A Máscara

18 Capítulo 18 - Confronto.


Notas iniciais
Antes de mais nada quero dizer aos leitores da fic que estou postando uma história paralela que conta a mesma história da máscara em terceira pessoa - http://fanfiction.com.br/historia/407920/Le_Masque/ageconsent_ok - peço que confiram.
Esse capítulo é bem forte, perturbador .... Por isso gostaria muito que comentassem.
Quero agradecer o carinho de uma nova leitora Syhana [ID #352472], pela recomendação.
Boa leitura!

Ainda nos despedíamos quando ouvi uma voz distante e familiar ecoar pelo galpão.

— Comovente! – disse ele, de um jeito perigosamente modulado. Aquele sotaque e sua voz assassina me fez tremer. Eu sabia que as coisas ficariam incontroláveis daqui por diante.

— Saia daqui. – cochichei para Conner, mesmo sabendo que Bephegor ouvira perfeitamente de onde estava.

— Não vou fugir. – replicou Conn. — Já está mais do que na hora desse acerto de contas. – o vampiro se virou para o príncipe, adquirindo uma postura ameaçadora.

Meu coração martelava contra o peito. Lutariam até a morte definitiva de um deles, ou talvez de ambos. Eu não me conformaria se algo acontecesse a qualquer um.

A gargalhada foi estridente, tão debochada quanto Bel conseguia ser.

— Você consegue trazer muita grraça a minha Nóm-Vida, Conner. Há quem quer enganar? Está semprre agindo como um filhote abandonado. Nóm finja que almejava esse encontrro. Foi pego e nóm tem como se acovarrdar. – um sorriso provocativo se instalou em seus lábios. Estava completamente molhado, o cabelo gotejante grudado na testa, a roupa suja como se tivesse rolado na lama. Vi o momento em que cerrou os punhos e estreitou os olhos.

— Nem por um instante pense que tenho medo de você. – frisou Conner. — Só não queria derramar minha fúria nos seus soldadinhos. Já que está aqui para enfrentar seus próprios problemas, sem se esconder atrás dos seus servos, será uma honra te esmagar com minhas próprias mãos. – a postura do vampiro era cada vez mais ofensiva. Bel parecia saborear cada segundo antecipando o momento do confronto.

— É muito interressante a maneirra como fala dos meus lacaios. Você nunca foi nada além de um deles, é tudo o que sabe ser. A única coisa que sabe fazer é obedecer a minha voz. – sorriu maldoso.

Conner parecia ter sido possuído.

Pela primeira vez o vi perdendo o controle, ao invés do doce e amável Conner, que fora sempre regrado, agora parecia um animal sedento por morte e sangue. Ele pegou um punhal prateado, escondido em algum lugar no cós de sua calça e o agarrou com força, pronto para fincar a arma em Belphegor. Nunca cogitei a possibilidade da força de Conner sobrepujar a de Bel, mas confesso que tive medo, ele estava transtornado, parecia que nada no mundo poderia detê-lo. Quando penso que eu era o último "fio" que o prendia a sanidade, me arrependo de tê-lo tocado e tentado persuadi-lo.

— Vá embora! — pedi. — Isso não vai acabar bem. Deixe-o em paz! – havia uma mistura de rancor, melancolia e profunda tristeza em seus olhos. Não sei como fui capaz de enxergar tantos sentimentos naqueles olhos frios e negros, mas estavam ali, claros para mim.

Antes de me responder, Conner avançou em direção a Belphegor. De forma quase inconsciente entrei em sua frente. Com um leve mover de braços o vampiro me lançou longe, me tirando de seu caminho. Naquele momento tive a sensação de ser feita de pano.

Por sorte — ou quem sabe pela vontade dele — cai sobre alguns pneus.

— Não! Conn... – gritei, sem conter as lágrimas. Toda minha fraqueza humana exposta. Diante deles eu tentava parecer forte, confiante, inabalável... Mas em momentos como esse eu era apenas uma menininha atemorizada.

Sabia perfeitamente o que pretendia fazer, o punhal, a fúria, suas palavras, ele aniquilaria Belphegor. Se isso não acontecesse, o contrário estava certo. Não pode haver nada pior do que estar diante de uma situação como esta e se sentir impotente. Meus berros, meu choro, minhas súplicas, nada faria com que parassem. Não sabia o que a prata podia causar em vampiros, mas com certeza não era nada bom.

Alterado, Conn agarrou o príncipe com uma força monstruosa. Era possível ouvir o ranger dos seus dentes, mesmo estando do outro lado do galpão, ouvia o rugido preso em seu peito perfeitamente. Era estranho vê-lo assim, incontrolável, animalesco. Não havia qualquer vestígio daquele jovem extremamente bonito, educado, cortês... Ele tinha se transformado num monstro. Isso devia ser resultado de séculos guardando ressentimentos, remoendo mágoas.

— Conner! – mais uma vez gritei, tentando desesperadamente fazê-lo parar.

Esforcei-me para levantar, meu corpo vacilava. Meu joelho doía como nunca, entretanto, apesar da dor, fiz um esforço absurdo para ficar em pé. Sentia que cairia a qualquer momento, mas não podia cair enquanto Bel precisasse de mim.


Conn, por sua vez, parecia não notar minha existência.

Ele arremessou o príncipe contra a porta de ferro, com uma força barbára. O barulho do metal sendo amassado e retorcido era ensurdecedor. Fiquei preocupada, imaginando que ferimentos o golpe poderia ter causado em Bel, entretanto ele levantou-se sorridente, sem um único arranhão.

— Quer me exterrminar? Acha que assim vai conseguir tudo que tenho? – balançou a cabeça, como se estivesse decepcionado, e então recitou com voz sussurrada: — “Nóm cobiçarrása casa do teu prróximo, nóm cobiçarrásamulherdoteu prróximo, nemoseu serrvo, nemasua serrva, nem oseu boi, nemoseu jumento, nem coisa algumadoteu prróximo”. — Bel sorriu como um anjo, quiçá numa forma sátira. Havia uma maldade singular no seu olhar, alguma coisa indescritível, algo que apesar de eu nunca ter visto sabia existir. Era aquela fera sempre escondida que todos os vampiros pareciam possuir.

Um dos soldados de Bel adentrou o galpão, surgido das sombras, arrastava um corpo ao seu lado.

O príncipe parecia radiante como sempre. Seus cabelos louros estavam mais dourados do que o normal, talvez por estarem tão molhados. Havia algo de incompreensivelmente bestial nele, que eu nunca tinha visto.

Detive minha atenção no rapaz, que estava sendo sustentado pelos cabelos, como um animal. Eu podia jurar que o conhecia. Fechei os olhos, tentando varrer minha memória em busca de reposta. Sim! Era o jovem que dançava na pista de dança no “G.W”, aquele que deixou o cachecol marrom cair e revelou a marca em sua nuca. O moço da “Aliança”.

— Sua ingenuidade é tóm adorrável, Connzinho! – disse Bel, com sarcasmo. — Eu perrdoo isso em Clarrice, nóm em você, uma criaturra eterrna, com tantos anos de vivencia ao meu lado! Que tipo de prroblema mental você tem? Achou mesmo que eu nunca descobrrirria que estava me lançando aos porrcos? Primeirro Max, que sempre sabia minha posiçón. Depois todos sabiam sobrre ela. – apontou em minha direção. — Agorra a Aliança? Achou mesmo que humanos me aniquilarriam? Vamos lá! – incentivou. — Deixa de ser frrouxo e faça você mesmo.

— É o que farei! — disse Conn, apontando o punhal para o príncipe, seus dedos tremiam. Parecia disposto a lutar, mas certamente não estava nenhum pouco confiante, seu coração titubeava, sua besta titubeava.

Aproveitando-se da insegurança de Conner, o príncipe agarrou o caçador. Primeiro passou os lábios sobre o pescoço dele, teatralmente para prender nossa atenção, depois deu uma mordida violenta, abrindo-lhe o pescoço enquanto bebia fartamente do sangue.

Virei meu rosto, tapando os olhos com as mãos. Senti medo e náuseas, apesar disso, ouvi claramente o último arfar do rapaz, assim como Bel bebericando diretamente do sangue abundante.

Ele finalmente parou.

— Você foi um tolo em acrreditar que me superrarria. — passou a mão sobre os lábios, deixando que o sangue sujasse suas mangas.

Ali, completamente manchado de sangue, repleto de um prazer diabólico, num estranho êxtase que eu não compreendia, apreciando a vida que se esvaia entre seus dedos.

Talvez até mais do que o sangue, era um prazer assassino. Não era apenas alimento, era diversão.

— Você vai encontrrar seu destino hoje. – afirmou com segurança a Conner.


— Isso é o que veremos, Belphegor. — Conn avançou em sua direção, o punhal arqueado apontado para o coração. Então numa velocidade que sequer posso descrever, ambos desapareceram diante dos meus olhos. O corpo do caçador se abriu de uma forma completamente desumana. Como se braços nascidos do inferno o tivessem esmagado de dentro pra fora.


Lembro-me de ter piscado — horrorizada, mas atenta — e então percebi Conn preso ao punho direito de Bel. Estava erguido em pleno ar, como uma marionete. A adaga prateada era usada constantemente, enquanto Conn desesperado a encravava no braço de Bel, que parecia se divertir com a situação.

Os dedos do príncipe apertavam a pele de Conn, marcando profundamente. Não parecia simplesmente força, era de alguma maneira surreal, uma espécie de comunhão de pele e carne. Os dedos esculpiam a pele do agonizante Conn à medida que lhe tocavam.

— Não, Bel, por favor! — apesar do medo tentei puxar um pouco de coragem, não podia deixar que ele fizesse aquilo com Conner. Minha voz estava trêmula como todo meu corpo, eu mal podia acreditar no que estava vendo. Parecia parte de um pesadelo horrendo.

— Perrdeu uma ótima oporrtunidade de ficar em silêncio, Clarrice. - retrucou com certo desdém.

— Por favor, Bel, eu te imploro. Conn é meu amigo. — senti as pernas fracas, não fosse o desejo de salvar Conn, estaria agora no chão.


— Você acha que esta em posiçóm de me pedirr algo? — gargalhou alto, absurdamente alto, para que eu pudesse sentir o tamanho da sua indignação. — Sabe o que eu deverria fazerr com você? – perguntou-me.— Admito que meu prrimeiro pensamento foi mutilar seu rosto, mas quando pensei melhor, ter que olhar pra sua carra feia só me desagrradarria. Pensei depois em arrancar sua língua, só que isso me tirrarria o prrazerr de ouvi-la implorrando perdóm. Entóm cheguei a conclusóm de arrancar seus olhos, mas seria uma puniçóm durra demais deixar você sem me ver, entóm... Por enquanto apenas cale sua boca.


Eu parecia estar num sonho ruim sem poder acordar. Tudo que eu presenciava desafiava a lógica. Belphegor prosseguia conversando comigo, de forma calma e indiferente:

— Pensa que eu nóm sei da traiçóm? Foi você quem soltou esse verrme. Percebi que não foi raptada por ele, você quis segui-lo. – havia muito rancor em sua voz, como se eu tivesse o decepcionado. — Quanto a você Conn, acha mesmo que nóm estive a par de suas intençóns antes de Clarrice, ou desde o momento em que coloquei meus olhos sobrre você?

Ele soltou o vampiro, já débil, que despencou sobre o chão, deitado sobre uma poça de seu próprio sangue negro.

Usando a mão direita, Bel começou a moldar o rosto dele, como massinha de modelar nos dedos de uma criança.


Era horrível...

O rosto de Conn era meticulosamente arrasado. Assim como uma criança sem distinção de anatomias, a mão de Bel deformava a feição de Conner, que ao contrário dos ferimentos habituais não se regenerava. Haviam gemidos inigualáveis vindos dele, os mesmos que cessaram quando sua mandíbula começou a se tornar realmente bizarra.

Apesar do horror da situação, a coisa mais espantosa era o sorriso de prazer ornado nos lábios rosados de Belphegor. Um artista apaixonado pela sua própria criação deformada.

— Perrfeito. — retrucou o príncipe, quando o rosto de Conner atingiu um nível de deformidade que me fazia sequer cogitar que aquilo um dia fora um rosto.


Conner, ou o que restou dele, arrastou-se pelo chão, completamente enfraquecido.

Bel o olhou uma última vez, achando graça de seu estado deplorável. Deu-lhe um chute sobre o resto do crânio – não havia mais rosto — e começou a caminhar em direção ao carro.

Não há palavras para dizer como me senti, consigo certamente lembrar-me do molhado. Meus olhos inchados de tanto chorar, é quase impossível afirmar quando comecei a chorar, e principalmente se um dia eu conseguiria parar.

Quando Conn se aproximou de mim, arrastando-se sobre seu próprio corpo disforme, me ajoelhei diante dele. Fechei os olhos. Eu não conseguia olhar para ele.

— Eu sinto tanto! – sussurrei, sem saber se ele era capaz de me ouvir.

— Vamos Clarrice! – ordenou o príncipe. — Tenho uma agenda lotada amanhã e como pode perrceber prreciso de um banho.

***

Notas finais
O comentário deixa o escritor mais inspirado para apressar postagens, por favor, se ler comente, só para eu saber se os acontecimentos estão do seu agrado. Desde já agradeço.