A Luz no Meio da Escuridão
1 A Luz no Meio da Escuridão
Notas iniciais

As vezes, encontrar a luz significa passar por uma grande escuridão.
Grantaire P.O.V (Point Off View)
Gerenciar as finanças da família nunca lhe foi possível, soubera desde muito moço que o pai detestava-lhe por não saber matemática suficientemente bem. Isso, aliado a manifestar interesse por arte e tornar-se estudante do assunto, levou a uma sucessão de acontecimentos onde teve de deixar a casa dos pais dado ao repudio que tinham por ele. Categoricamente, aos olhos de sua família; era um inútil, fracassado e esquisito, alguém cujo qual era uma tremenda decepção que não atendia as expectativas e de quem ninguém se orgulhará.
Ademais, com filhos numerosos, deserdá-lo não pesou na consciência de sua família. Recebera mesada mensal por um ano, até que seus pais já não se importassem em lhe prover. Desamparado, tropeçando num mundo perigoso e injusto que obscureceu seus sonhos, tornou-se uma pessoa negativa e pessimista.
Descobriu não conseguir viver apenas com sua arte/pintura. Seu dinheiro acabou, assim como sua esperança esmoreceu até tornar-se cinzas. E para acrescentar a lista de descontentamento, costumava viver em um porão mofado cujo proprietário se deu o trabalho de expulsá-lo no meio da noite. Seus escaços bens pessoais foram despejados na rua sem piedade; oque não pode levar consigo, em mãos, foi deixado dramaticamente para trás, sabia que não estaria lá se retornasse.
Pelo tempo depois disso, meses depois, conhecera a pobreza de perto; assim como a ambição maléfica dos homens que tomavam tudo de quem não tinha nada. De perto viu-se sem nada, privado de tudo que já tivera, desmoralizado. Tentava quando possível vender sua força de trabalho, quando não, ficava inapto a qualquer tipo de dignidade, relegado ora mendigar ora prostituir-se...
...Desde então não acreditava em mais nada. Constantemente, com ópio e haxixe, caia em estado de anestesia ou estupor. Quando não, entorpecia-se com vinho, cerveja, aguardente ou absinto, que tão logo tornaram-se seus melhores amigos: Passou a entregar-se deliberadamente a tais coisas, pois desejava esquecer a vida.
Como um bom bêbado, não tinha dinheiro e nem sentia falta dele, mas sempre detinha em mãos uma garrafa. Conhecia todos os melhores lugares onde poderia embriagar-se, oque o levou a conhecer um aglomerado de pessoas aleatórias que lhe apresentaram aos mais diversos lugares a se estar. A primeira vista, seu espírito naturalmente bem-humorado, brincalhão e simpático ajudou-o a ganhar a confiança das pessoas mais improváveis, sempre lhe pareceu fácil encontrar agradáveis companhias, assim comendo e bebendo por preços mais em conta ou as custas dos outros, sem que isso trouxesse-lhe transtornos.
Percebeu o inevitável: Novamente, tinha onde estar aquela noite. Encontrava-se na presença dos Les Amis de l’ABC, no Café Musain. Claro que entrar no local pela primeira vez para especular o quanto tinha interesse na revolução foi uma mentira completa que usou como artifício inicial. Nas semanas que se seguiram ficou obvio para todos que era-lhe completamente indiferente a revolução. Ainda sim, a maioria dos jovens revolucionários ali presente não teve a coragem de mandá-lo embora junto sua incredulidade, pois grande parte deles se apessoou a ele rendendo-se a sua fachada simpatica e brincalhona. Sabia ser valorizado pelo grupo apenas por sua natureza descontraída e presumidamente amigável, que os Amis só o toleravam por causa de seu bom humor...
Era demasiadamente estapafúrdio, o lugar estava apinhado com a coisa mais próxima do que poderia atualmente chamar de amigos: Aqueles rapazes eram uma dádiva que pode encontrar em meio a escuridão que tornou-se sua vida. Seguia-os para todos os lados, apenas com eles era feliz.
Agora Grantaire, como todos ali, girava obedientemente entorno do sol. Seu Apollo, mais conhecido como Enjolras. Pelo tempo que fosse ainda permitido ficar naquela órbita, se colocou a admirar a estrela central. Oh, soube exatamente quando começou a se apaixonar por Enjolras...
Desde que entornou goela abaixo o líquido contido no segundo copo da noite, seus olhos sempre tendiam a pousar onde quer que estivesse o líder de vestes vermelhas, admirava-o de maneira desmedida e profundamente tocado com o afeto que sentia, não podendo mais se conter. O alcoólatra continuava a apreciar o ser ao qual despejava toda sua deferência: um Enjolras em pé com toda a sua glória sob uma mesa cheia de papéis importantes, o homem era intangível, confiante e absolutamente belo em seu dever.
Oh, em seu melhor delírio o rapaz lhe parecia o mais belo dos querubins, com aureolas bem adornadas, um ser de luz brilhante com voz ardente e a serviço de sua amada pátria, uma clemencia divina para todos aqueles moribundos e miseráveis que lá viviam, inclusive ele próprio. Todos os deuses olhariam contemplando sem cansarem-se de vê-lo em toda sua beleza, ímpeto e discurso audaz. Quem dirá Grantaire, um reles e enfadonho mortal, não poderia deixar de sucumbir a tamanho apaixonamento: Deixaria a si mesmo em suspenso apenas para servi-lo com jubilo.
Seu amor por Enjolras era do mais puro e deveria ser assim reconhecido como tal. Porém a vida, maldita desgraçada inventada por não sei quem, nunca era a favor de Grantaire; reconhecia-o como o cético que era e, como se para amaldiçoar e desgraçá-lo ainda mais, lançava em sua direção ainda mais incertezas e desafios.
Oh, vida miserável. Assim era: desde que chegara em seu círculo foi mal aceito pelo cativante líder de vestes vermelhas, seu Apollo. Sempre e sem parar maltratado por Enjolras, repelido com dureza, expulso dali quase todas as vezes, mas voltando sempre quando pedido.
“Grantaire?” A voz esplendorosa e altiva soou pela sala de reuniões do Musain, talvez uma ou duas vezes mais. “Grantaire!?” Se repetiu, um tanto impaciente e impositivo: “Se não lhe é pertinente prestar atenção nos nossos assuntos, encontre outro lugar onde sua falta de atenção seja melhor apreciada” Soou Enjolras com rudeza.
Ali estava o revés, toda sua adoração não era suficiente frente a seu Apollo. Como se espetado por um alfinete, Grantaire se retraiu ao ouvir oque o loiro lhe direcionou. Com olhos brilhantes e face de quem clamava por piedade proferiu: “Permita-me ficar, pelo menos ficar até o fim uma vez mais...”.
Nenhum brilho de comiseração adornou os olhos azuis de Enjolras, pelo contrário, sua mandíbula ficou tensa e sua tez irritada: “Diz igual coisa por semanas, um mês transcorreu desde sua admissão entre nós, porém é incapaz de expor opinião significativa e ideias convictas sobre nossa luta, em nada acredita”.
“Eu acredito em você” Respondeu-lhe com toda sinceridade.
A resposta caiu em ouvidos surdos, o líder continuou implacável: “Além de se regalar com vinho e absinto, que mais tem pretensão de, aqui, fazer?”.
“Servi-lo, é claro” Devolveu prontamente, como se não houvesse dúvidas quanto a resposta para tal pergunta. “Permite-me?”.
“Serve-me melhor longe no momento, se retire” Ordenou com um tom que sugeria que, bem como Grantaire idolatrava-o, em igual proporção Enjolras abominava-o.
Enjolras lhe era essencial, amava-o. Entretanto havia limite, chegou ao máximo de até onde podia estender seu masoquismo, quando então com fúria e indignação Grantaire exclamou: “Você verá!” Levantou-se como se uma tempestade tropical o tivesse possuído e partiu. Em sua névoa de embriagues, deixar o local intercorreu com pegar uma garrava de vinho a mais que estivera a alcance de sua mão, junto a derrubada de sua cadeira no processo de levantar-se dela, assim como um esbarrão violento e descuidado de seu quadril contra a mesa, oque lançou os papéis do líder de vermelho flutuando rumo ao chão.
Seu Apollo mal pode manifestar adequada reprimenda, pois antes disso Grantaire usou o pé para abrir a porta e a fechou com um chute, que a fez colidir com tamanha força que ensurdeceu-se os ouvidos, deixando apenas o eco de sua fúria intempestiva para trás.
Enquanto afastava-se a largos passos do Musain, seu coração batia rapidamente em seu peito, feito um tambor, sentia sua face e orelhas quentes e avermelhadas tanto de raiva quanto de vinho e absinto. Do lado de fora estava frio, dito pela sua respiração produzindo uma baforada cinzenta toda vez que soltava o ar, tanto quanto pelo amontoado de neve ao chão ou em processo de queda. Ali no ar gélido, Grantaire sentiu murchar sua ira, cedendo a melancolia que lhe aplacava dia após dia.
“Ao menos, ainda tenho vocês” Disse para suas mãos onde descansava, em uma, meia garrafa de vinho tinto e, na outra mão, uma garrafa com rolha ainda intocada.
▀▄▀▄▀▄ ...Um tempo depois...▀▄▀▄▀
Não estivera sóbrio por vontade própria havia muitos meses; Grantaire era um homem que desperdiçava todo o tempo focado em afogar suas mágoas em álcool, de propósito, a medida era o abismo e o objetivo anestesiar-se. Nervosamente, tombou uma garrafa a mais nos lábios. Gole após gole chegou ao fim de uma delas, não perdendo tempo em abrir a outra.
“Oh, Dionísio, Deus grego beberrão de vinho, gosta tanto quanto eu?! Não há senão uma coisa certa, além do meu corpo cheio de álcool. Prestigiai-o então um ritual, oh, divindade dos ciclos vitais, das festas, do vinho, da bebedeira, da insânia, do teatro, bom protetor dos que não pertencem à sociedade convencional (…)” Ruas vazias a dentro o som de sua voz deprimida reverberou-se, enquanto prosseguiu exaustiva e ininterruptamente o discurso de coerência duvidosa.
Mesmo tanto vinho não estava trazendo-lhe a agradável sensação de esquentamento, suas palmas e pés ainda frios pelo tempo gelado. Sentia-se morto. Maldito tempo invernal, tinha um jeito insensível de deixá-lo ainda mais desanimado. Mas, de antemão, já sabia que não existia alívio ou redenção em meio a miséria...
Cabeça baixa, pernas afastadas e braços ligeiramente longe do corpo tentando, assim, deter algum equilíbrio, seguia em frente cambaleante. Qualquer transeunte o nomearia constantemente como um bêbado fanfarão; não era por deleite a que bebia, porém, mas porque a vida tornou-se insuportável e cruel para lidar com ela lúcido.
A fase divertida e alegre de sua bebedeira deixou-o há horas, chegado a tal momento da embriagues onde tudo lhe era tormento macabro e assustador. Contudo, não tinha medo de ir rumo a escuridão, seus tropeços levaram-no a isso e não podia voltar atrás.
Hora ou outra desabaria ao relento frígido, se acordaria vivo no dia seguinte estava a depender das garras do destino. Não se importava: A vida era uma sucessão de erros, o mundo terrível, lugar perigoso e sem esperança, acumulado com carências e desprovido de bondade...
...Depois de tudo oque passara, minguou-se toda a fé que algum dia Grantaire deteve, agora punha todo o cuidado em não acreditar em coisa alguma.
Mas não nascera bêbado nem cético, por isso soube exatamente quando começou a apaixonar-se por Enjolras: viu-o num palanque alto frente a praça, lançando palavras com tamanha influência como que um querubim descido dos céus decidido a rogar pelo povo miserável, para todos era um símbolo de inspiração, um líder famoso cujo qual com seus ideais inovadores e republicanos acerca de liberdade, igualdade e fraternidade salvaria o povo das forças malignas da monarquia. Ao vê-lo pela primeira vez ficou deslumbrado, seu único ato possível após isto era venerá-lo...
...Segui-lo-ia não por suas ideias revolucionárias, mas pelas opostas características de ambos: onde era desmensuravelmente feio, o outro era belo / onde era defeituoso, o outro era perfeito / onde era divergente, o outro era harmonioso / onde era vacilante, o outro era equilibrado / onde era emocionalmente instável, o outro era racional.
Grantaire, com seu caráter obscuro e desprovido de fé, ligava-se instintualmente ao caráter de luz e confiança irradiados por Enjolras. Seu amor era tão simples quanto a Lei de Coulomb; a qual dizia que a força entre dois corpos será atrativa se os mesmos tiverem cargas opostas.
Por isso entrou no Café Musain pela primeira vez, decidido a ficar tanto quanto possível. Conheceu e rodeou-se com os amigos rotineiros de Enjolras, apenas para ficar ainda mais próximo do líder...
...A vida nem sempre era luz. Mas quando sim, segui-lo-ia, seu Apollo. Porém, agora pairava sozinho mais uma vez na escuridão. Sem aquele brilho lá, queria apenas encolher-se e chorar copiosamente, com o vinho revirando perigosamente em seu estômago...
A vida tinha mesmo um gosto amargo...
Acostumou-se a nutrir rancor de sua família depois de ter sido abandonado, entretanto, pela primeira vez a desesperança que lhe abateu tinha outro nome, seu coração estava quebrado: “Como meu pai, Enjolras detesta-me!” Disse fungando, seu ressentimento tomou o melhor dele, assim sua última garrafa estava quase no fim. “Eu necessito de Enjolras. Mas ele não necessita de mim. E quem precisaria de mim? Se Enjolras viesse me buscar, segui-lo-ia, mas ele não virá desta vez...”
“...Tolice acreditar que um dia seria querido, que um dia tive fé no amor, que um dia acreditei em sonhos, que um dia a vida valeria a pena, que um dia seria corajoso para atravessar desafios e sair com sensação de dever cumprido, que um dia seria livre… Seria a morte a única e verdadeira liberdade? Seria a vida mais uma mentira? Oh, meu velho e bom amigo Antoine-Jean Gros, lembro-me bem de quando éramos artistas, por que se suicidou afogando-se no rio Sena? Por que era um pintor subestimado, como eu? Por que sua família era má, como a minha? Por que faliu, como eu? Por que era um alcoólatra devasso, como eu? Tragédia! Também sou um grande fracasso, a depressão me assola… Espere por mim lá no fundo, estou indo até ti!”
O sino da igreja badalou, indicando ser meia-noite. Horas transcorreram desde sua saída irritadiça do Musain, talvez ninguém o procurasse, nenhuma única alma. Em outros dias Joly e Bossuet sempre teriam saído logo em seguida para averiguar sua saúde e bem-estar, ou então seria Courfeyrac quem viria a seu auxílio. Por duas vezes o próprio Enjolras apareceu desejando que se recompusesse e retornasse no dia seguinte. Ninguém foi se certificar desta vez…
Um milhão de coisas passaram por sua cabeça, se perguntava onde tudo deu errado. Talvez os Les Amis de l’ABC estivessem rindo agora em sua ausência, sem o dissabor de sua contrariedade para aplacá-los e chatear os planos: Tudo o que pode ver, em sua solidão, era a escuridão. Seguindo todas as sombras, mesmo em seu estupor bêbado, sabia a localização exata para chegar ao rio Sena. Não havia nada para detê-lo.
Convencido, estava prestes a findar com toda aquela miserável vida. Isto é, tão preso em seu assombro bêbado que não pode ouvir o casco dos cavalos sob o chão aproximando-se rapidamente de onde estava, até que a carruagem parou perto de si. Lançou um olhar atordoado ao cocheiro...
...Tentando superar o terror abjeto de pensar que, em sua pressa, segundos antes o coche teria esmagado-o junto a pavimentação, observou intimidado aquela primorosa carruagem que manteve-se imóvel a seu lado. Como se não bastasse o susto, quem dela desceu lhe surpreendeu ainda mais: O jovem líder de vermelho, chegando perto de si tão depressa que mal Grantaire pode esconder seu sobressalto a tempo.
Todo contido e com uma cara séria, Enjolras disse-lhe: “Meu comportamento hoje foi excessivamente descortês. Devo pedir-lhe perdão” O tom soava como se estivesse usando todo o seu autocontrole para esconder seu desgosto.
Seu magnânimo Apollo era muitas coisas; atraente, cativante, fascinante e influente, mas atencioso não costumava ser um de seus atributos básicos, muito menos quando dirigido ao cínico do Les Amis. Algum de seus amigos deve ter insistido diligentemente para que fosse atrás do bêbado...
Pelos céus e todos os anjos; Seu belo querubim, chamado na terra apenas de Enjolras, de todos os lugares no mundo ali encontrava-se. Não importava a Grantaire quem ou oque designou-o com a tarefa de ir até lá para reconciliarem-se, grande fato era que estava ali e não esqueceu-se dele, isso tornava-o um ser com sentimentos.
Assim, sentiu a maioria dos pensamentos sobre morte deixar sua mente. Enjolras não abandonou-lhe ao relento, oque significava que não detestava Grantaire a ponto de querê-lo longe por muito tempo (como sua família fizera). Essa descoberta trazia ao cínico uma sensação de paz e felicidade avassaladora.
O bêbado tinha as bochechas coradas em seu rosto novamente sorridente: “Oh, Apollo… Eu não sabia que estátuas de mármore tinham coração!” Disse numa modulação de voz que sugeria ternura.
Levando uma das mãos as têmporas, com a finalidade esconder parte de seu constrangimento, o loiro respondeu de imediato: “Pare já com isto, sabe que detesto tal tipo de adulação. Você não pode ser sério uma vez na vida?” Disse carrancudo, o lindo queixo másculo endurecendo enquanto esperava sua resposta.
“Desculpe, perto de você, torno-me irremediavelmente selvagem” Rebateu olhando diretamente nos olhos azuis do outro, com um sorriso divertido tomou um gole de sua bebida, libertinamente cativado com o deus grego a sua frente.
O loiro fechou as mãos em punhos, trincou os dentes e enrubesceu-se de raiva frente ao atos sugestivos de Grantaire, visto o comportamento do bêbado, tal como se gostasse de aborrecê-lo. Querendo voltar a repreendê-lo, mas entendendo que foi até lá para justamente desculpar-se por outrora repreendê-lo outra vez com excesso de dureza, o líder de vermelho conteve-se e hesitou por um segundo.
Reconsiderou, ajeitando a gola de suas vestes de pajem para acalmar-se, disse: “Pois bem, creio que deva voltar amanha ao Café Musain, desde que apresente-se condignamente”.
Grantaire sempre foi uma pessoa controversa; irônico e cordial, afrontoso e amável. Se antes estava sorumbático e tristonho, agora estava travesso e brincalhão. Durante um curto período de tempo experimentou as mais diversas variações bruscas e extremas de emoções, foi uma noite conturbada. Apenas uma coisa era certa, vivia sem acreditar em nada, mas seu coração não vivia sem amor e amizades. Por isso retumbou: “Quer, honestamente, que eu volte?”.
“É claro, de que outra forma poderia dar-lhe a chance de cair em minhas boas graças novamente?” Confessou Enjolras, contrariado. Em sintonia junto a risada ruidosa e feia que ecoou pelas ruas contra sua vontade, o corpo de Grantaite balançou. O bêbado até que tentou aplacar a risada de escarnio que surgiu ao ouvir aquilo que lhe foi dito, mas não pode. Impaciente com o ocorrido, o lindo deus grego disse: “Oque é tão engraçado?! Queria eu poder rir também!” Exprimiu com um humor perigoso que indicava tudo, menos que estava a fim de divertir-se.
Quase sem ar, segurando a barriga e engasgando com as palavras, Grantaire rebateu: “Se com o uso do termo -cair em suas boas graças— quer dizer doutrinação a sua própria visão de revolução, sabes que sou completamente cético, e não incomodo-me com este governo. Além disso, a palavra novamente usada por você sugere que um dia já cai em suas boas graças, oque tenho certeza que nunca ocorreu. Tudo está errado nesta sua frase. Tem certeza que deseja que eu volte?”.
Enjolras enfureceu-se de imediato: “Vim, ora pois, achei-me na responsabilidade de me retratar devido a forma como o repeli hoje. No entanto, esta noite, você parece-me incorrigível. Certamente mereces-te que eu o mandasse embora!”.
A atitude do líder feriu diretamente o coração de Grantaire, que brandiu em raiva: “Se assim pensa, porque então deseja que eu retorne?”.
Repentinamente tudo tendeu, outra vez, a um daqueles momentos de discórdia entre os dois. Tomado pele desgosto e desapontamento de tudo dar errado em seu pedido de desculpas, Enjolras decidiu-se por revelar: “Eu não desejo que retorne”.
A expressão de espanto absoluto em seu rosto denunciava que toda a reles esperança, que surgiu prontamente em seu peito quando Enjolras apareceu ali, esvaiu-se de Grantaire. Que seu belo querubim revolucionário não tivesse nenhuma ínfima consideração por ele, machucou-o até a alma.
“Neste caso, talvez seja melhor que eu não volte. Nunca. Deixe-me sozinho agora, e vou lhe fazer o favor de não ter o desprazer de me ver outra vez... Já estou perto do fundo desta garrafa, perto do fundo do poço… digo, antes de você vir até aqui, estava literalmente cada vez mais próximo do fundo do Senna, não que você se importe, certo?! Me enjeite como todos outrora fizeram, já acostumei-me!” Grunhiu, com lágrimas nos olhos e tentando sair imediatamente da presença do loiro.
Percebendo o buraco profundo e escuro ao qual suas duras palavras traiçoeiras direcionaram Grantaire, Enjolras demonstrou preocupação em seu semblante; seu rosto perfeitamente esculpido pelos anjos foi tingido agora com um tanto de aflição. Colocou-se a segurar o cínico no mesmo lugar impedindo-o de fugir, firmemente tocando-lhe os ombros e mantendo-o lá.
Assim corrigiu-se com a verdade: “Antes de você, nossos encontros eram de total acordo harmonioso. Por isso digo que, em parte, não desejo que retorne. Contudo, a forma como todos me acatam e escutam sem questionar não me agrada. Seu antagonismo, por outro lado, me exaspera. Apenas tolero o seu constante pessimismo. E ainda sim, quando não está lá conosco, fico a girar a cabeça procurando sua presença e pensando em como irei eu refutar suas ideias niilistas assim que elas surgirem para se opor aos meus ideais e convicções. Onde sou frio racional, és fogo avassalador. Nossa marcante diferença é oque nos atrai. És um descrente que necessita de minha fé e confiança para manter-se são, posso ver isto. E sou um crente fervoroso que necessito de suas críticas para manter-me realista. Percebi que é justamente nossa incompatibilidade que nos aproxima. Somos o avesso um do outro, duas partes opostas de uma mesma coisa, por isso não podemos nos dissociar, nem se desejarmos”.
Retumbou nos ouvidos de Grantaire, como se fosse o refrão de uma música particularmente adorável, tudo aquilo que Enjolras acabara de declamar. Ainda com lágrimas nos olhos do desapontamento de segundos atrás, um pequeno e simples sorriso de contentamento surgiu-lhe nos lábios: “Tens uma maneira estranha de quebrar meu coração e, de imediato, consertá-lo assim que percebe o dano. A combinação inebriante entre seu desprezo e carinho me deixa quase que em transe e deve ser por isto que, como o grande masoquista que sou, volto para você todas as vezes...”.
Determinação estampou os olhos azuis de Enjolras, disposto a desabafar oque sentia desde que conhecera-o: “De fato, tento constantemente afastá-lo com palavras ásperas ao mesmo passo em que puxo-o de volta para meu círculo de amizades assim que sinto sua ausência prolongada. Perdoe-me por cair em tal contradição, não queria quebrar seu coração, mas saiba que assim faço não porque que meus sentimentos por você são inexistentes, é justo o oposto!”.
“Como assim?” Questionou o bêbado, enrugando a testa sem compreender.
“Todos pensam em mim não como humano e sim como a mais perfeita representação dos ideais republicanos, aos quais tento dedicar-me única, implacável e inflexivelmente. Você, porém, quando não está me contrariando e irritando com suas objeções aos meus ideais, quando só está lá a venerar-me, ironicamente faz com que me sinta um humano comum; pois sua presença me deixa alvoroçado, borbulhante, nervoso, inquieto, pasmo e ansioso. Não entendo de onde vem emoções cruas como tais. E tentando solucionar o mistério, por vezes, vejo desviar-me de meu amor patriótico assim que noto a admiração e devoção que você dedica-me diariamente. Foi isto que fez com que lhe expulsasse hoje, sua presença estava distraindo-me tanto quanto eu estava distraindo-o, como polos opostos de um ímã que atraem-se quando próximos. Sinceramente, prefiro quando estamos discutindo nossos pontos de vista divergentes, pelo menos isso não desvia-me a atenção de minha amada pátria...”.
Grantaire resolveu simplificar: “Eu também te amo, Enjolras”.
O líder descobriu então o porque de, ao notar a aberta adoração de Grantaire, suas mãos soarem, seus nervos se afligirem, o motivo de todas aquelas sensações borbulhantes e alvoroçadas em seu âmago, entendia finalmente de onde vinha toda sua inquietação e nervosismo quando o outro homem olhava-o de cima a baixo com olhos de contemplação. Tudo oque experienciava era fruto daquelas famosas borboletas no estômago sentidas por todos os tolos apaixonados. Assim, Enjolras foi atingido com força total pelo sentimento que agora podia denominar: amor...
...Compreendera também porque rejeitava tanto o outro rapaz, e teve que deixar claro: “Entenda que, por mais que eu queira, não posso permitir-me amá-lo Grantaire. Minha prioridade é outra. Lutar pela revolução é o certo e não vou desviar-me de tamanho propósito. Não importa minha solidão, ou a sua. Não importa que sejamos almas-gêmeas. O objetivo que aspiro é para um bem-maior. O amor e as pequenezas de nossas vidas não importa para mim no momento atual” Rebateu o líder de vestes vermelhas, com expressão endurecida.
Grantaire não se intimidou: “Eu sei. Querer tê-lo só para mim seria tremendo egoismo. Preciso de você, mas os diversos franceses com vidas miseráveis precisam mais. E se você não consegue se concentrar em ambas as coisas, amor e revolução… Apenas saiba que, ainda que me rejeite continuamente, voltarei e ficarei ao seu lado todas as vezes. Desde que me queira de volta e ao seu lado. Você permite isso?” Perguntou-lhe, com olhos brilhantes de expectativas.
Enjolras se aproximou ainda mais de Grantaire e tomou-lhe uma das mãos, entrelaçando-as com as suas próprias, com um raro sorriso gentil no rosto: Isso foi resposta suficiente para a pergunta do alcoólatra. Que sorriu-lhe de volta, finalmente em paz.
A expressão do líder parecia agora mais suave e satisfeita com o resultado daquela conversa, porém, no ar frio da noite quebrou o momento ao lembrar-se: “É tarde, contando que estou aqui de carruagem e nossa conversa se findou, deixe-me levá-lo para sua casa como retratação por todas as vezes em que lhe desprezei no curto período de tempo que nos conhecemos, e em nome do que pudemos compartilhamos e esclarecer hoje”.
O pintor tornou-se rapidamente constrangido, coçando a cabeça respondeu com vergonha de si mesmo: “Claro. Mas quanto a isso, não será possível(…), pois fui despejado faz uns meses. Eu moro em qualquer lugar agora, vamos lá, a maioria concordaria que a sarjeta é o lugar dos bêbados como eu” Tentou brincar, não obtendo muito sucesso, dado a expressão estampada no rosto de Enjolras. Continuou: “Mas não se preocupe assim, tenho onde beber, tenho onde comer, tenho onde fazer minha higiene pessoal na maioria das vezes, vou sobreviver. Estarei no Café Musain amanhã, se assim deseja. Por agora, não tenho para onde ir...”.
“Devo corrigi-lo porque; Sim, tem onde ir. Falava sério quando disse-lhe que vou acompanhar e levá-lo até sua casa. Portanto, suba na carruagem!” Disse num tom mandão, onde sugeria que deveria ser seguido imediatamente. Qualquer outro teria obedecido o belo querubim sem pestanejar.
Grantaire, como o opositor que era, teve de contra-argumentar cruzando os braços e desobedecendo a ordem que lhe foi dada: “Que casa? Acabei de lhe informar que não tenho nenhuma, Apollo. Não sei do que estás a falar. Mas quanto ao meu destino esta noite, não se preocupe, isso aqui me manterá aquecido até amanhã, assim como todo o resto que já deve estar correndo no meu sangue” Disse suspendendo a garrafa com um sorriso.
Enjolras endureceu o olhar, sua cara crispando, repetiu mordaz: “Suba na carruagem!” Ordenou outra vez, como suas mãos ainda estavam entrelaçadas, tentou puxá-lo até o coche. “E deixe essa garrafa para trás, ou a tomarei de você e a jogarei fora eu mesmo!”.
“Oque?” Perguntou atordoado.
“Vamos, faça oque lhe peço. Nós e o cocheiro estamos no sereno da noite por tempo suficiente” Informou voltando a ficar irritado por ser contrariado. “Quanto a nosso rumo, semanas atrás quando juntou-se a nós, soube de sua situação e tive de fazer algo porque é inverno e não posso permitir que fique a merce da sorte. Então tomei a liberdade de passar uma de minhas poses para seu nome. Eu tinha uma estalagem perto do Musain. Agora pertence a você, siga-me que lhe mostrarei!”.
Se antes acreditava que Enjolras não tinha estima por ele, ocorrera agora uma grandíssima subversão de tudo oque poderia pensar sobre seu relacionamento com o homem; estava maravilhado com o fato do líder ter ido até lá, encantado por tudo oque conversaram e esclareceram sobre seus sentimentos, chocado com o fato do loiro ter se antecipado e tomado medidas para beneficiá-lo, mal podia acreditar que aquilo era real. Em razão, sempre sentiu que as duras e repressivas palavras de Enjolras muitas vezes lhes diziam uma coisa, enquanto seu comportamento outra. Quando, muitas vezes, suas palavras lhe afastavam e desprezam, seus gestos o aproximam...
...Percebeu então que Enjolras o amou desde o primeiro momento que se cruzaram, e por medo de perder de vista seus objetivos com a república afastava-o. De tão embasbacado, Grantaire ficou de boca aberta e paralisado no mesmo lugar sem poder reagir por vários segundos, atordoado: Algo nisso tudo devia estar terrivelmente errado. Como poderia, seu Apollo, amá-lo?
Mantinha uma crença pessimista de que todo aquele encontro foi infundado, tinha de haver alguma controvérsia. Depois de tanto beber, era provável que seu raciocínio estivesse lento. A confusão mental que estava atingindo-o após a bebedeira devia ter confundido seus sentidos, com alguma certeza acordaria amanhã e descobriria que tudo oque debateu com Enjolras não foi nada daquilo que pensara inicialmente, que entendeu mal...
...E se não era um mal-entendido dado sua incoerência de raciocínio bêbado, seriam eles então os arquétipos de Orestes e Pylades? De Aquiles e Patroclo? Almas destinadas a um fim trágico, só poderia ser isto. O destino, permeado por uma vida amarga cujo qual sabia perfeitamente bem o sabor, continuaria a lhe pregar peças cruéis, de certo: Seu pessimismo não permitia-lhe pensar diferente...
Aproveitando-se da desorientação momentânea do bêbado, o líder de vestes vermelhas tirou-lhe gentilmente a garrafa de vinho das mãos e levou Grantaire até o coche pelas mãos, sem que este nada pudesse fazer de tão aturdido com oque acabara de vivenciar.
▀▄▀▄▀▄ ...Um tempo depois...▀▄▀▄▀
A casa que Enjolras pretendia lhe ceder era ampla, a tintura era monótona e a decoração simplista, mal entrara e Grantaite já enfeitava sua mente com um milhão de ideias de como tornar o local menos insípido, talvez fosse uma excepcional ideia adorná-lo com uma centena de pinturas de seu Apollo, sua luz, tornando o lugar seu santuário particular. Ou talvez não, deixar tudo do mesmo jeito era bom também, deixar tão imaculado como estava e lembra-se constantemente que aquele era um dos consagrados locais onde Enjolras pusera os pés, onde algum dia respirou o ar, residiu, comeu, banhou-se, estudou, dormiu e pensou castamente em sua amada pátria.
O rapaz loiro parecia olhá-lo como esperando alguma aprovação. Mas a voz de Grantaire sumiu, estupefato e sem acreditar que realmente estava pisando naquele lugar, que o alvo de todo o seu amor platônico levou-o ali por conta própria; o ambiente só era tão especial porque pertencia a seu adorado Enjolras. Quando finalmente falou, era inevitável mencionar: “Não posso pagar por isso…”.
“Não pretendo cobrar-lhe. Nada desejo em troca, absolutamente nada” Resmungou com força e ferocidade como se tivesse sido tremendamente insultado.
Com olhos arregalados, atônito disse: “É muita bondade sua. Mas não posso aceitar, eu… Apenas não posso… Conheci-lhe a pouco tempo, e por minha adoração e amor por ti quero ser reconhecido, não quero que pensem que estou a aproveitar-me de sua boa vontade...”.
O loiro revirou os olhos: “Não vão pensar. Escute, sou filho único de uma abastada família, mas como sabes estudo direito e sou forte defensor da república. Não detenho apego algum a títulos e bens quanto meus familiares, em vez disso desfaço-me deles porque de sobriedade e abstenção de conforto vivo. Por conta disto, vinha me desfazendo de tudo quanto é tipo de luxo desnecessário… Minha família cogita que estou sendo imprudente. E apesar de grande defensor da liberdade, não sou de todo livre. Em breve, minha perderei minha liberdade em movimentar e livrar-me da minha parte nas poses, fortuna e bens de minha família. Tive tudo deliberadamente bloqueado por meus próprios pais, até que me case e produza um herdeiro. Acreditam erroneamente que deixarei meu idealismo republicano para trás quando construir uma família. Contudo, a ordem judicial expedida a mando deles só passa a vigorar daqui 30 dias, por isso pude transferir esta estalagem para seu nome. Fique com ela, se não por você, por mim. Não sabe o deleite que me agraciará quando meus pais souberem disso!” Riu com voz de sinos, e depois acrescentou: “Além disso, não é o único cujo qual compartilho tais coisas, os outros Amis também já tiveram sua cota, digo, a maior parte da mesada que recebo lhes dou, pois não preciso de tanto. Posso ajudá-lo com as despesas da propriedade também, se assim for…”.
Da forma como tudo foi-lhe explicado parecia difícil continuar a negar, só o pensamento de voltar ao frio da rua atormentava-lhe, estremeceu. Ainda pasmo, murmurou: “Se isso lhe agrada, Enjolras. Vai ser bom para mim também… E, se beneficia a nós dois, digo-lhe que fico”.
Um brilho estranho pairou nos olhos do loiro, quando então pigarreou: “A propósito, meu nome de batismo é Julien... Julien d’Marcellin”.
“Oque?” Falou Grantaire sem poder imaginar aquilo, momentaneamente abalado com a informação. Ele ouvira bem? Ou a bebida já tinha subido a cabeça?
O líder foi paciente em explicar mais uma vez: “Não me chamo verdadeiramente Enjolras. Tive esta ideia apenas… Soa um pouco como a palavra enjoler (encantador ou sedutor), mas tive tal ideia a partir da palavra enjeura (aterrorizador), ainda penso que alguns possam assimilar a algo como Engel (anjo) Rad (conselheiro). Seja oque for combina mais comigo, porém não é meu nome de batismo, cujo qual opto por não utilizar dado ao prefixo d’ anterior ao meu sobrenome indicando minha ligação com a nobreza, da qual pretendo a todo custo me desvencilhar. Porém, não conte a uma alma, só nossos amigos sabem…” Ameaçou-lhe.
Se o líder contou algo assim justo para ele, tinha que fazê-lo entender que era merecedor de tal confiança: “Prometo pela minha vida!” Disse, cheio de blandícia.
“Para um homem que disse estar prestes a ir para o fundo do rio Senna hoje, isso não significa muito para você!” Retorquiu.
Grantaire tentou outra vez: “Prometo por sua vida então, sabes que é tudo para mim. Não poderia eu viver um segundo sem você, morreria por você e com você, se necessário. Faria qualquer coisa por ti, até engraxar-te as botas ou lamber o chão onde pisas, lhe concederia qualquer favor e executaria qualquer tarefa por ti. Juro que ninguém saberá, nem se eu estiver sob tortura. Não acredito que contou isso para mim, mas já que contou, serei fiel em manter em sigilo absoluto…” Em seguida, ficou a duvidar da veracidade de tudo aquilo: “Espere!? Eu estou sonhando, não é? Mais é claro, impossível que tudo isso esteja de fato acontecendo, estou na realidade na sarjeta fria e suja em sono profundo, certeza. Já devo eu estar nos braços de Morfeu, que metamorfoseou-se em você apenas para acalentar minh’alma desgraçada e melancolica...”.
“Pare com isto, disse-lhe tempos atrás que tenho aversão a tal tipo de adulação. Apenas pare, agora!” Se irritou, mas voltou a explicar-lhe frenético: “Nada disto é sonho ou delírio. E quanto a dizer-lhe o meu nome, digamos que estamos quites. Ora pois, e quanto a você? Por que não diz a ninguém que chama-se René-Antoine Radoux?”.
Petrificado, Grantaire olhou-o assustado por alguns segundos. Depois resignou-se ao obvio: “Pego-lhe em mentira, Morfeu. Meu nome de batismo, apenas eu poderia disto saber. Eu estou, de fato, sonhando e estás em minha cabeça, não é?” Sussurrou-lhe em posterior: “Vamos as verdades, não é como seu eu fosse chatear-me. Só o fato de estar aqui como Enjolras, já é para mim um grande presente…”.
“Estás de fato bêbado... Porém escute, isso não é um maldito sonho!” Grunhiu o loiro, já se mostrando incomodado.
Grantaire riu alegremente: “Claro que não, não é um sonho maldito se está aqui! Nada pode ser maldição quando estou com você, ou quem quer que seja, parece ser você, Enjolras! Então estou feliz!” Rebateu com olhos grandes de adoração.
Enjolras suspirou e depois rapidamente mostrou-lhe o papel de transferência de posse da casa: “Não se iluda. Isso tudo é bem real. Veja, nossos nomes tinham de estar escrito por completo e em extenso no documento. Eu teria que lhe dar isto, de qualquer maneira, e seria tolice desnecessária postergar a verdade quanto a nossos verdadeiros nomes”.
Apenas para observar de perto o garrancho que chamava de assinatura, seu misterioso e enigmático: R tomou o documento das mãos do outro homem: “Falsificou minha assinatura?” Protestou abismado.
“Não. Mas posso ter, injustamente, me aproveitado de seu estado de embriagues um dia desses para conseguir isto. Você, de bom grado, respondeu a todas as minhas perguntas e assinou tudo que lhe pedi. Foi assim que forneceu-me seu nome de batismo dizendo que foi deserdado e prefere não usá-lo mais…” Enunciou, dando sentido ao ocorrido.
Olhando o nada, o alcoólatra disse reflexivamente: “Ah, naquele dia em que, estranhamente, deu-me atenção... Pensei que tinha sido um sonho…”.
“Pois não foi, sinto muito tê-lo enganado. Foi para seu próprio bem. Foi problemático ficar sondando-o até que, garrafa após garrafa, dissesse-me seu verdadeiro nome... Compreendo a parte em que não deseja usa-lo após deserdado. Mas afinal, porque diz a todos que chama-se Grantaire?! De onde veio tal ideia?” Questionou curioso.
Com a cabeça levemente tombada para esquerda devido a bebedeira e seus olhos já pesando, elucidou a questão: “Por conta de como soa... Grantaire¹. Além disso, sempre fui desmensuradamente feio, então um dia Irma Boissy para não ofender-me diretamente chamou-me uma vez de monsieur d’grants airs². Obviamente, foi uma ironia. Alguém com tamanha feiura feito eu jamais poderia ter tal expressão referida a minha pessoa... Felizmente, o bom humor sempre me acompanhou e eu com minha liberdade criativa nomeei-me grantaiRe”.
“Você é a única pessoa que conheço que usaria como nome um termo que lhe foi direcionado de forma pejorativa. Eu jamais confundiria autodepreciação com criatividade” Enjolras rebateu de imediato, depois optou por não comentar mais que isso tentando não voltar a ser rude. “E, alias, não lhe acho desmensuradamente feio” Acrescentou timidamente.
Grantaire riu e iria contra-argumentar algo sobre o amor ser cego, quando ficou tonto. De repente, tombou definitivamente para um dos lados, sendo segurado pelo líder de vestes vermelhas no último momento. Estando seguro nos braços firmes do anjo loiro. Com a gafe, disparou a falar: “Ops… Acho que a bebida está finalmente cobrando seu preço… Sinto muito, Apollo”.
“Guarde suas desculpas para outro dia... Irei carregá-lo até o quarto para que descanse. E nos veremos novamente no Café Musain, amanhã. Apenas não se esqueça de nada disto que falamos hoje, de acordo? Ficarei muito enfurecido se o fizer!” Avisou-lhe.
Grantaire, sentindo-se zombeteiro sorriu: “Esquecer-me de você? Só se eu fosse um boçal ignorante...”.
Seu belo Apollo, levando-o pelo caminho até o quarto, debochou: “Você esqueceu-se de que assinou aquele documento, assim como não se recorda de ter me dito seu verdadeiro nome também...” Enjolras desqualificou-o, fazendo uma careta.
O rapaz de cabelos escuros apenas sorriu amistoso, relatando afavelmente: “Correção; eu achei que tinha sonhado. Como tudo que envolve você, cada momento que passo em sua presença, é como um dos mais belos sonhos” Disse completamente enamorado, ao que Enjolras enrubesceu-se (E quase quis manda-lo se calar, recompor-se ou repreende-lo duramente, como sempre fazia quando se sentia tímido com aqueles sentimentos borbulhantes e borboletas no estomago que surgiam dentro de si).
▀▄▀▄▀▄ ...Um tempo depois...▀▄▀▄▀
O inverno frio provavelmente ainda assolava as ruas, entretanto sentia-se quente e seguro quando acordou pela manhã. Grantaire espreguiçou-se e sorriu abobalhado olhando de forma apaixonada os arredores do quarto, notando que nada foi um mero sonho; assim como viu o documento de transferência de pose em uma mesa de cabeceira perto de onde estava.
Antes de cair em profundo sono bêbado, a última coisa da qual lembrava-se era do líder de vermelho tirando-lhe sua gravata e sapatos, colocando-o em uma cama com travesseiros convidativos e cobrindo-o, onde agora acordou. Acomodou-se mais entre as cobertas, como se estas fossem o próprio Enjolras, gargalhou baixinho com a felicidade em sua alma. Não se sentia a salvo e protegido assim fazia muito tempo, desde que deixou a casa de seus pais...
Olhando mais uma vez os cômodos da casa, talvez fosse realmente uma boa ideia decora-lo com diversas pinturas de seu amado querubim loiro. Provavelmente o líder de vermelho não sabia que era aspirante a pintor, da próxima vez que o outro homem lhe desse o prazer de estar em sua casa, o surpreenderia mostrando tamanho era seu apreço por seu Julien, seu bem-feitor...…
Descobrira ter um quinhão da afeição de Enjolras para si, seu Apollo. E para Grantaire, isso lhe era suficiente. E a vida segue, entre sol e escuridão. Mas ninguém ama mais a luz doque um cego cético. Preferia a luz, obviamente, pois lembrava-o de como, no final, ela sempre se sobrepunha e vencia as trevas...
▀▄▀▄▀▄ ...Um tempo depois...▀▄▀▄▀
Ambos, quando lado a lado, não passavam desconhecidos por onde quer que andassem. O povo, com alguma inflexão na voz, dizia que havia algo na impressão que davam os dois juntos, fofocavam que Grantaire e Enjolras tinham de ser primos distantes. Não que se parecessem: Ao contrário, a expressão física deles divergia inteiramente...
...Enjolras era alto de cabelos loiros feito o sol com cachos ao vento, longas pestanas louras, olhos azuis, tés alta, face rosada, lábios cheios, dentes lindos, difícil não confundir com um querubim galã. Grantaire era baixo, cabelos escuros como a noite, cílios caídos, olhos laranjas/mel desfocados, cabelo crespo e cachos desordenado, bochechas pálidas, lábios finos, dentes tortos, nariz grande e sobrancelhas grossas. Eram totais opostos...
...A ideia de que eram primos nascia da maneira com que Grantaire tratava Enjolras, seu grande amor e devoção para com o outro fazia a população postular que só podia vir de algum parentesco em comum. Grande erro.
Dizia-se por ai que, apenas ao lado do firme e implacável Enjolras, o bêbado Grantaire se tornava alguém. Felizmente ambos não ligavam para os pequenos miados que soltavam sobre eles. E muito diziam mais…
…Que Enjolras era filho único de um rico casal, mas não era apegado a eles ou a dita fortuna. Cursava direito, era um rapaz agradável, mas capaz de ser terrível, viril, severo e aterrorizador quando precisava. Boatos contavam que Enjolras tivera uma querida ama de leite, única a quem amou dentre aqueles que tinha como família. Porém a velha mulher, pobre, caiu doente e morreu quando o rapaz tinha algo entorno dos sete anos de idade. Desde então era forte defensor do povo e dos miseráveis...
...Enquanto isso, surgiram novos boatos sobre Grantaire além de bêbado voraz, diz-se por ai que não seguiu advocacia nem direito, meteu-se na arte; sendo um pintor modesto e não muito dedicado, que estudou com Antoine-Jean Gros mas, apesar de ter cumprido a formação após graduar-se, abandonou a carreira. Hoje herdara os bens de um tio distante, que lhe deixara com bastante fortuna. Posto que agora abastado e ainda moço, não se pode dizer que Grantaire estivesse inteiramente feliz, como vais ver: Ponho exposto o desgosto que lhe trouxe a herança com o ódio dos parentes que um dia lhe enjeitaram; tal ódio fez com que estivesse prestes a abrir mão de todo o dinheiro.
Não o fez porque Enjolras, que lhe dava sempre ideias e conselhos racionais, o convenceu de que semelhante ato seria rematada loucura: “Você, por muito tempo, viveu sem nada como um moribundo mendigo bêbado pelas ruas. Seu pai lhe deserdou. Sua família lhe abandonou. Mas és um bom moço nascido em família de pilantras. Que culpa tem você que merecesse mais a herança de seu tio que os outros parentes? Não foi você que fez o testamento nem andou a bajular o defunto, como os outros. Se ele deixou tudo a você, é que o achou melhor que eles; pois fique com a fortuna, que é a vontade do morto e não seja tolo. Não gaste tudo com bebida também”.
Acabou concordando. E ainda vivia Grantaire no alojamento a cinco minutos do Café Musain, onde frequentemente se encontrava com o Les Amis de l’ABC, com quem gastava boa parte de seu tempo e dinheiro. Dos parentes alguns buscaram reconciliar-se com ele, mas a vida mostrou-lhe a intenção recôndita dos tais, e Grantaire não lhes abriu a porta. Um desses, ao vê-lo ligado com os outros estudantes no Café Musain, bradava por toda a parte: “Aí está, deixa os parentes para se meter com estranhos à beber; há de se ver o fim que levará!”.
Ao saber disto, Grantaire correu a contá-lo a Enjolras, indignado. Enjolras sorriu, chamou-lhe de idiota e aquietou-lhe o ânimo: “Seu tolo. Não vale a pena irritar-se por ditinhos, mas se ainda sim lhe incomoda com tais fofocas, se por isto quiser afastar-se de nosso grupo, que assim o faça” Bradou o loiro.
“Uma só cousa desejo. É boa! Tens que saber, eu não vou passar a escolher as minhas amizades conforme o capricho de alguns parentes vadios sem-vergonha! Isto pode até ser grosseiro com meus parentes. Mas tais parentes, o diabo que os carregue! Por que eu deveria viver conforme me designa meia dúzia de velhacos que o que querem de verdade é comer-me o dinheiro? Não, Enjolras, farei tudo o que você quiser, menos isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, é o meu coração”.
“Pois então? Que vais fazer? Tenho para mim que já tomou uma decisão”
“Pois fico com vocês que são meus amigos, eles que vão se danar. Saiba, Apollo, que serás sempre a minha única escolha, não importa o destino ou circunstancias”.
E era verdade. Não havia nada neste mundo que não faria pelo loiro. Grantaire acordava e já estava a pensar no outro, almoçava e ia beber já pensando na reunião mais a tardinha no Café Musain. Jantava afoito e em expectativa para vê-lo, quando a noite fazia visita ao Café Musain, ouvia todos os ditos do loiro noite a dentro. Sempre que Enjolras tinha algum trabalho que fazer à noite com o restante dos Les Amis de l’ABC, Grantaire ia ajudá-lo como obrigação; dava busca aos textos que o grupo lia, marcava-os, copiava-os, carregava os livros do loiro…
Além disto, Enjolras estava tão focado em sua missão revolucionária que esquecia com facilidade ora de pegar recados do correio, ora umas cartas de contas da casa a pagar, até esquecia-se de frivolidades como uma dispensa vazia. Mas Grantaire era recorrente frequentador da casa do loiro agora dado que ia lá a qualquer pequena coisa a qual pudesse chamar a atenção, e estava lá cuidando do rapaz mais novo e supria-lhe todas as necessidades que lhe abatessem...
Às vezes Enjolras lembrava-se, depois de várias horas na saleta de reunião do Café Musain, que não comia a tempos. Grantaire voava a buscá-lo algo para forrar o estômago e retornava com algo de comer, tão contente que não se podia conter, ajudar o querubim loiro era-lhe sorte grande; procurava-o ansiosamente com os olhos, corria, sorria, tinha dias em que morria de fadiga ao fazer tarefas para ele, mas estava sempre feliz ao realizá-las.
A princípio, Enjolras suspirava: “Que cansaço desnecessário que dei a você”
Grantaire ria do suspiro com tão bom humor que o outro não se lamentava de mais nada; apenas concordou em receber os obséquios...
...Com o tempo, tais cortesias de Grantaire ficaram sendo puro ofício. Enjolras dizia a ele: "Você hoje há de lembrar-me isto e aquilo". E o cínico decorava as recomendações ou escrevia-as, se eram muitas. Algumas dependiam das horas do dia; era de ver como o bom Grantaire suspirava aflito, à espera que chegasse tal ou tal hora para ter o gosto de lembrar os negócios ao loiro...
...E assim era a vida. Levava-lhe as cartas de contas a pagar e recados da família distante quando esta lhe mandava algo, ia entregar as respostas quando Enjolras o mandava reenviar a carta, enchia-lhe a dispensa e procurava sempre agradar-lhe. A única coisa que seu Apollo não permitia era falar em nome da revolução e tentar conquistar o povo para os ideais revolucionários e republicanos, pois como poderia um cético como ele fazer o povo crer em algo que ele mesmo não tinha fé? Mas depois de conquistar as pessoas, a sua maneira, na Barriere Du Maine até isso caiu por terra. Tanto saiu com sucesso na tarefa que o loiro sequer o interrompeu ou zangou-se. Não conseguia crer no que dizia, mas quando Grantaire se metia nisto, ele era formidável e podia ficar seis horas consecutivas a falar sobre a causa e enfiando o assunto republicano em suas aparentes brincadeiras...
Logo, por lhe fazia diversos obséquios por toda a cidade, começou a saber onde estava tudo em todo o lugar: por si mesmo descobria-lhe bons jantares, era já um bom conhecedor de todos os melhores lugares para ir em Paris, conhecendo muitos cafés, bibliotecas e cebos. Sabia que o melhor café era o café Lemblin, que no boulevard do Maine havia excelentes bolos folhados; que na casa do Saguet se guisavam frangos como em parte nenhuma; que na barreira de Cunette se faziam belas caldeiradas de peixe e que na barreira do Combate havia um vinho branco que regalava o paladar. De tudo sabia onde era o melhor, porque se tivesse de levar algo a Enjolras, fosse livros ou comida, tinha de ser o melhor. E ora ou outra ficava a falar da revolução e da republica, como quem joga conversa fora, com os transeuntes, isto é se Enjolras o pedisse.
Uma vez falaram de pintura, Grantaire advertiu que não tinham ainda uma tela com o retrato dos Les Amis de l’ABC, e se pôs ele mesmo a fazê-la. A intenção foi boa, o mais fácil de retratar era Enjolras; como se Grantaire fosse ter alguma dificuldade depois de retratá-lo tantas vezes em suas telas, sem a ninguém mostrar.
Teve que concordar, Grantaire admirava, amava e venerava Enjolras. Seu gosto pelo outro rapaz era tal que uma senhora uma vez o viu suspirar em apaixonamento pelos cantos e comentou fofocando com as demais sobre talvez ele ser um "recém casado". Mas sua devoção e amor pelo loiro estavam mais para a mesma devoção de Pílades a Orestes.
Ele ria, naturalmente, de todas as vezes em que alguém mencionava que parecia apaixonado. Mas o riso de Grantaire trazia alguma cousa parecida com lágrimas: era, nos olhos, uma ternura úmida. Estava apaixonado de fato, a diferença é que o sentimento não tinha de todo aquela nota de entusiasmo quando se era correspondido, absolutamente faltava-lhe o amor de Enjolras. Mas contentava-se com oque tinha...
...Em verdade, Grantaire era muito sensível a qualquer distinção; uma palavra ou um olhar de Enjolras bastava a acender-lhe o coração. Uma pancadinha no ombro ou um aperto de mãos, dado a ele por Enjolras com o fim de aprová-lo, era como derretê-lo de prazer. Relembrava-se de cada pequeno gesto e as circunstâncias durante dias.
Claro que ainda não era raro vê-los em discórdia; Grantaire irritava-se, teimava, e muitas vezes se opunha as ideias de Enjolras. Mas também era comum vê-lo rir e divertir-se com Enjolras e os demais Amis; o riso entornava-se-lhe da boca, dos olhos, da testa, dos braços, das pernas, todo ele era um riso único. Grantaire sempre tivera seus altos e baixos. Dias de lágrimas, dias de risos. Dias de fúria, dias de calma.
Grantaire sempre acompanhava os atos de Enjolras; via a constância do seu trabalho, o zelo que ele punha na defesa das demandas, e vivia cheio de admiração. Realmente, seu Apollo era um grande líder, distinto. Admirava a paixão do loiro por suas crenças. Enquanto isso Grantaire vivia para provocar Enjolras nas coisas que o querubim acreditava com tanta veemência...
...Isso porque ele próprio era um cético, para Grantaire, todas essas coisas em que Enjolras acreditava não lhe significavam coisa nenhuma, ria delas, zombava delas, contrariava-as sempre que possível. Acreditava que seus amigos estavam com muita pressa para morrer. Via toda a revolução a partir de um dogmatismo negativo, ou seja, seu juízo sobre as coisas era sempre condicionado por um sentimento de descrença, uma negação ranzinza, amarga, improdutiva – era de fato um grande pessimista.
Grantaire era um homem que punha todo o cuidado em não acreditar em coisa alguma. Ele era genuinamente uma pessoa contrária àqueles ao seu redor, seu cinismo e niilismo não era um ato de provocação para seus pares, porém, mas sim verdadeiramente como ele via a vida e o mundo. Depois de tudo oque passou, não conseguia mais acreditar em nada, mas queria muito estar errado sobre toda essa descrença que tinha do mundo...
...Ele queria que as crenças de Enjolras, sobre o mundo poder se tornar um lugar melhor, estivessem certas. Ele não acredita nisso. Mas Enjoras sim, e isso lhe é suficiente. Em todas as discussões que tinham, seu Apollo sempre vencia-lhe, talvez um dia pudesse então convencê-lo e arrebatá-lo para suas crenças?
Nada mais certo que a aderência de um cético a um crente, é uma coisa simples como a lei das cores complementares. O que nos falta atrai-nos. Pessoas como Grantaire não viviam senão com a condição de se encostarem a outrem; o seu nome é seguimento de outro nome, e não se escreve sem ser precedido da conjunção e; Grantaire era um desses homens; era o inverso de Enjolras. Admirava e seguia, por instinto, o carácter oposto ao seu. As suas ideias frouxas e vacilantes ligavam-se a firmeza moral de Enjolras.
Havia uma coisa a qual Enjolras sempre torcia o nariz ou zangava-se com ele: quando estava a beber a ponto de embriagar-se a desmaiar. Para o querubim aquilo não era gesto honroso. Por tal atitude, tão repreensível aos olhos do loiro, estavam sempre a discutir ou desentenderem-se.
Mas por que Enjolras não o desprezara e o mandava embora definitivamente? Por que não o rejeitava de uma vez, devido ao seu ceticismo e seu estado de embriaguez quase constante? Por que continuava a mantê-lo se seus sentimentos por Enjolras não podiam de todo serem correspondidos? Sabia que o rapaz loiro não o mantinha apenas por seus pequenos favores e cortesias, elas mal eram algo perto doque todos os outros Les Amis de l'ABC faziam em nome do anjo loiro revolucionário. Mas como poderia, Julien ama-lo, se não fosse por tais pequenas coisas? Amava-o pelo que era?
“Você pensas, algum dia, em casar-se?” Perguntou-lhe um dia.
Enjolras respondeu com firmeza: “Eu sou casado com minha Pátria (França), serei fiel a ela até a morte”.
Sem se abater Grantaire continuou, e questionou oque mais queria: “E eu, oque sou para você?”
“Por mais terrível que seja, ainda que não estejamos juntos como deseja, eu sou o homem que você ama. E eu também te amo, a minha maneira. A suprema felicidade da vida é a convicção de ser amado pelo que somos, ou melhor, apesar daquilo que somos. Eu amo e devoto-me a minha pátria, e apesar disso amo também a você com todos os seus defeitos e qualidades. Tens parte do meu coração pelo que és, ainda que tão diferente de mim, justo por isso te amo, e por isso te quero ao meu lado… E vos? Qual sua verdade?”.
Grantaire sentiu os olhos molhados, e não achou oque lhe responder. Quando se lembrou de dizer que: “Eu sou o bêbado niilista, apesar disso sigo um crente. Não creio em sua causa revolucionária, mas se vais manter-se fiel até a morte a sua pátria, minha morte será você, pois estarei sempre a seu lado. Permite-me?”.
“Sim… Somos três amantes estranhos. Pátria nada faz por nós, eu quase nada faço por você dado meu foco constante na Pátria, e ainda sim o amor triunfa em nossos corações”.
“Até a morte, então?”
“Sim, até a morte!”
Agora a verdade de todas as palavras foi mostrada em atos. Hoje ambos estão cada um em uma sepultura simples, a pedra em cada túmulo tem um epitáfio que termina com esta frase: "Orai por ele". É também o fecho da minha história.
Enjolras e Grantaire morreram com o mesmo remorso dos modelos gregos, o loiro caiu por sua pátria, o bêbado caiu de amor. Ambos como prometeram. Mas em suas vidas não passaram sem amor e devoção, missão cumprida em vida. E ao fim Enjolras, sua luz, tinha razão: havia algo em que se acreditar após tudo se findar, amarar-se-iam agora no além.
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