto atravessou a esquina, deparando-se com o corpo da jovem caída.
– Chiemi! –ele correu novamente, ajoelhando-se ao seu lado. Ele a aconchegou em meio a seus braços, deixando que lágrimas tomassem sua face.- Me desculpe, me desculpe por tudo. Eu jamais quis te fazer sofrer. Por favor, não faça isso comigo de novo. -ele a abraçava fortemente.
Vendo esta cena ao longe, estavam Miyu e Larva, no alto de uma árvore.
– Será que a garota ficará bem? -pergunta Larva.
– Promessas de amantes... Nunca se pode saber se são verdadeiras. –fala Miyu, com uma sutil mágoa na voz.
Larva sente a alfinetada. Sabia que, mesmo não intencionalmente, aquilo era para ele.
Porém, logo seus pensamentos tomaram um novo rumo. O vento quente da floresta os rodeou. De alguma forma, parecia puxa-los em direção à aquela presença maligna.
– Aquele Shinma parecia ser a própria escuridão. Nem ao menos consegui vê-lo antes que desaparecesse. –refletia Larva.
– Desta vez, pelo menos sabemos para onde ir.
– O que me parece muito estranho. Não havíamos conseguido descobrir a localização dele... Até agora. Ele quer ser encontrado. Estamos sendo atraídos para uma armadilha. Miyu, lembre-se que suas chamas parecem não ter efeito sobre ele.
– Tenho ciência disso. Manterei minha guarda.
Na escuridão da noite, os guardiões abriam caminho por entre as árvores da floresta. A presença ficava cada vez mais forte. Era algo... pesado. Não havia nenhum som de animais, porém... Sons metálicos de martelos sendo batidos em estacas passaram a ser ouvidos.
Lá estava a Mansão Aikawa. Em ruínas, pareceu ganhar vida novamente. Ali havia um intenso cheiro de incenso... Um cheiro cadavérico.
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