A Máscara
16 Capítulo 16 - Emboscada.
Notas iniciais
Continuamos seguindo viagem, o temporal não dava trégua,
os pingos de chuva batiam contra o carro, furiosos.
Bel e eu estávamos no banco de trás, entretanto sentávamos o mais longe um do outro que o espaço permitia. O silêncio era predominante, não que isso fosse sinal de que o vampiro estivesse irritado ou aborrecido, apenas deixava claro que apreciava o silêncio e gostava de se perder em si mesmo. Vez ou outra o motorista fazia alguma observação sobre o quão distantes estávamos de nosso destino, ou alguma coisa relacionada ao mau tempo. Embora o príncipe permanecesse quieto, parecia muito satisfeito consigo mesmo. Eu ainda sentia o efeito da droga, misturada com as sensações perturbadoras daquele beijo no banheiro, minha cabeça pesava mais do que uma tonelada, talvez por isso não me sentisse motivada a puxar assunto.
Depois de um longo período em silêncio, Belphegor foi chamado pelo rádio.
— Majestade, na escuta? Majestade?
— Sim. O que houve? – respondeu Bel.
— Há um bloqueio policial há alguns metros, na saída do túnel, não temos como voltar, uma fila de veículos se forma atrás dos nossos carros, impedindo que voltemos. O que sugere que façamos?
Vi o semblante de Belphegor se contorcer de ódio.
— É uma emboscada. – respondeu o príncipe. — Conner inforrmou nossa posiçón a nossos inimigos. Preparrem-se parra lutar.
Conner? Como ele sabia onde estávamos? Lutar? Quem estaria nos esperando? Maxwell e seu exército, a Aliança ou outro grupo? Fosse quem fosse eu sabia que o objetivo era me matar. Esse pensamento fez com que um arrepio descesse por minha espinha.
— Bel, o que está acontecendo? – perguntei sem esconder o temor em minhas palavras.
— Por conta do seu rapto, nossos inimigos tiverram bastante tempo parra se agrupar e elaborar planos parra acabar conosco. – o vampiro estava atento ao engavetamento que se formava a nossa frente.
— Que rapto? – perguntei inocentemente e me arrependi no momento em que ele me lançou um olhar desconfiado.
— Você nóm foi levada a forrça por Conner da casa de Raleph? –ele me analisava com olhos desconfiados.
Então era isso? Conner disse a ele que tinha me levado contra minha vontade? Mas por que cargas d’agua Bel acreditaria nele? Se ele havia me levado, por qual motivo me devolveria? Como Belphegor caiu nessa mentira? Mais uma vez me senti em dívida com Conner, embora estivesse magoado com minha rejeição, deve ter inventado uma boa história para que o príncipe não se zangasse comigo a ponto de me matar. Talvez por isso meu castigo tivesse sido tão brando, apenas um tapa, sem a intenção de me causar danos permanentes e irreparáveis.
— Claro, ele me raptou. Só estou nervosa. – menti.
Eu não sabia o que dizer, especialmente por não saber que tipo de mentira Conner havia contado ao príncipe. A única coisa que eu sabia era que Belphegor estava redondamente enganado. Eu escolhi fugir com Conner, mas não escolhi ficar com ele. Talvez tivesse tomado a decisão errada, afinal Conner era mais acessível, havia muito em comum entre nós e ele me tratava infinitamente melhor. Ele era a escolha mais fácil, mas eu sempre optava pela mais difícil, tanto que escolhi Belphegor, mesmo sabendo o quanto magoaria Conner.
Bel encheu-se de cólera, seus olhos azuis, de repente adquiriram um brilho vermelho escarlate. Parecia preste a espumar, como um animal raivoso. Seus caninos cresceram ameaçadoramente, protuberantes. Parecia ter sido dominado por uma besta descontrolada.
Afundei-me no banco de couro escuro, amedrontada. Felizmente percebi logo que o motivo da fúria do príncipe, pelo menos dessa vez, não era eu. Ele observava confrontos paralelos entre vampiros e caçadores do lado de fora.
Assim que entendi que ele partiria para batalha, o detive por segurar seu braço, demonstrando minha preocupação instintivamente, sem refletir.
Bel ficou impaciente e irritado com meu gesto.
— Bem... Eu... É que... – tentei achar as palavras que estavam muito bem escondidas em algum lugar profundo do meu cérebro. Estava com muito medo. Temia ficar sozinha aqui, temia que algo acontecesse a ele, temia que eles me levassem, que Bel me machucasse por ser tão atrevida. O medo me fazia confusa, mas o vampiro esperava que eu formulasse uma frase com algum sentido, esperava que eu explicasse o motivo de estar segurando-o.
— Você é o príncipe, não tem que lutar suas batalhas. Eles estão aqui para isso. – as palavras saíram com um jato.
Ao contrário do que eu poderia esperar, vi seus lábios se arquearem num sorriso discreto.
— Nóm tem com o que se preocupar, Clarrice. Só perrmaneça no veículo. – ordenou antes de me deixar.
Depois de poucos minutos o motorista decidiu acompanhar seu Mestre. Estiquei-me em várias posições, olhando através dos vidros, mas ainda assim não conseguia saber o que se passava do lado de fora. Ouvi alguns gritos, humanos correndo amedrontados na direção oposta da confusão, barulho de metal colidindo... Não demoraria muito para que eu desobedecesse à ordem real e deixasse meu posto.
Foi então que vi Conner, batendo contra o vidro e pedindo para que eu destravasse a porta. Neguei com veemência. Esse vampiro era mesmo suicida, mas tenho que admitir que não foi para a segurança dele que não permiti que entrasse. A verdade é que eu estava magoada demais para ceder a qualquer exigência sua. É obvio que minha negativa não impediria que ele entrasse no carro.
Transtornado Conn abriu a porta com uma força monstruosa. Era possível ouvir o ranger do metal sendo amassado e jogado longe, como se fosse nada.
— Oh Deus! – sussurrei, afastando-me o quanto podia dele.
— Não temos tempo para joguinhos infantis. Talvez eu não tenha outra oportunidade como essa. – Conn me agarrou e me jogou em seus ombros.
Eu gritei com toda a força que havia em mim. Pedi por socorro, chamei por Belphegor, esperneei, mas minhas tentativas eram inúteis. Assim que ele me acomodou sobre ele, disparou como um raio. Tudo que eu via a meu redor era um borrão cinza. Parecia que eu estava dentro de um tornado, tamanha a força do ar que me atingia.
Conn só parou quando chegamos a um galpão de madeira, tão velho e aos pedaços que mal servia para nos proteger da chuva. Ele me depositou em cima
de um caixote, muito delicadamente, como se eu fosse uma boneca de porcelana que pudesse se quebrar a qualquer momento.
— Eu só precisava de um momento com você. – disse ele ansioso, andando de um lado a outro.
— Você vai nos matar. – não reprimi a acusação no meu tom.
Conner sorriu. — Eu já estou morto.
— Mas eu não! – berrei. — Não aguento mais isso. Eu não quero mais ser raptada por nenhum de vocês, não quero ter que fugir, não quero passar a vida dentro de um carro indo e vindo, não quero me sentir assim, com medo, angustiada, preocupada. Chega! – enterrei minha cabeça entre as mãos, lutando contra as lágrimas. Conner se aproximou, percebi que ele me afagaria na tentativa de me consolar, contudo o olhar que lancei em sua direção o desencorajou.
— Eu sinto muito, Clarice. – disse num tom sincero. — Você salvou minha vida. Não pode saber o quanto lhe sou grato. Sei que tenho agido como um idiota. Só quero me desculpar.
Droga! Ele parecia tão sincero, humano... Quase indefeso. Não! Não importava, eu não o perdoaria tão facilmente.
— Ouça-me... – forcei minha voz até alcançar um bom tom. — Eu sei que você odeia Belphegor e está disposto a arruinar o reinado dele, seu tótem e sabe-se lá o que mais. Você está por trás de todas as emboscadas, dessas falcatruas! – parei um instante para tomar folego. — Só pare de bancar o bom moço, o “amiguinho”, o apaixonado. Você não vai ter mais nada de mim.
— Foi exatamente por isso que eu te trouxe até aqui. – o vampiro respirou profundamente, como se buscasse forças para me contar um segredo horrível. Fiquei tensa. O que poderia ser? Minha vida já estava complicada o bastante.
— Você está certa, em partes. Aproximei-me de você com o único intuito de ter algo importante para ele, de ter algo que pertencia a ele. – engoli seco, mas não o interrompi. — Sempre menti. Posso te afirmar que vampiros não são seres afetuosos e que eu nunca me senti atraído por uma garota humana, nem ao menos por você. – não posso dizer que eu não desconfiasse disso, contudo ouvir da boca dele me fez sentir como uma árvore atingida por um raio.
Como eu era idiota! Poderia ter morrido por tentar ajudá-lo. Intimamente me vaiava por ser uma garotinha ingênua, na verdade gostava de pensar assim, para não admitir que era burra. Durante todo esse tempo Belphegor tentou me alertar. Odiei Conner, mas esse sentimento nem chegava perto do que senti por mim mesma.
— Sinto muito. – ele ainda estava atento a minha reação. A honestidade em suas palavras me arrancaram lágrimas dos olhos. Ele realmente achava que eu acreditaria nisso? Por que ainda tentava me enganar com sua interpretação fajuta. Não sentia muito coisíssima alguma. Além de idiota me julgava deficiente mental? Nunca havia me sentido tão humilhada em toda a vida. Secretamente admirei Conner, por ter superado Belphegor nesse quesito. Nunca imaginei que alguém fosse capaz de me humilhar mais do que ele.
— Mas eu juro que isso mudou. Não meus planos a seu respeito, mas meus sentimentos. Agora é diferente. Preciso recomeçar. – revirei os olhos. Ele estava confessando que era um mentiroso desgraçado para que eu confiasse nele? Estava duplamente enganada com Conner. Além de falso não era tão inteligente quanto imaginava.
— Foi você? – me forcei a perguntar. — Você disse a Maxwell que eu era o suposto tótem de Bel? Disse que o príncipe me levou para Suíça, por isso a mansão dele foi incendiada? – Conn confirmou com um gesto de cabeça. Apesar de sentir a raiva me sufocar, não parei de acusá-lo. — Me levou para Gage para que os anciãos soubessem quem eu era, soubessem da importância que o príncipe me dava, para alerta-los sobre futuros problemas e não por eu ter qualquer efeito sobre você! Mentiroso maldito! – Conn abriu a boca para se defender, mas eu não permiti que isso acontecesse. — Até essa cilada de hoje foi você quem armou. Casou-se comigo para afrontar o príncipe, para de alguma forma me trazer para seu lado. Oh inferno! Foi exatamente isso que fez, quando precisou de minha ajuda, lá estava eu, idiota e envolvida!
— Hey, espere... – não deixei que concluísse.
— Foi você quem disse que estávamos na fazenda de Elizabeth; Oh Cristo, eu quase morri e provavelmente Beth está morta por sua causa. – tapei a boca com as mãos, horrorizada.
— Bem, sim, mas eu não podia saber que aconteceria de fato. Clarice, agora não estou fingindo quando digo que me tornei seu escravo. – eu mal podia acreditar no que estava ouvindo. Ele tinha razões para subestimar minha inteligência, mas isso me ofendia profundamente.
— Pense comigo, por que eu nunca te hipnotizei? Por que não te fiz carniçal? Agora eu sei. Eu tinha que te conquistar de verdade, queria que me desse seu coração de livre e espontânea vontade, pois isso é tudo o que eu queria e quero. Você é atípica. – disse, depois de ponderar. — Bonita demais para uma humana, esperta demais para alguém da sua idade. Não é por acaso que ele a tenha escolhido.
— O que quer que eu faça? Espera que eu dê crédito a sua honestidade depois que me disse o quanto é falso? Ora, francamente! – forcei um sorriso.
— A quem está tentando enganar, Clarice? Eu subi no seu conceito, sabemos que adora um vilão. — fechei os olhos e mordi os lábios. Desgraçado! Essa declaração me atingiu fundo.
Ele adquiriu um ar vitorioso.
Coloquei-me em pé, apesar de dolorida elevei o queixo e me apeguei nos resquícios do meu orgulho.
— Agora chega desse papo furado. Me leve até Belphegor, não temos mais nada para discutir.
***
Fale com o autor