A Máfia
28 O traidor.
Notas iniciais
Valentina anda de um lado para o outro lentamente com Lorenzo em seu colo, enquanto canta para ele uma canção de ninar em italiano. Sua mãe sempre cantou essa música para ela quando ela era menor. Valentina sempre foi manhosa quando pequena e sua mãe vivia a cantar músicas para fazê-la dormir. Não demorou muito e ela já tinha todas as músicas na ponta da língua. A madrugada se ia, e Valentina ainda não havia pregado o olho como Vitor pediu que fizesse. Ela ficou ali, namorando o pequeno Lorenzo, que dormia tranquilamente no colo da tia. Mas algo havia mudado em Valentina desde que fez a promessa ao sobrinho. Ela cansou de ser manipulada pelas ações de Valentin. Cansou de ser fraca, ou demonstrar ser. Ela quer ser útil na prática também. Pois ela mesma irá matar Valentin. Já planejou sua morte várias vezes durante essa madrugada. E o que mais aterrorizava é que a cada morte pensada por ela, um sorriso satisfatório iluminava seu rosto. E o que ela ainda não sabia é que do outro lado da cidade, Lia recobra a consciência depois de desmaiar desnutrida no deserto e conta algo fundamental para Miguel, algo avassalador que irá testar a amizade de Valentina. Existe uma linha tênue entre amor e o ódio e Valentina irá ultrapassa-la, obrigando-a a testar seus limites.
****
Lorenzo dormiu nos meus braços enquanto eu me movimentava pelo quarto devagar, cantando uma cantiga de ninar em italiano para ele. Mesmo ele tendo dormido há algumas horas, eu continuei com ele nos braços. Estando aqui com ele, eu sinto uma dor por Alicia. Ela não verá seus filhos crescerem. Não poderá dar conselho de mãe para eles, muito menos irá aos casamentos deles. Alicia sempre foi uma boa pessoa, não merecia o que aconteceu com ela. Quando minhas lágrimas se secam, a raiva que me atinge é muito grande. Tudo o que consigo pensar é na vingança que farei pela família de Vitor e por mim mesma. Valentin pode até achar que eu continuo sendo aquela menina confusa, amedrontada e que não sabe usar o poder que tem. Mas é aí que ele se engana. Valentin fez um lado meu aparecer que eu tentei esconder por muito tempo e infelizmente eu estou gostando dele, ainda mais agora.
Lorenzo começa a dar sinais que vai acordar, se remexendo em meu braço. Volto a cantar baixinho para ele, tentando fazê-lo dormir novamente. Ouço o ranger da porta ao se abrir e de soslaio vejo Vitor entrar no quarto. Ele se aproxima de mim de vagar, me abraçando por trás.
_Ele está dormindo? – perguntou.
_Está quase acordando. – digo.
Vitor estica o braço e com o dedo indicador, acaricia a mãozinha de Lorenzo. E não demora muito e Lorenzo aperta o dedo de Vitor, que sorri.
_Ele é tão pequeno. – compara encantado.
Concordo de leve com a cabeça sorrindo. É estranho e ao mesmo tempo mágico ver Vitor com um bebê. E o sorriso que ele deu agora a pouco para o sobrinho foi lindo! Sei que esse não é o momento que imaginei, e de longe o perfeito. Mas eu tenho que cortar a Vitor sobre minha gravidez, quanto mais eu demoro a contar, mais as coisas pioram para o meu lado. E o meu filho é uma das minhas únicas certezas agora. E quero compartilhar isso com Vitor e com mais ninguém.
_Mio amore, tenho que contar algo para você. É importante. – começo sentindo um frio na barriga.
_Eu também tenho. – ele diz. Viro-me para ele e o encaro. – Seu pai está em Chicago, chegou agora a pouco.
_Meu pai? Onde ele está?
_No Quartel. – responde. – Valentina, seu pai achou o desgraçado. – afirma Vitor. – Ele achou o infiltrado.
[...]
Durante o trajeto da casa dos pais de Vitor até o Quartel, eu tento imaginar quem é a pessoa que ajudou Valentin a nos atacar. Sinto também medo, por pensar que isso seja alguma cilada que meu pai preparou para prender Vitor, caso ele ainda acredite que ele é o infiltrado mesmo depois da morte de Alicia. Meu estomago se revira me dando ânsia de vômito por conta disso. Mas caso meu pai tenha mesmo achado o verdadeiro infiltrado, eu não vejo a hora de começar com o ritual de talião. O ritual é uma tradição dentro de todas as Máfias conceituadas e acontece sempre quando um infiltrado ou traidor é descoberto. Levamos em conta a lei de talião “olho por olho, dente por dente.” E fazemos o individuo pagar na mesma moeda, porém ele não sofre apenas uma tortura, ele é torturado por todos os que atingiu. No caso de Alicia, qualquer um da família de Vitor poderá se vingar por ela. E eu faço questão de ser a primeira.
Assim que o carro para em frente ao Quartel, Vitor salta do carro rapidamente, ele ficou inquieto o caminho todo até aqui, suas mãos parecem coçar para colocar as mãos no canalha que ajudou Valentin. Mas ainda temendo que isso seja alguma armadilha de meu pai, peço para que Vitor me deixe conversar primeiro com ele. Só que Vitor não quis nem saber.
_Sonho com esse dia desde que você quase foi sequestrada Valentina, não quero demorar nem mais um segundo para ver a cara desse sujeito. – falou entre os dentes.
Engulo em seco mandando a garganta abaixo todo calafrio e medo que sinto nesse momento. Vitor pega a minha mão e entrelaça nossos dedos, emanando confiança e, juntos, adentramos no Quartel. E assim que entramos, todos que estão no salão de entrada param seus afazeres e nos encaram. Com certeza todos já devem saber da morte de Alicia e nos encaram com pena. De cabeça erguida, Vitor e eu entramos no elevador sem nos incomodar com as pessoas que nos olham, o mais importante para nós nesse momento é descobrir quem é o desgraçado que, junto com Valentin, arruinou nossas vidas. O elevador para no andar solicitado e Vitor, eu e mais dois seguranças saímos e caminhamos a passos firmes até o escritório de Vitor, que é onde meu pai nos espera. Aperto a mão de Vitor com força, tentando fazer com que a confiança dele passe para mim, mas é inútil. A ideia de Vitor sendo preso/morto por meu pai não é o que eu quero para minha vida agora. Nem agora nem nunca.
Ok, Valentina, respire.
A porta do escritório se abre e vejo meu pai em pé, ao lado da mesa de Vitor, de costas, observando a vista da grande janela. Assim que entramos, ele se vira, exibindo um semblante sério. Muito sério.
_Filha. Vitor. – nos cumprimenta, com um singelo aceno de cabeça.
_Senhor Baldocchi. –Vitor o cumprimenta.
_Sinto muito por sua cunhada, Vitor. Valentina sempre falou muito bem dela, ela não merecia. – meu pai diz se aproximando de nós. – Dou minha palavra que iremos recuperar sua sobrinha.
Vitor assente.
_Valentin está cada vez pior, pai. – digo.
_Eu sei filha. Mas estamos a um passo de pegá-lo. – afirma ele.
Vitor solta minha mão e se aproxima de meu pai.
_Onde ele está? – dispara Vitor a meu pai, se referindo ao infiltrado.
Meu pai encara Vitor e eu sinto um arrepio na espinha. Olho assustada para ambos. Meu coração bate tão forte, me levando a achar que posso ter um ataque do coração a qualquer momento.
_Tomei a liberdade de mandá-lo lá para baixo. – meu pai diz. – Para a sala de interrogação.
Solto todo o ar que segurava pela boca, e de tão aliviada por não ser Vitor o traidor, sento-me no sofá, apoiando meus cotovelos em meus joelhos e afundando meu rosto em minhas mãos, me acalmando.
_Eu vou lá agora. – dispara Vitor, indo em direção à porta.
_Fique! – ordena meu pai firme. – Eu ainda não terminei de falar.
Exibo um sorriso nervoso. Meu pai continua sendo o mesmo de sempre. Autoritário e poderoso.
_E tem mais? – contraria Vitor.
_Tem. – afirma meu pai, olhando furioso para Vitor.
Posso jurar que vejo faíscas saindo dos olhos de Vitor e de meu pai enquanto eles travam uma batalha poderosa de olhares um com o outro.
_Então diga pai. – digo, interrompendo os dois.
Meu pai desvia seu olhar e me olha, relaxando. Depois se volta novamente para Vitor, voltando a ficar robusto.
_Assim que você me mandou o depoimento de Louis, pude perceber que o traidor não era um infiltrado.
_Como assim? – pergunto.
_Louis confessou durante a tortura que o ajudante de Valentin daqui de dentro nunca precisou se infiltrar de fato, ele sempre fez parte da Cosa Nostra. – Vitor explicou.
_Isso quer dizer que... Ele mudou de lado? – indago.
_Isso. – confirma meu pai. – Ele é de fato um traidor, não um infiltrado.
Tento raciocinar um pouco com essa nova informação. O fato é que mudar de lado é pior do que se infiltrar em uma Máfia. As consequências são piores e caso a pessoa sobreviva ao ritual de talião (o que quase nunca acontece) o chefe da Máfia em questão, pode dar um fim ao traidor. Como no nosso caso é a Cosa Nostra, essa pessoa é o meu pai. Mas levando em conta que tem Miguel (por parte de Alicia), Vitor (por minha parte), Muriel (por Lia) e eu por eu mesma, não acho que será meu pai a matar de vez o individuo.
_Afinal, quem é o filho da puta? – pergunto de uma vez, já sentindo o sangue ferver.
Meu pai me olha e respira fundo, me olhando com um olhar que eu conheço bem. É um olhar de pena misturado com conforto. E isso só podia significar uma coisa: o traidor é um conhecido. Um conhecido meu. E para meu pai estar aqui, me olhando dessa maneira e falando tão calmamente sobre isso, é porque a pessoa é também importante para nós. E desfazendo todos esses nós, somente um nome me vem à cabeça, me deixando desesperada.
_Não, você não pode estar certo... – sussurro baixinho, já sentindo as lágrimas preencherem meus olhos.
Meu pai se aproxima de mim e eu me levanto do sofá, me afastando à medida que ele se aproxima.
_Filha, ele confessou tudo. – conta. – Sinto muito.
_De quem estão falando? – pergunta Vitor.
Viro-me de costas e levo as mãos à cabeça, desesperada.
_Não, não, não! – sussurro a mim mesma.
_Filha, sinto...
_NÃO! – grito, mais para mim mesma do que para eles. – Isso é um engano. Ele não pode estar falando a verdade!
_De quem diabos estão falando? – Vitor grita, mas nem lhe dou atenção.
Ando de um lado para o outro sentindo que me falta chão. De todas as pessoas no mundo, ele é o que mais confio. Ou confiava... Não, tem que ter uma explicação para tudo isso.
_Ele pode estar mentindo. – digo a meu pai de repente. – Ele pode estar sendo ameaçado por Valentin!
_Não, Valentina, ele não está! – diz firme. – Sinto muito.
Encaro meu pai pasma. Assim como ele, eu também nunca esperava isso. Nunca. Ele sempre esteve ao meu lado, me ajudando, aconselhando, protegendo... Não. Nada disso. Ele mentiu para mim! O desgraçado mentiu! E pior que trair a Cosa Nostra, ele traiu a mim. Me enganou assim como Valentin fez.
Então vem a raiva. O ódio.
Saio desnorteada do escritório de Vitor e vou furiosa até o elevador, apertando o botão do subsolo. Meu pai e Vitor não conseguem me acompanhar e vão pela escada, mas eu pouco me importo. Tudo o que eu quero é uma explicação. Um motivo. Algo que seja plausível. Que me leve a acreditar que tenha uma boa/ótima/excelente razão para que ele tenha feito isso. Quando saio do elevador eu já estou quase explodindo de raiva, indignada por ter o traidor debaixo do meu nariz o tempo todo e nunca o ter notado. Mais raiva ainda dele ser uma pessoa que eu amo amava e considerava como irmão.
Conforme vou me aproximando da sala onde meu pai disse que ele estaria, a sala de interrogação, alguns seguranças tentam me impedir, mas é apenas um olhar que lanço a eles que eles rapidamente saem da minha frente. Entro na sala e o vejo sentado, amarrado na cadeira com os braços para trás. Ele leva um susto ao me ver e me encara pasmo.
_Valentina, o que faz aqui? – pergunta ele.
Eu fico parada por alguns instantes o fitando. Lá no fundo eu tinha esperanças de encontrar outra pessoa sentada ali e não, de fato, ele.
Mas era isso, Josué é o traidor. E dessa vez, não é nenhum jogo ou mentira. Ele foi pego.
Avanço para cima dele e começo a desferir vários socos em seu rosto, abdômen e tudo que eu podia tocar. Sinto tanta raiva que a cada segundo a força dos meus socos aumentam e eu sentia uma necessidade enorme de socar sem parar. Vitor e meu pai entram correndo e Vitor me puxa, me tirando de cima de Josué.
_Como pode fazer isso comigo? – grito descontrolada. – Como pode? Você era como um irmão para mim, um irmão! Você me traiu, seu desgraçado. Ajudou Valentin a fazer todas aquelas coisas comigo. Eu podia estar morta, seu traidor!
Vitor me segura com força pela cintura enquanto eu grito tentando me soltar e voltar para cima de Josué.
_Filho de uma puta. – vocifera Vitor. – Eu te acolhi na minha casa seu bastardo!
Josué nos olha assustado, sem ter o que falar ou fazer.
_Chega. – diz meu pai. – Vocês terão a oportunidade de fazer o que bem entenderem com ele, assim que eu terminar de fazer o que vim fazer.
_Não! – protesto. – A primeira a interrogá-lo será eu.
Meu pai me olha surpreso, assim como Vitor e o próprio Josué. Não consigo desviar meus olhos dos deles e a cada minuto que passa minha raiva aumenta, junto com a dor em meu coração. E pensar que cresci com ele...
_Você não vai ficar aqui com ele. – Vitor diz.
_Vou, vou sim. – digo. – E quero que todos saiam, agora! – grito.
Demora um tempo para que meu pai e Vitor se dispersem, pois ambos não queriam me deixar ali, ainda mais no estado que estou. Mas eles sabem que eu tenho que fazer. Eu preciso fazer isso.
_Por que está fazendo isso? – Josué pergunta, assim que ficamos sozinhos.
_Cala a boca. – vocifero, avançando mais uma vez para cima dele enquanto aponto o dedo na sua cara. – Cala a boca que quem vai fazer as perguntas aqui vai ser eu, e não você.
[...]
Josué fica surpreso com minha ousadia e isso está claro em seu rosto, que me olha assustado. Eu, por minha vez, olho para ele com puro ódio. Meu melhor amigo, que eu considerava um irmão, me traiu. De todos os palavrões que eu podia desferir a ele, apenas fiz uma pergunta após um longo tempo o encarando.
_Por que? – perguntei.
Ficamos mais um bom tempo nos olhando. Josué parecia procurar algo para dizer, para se defender, se explicar... Mas ele só movimenta a boca, nada saía.
_É complicado. – disse por fim, me fazendo perder a cabeça.
_Complicado? – gritei a ele.
Me aproximei o máximo que pude e soquei seu rosto com toda a força que tinha, sentindo meus dedos latejarem após o impacto.
_Você me traiu, Josué. Você me traiu! Mentiu. Nos enganou. Alicia está morta porque você ajudou Valentin e tudo o que tem a dizer é que é complicado? – esbravejei.
Josué voltou a olhar para mim, agora com o nariz sangrando. Vê-lo assim me dói. Mas ele merece coisa pior.
_O que quer que eu diga? – sugeriu calmo, me deixando ainda mais abismada com ele.
_Quero que me diga por que você mudou de lado? – perguntei mais calma. – Por que decidiu ajudar Valentin?
Josué me encara, analisando a pessoa a sua frente. Com certeza ele nunca me viu assim. Tão puta da vida. Tão cheia de ódio. Posso jurar que se eu tivesse armada, já teria dado um fim a ele. Sem me importar com o fato dele ter sido praticamente um irmão para mim. O que ele fez não tem perdão. Não tem nem mesmo explicação.
_Valentin me procurou. Me perseguiu por meses e sempre me propunha um negócio com ele. Eu sempre recusei. – começou. – Mas suas ofertas estavam ficando cada vez melhores. Ele queria o controle da Cosa Nostra, e naquele tempo seu pai estava em uma crise por sua causa, já que você não queria se casar. Eu sabia que você não casaria com um mafioso nem obrigada e isso levaria seu pai a perder seu cargo, dando uma oportunidade para Valentin. Ele iria aproveitar a crise da saída de seu pai e começar um massacre, matando lideres e ir ocupando cada Máfia que conseguisse. E ele ia conseguir. E foi por isso que eu aceite, me aliando a ele.
Josué fala com naturalidade, como se tivesse contando apenas o obvio, me deixando ainda mias chocada com ele. Eu sinto uma dor no peito em relação a ele ao mesmo tempo em que quero matá-lo. Sinto que falta pouco para que eu coloque todo o meu café da manhã (que eu nem comi) para fora, de tão enjoada que estou dessa situação.
_Mas eu me casei. – rebato.
_E isso nos causou um grande problema, acredite. Não foi só você que sofreu com isso. – falou ele.
Sinto a raiva me subir à cabeça novamente e dou outro soco nele, mas dessa vez em seu estomago. Assim que ele abaixa a cabeça sentindo a dor, agarro seu cabelo com força e o seguro, lhe dando uma joelhada na cara.
_Como tem coragem de dizer isso? – grito a ele. – Quando foi que as coisas entre nós passaram a ser mentira? – levanto seu rosto e o obrigo a me encarar, ainda segurando fortemente seus cabelos. – Quando foi que parou de se importar comigo de verdade?
Josué não diz. Mas minhas palavras parecem terem tido efeito sobre ele, pois ele me olha como se estivesse refletindo sobre. Seus olhos mostram o quanto ele se sente derrotado.
_Eu sinto muito. – sussurra. – Mas eu fiz o que fiz.
_Sente muito? – pergunto incrédula. – Diga isso para Lorenzo e para Geovana, duas crianças que nunca irão conhecer a mãe. Diga sinto muito para as famílias da Cosa Nostra que você ajudou Valentin a matar. Diga sinto muito para meu irmão morto pelo homem que você se aliou. Diga sinto muito para sua mãe quando descobrir que você é um traidor! – Josué fecha os olhos com força sentindo o peso das minhas palavras. – Mas não torne a dizer que sente muito para mim porque eu não irei sentir nem um pouco pelo o que vai acontecer com você. – digo em um tom ameaçador, fazendo com que seu olho esquerdo tremesse.
_Acho que mereço. – diz por fim.
Sorrio nervosa.
_Ah, você merece. – falo. — Merece isso e muito mais.
_Apenas diga a minha mãe que a amo. – pede, já prevendo seu fim.
_Eu tenho pena dela. – confesso. – Mas tenho mais pena de você, que vai morrer sem dignidade, como um traidor. – digo olhando em seus olhos. – Eu tenho pena de você Josué. Pena.
Ouço uma gritaria do lado de fora e pelas vozes reconheço Miguel, Muriel e Lorenzo, pai de Vitor. Olho pela última vez para Josué e algumas cenas de nós juntos nos divertindo em Palerma se passa pela minha cabeça. O nosso primeiro beijo. A nossa primeira vez. Todas as brincadeiras e festas que já fomos juntos. Cada risada que ele me fazia dar. Cada encrenca que eu me metia ele me tirava. Tudo. Minha infância toda passei com ele, todas as minhas descobertas ele estava ao meu lado. Quando meu irmão morreu, ele preencheu o espaço deixado por ele. E agora, está fazendo outro. Um bem pior, por sinal.
_Eu amava você Josué. – digo a ele, já com os olhos lacrimejando. – Eu confiava em você. Meu irmão confiava em você. Mas você nos traiu. Por ter medo de perder? De não ficar do lado poderoso da Máfia? – dou uma risada fria. – Eu estou começando a me perguntar quando foi que o Josué que eu conhecia parou de existir. Mas agora eu sei quando esse Josué, — aponto para ele. – vai para de existir.
Dito isso, saio da sala meio zonza, avistando todos no fim do corredor, me esperando.
_Você está bem, filha? – pergunta meu pai a mim.
Faço que sim com a cabeça, mesmo sendo mentira. Sinto uma tontura forte e minha visão está embaçada, não me deixando enxergar quem realmente está a minha frente. Reconheço apenas pela voz.
_Você pode interrogá-lo agora. – aviso meu pai. – Tudo o que eu queria saber já foi respondido.
_Deixe-me entrar lá. – ouço Miguel disser. – Alicia está morta por causa dele.
_Todos nós temos contas a pagar com ele. – lembra Muriel.
_Todos terão sua vez, rapazes. – concreta meu pai. – Mas pelos negócios, tenho que interrogá-lo primeiro, depois disso, é com vocês.
Ouço passos se afastando e deduzo que seja meu pai, indo para a sala onde Josué está. Sinto outra tontura, mas dessa vez mais forte, fazendo com que eu tombe para o lado, quase caindo. Apenas não caio porque Vitor impede, me segurando. Mas não consigo me recompor, e acabo desmaiando.
[...]
Abro meus olhos me assustando por acordar em minha casa. Parece que faz anos que não venho para cá. Os tons das cobertas ainda são os mesmos, está tudo no mesmo lugar. Mas ainda sim parece que algo está diferente.
_Oh, você acordou querida. – Richard aparece na minha frente antes que eu me questione da onde vem aquela voz. – Você estava desnutrida, pelo jeito não come e não dorme a um bom tempo. Você tem que se cuidar mais Valentina, lembre-se que você está grávida.
Me sento na cama cruzando as pernas e jogo meu cabelo para trás, massageando meu pescoço.
_Eu sei, doutor, eu sei. Meu filho se tornou uma das coisas que eu mais zelo nessa vida, mas com tudo que aconteceu nesses últimos dias, acabei me descuidando. – explico ainda meio zonza.
_Eu sei querida. Mas vou ter que pegar no seu pé, assim como peguei no pé de Vitor. Quero você longe de problemas, longe de qualquer coisa que possa te causar estresse e nervosismo. E isso é uma ordem, mocinha.
Pisco várias vezes. Ele falou com Vitor?
_Você disse que falou com Vitor? Sobre a minha gravidez? – questiono aflita.
Richard me olha como seu eu fosse uma louca.
_Claro que sim, ele é o pai, não é? – ele fala. – Mas voltando ao que eu estava dizendo, quero você longe de estresses Valentina, você não tem ideia de como isso pode causar mal a você e ao bebê. Tem que começar a tomar cuidado.
Antes que eu abrisse a boca e dissesse algo, ouvi a voz de Vitor ecoar pelo quarto.
_Não se preocupe, Dr. Richard. – diz ele de braços cruzados na entrada do quarto. Ele tem os olhos fixos em mim e eu não consigo distinguir o que ele sente no momento. – Eu mesmo vou cuidar do bem estar dela – os olhos de Vitor brilham. – e do meu filho.
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