Notas iniciais
Oi Gente!
Demora colossal, eu sei! Eu sei! Por favor não me alvejem.
Realmente queria postar antes, ontem, na verdade, mas comecei a escrever tarde e acabei dormindo na frente do PC. Enfim, quero informá-los que os capítulos agora terão data certa para serem mandados, para não ter mais esses confusões. Então esperem a cada dois dias um novo capítulo dessa fic. Me comprometo com isso com vocês.
No mais, espero que gostem do GaaIno, que como prometido fiz em Capítulo especial para vocês.
Boa Leitura!!

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“Você só vai se transformar em um monstro se tomar isto como verdade.”

–Yamanaka Ino



A rua estava ainda úmida por conta da chuva recente quando saí da residência de minha melhor amiga. Sakura realmente estava se transformando na maior de todas as idiotas, definitivamente. Quantas vezes eu não avisei que ela tinha que esquecer o Uchiha? Principalmente depois daquela mudança total de índole. Atualmente, eu preferia o fechado e frio Sasuke do que o Conquistador e Sexy Uchiha.Este ultimo estava causando uma baita dor de cabeça na pobre Haruno, que simplesmente não conseguia dizer não para o maldito galinha, e uma interminável dor de ouvido em mim, que tinha que ouvir as intermináveis dúvidas da pobre rosada.

Tenho pena da minha amiga, mas infelizmente eu não estava mais agüentando. Eu praticamente vivia com ela e apesar de trabalhar meio período na floricultura, nada parecia me prender a atenção ao ponto de me fazer esquecer, pelo menos por um momento, daquele problema.

Depois de três minutos de caminhada, consegui chegar em casa.Deixei minhas chaves na cristaleira de madeira que pertencera ao meu tataravô, e me dirigi a cozinha. Minha mãe tinha acabado de pôr o jantar quando passei pela porta que ligava o cômodo a sala de estar.

–Oi querida...- Minha mãe olhou para o meu rosto cansada, e percebeu que minha situação não era muito melhor do que a dela.- Sakura, de novo?- Essa era uma das características que eu mais amava e ao mesmo tempo odiava em minha matriarca. Ela conseguia ler minha expressão ao ponto de saber o que me perturbava. Sempre.

–Hn.- Eu fui monossilábica, devido à falta de forças que tinha depois daquelas horas com minha amiga. Minha mãe riu um pouco largando seu prato e foi até minhas costas para por pressão nos meus ombros e tentar aliviar a tensão ali, como ela fazia com papai quando ele voltava de missão. Eu amava ter minha mãe só para mim, mas o olhar triste de minha mãe quando ela praticava atos simples e anteriormente costumeiros, como este, e a falta que meu velho estava fazendo, faziam com que eu me sentisse mal por tal sentimento e com que meu ser gritasse por uma máquina do tempo.

Se eu pudesse voltar... Talvez poderia salvá-lo.

Meu pai fora um herói. Mas, em muitos momentos, eu só queria o velho e comum Inoichi ao meu lado e de minha mãe, e não um Heroi de Todas as Nações, o qual não poderíamos jamais ver novamente.

–Vai tudo dar certo, querida.- Os cabelos loiros de minha mãe escorreram por seus ombros e acabaram por parar em frente aos meus olhos. Mamãe sempre cheirava a jasmin, era meu cheiro favorito, mas ao mesmo tempo me enojava. Aquelas flores eram as preferidas de papai.

–Eu sei, mamãe. Mas acho que, depois de tanto tempo, não adianta mais falar com ela.- Eu estava levantando a bandeira branca. Não conseguia mais simplesmente ficar calada vendo minha amiga se auto deteriorar em uma relação que provavelmente era mais uma.

Ela ia se magoar e quem ia ouvir?

Eu.

–Estou cansada de ser o ombro amigo, sabe, mãe? – Eu coloquei minhas mãos em punho em frente a meus olhos que já marejavam. Parecia que eu tinha uma alma sem igual, uma amiga que não perdia a paciência, que simplesmente se auto excluía pela sanidade dos amigos... E eu até era assim, mas eu tinha um limite.- Queria que, pelo menos uma vez, percebessem que eu não tenho sangue de barata...- Eu engoli em seco e percebi que minha mãe havia se abaixado para me abraçar. Nós duas tínhamos momentos como aquele. Só nós duas... Nos unindo e ao mesmo tempo suportando a escuridão que nos circundava.

–Querida... Eu faria de um tudo para poder aplacar essa dor que você sente. –As lágrimas dela molhavam a minha camisa enquanto eu ouvia sua voz chorosa sair abafada pelo tecido de minha camisa folgada.- Mas... Mas...

–Não se preocupe, mamãe.- Eu levantei a cabeça olhando-a diretamente,para que a verdade em minhas palavras transbordasse em meus olhos.- Vou ficar bem... Só... Preciso de seu colo... Um instante.- Minhas palavras eram embargadas e eu mesma não conseguia reconhecer a minha voz, mas tudo em minha mente estava tão misturado, que era compreensível que eu estivesse assim.

–Claro, meu amor... Venha cá.- Mamãe se ergueu enxugando os olhos levemente com o lencinho que sempre levava no bolso, e me puxou para a sala de estar, esquecendo completamente do jantar. Lá, ela se sentou no sofá e me convidou a deitar em seu colo, exatamente como fazia nos meus tempos de criança.

Assim que pus minha cabeça em seu colo quase pude sentir toda a tensão sair do meu corpo. Aquilo que dizem que não há colo melhor que o de mãe... É totalmente verdade. Essa mulher de meia-idade, cabelos platinados, olhos avelã e o sorriso mais lindo de todas as Eras Ninja, é a razão de eu estar viva neste exato momento.

–Não sei o que eu faria sem você, mamãe.- Suspirei enterrando meu rosto em suas pernas e tentando esvaziar minha mente perturbada. Senti-a rir um pouco, porém, logo vi sua mão em meu rosto, movendo-o para que eu pudesse olhá-la.

–Eu fico feliz que se apóie tanto em mim, minha florzinha... Mas eu... Nem sempre vou estar aqui...- Respirei fundo, virando o rosto com claros sinais de que queria evitar aquele assunto. Odiava quando ela puxava o assunto que fora a maior causa de nossas brigas desde que papai morrera.- Ino, por mais que não queira aceitar, não sou eterna... Assim como seu pai não foi.- Ela me olhava severa tentando de todas as maneiras que conhecia me convencer daquela inútil conversa.- Por que não arranja alguém, amor? Vai ter alguém para se apoiar caso um dia eu não esteja mais aqui... Um marido é o apoio de que precisamos em momentos difíceis.- O discurso dela era sempre o mesmo. Mamãe acreditava que se eu estivesse com alguém e felizmente casada poderia continuar minha vida sem ligar para seu possível obituário futuro.

–Mamãe... Pare com isso.- Mantive meus olhos longe de seu olhar severo, e continuei.- Não encontrei ninguém, e não vou me casar com um desconhecido só por não querer ficar sozinha.- Rebati cada uma de suas palavras apenas com a minha frase anterior. Por mais que tivesse tido meus casos, foram apenas garotos de uma noite, que eu fazia questão que não lembrar. Não havia nada mais do que isso, não havia aquele que fizesse meus sentimentos balançarem, não havia aquele que fizesse minha cabeça girar, muito menos deixasse meu sangue cheio de adrenalina. Não existia, até aquele momento em meu mundo, o garoto pelo qual eu poderia me achar apaixonada.

–Ino...-Suspirei ao ver minha mãe insistindo. Não queria brigar com ela, principalmente do jeito que eu estava desesperada por sua companhia, mas ela estava especialmente irritante com esse caso.- Quero que vá até Suna,pedir permissão para buscar mudas de “Paradisus” nos Oásis de lá. Nosso estoque anual acabou mais cedo e precisamos de mais 300 delas para poder nos manter abastecidos até o fim do ano.- A voz de minha mãe soou vencida, e eu respirei aliviada, pela mudança repentina de assunto. Paradisus eram flores lindas que cresciam nos desertos em meio aos oásis. Elas mudavam de cor durante a noite passando do seu amarelo claro, quase do tom dos raios do sol que normalmente é imprimido aos nossos olhos, para um vermelho sangue impressionante. Além de rara, essa flor era muito especial por ser uma flor autônoma. Seu ambiente normalmente seco a fez se adaptar a longos períodos sem água, mantendo sua beleza... Sendo então uma das flores preferidas pelos Ninjas de Konoha que mantinham-se quase sempre em missões e não tinham tempo de cuidar do jardim, apesar de amar o cheiro que uma boa flor conferia a suas casas.

–Claro, mamãe. Vou pedir ao Naruto minha liberação amanhã bem cedinho e saio assim que ele me liberar.- Minha mãe deu um sorriso suspeito ao ver minha boa vontade, e logo acrescentei honestamente.- O que foi? Fiquei feliz por você não ter insistido no assunto do casório.- A dona Yamanaka riu me abraçando ao ouvir minha afirmação e falou.

–Você precisa mais do meu colo, no momento... Não quero brigar.- Tais palavras me fizeram relaxar ainda mais e pensar no quanto eu amava o instinto materno de minha mãe. Definitivamente não havia pessoa melhor do que aquela mulher.- Nunca esqueça de que te amo, minha Ino.- Com um beijo em minha bochecha ela me soltou e levantou-se para ir pegar o jantar, que àquela altura já estaria frio.


–Não precisa de escolta, Hokage-sama... Fiz esse caminho tantas vezes que até perdi a conta.- Sorri ao ver Naruto torcer o nariz pelo termo respeitoso pelo qual eu o tratara.

–Naruto... Ino... Meu nome é Naruto.- Ele sorriu levemente ao me ver rindo de sua reação.- Ok, confio em você... Ultimamente tenho recebido noticias de calmaria em Suna, então creio que não há problema de mandar você sozinha.- Ele assinou um pergaminho e entregou para mim.- Sua permissão, e... Boa Viagem.- Com um sorriso eu assenti e o reverenciei antes de sair pela janela. Mais cedo, eu já havia falado com minha mãe e feito as devidas despedidas, então, agora já me dirigia para a saída da vila.

As paisagens dos ao redores de Konoha não mudavam por mais que a floresta estivesse em constante extensão. O cheiro de mato que se estendia até minhas narinas enquanto eu corria por entre as arvores, portando apenas a minha mochila e os devidos equipamentos Ninja, era tranqüilizante. Aquele tempo fora de Konoha realmente viria a calhar, apesar de não ser exatamente uma missão longa, como eu quisera anteriormente, iria me afastar de todas aquelas confusões na vila e ia me acalmar para mais uma maratona quando voltasse.

“E a ‘amiga’ Ino voltará a seu ‘eu’ normalizado...” Me peguei pensando estas palavras enquanto via alguns lugarejos se aproximarem depois de algumas horas de viagem. Se mantivesse a minha marcha pela noite, estaria no deserto amanhã de manhã, por tanto chegando mais cedo em Suna e, por fim, me dando mais tempo com as flores.

“Não fará mal uma noite em claro....” pensei enquanto corria um pouco mais rápido em vista de meu novo objetivo.



–Kazekage-sama... O Departamento de Clima detectou uma nova tempestade de areia noite passada.- Matsuri apareceu em minha sala àquela manhã para manter-me a par das novidades dos outros setores que me ajudavam a manter toda a Suna em ordem.

Eu havia percebido a agitação no ar durante da noite passada, então imaginei que algo dessa natureza pudesse ter acontecido, apenas esperava a confirmação. Estava despreocupado com meus ninjas que, devidamente treinados para situações do tipo, não seriam vítimas da tempestade.

–Alguém vindo de outra vila?- Este era a minha maior preocupação, por vezes, tivemos acidentes com ninjas estrangeiros, que por algum motivo estiveram no deserto antes que a notificação de seus devidos Líderes chegasse às minhas mãos. Mantinha meu olhar sério, lendo sua expressão antes mesmo que ela abrisse a boca. O costume me matinha assim, era algo que não conseguia evitar, e que me arrecadara o apelido de Monstro do Deserto.

–Até agora sem notícias, Kazekage-sama.- Assenti levemente, a liberando segundos mais tarde, para que eu pudesse respirar mais relaxadamente imerso em minha solidão.

Fechei os olhos sentindo o ambiente seco ao meu redor e analisando o calor perpassar por meu corpo. Desde que virei Kazekage, aqueles momentos de paz eram meus favoritos, já que eram raros em meu cotidiano. Minha seriedade sem limites, o gosto pela solidão e minha frieza na resolução dos problemas chamavam a atenção, me fazendo ser temido por meus subordinados. O temor fora um elemento importante e eu me sentia a vontade com aquilo, apesar de meus irmãos não gostarem dessa minha face. Apesar de tudo, eu ainda carregava o fardo de ser o Mostro do Deserto que liderava Suna solitariamente.

Aqueles pensamentos sobre minha índole me fizeram lembrar do por quê de estar ali parado olhando para a imensidão do território à janela de minha sala. A areia ainda era um elemento extremamente importante para mim, mesmo depois de Shukaku ter sido eliminado de meu interior,e em momentos como aquele eu podia sentir cada partícula do componente mais abundante do deserto e me concentrar no controle de cada minúcia do território que ela abrangia.

Fechando os olhos, eu conseguia enxergar cada parte do enorme deserto que cercava-nos. Cada oásis, cada nômade que andava em busca de um novo local para morar, cada banco de areia, cada duna, cada vegetação... Ali e naquele instante eu poderia afirmar com todas as letras que eu era o monstro que controlava aquela natureza titânica.

Movi minha cabeça levemente rumando para o local que sentira a agitação naquela noite, e vi o centro da tempestade de areia já finalizada emitindo suas ultimas ondas, já incapazes de fazerem estragos na superfície. Era impressionante ver como aquele centro tão pequeno, podia criar um estrago tal qual o de uma tempestade.

–Kazekage-sama...- Ouvi a voz de Matsuri novamente quebrando minha concentração, e me fazendo franzir o cenho por conta dessa interrupção repentina.- Perdoe. -Virei meu corpo para analisar o rosto da moça e vi que a situação não era boa. Matsuri tremia por cada poro de seu corpo e tinha as pupilas dilatadas. Estava com medo.

–Não há o que perdoar. Diga o que quer.- Fui simples e direto em minhas palavras,e parecia que isto a fez tremer ainda mais. Mesmo com tantos anos me ajudando, a jovem parecia não se acostumar com minha personalidade. Parecia que ela temia que eu fosse atacá-la a qualquer momento.

–H-houve uma vítima... Da tempestade.- Ela se aproximou temerosamente com um papel amarelo nas mãos.- Os registros dizem que...- Assim que ela esteve perto o bastante, eu tomei o papel de suas mãos e li as estatísticas. Ali tinha uma leitura de uma perturbação no lado norte do deserto, quase na ponta das florestas que davam para o país do fogo.- Recebemos também a carta do Hokage avisando a chegada de uma Ninja.- Ela me estendeu outro papel onde pude reconhecer a caligrafia garranchuda de meu amigo Uzumaki. Ali tinha um nome, Yamanaka Ino. Virei o olhar para a morena que mantinha-se a tremer.

–Já mandaram as tropas de busca? O Resgate?- Minha voz era pausada e o controle de tudo pesava sobre meus ombros. A moça me olhou com medo de responder, e pude prever que nada ainda havia sido feito.- Mande todos agora.- Fui até minha mesa e prendi as cartas. Não havia percebido o Chakra da Ninja quando observara o deserto. Isso podia significar...

–Kazekage-sama... Pelas leituras, ela está soterrada... As tropas não vão conseguir retirá-la, e... Pelo tempo, ela deve...- Ao perceber suas palavras, virei minha cabeça para seu lado já que eu havia andado pela sala perpendicularmente ao local em que ela estava. Meu olhar era frio. Não suportava que desistissem antes de tentar salvar qualquer tipo de vítima, e essa moça sabia bem disso.

Minha parada, me fez suspirar sem paciência e pegar minha capa, sobressaltando a moça.

–Não suporto incompetência, Matsuri... E você sabe disso.- Ao chegar ao lado dela continuei.- Mande as tropas, AGORA!- Ela deu um pulo com meu erguer de voz e eu continuei andando tentando lembrar do ponto em que as estatísticas mostraram a presença da vítima. Logo em seguida movia areia para me transportar o mais rápido possível para o local. Ainda pude ouvir minha assistente gritar para os comandantes chamarem o resgate e prepararem o hospital para o pior. Parecia que minha frieza fizera efeito, afinal.

Ao chegar ao local objetivado por mim, consegui avistar a enorme duna que se erguia ali. “Droga” pensei enquanto me concentrava para achar o corpo feminino por entre os grãos de areia que compunham aquela montanha móvel. “Onde você está?” meus olhos mantinham-se em alerta passando por qualquer obstáculo por dentro daquilo, mas nenhum sinal do corpo era emitido. Estava apagado.

“É como se fosse invisível...” Já sem paciência, fiz os devidos selos e movi a areia de uma só vez com um erguer de mãos. Logo a Duna levitava acima de meu corpo e pude separar sua extensão, abrindo a duna no meio, e fazendo o pequeno corpo que estava preso em meio a toda aquela terra, cair na cama de areia.

Segui a vítima cair sob meus olhos e manejei a areia para o lado oposto para o qual ela caíra. Não emitia nada de chakra, e seus olhos estavam fechados sob a grande quantidade de areia que ficara presa ao seu rosto e corpo. Pelas roupas pude constatar que aquela era mesmo a Ninja de Konoha, já que ela usava um colete jounin por cima das roupas roxas próprias para andar no deserto.

Olhei para trás percebendo que a tropa de resgate estava muito atrasada. “Maldito seja...” pensei enquanto me aproximava da moça desacordada e tentava lembrar do que fazer para salvá-la.Chequei a pulsação que se mostrou ainda presente, apesar de fraca, e concentrei o chakra médico nas mãos para tentar fazê-la acordar. Posicionei a mão sob seu peito e joguei uma quantidade grande de meu chakra para dentro, fazendo-a pular com o choque. Porém, mesmo assim, ela não deu sinal de que iria reagir. Mantive o mesmo procedimento por mais duas vezes, procurando maiores pulsações dela para poder inflar os pulmões dela, depois. Porém, mesmo com minha insistência, ela não respondia.

–Droga...- Olhei mais uma vez para trás, mas nenhum sinal de que o resgate chegaria tão cedo.- Não desista assim, garota... Vamos...- Concentrei o chakra nas mãos novamente e injetei o máximo que pude em seu peito. A camisa dela queimou com o golpe, mas agora eu conseguia ouvir seu coração reagir, me impelindo ao próximo passo. – Agora, respire.- Pus a outra mão na garganta dela e tentei por injeção de chakra ali, fazer seus músculos moverem e assim proverem o sorver do ar ambiente.- Vamos, Yamanaka! Respire.- Injetei mais chakra ali, concentrando em continuar o fluxo até os músculos do diafragma que a fariam respirar.- Você tem que respirar... Vamos.- Era a primeira vez que eu me via sozinho numa situação daquela, e ter uma garota quase morta na primeira vez não ajudava nada. Por mais que eu me esforçasse, não houve como me manter frio. –Se usar mais chakra vou acabar enfiando areia no corpo dela.- recolhi minha mão ao ver a areia nos rodear perigosamente.- Droga de resgate que não chega... – A moça estava extremamente pálida e eu ouvi seus batimentos caindo de novo, devido a falta da respiração. Não havia o que fazer.

Se eu usasse Chakra, ela ia acabar morta por algum tipo de reação que teria à areia em seu corpo.

Se eu não usasse, ela ia morrer sem ar.

Mordi os lábios tentando pensar em uma solução e a única coisa que me veio a cabeça foi...

–Vou fazer seu pulmão mover com o meu ar.- Me aproximei e abaixei o tronco para abrir sua boca e assoprar ar para dentro. Porém, o modo parecia incorreto. O ar escapava com a distância que eu me mantinha.- Muito bem então...- Com a face mais compenetrada que pude manter, uni meus lábios com os dela e assoprei novamente sentindo o ar sair por suas narinas. Com uma imprecação, por sobre os lábios dela, tampei suas narinas com a mão e soprei novamente, vendo seu peito inflar, e descer, após eu me erguer para pegar um pouco do ar e voltar a soprá-lo em sua boca.

Ela não reagia de jeito nenhum. Seus batimentos decaíam e por algum motivo eu mesmo estava sufocando com o calor que nos rodeava. Aquela moça ia morrer.

–Droga! Respire!- Eu dei um soco forte no local onde antes eu havia injetado chakra e dei minha ultima lufada de ar para dentro do corpo dela.

Daí por diante, não sei se pelo soco ou pela ultima respiração, ela começou a tossir e cuspir areia enquanto voltava a respirar. Ela abria e fechava os olhos em desespero e se mexia tentando se localizar, fato que me fez me mexer, agarrando-a para que não se erguesse naquela situação.

–CALMA!- Gritei para ela parar de se debater em meus braços. Minha voz alta a fez parar e começar a respirar calmamente apesar das tossidas pela areia engasgada.- Está tudo bem...- Eu tirei o meu cantil e entreguei a ela, sentindo o relaxamento tomar conta de meu corpo, por mais que eu não tivesse percebido que estava tenso antes. A loira pegou o objeto de minhas mãos e começou a beber com sofreguidão até que sentiu que não havia mais nada ali. Ela me deu de volta porém o movimento a fez cair sem forças sobre meu peito. Mesmo querendo se mexer, ela parecia cansada então me ergui com seu corpo nos braços.- Fique calma... Está exausta. Vou levá-la para Suna.- Quando comecei a andar, fiz novamente com que as areias do deserto trabalhassem ao meu favor. Logo eu estava a frente a tropa de resgate e levei todos junto para a frente do Hospital de Suna.- Sejam mais eficientes da próxima vez.- Eu abaixei meu olhar para a moça que desmaiara em meus braços em algum momento de nossa viagem, mas mantinha sua respiração normal.- Pegue-a e mande fazer os exames... Façam os tratamentos e depois a mandem até a minha sala.- Entreguei o corpo fino que segurava sem nenhum tipo de dificuldade para o oficial que me olhava com uma coragem forçada e antes que eu me movesse junto ao grupo, Matsuri me alcançou.

–Kazekage-sama, os Unos atacaram o lado sul nesse ínterim em que esteve fora e...- E ali estava eu novamente, o Mostro do Deserto tinha que trabalhar mais uma vez.



Minha mente estava uma completa rede de linhas difusas. Não conseguia falar, meu corpo doía ao ponto de me fazer querer gritar, minha perna estava com uma fratura que provavelmente cansara de sangrar e agora infeccionava e a areia do deserto estava me cobrindo feito algum tipo de roupa invisível e extremamente desconfortável. Lembrava que alguém me salvara depois de fiquei presa à um montante de areia que se formou durante a tempestade de noite passada. Fato que me fazia ter rompantes feios de calafrios.
Eu tinha entrado no deserto de Suna fazia pouquíssimo tempo e quando percebi que a tempestade me pegaria, não havia mais como voltar. Enfrentei a tempestade durante a noite toda, a areia e o vento lutavam para me fazer cair e sucumbir naquele lugar, mas eu simplesmente não podia sucumbir ali. Tinha minha mãe... Uma mãe que precisava de mim. Não podia desistir.
Todavia, o vento parecia algum tipo de ave de rapina passando por meu corpo e tirando cada pedaço de minha carne aos poucos. A mistura do ar com a areia fazia com que ele ficasse cortante e com a velocidade com que estava vindo de encontro a mim, cada vez mais mortal.
Houve um momento em que senti minhas pernas cederem, e com minha falta de forças, o vento que lutava contra mim todo aquele tempo encontrou sua oportunidade. Fui lançada alguns metros para longe, caindo com o joelho esquerdo no chão e logo sentindo-o quebrando sob minha pele.
Por me faltar forças, e a dor lancinante de meu joelho também não ajudava, o vento me rodopiou no chão até certo ponto, onde parei de bruços e fiquei sentindo cada poro de meu corpo gritar por socorro, mas minha voz se tornando completamente inútil.
O peso de meu corpo era como o de uma montanha, e logo tive que adicionar a este peso mais alguns quilos de areia que se amontoavam em cima de mim. Ainda tentei moer meus braços, porém era tarde demais, as dunas eram como garras na minha pele, e me mantinham estática por mais que eu quisesse me mexer.
No fim, a areia havia coberto a minha cabeça e eu fiquei sem ar. Os minutos que o fôlego ainda era presente foram os piores da minha vida. Experimentei cada fase da morte de dois em dois minutos... E o pior era que eu não podia nem me mexer. Eu não estava com minha mãe ou com meus amigos. Estava sozinha num deserto em uma maldita tempestade de areia.
Iam demorar dias para achar o meu corpo, se achassem... No meio de tanta areia, eu podia passar despercebida. Minha mãe ia chorar meu desaparecimento até suas lagrimas secarem assim como ela fez com o pai... Porém, agora, ela não tinha a mim para confortá-la. Tinha medo que a Sra.Yamanaka fizesse algo idiota, e pedi, antes de rezar por salvar minha alma, para que os deuses lhe desse algum tipo de conforto. Meu fôlego acabara e agora meu corpo começava a apagar, a morte era mais estranha do que eu havia imaginado. Nenhuma daquelas lendas ridículas acontecem... Você só fica ali... Esperando cada sopro na sua vida acabar para poder apagar e nunca mais voltar.
Resolvi acabar logo com aquele maldito teatro dos horrores, esvaindo o pouco chakra que meu corpo ainda conseguia manter. Assim eu apagaria mais rápido e aquela porcaria ia terminar. Não tinha mais jeito...
Eu ia desistir.
Estava cansada, sem ar e machucada... Ia me permitir ser covarde mais uma vez na minha vida... E ia ser agora.
Senti meus olhos fecharem e meus pulmões queimarem por ar. Meu corpo ficou cada vez mais mole até que não sentia mais nenhum de seus ligamentos. Meus pontos de chakra estavam tão secos que nem alguém dos Hyuuga conseguiria vê-los. E...
No fim...
Eu senti meu corpo ser erguido e cair, mais uma vez, em um monte de areia. Meu estado consciente-inconsciente me impossibilitava de fazer qualquer coisa, e mesmo que eu quisesse não poderia fazê-lo.

Ouvi o chamado de alguém.
Bem ao longe.
Mas era alguém.
O que estava fazendo ali?
Como me achara?
Eu não sabia nenhuma daquela respostas, mas logo percebi que aquela pessoa estava ali para me salvar, devido a primeira injeção de chakra que eu tomei.
A voz se tornava mais clara a cada injeção de chakra. Não parecia a voz de um amigo, muito menos de alguém que conhecia, e não demonstrava preocupação, apesar da rapidez de sus movimentos para me salvar. Era assustador.
Me vi tendo batimento cardíacos mais ritmados, mas ainda não conseguia puxar ar para os meus pulmões. Meu Salvador ficou parado por alguns instantes e direcionou chakra para meu pescoço dessa vez. Aquilo não ia funcionar, porém.
Estava muito fraca, e a falta de oxigênio fez as estruturas endurecerem. Qualquer um sabia disso, atendimento medico básico I, eles lecionavam isso na academia. Quem era o maldito idiota que estava me salvando?
Ele parou as injeções de chakra por um momento, e percebi que, talvez, finalmente tivesse caído em si. Porém, havia alguma coisa mexendo por todos os meus lados... Aquilo era... Areia?
Estava em outra tempestade?
Não.
Era meu Salvador que fazia aquilo.
Percebi devido a pouca clareza o chakra dele injetara em meu ser, e a visão periférica melhorada, pôde me confirmar a veracidade de minha suposição. O chakra dele se mantinha em cada granulo móvel ao meu lado... Era como se a luz azul que incendiava o chakra dele tivesse vontade própria. Então, parei de pensar por um momento quando senti seu dedos abrindo meus lábios.
O que ia fazer?
Então, quando senti a primeira lufada de ar, percebi.
Ele estava doando ar para mim.
Havia desistido do chakra... E agora fazia tudo manualmente. Soprando debilmente na primeira vez, porém depois realmente me dando ar nas outras.
Meu corpo acendeu novamente. Consegui mais e mais ar até que meu estado anestesiado acabasse e eu conseguisse me mexer por mim mesma. Estava tão sem forças que o moço que me salvara teve que me segurar nos braços apesar do meu desespero em me ver livre daquele pesadelo.
A voz dele parecia mais clara agora, era uma voz contida... De uma calma sem igual. Respirei fundo tossindo mais algumas vezes, sem conseguir distinguir qualquer de sua palavras. Minha reações eram automáticas, e meus olhos não conseguiram focalizar o rosto dele, devido a grande quantidade de areia que havia ali. Apenas pude focalizar um tom diferente do do céu que estava sobre nossas cabeças. Pouco diferente, mas ainda assim distinguível.
Era um tom de azul puxado para o verde. De um brilho que eu nunca havia visto antes. O mar mais tranquilo e calmo, não teria tal cor... Aquela era única...
Não era uma miragem.
Não era a morte vindo finalmente pegar mais uma de suas almas ceifadas.
Era a cor dos olhos de quem me salvara.
Com essa visão, senti meu corpo ser erguido e pude finalmente apagar, imergindo na escuridão dos meus sonhos.
–Srta.Yamanaka?- Eu consegui ouvir alguém falar no lado oposto ao qual estava deitada e pude avistar, com o virar de meu rosto, uma enfermeira com os materiais para exames consigo.- Vou realizar seus exames e as devidas curas sim?- Ainda não havia percebido onde estava mas o símbolo no jaleco dela me fez perceber que estava na Vila da Areia.
–Claro...- Minha voz saiu rouca enquanto eu tentava me erguer mas caindo ao sentir a pontada forte que surgiu em minha perna. O sangue voltou a jorrar do ferimento e manchou o lençol em que eu deitava, fazendo a moça correr ao meu socorro e chamar reforços com um walk-talk. Logo o médico entrou na sala com mai dois enfermeiros e cuidou na fratura na perna, jogando imprecações para os enfermeiros devido à sua falta de atenção para um ferimento grave daqueles.
Eu apenas fiz uma careta de dor quando senti meus ossos voltarem ao lugar e serem soldados pelo chakra do médico. Aquilo sempre fora doloroso para mim, era uma de minhas partes mais odiadas em términos de missões. Ir ao hospital era ridiculamente mais doloroso que ficar em casa moribunda com as feridas infeccionando.
Porém, ali, ela não poderia simplesmente fazer um escândalo com a amiga rosada e fugir para casa. Sua casa estava a quilômetros, e ali outro medico se responsabilizava por sua cura.
–Pronto, Srta.- O médico tirou as luvas manchadas do sangue seco que ficara em minha perna e me olhou caridoso.eu era uma das que odiavam tal olhar nos médicos. Eles faziam sem perceber mas irritava aquela pena que eles sentiam da situação dos pacientes- Logo poderá sair daqui sem problemas.
Apenas assenti e me virei para dormir de novo, apagar parecia uma boa opção depois daquela sessão de tortura.
Bom, depois de alguns dias, a enfermeira finalmente me deixou tomar banho sozinha. Até então apenas havia sido lavada com esponjas, fato que me deixava horrivelmente envergonhada já que eu mesma poderia segurar aquilo e me lavar.
Apesar disso, me mantive calada. Minha voz saía arranhada e minha garganta fechava a cada ex que eu tentava falar, então, tive que me recolher a minha insignificância e deixar que elas fizessem todo o trabalho por aqueles dias. Porém, hoje faziam 3 dias que eu andava sem ajuda e comia perfeitamente bem comida sólida, então, elas acharam que eu era capaz, finalmente, de tomar banho sem me matar com um desmaio no banheiro.
Exageros à parte, eu estava bastante feliz com isso.
A água percorrendo livremente meu corpo finalmente livre daquela camisola de hospital era uma dádiva e estava gelada feito um cubo de gelo, diferente do ambiente desértico lá de fora. Me senti nova depois da limpeza.
–Agora, vou poder ir pegar as flores num estalar de dedos.- Ouvi minha voz ridiculamente diferente dizer enquanto eu tirava as ataduras de meus dedos e percebia sua cura completa. Ia sair dali. Estava curada e não ia mais agüentar os médicos me dizendo o que fazer e o que comer.
Ia sair dali, pegar as plantas, falar com o Kazekage e ir para casa.
Plano perfeito.






–Como assim sumiu?- Minha voz saiu mais alta do que o normal fazendo minha assistente saltar levemente com o susto. Eu estava em minha sala naquele dia assinando alguns papeis e ouvindo Matsuri falar sobre as novidades quando me lembrei da Yamanaka. A moça que salvei naquele dia já devia estar quase completamente recuperada naquele momento, pelos meus cálculos, e tal fato me deixava estranhamente aliviado.
Claro, por ser o responsável por seu salvamento, acredito que seja normal se sentir dessa maneira.
Mas quando perguntei sobre a situação, Matsuri me veio com a resposta de que a moça sumira de seu leito hospitalar.
–Os médicos disseram que depois que ela tomou banho, não foi mais vista. Parece que fugiu do hospital.- A voz dela saiu tremida e percebi que havia areia me circundando por conta do descontrole de minhas emoções. Logo, respirei fundo e baixei os grãos, olhando-a um pouco mais pacificamente.
Minha face monstruosa não ia ajudar a encontrar a paciente perdida.
–Não há idéia de onde ela pode ter ido?- Tentei ser o mais pacífico possível, fato que a fez se acalmar um pouco enquanto negava com a cabeça. Suspirei, pensando em possibilidades, mas mandar tropas ou eu mesmo sair para procurar estava fora de cogitação. A vila me mantinha ocupado, e uma ninja perdida há menos de um dia não era motivo para mandar a tropa de busca naquele momento.
–Vamos esperar o tempo correto para liberar as buscas, Matsuri. Talvez ela só tenha voltado para casa.- Realmente a possibilidade era válida, mas a grande verdade era que eu queria tirar o olhar de minha assistente de cima de mim, para que pudesse relaxar minha face. A situação de ter olhos sobre mim nunca me deixava a vontade.
A observação de qualquer um sempre fez Shukaku se incomodar, e aquela sensação de incômodo perdurou mesmo quando ele sumira da minha vida. Eu lembrava da minha pele arrepiada acompanhada pela voz assobiada do monstro que outrora fora meu companheiro naquela casca que eu chamava de corpo, e me recolhia ao incomodo novamente apesar de nada daquilo ser mais me minha realidade.

Enquanto eu respirava, tentando me controlar, o rosto da moça que salvei veio a minha mente. Não havia nada de especial nela, como todas as outras mulheres que conheci. Nada que me chamasse atenção o bastante, porém, me sentia responsável por sua vida, por mais que muitos pudessem afirmar que eu havia já feito muito com aquele salvamento desesperado no deserto.

–Tenho que tirá-la da cabeça por hora...- Toquei minha testa tentando mover meus pensamentos daquele assunto e me concentrar no trabalho. A Yamanaka teria que dar seu jeito.

Logo não mais pude estar sozinho com meus pensamentos, pois minha porta foi aberta e alguns dos meus conselheiros entraram para a reunião que eu faria sobre a distribuição de água na vila. Me mantive bastante ocupado, fato que normalmente me fazia esquecer do tempo passando, porém eu olhava para meu relógio de parede à cada cinco minutos. Estava irrequieto e sabia exatamente o por quê disso.

Bufei quando a última reunião passou e todos se retiraram de minha frente, me deixando à vontade para vestir minha capa, e poder sair do escritório. Suna já era banhada pela luz da lua àquele ponto, e meus passos não eram vistos por mais ninguém já que era tarde da noite, e todos já estavam adormecidos em suas casas. Estava bastante cansado, devido ao dia cheio, só queria um banho quente e pegar no sono, porém ao ouvir meus passos na areia me concentrei nela por um momento e pude sentir um chakra ao longe. Estava em um oásis a dois quilômetros da entrada da vila.

Era tarde demais para a chegada de alguém. E não houveram mensagens sobre missões de outras vilas. Se alguém estava ali, ou era da vila ou era algum desertor. Respirei pensando em mandar um guarda checar, mas por algum motivo resolvi permanecer calado e rumar para o local.

Aquele oásis era um dos mais bonitos do território que circundava a aldeia. Ali cresciam as mais belas flores do deserto, que eram muito procuradas pelas mais variadas floristas do mundo ninja. Além das flores, ervas medicinais e algumas palmeiras se erguiam naquele paraíso em meio aquele montante de areia que eu chamava de lar.

A beleza do local ainda me impressionava todas as vezes que eu chegava a ir ali. Mas naquele momento eu apenas me concentrei no chakra que agora estava quase a minha frente. Estava estável e se movia ritmadamente,demonstrando a saúde do corpo que o portava. Caminhei mais um pouco, escondido pelas sombras das árvores, e pude avistar quem estava ali.


–Sabe? Você está bem visível para ficar aí escondido.- Ela virou exatamente para a direção em que eu me escondia, e riu um pouco da minha expressão surpresa.- Seu chakra está muito forte, Kazekage-sama... Pude senti-lo assim que chegou aqui.- A moça que me falava agora era Yamanaka Ino, e não parecia nem um pouco amedrontada pelo fato de ter fugido do hospital.

–Peço perdão pela chegada repentina.- Me achei pedindo desculpas por algo que normalmente não pediria, mas enfim, não podia simplesmente ficar calado. Bom... Era o que normalmente eu faria, mas eu não estava muito normal naqueles dias.

–Não se preocupe, Kazekage-sama... Eu realmente já ia sair daqui. Não achei as flores que queria.- Ela se ergueu batendo as mãos arranhadas pelos espinhos de algumas das plantas que tocara. O fato que ela citou me incitou curiosidade, apesar de eu contê-la em minha expressão, ela transbordou por minhas palavras.

–É florista, Srta. Yamanaka?- Ela virou para mim franzindo o cenho e percebi que havia citado seu nome, informação que não fora citada por ela.

–Meu nome... O senhor sabe meu nome, como?- Ela se aproximou um pouco de mim e pude ver seu rosto torcer em curiosidade clara. Ela ainda franzia o cenho quando tombou um pouco a cabeça para o lado, me analisando,e pediu- Venha para a luz.

Ela já devia ter me visto antes, mas algo em seu rosto, me fez não questionar. Andei um pouco e me vi sob a luz do luar. A observação dela, por mais que fosse mais inquiridora que qualquer outra, não fazia mal no momento.

Ela abriu mais um pouco os olhos azulados e eu pude ver o sua face tomar uma feição surpresa. Depois de alguns momentos olhando fundo em meus olhos, ela estendeu a mão para minha face e tocou meu rosto como se o reconhecesse.

–Salvou a minha vida, não foi?- Ela puxou a mão vendo a impropriedade que cometera, mas eu apenas assenti dando-lhe permissão para me tratar informalmente.

–Pensei que tivesse me visto.- Eu a olhei em desconfiança, fazendo-a rir com vergonha.

–Eu estava total e completamente perturbada... Só consegui focar a cor de seus olhos. Mas liguei os pontos quando os vi hoje.- Ela me observou de novo e percebi que em nenhum momento tivera alguma reação similar a que tive com Matsuri e qualquer outro que me observara naquela tarde.

O olhar cristalino daquela loira não parecia diferente de qualquer outro que eu tinha visto. Mas as reações que me causava demonstravam que meu julgamento estava errado.

–Entendo...- Franzi o cenho e lembrei de seus motivos de estar ali. Havia esquecido completamente que deveria levá-la de volta para o hospital. O rosto dela estava corado, e ela parecia saudável o bastante. Nem eu gostava de estar naquela besta branca que chamavam de hospital... Então vou dar um desconto.- Que flor procura, Srta. Yamanaka?- Ela arregalou os olhos, surpresa com a minha voz soando repentina, e riu um pouco.

–Quer me ajudar, Kazekage-sama?- A loira parecia desconfiada. Acho que penava que não entendia nada de qualquer planta, quanto mais das delicadas flores que procurava.

–Posso tentar, Srta.- Mantive minha expressão confiante, o que a fez relaxar e se dar por vencida.

–Paradisus. É uma flor levemente amarelada, mas agora deve estar...- Eu a parei e completei.

–Vermelho-sangue. Sei exatamente qual a flor que procura.- Eu amenizei minha face com um leve ar de sorriso por conta de sua surpresa e peguei um pouco de areia nas mãos, rastreando as mudas mais próximas dali.- Há um campo delas na divisa do deserto com as montanhas, do lado oposto a entrada do país do Fogo.- Eu apontei para onde ficaria o caminho mas tudo o que se via dali era a continuação do deserto.- Tem que andar pelo menos uns 15 quilômetros para começar a ver as montanhas.- Ela ergueu as sobrancelhas pela habilidade que demonstrei e sorriu.

–Você é...- Ela percebeu o termo informal e se corrigiu.- O Senhor é bom nisso, Kazekage-sama.- Eu assenti agradecendo o elogio de sua parte, e disse.

–É um pouco longe, mas acho que vai conseguir o bastante para terminar o ano na sua floricultura.- Ela sorriu levemente por eu ter solucionado seu problema, e manteve o olhar sobre mim.

–Obrigada.Por isso e... Bem... Por tudo na verdade.- Ela parecia tímida novamente e me permiti sorrir com isso. O olhar dela era tão inocente, e ao mesmo tempo suas palavras de agradecimento cativavam tanto que me esqueci um por um instante da seriedade e das sombras que me rodeavam.

–Não se preocupe... Realmente foi um prazer, Srta. Yamanaka.- Ela sorriu ao ver meu rosto ameno e comentou.

–Seu rosto fica anos mais jovem quando sorri.- Corajosa, ela se permitiu falar sobre a expressão icônica do meu rosto. Fato que nunca ninguém tivera coragem de fazer... Nunca tão diretamente.

“Honesta” pensei enquanto já voltava a falar.

–Agradeço pelo elogio.- Baguncei meus cabelos olhando para a posição da lua para checar as horas. Devia ser meia noite, pelo menos.- Acho que não é uma boa idéia ir agora...- Ela ergueu uma de suas sobrancelhas e respondeu:

–Não se preocupe comigo, Kazekage-sama.... Sou bem forte!- Ela levantou o fino braço e fez força para o músculo nele se sobressaltar, fazendo graça com a situação. Apesar da situação completamente besta, eu me achei rindo da piada.

–Percebo isso, Srta. – Minha ironia soou como uma simples brincadeira que a fez me acompanhar na risada.- Ainda assim, gostaria de acompanhá-la...- “Não vou conseguir fazê-la voltar a vila...” pensei enquanto a olhava surpresa pela milionésima vez desde que nos encontramos.

–Mas o senhor... Kazekage-sama...- Ela não sabia o que dizer, então eu a parei.

–Será um prazer acompanhá-la... Além disso, preciso tirar alguns problemas da aldeia da cabeça.



Me vi encarando-o e analisando a frase que ele proferira. Queria tirar problemas, confusões e mais um pouco da mente. O rosto dele estava bem escurecido, como se tivesse sido coberto por uma nuvem de uma hora para a outra.

Ele estava na mesma situação que eu.

Fugindo dos monstros de seu dia a dia.

Tentando tirar as sombras da mente.

Se fazendo ser visto pelo menos uma vez.


Era engraçado que mesmo que eu nunca houvesse o conhecido direito antes, o entendia bem. Ele era fácil de ler, apesar de muitas pessoas o classificassem como denso. Realmente, eu não o conhecia bem, e provavelmente estava lendo errado. Mas minha curiosidade fantástica não deixaria passar uma oportunidade dessas, não?

–Então... Vamos?- Eu o chamei para vir comigo e algo o fez sorrir.- O que há?

–É do outro lado...- Ele apontou com o polegar para suas costas e eu ri batendo com a mão na minha testa.

–Claro que é... Eu estava... Só te testando!- Eu fiz uma piada fazendo-o manter o sorriso no rosto apesar de não acreditar em uma palavra de que eu disse.

–Hn... Claro que estava.- Ele era bem irônico, mas nunca de uma forma ferina. “Bom homem...” pensei enquanto o observava e me via ser analisada também.

Começamos a andar pelo deserto, àquela hora devia estar fazendo pelo menos um grau negativo. Eu estava bem coberta com minhas roupas de lã, ainda assim, sentia um frio cortante, enquanto o Kazekage parecia perfeitamente bem.

Minhas mãos estavam trêmulas quando as olhei da ultima vez, e minha respiração conseguia ser perfeitamente vista por conta da fumaça que saía de minhas narinas. Realmente caminhar pelo deserto aos 40 graus era melhor do que isso.

O Kazekage parou e olhou longamente para mim antes de dar um longo suspiro. Pensei que ele tivesse perdido a paciência por eu estar assim e logo pus-me na defensiva.

–Estou bem, Kazekage-sama... Sério! Podemos continuar!- Realmente eu estava impressionada pelo que falavam dele, por que o homem que conheci hoje não perderia a paciência tão facilmente. Ele negou com a cabeça e fez alguns selos com as mãos. Logo, estávamos envoltos em uma esfera oca de areia que depois de algum tempo concretizou ficando firmemente presa ao chão e nos protegendo do vento gelado lá fora.

–Você podia estar agüentando bem, mas eu estava congelando lá fora.- Os olhos dele se direcionaram de canto para mim, e me viram levemente corada. Estava morrendo de vergonha da situação.- Não precisa se fazer de forte, Srta. Yamanaka, já é bem forte do jeito que é.- Ele abriu uma fresta na esfera e recomeçou a andar fazendo com que a esfera nos acompanhasse.

–Como sabe?- Desconfiada, eu me permiti questionar. Ele não me conhecia, assim como eu não conhecia ele, o máximo que tinha eram palpites, e isso não dizia nada sobre quem ele realmente era.

–Aguentou aquela tempestade bravamente, e está aqui, viva e fugindo do hospital por seus objetivos.- Ele riu ao dizer a ultima frase que me deixou incrivelmente corada.- É um bom palpite, creio eu.- Ele levou o olhar verde água para mim, e pude perceber que parte estava banhado pela luz da lua que provinha da fresta e parte estava na escuridão da esfera. Ficava bastante bonito assim. Bem...

Ele era um homem muito harmonioso por assim dizer.

Tudo bem que eu tinha vergonha até de imaginar qualquer coisa com o Kazekage, mas esse moço me deixou mais intrigada que qualquer outra pessoa. A idéia que passavam sobre ele, por mais que o próprio Hokage desencorajasse isso, era que ele ainda tinha alma de monstro apesar de ter deixado de ser um Jinchuriki a alguns anos. Porém, eu, vendo-o ali, não podia pensar mais diferente.

Ele tinha sim suas escuridões,porém havia um “quê” diferente que o separava da idéia de monstro, e o transformava apenas num homem com olhar solitário.

–Por que te consideram um monstro, Kazekage-sama?- Tomei muita coragem para perguntar tal coisa, mas não via mal em tentar ver seus motivos. Haviam ainda quilômetros a nossa frente e conversar parecia uma boa maneira para espantar o cansaço.

Ele deixou seu olhar longe, mergulhado nas sombras quando ouviu a minha pergunta. Parecia estranhar que eu ousasse dizer algo tão diretamente. Realmente, do jeito que falavam dele, devia ser difícil alguém perguntar algo assim.

Apesar da hesitação, ele virou e me respondeu.

–Acho que eu uso essa idéia para me manter sob controle.- Ele pensou um pouco antes de continuar.- Como bem sabe, passei muito tempo sendo o Jinchuriki da vila, e muitos morreram sob minhas mãos, construindo uma estátua de monstro ao meu redor. Porém, quando me vi sem meu Bijuu, as pessoas não conseguiram se desacostumar com a idéia que construíram sobre mim, e por mais que eu seja seu líder, não tem interesse em realmente me questionar sobre isso. Basta que eu esteja liderando bem a aldeia e deixando tudo nos conformes. Não importa se realmente eu tenho um monstro interior ou não.- Ele riu sem humour enquanto continuava sob meu olhar indignado.- Mesmo assim, algumas vezes ainda tenho algumas reações que acredito que alimentam essas idéias. Sou sério demais, forte demais, taciturno demais, frio demais, tenho reações inesperadas e me descontrolo com intensidade apesar de muito raramente.- O suspiro dele soou no pequeno local que nos acompanhava a caminhada.- Não faço questão de mudar essa visão também, as vezes é confortável assim e...- Ele ia continuar mas eu o interrompi.

–Você só vai se transformar em um monstro se tomar isto como verdade...- Eu o fiz parar e me olhar mais atentamente.- Você salvou a minha vida,faz pouquíssimos dias, assim como a de muitos, na guerra...Não há como um monstro se importar com a vida dos outros, Kazekage-sama.- Fui extremamente certa em minhas palavras. Eu estava dando uma bronca no líder mais fechado de uma das mais fortes aldeias do Mundo Ninja. Mas tudo bem... Sou Yamanaka Ino. Posso fazer isso.- Você... Bom, eu não o conheço bem... Mas como disse sobre mim... Tenho um bom palpite, e realmente é bem diferente do que falam sobre o senhor.- Recomecei a caminhada desviando o meu olhar do dele, porém sendo seguida de perto.

–Talvez esteja enganada, Srta., por mais que eu aparente para você não sou exatamente um homem normal.-O mistério banhava seu rosto, fazendo com que ele imergisse ainda mais nas sombras do cubículo.- Eu sou um monstro... Eu não estou na iminência de me tornar um... É um fato consumado, não há como mudar.- Eu engoli em seco com suas palavras. Ele tinha muito sofrimento na voz, nunca tinha visto alguém ter tanto rancor assim.

–Sabe, Kazekage-sama... Eu sempre fui uma moça muito alegre... Comunicativa.... Amiga acima de tudo.- Pausei minhas palavras e voltei meu olhar para ele- Porém, todas essas características me fizeram me fechar meus próprios problemas, eu me impunha a face sorridente a cada dia e tinha que lidar com as sombras de meu passado quando estivesse sozinha. Nunca tive alguém que percebesse... O que eu realmente estava sentindo. Meus amigos emprestavam meus ouvidos para falar sobre mais e mais problemas e eu sempre tinha que sorrir e achar a solução. Ser uma pessoa assim, não te faz feliz Kazekage-sama... É exaustivo e tem horas que te faz querer simplesmente acabar com tudo e estourar em cima daqueles que te atormentam.- Eu pus as mãos em meus cabelos e puxei o rabo de cavalo para ajeitar melhor o penteado.- Você é uma pessoa diferente... Você não é como eu ou como as outras pessoas. É fechado sim... Mas isso não o deixa pior do que qualquer outro. Mas o que você tem de melhor é que não finge... É honesto quando está sem paciência, ou simplesmente não quer demonstrar nada para a pessoa que está a sua frente. Isso não te torna um monstro... Na verdade só te faz ser o que é.- Avistei o campo de flores a nossa frente e percebi que nossa caminhada havia terminado.- Espero que não o tenha ofendido.- Não tinha coragem de olhá-lo, realmente me abrir com um quase completo desconhecido foi uma das coisas mais estranhas que já fiz em toda a minha vida. Porém, mesmo assim não me senti exatamente desconfortável. Realmente isso era contraditório, eu sei. Todavia, estar ali falando aquelas coisas tirou um peso enorme das minhas costas, e acho que o fato de Kazakage ser um completo desconhecido, me encorajou àquele ato.

–Não... Você... Não o fez.- A voz dele soou pausada, enquanto eu sorria levemente e me abaixava para pegar as flores.- Srta. Yamanaka... Você se diz fechada, mas é incrivelmente honesta... Realmente não consigo entendê-la.- Ele me analisava com aquele olhar esverdeado e eu ri com sua afirmação.

–Realmente, poucos conseguem, Kazekage-sama.- Eu recolhia as mudas com cuidado para não danificar as raízes e ia prendendo-as com jutsos de selamento nos pergaminhos que trouxera comigo.

–No entanto, conseguiu me ler com tanta facilidade...- Ele me olhava curioso, agachando ao meu lado para me observar melhor.- É mais especial do que pensa, Srta.- Eu levantei a cabeça surpresa com a afirmação rápida dele.

–Talvez... Mas, ainda assim, sou mais monstruosa do que você, pode apostar nisso.- Ri um pouco ao me considerar um monstro mas percebi que isso não era nem um pouco estranho, até se encaixava perfeitamente. Eu me escondia nas sombras, não era honesta com meus sentimentos e ainda por cima fingia ser outra coisa completamente diferente do que eu realmente era. Eu sim, era um monstro, não ele.- Acho que por isso não me casei até hoje... Devo assustar aos rapazes.

–Acho que vou erguer minhas apostas nisso... Porém...- A risada baixa dele veio aos meus ouvidos fazendo-me observá-lo. O Kazekage era uma pessoa boa, não merecia nem metade do que espalhavam sobre sua pessoa.- Seja menos severa consigo mesma, Srta.- Ele tocou meu ombro e continuou.- Tenho certeza que o cara que tiver você como esposa vai ser um rapaz de sorte.- Ao ver minha indagação em meu rosto, ele acrescentou.- Consegue domar a mais forte das feras, Srta., além disso consegue ler o espírito de alguém perfeitamente... Não há como seu futuro marido não querê-la para o resto de sua vida... Como eu disse antes.... É uma moça especial.- Ele sorriu enquanto me elogiava ao ponto de me fazer corar completamente.

–Não me elogie demais ou vou ficar metida, Kazekage-sama.- Avisei em tom de brincadeira tentando esconder o rubor no rosto.

–Acredito que isso seja bem possível.- Ele riu e voltou ao estado sério, se erguendo e andando para o lado oposto enquanto eu terminava minhas obrigações.

Depois que pus os pergaminhos em minha mochila, me levantei e fui ao local onde ele estava. Ele fechara os olhos e estava sentado na grama ereto na posição de lótus. A areia que antes não passava por ali, rodeava-o fazendo círculos fluidos enquanto ele franzia o cenho. Era realmente incrível o jeito com que ele se acalmava e deixava-se fluir na tranqüilidade do nada. Como alguém podia acreditar que ele podia fazer mal a alguém?

Tudo bem... Tinha o fator frieza.

Mas ele tinha tantas qualidades, e até mesmo seus momentos de diversão, que ofuscavam isso. Era uma pessoa fora do comum...

–Está só me observando por pelo menos 10 minutos, Srta., sou tão bonito assim?- Ele abriu os olhos sorrindo da própria brincadeira e me surpreendi com tal fato.

–Acho que estou te influenciando mal Kazekage-sama...- Ri acompanhando-o no divertimento enquanto ele se erguia.

–Realmente, Srta... Eu acho que a Srta é uma ‘péssima’ influência.- O fato de ter falado mais abertamente com ele sobre assuntos que eu achava serem proibidos, fez com que ele me mostrasse uma face que antes ele não tinha coragem de transparecer. Um Kazekage ameno, simples e... aberto. –Vamos para Suna?- Ele estendeu o braço para mim e neguei com a cabeça.

–Quero ir para casa.- O olhar dele ficou confuso por um instante e logo ele percebeu a floresta atrás do campo na divisa do deserto. Cortando pelas árvores logo eu estaria confortavelmente na divisa com o país do fogo.

–Bem... Apenas tome cuidado.- Ele tomou minha mão por entre as suas e apertou.- Espero vê-la de novo em breve...- Eu sorri levemente sob sua reação.

–Obrigada por entender, e... Por tudo.- Ele apenas assentiu levemente enquanto soltava as minhas mãos.- Vai me ver sim... Pode passar na floricultura a tarde e eu estarei por lá.- Dei um pequeno aceno com a cabeça e me virei para ir embora.Pouco tempo depois me virei de novo e o vi acenando em despedida.

Aquele cara...

Aquele ruivo...

Tinha mexido comigo.



Haviam se passado dois meses desde o incidente com a Yamanaka. Desde então, havia me enrolado em problemas em Suna que não podiam simplesmente ser deixados de lado. Mesmo assim, nem por um momento deixei de pensar em como estaria aquela estranha amiga que havia feito.

Por mais que fosse algo tão fino que poderia ser quebrado com uma simples distância. Sabia que por mais que achasse estranho, uma amizade como a dela, naquela noite, fora imprescindível para a retirada do ‘piano’ que carregava fazia tanto tempo. Me permitir pensar contrariamente a todos os boatos que circulavam sobre mim, me fez perceber que as palavras dela eram de um todo verdade. As sombras que eu acreditava que me circundavam era ilusões e aquilo que antes eu sentia não mais incomodava tanto. Ela melhorou minha vida com simples e poucas palavras... E me cativou digamos...

Que à Segunda Vista.

Antes eu havia a achado comum. Achei que quando visse alguém especial iria sentir algo a primeira vista. Mas quando nos “conhecemos” por assim dizer ela estava desacordada e só pude ver seu exterior. Ela era bonita, verdade, mas não mais que qualquer outra até o momento. Contudo, por mais que fosse bastante fora do comum para eu admitir isso, sua palavras mostraram uma entre um milhão de outras mais. Uma jóia por entre as pedras.

A mentalidade daquela pequena moça era estranha e incomparável.

Eu estava lembrando do dia em que a levei ao campo das Paradisus, e acabei por me distrair, sem perceber sobre o que minha irmã falava sem parar na minha sala.

–GAARA!- Gritou Temari me fazendo olhar para seu rosto ainda em estado de transe.

–Sim, mana? O que falava?- Eu voltei a assinar os papéis que antes de ela entrar estava assinando e minha loira irmã bateu na minha mesa derrubando a tinta.

–ESTOU DIZENDO QUE VOCÊ VIROU UM IDIOTA APAIXONADO, GAARA!- Os gritos dela me fizeram olhá-la desacreditado e respondi.

–Apaixonado? Por quem?- Voltei as minhas assinaturas enquanto minha irmã bufava sob minha resposta simples.

–Não sei por quem, mas desde que voltei de Konoha você está assim... Aconteceu alguma coisa na minha ausência?- Ela me analisava loucamente tentando achar algo que, pelas minhas memórias, era invisível, em meu rosto.

–Nada mais que uma tempestade de areia.- Ri um pouco lembrando do fato, e do que aquela tempestade de areia me fez descobrir.

–AÍ! Você está rindo para os sete cantos do planeta, Gaara! Você não é assim!- Ela checou minha temperatura sob meu olhar sério e voltou a falar.- Você está doente? Ficou muito tempo no sol? Está comendo de forma correta?- Eu apenas suspirei por conta das perguntas e respondi.

–Não, Não... E sim.- Guardei os papéis na gaveta, e me ergui da mesa, pegando meu casaco.- Apenas estou... Normal, Temari.- Peguei a mochila que preparara pela manhã e rumei para a porta.

–Vai viajar?- Ela percebeu minha bagagem e me olhou inquisidora enquanto eu saía.

–Vou à Konoha... Acertar uns negócios com o Naruto.- Ok... Isso não era uma total mentira. Naruto tinha me mandado uma carta me pedindo para ir assinar uns papéis de acordos lá, e eu ia aproveitar para ver minha amiga. Nada demais.

–Sei... E...- Ela ia acrescentar algo mas eu abri a porta e encerrei a conversa.

–Tchau Mana... Kankurou sabe onde me encontrar.- Então fiz os selos e sumi em uma nuvem de areia até chegar a solidão do deserto e rumar para meu destino.



–Ino... Você está estranha.- Sakura fora a floricultura hoje. Eu tinha ficado com o turno da noite devido à doença que minha mãe pegou durante minha estada fora. A saúde dela tinha ficado um tanto fragilizada mas ela estava se recuperando rapidamente depois da minha chegada... E logo estaria forte como um touro.- Desde que voltou de Suna está meio avoada.- Eu a olhei levemente ruborizada e neguei com a cabeça.

–Está imaginando coisas, Sakura.- Peguei as rosas vermelhas e pus no mostruário aguando-as em seguida.- Só quase morri... E isso é estranho para qualquer um.- E claro, teve o fato que eu conheci o Kazekage, me abri com o Kazekage, dei uma bronca no Kazekage e... Poisé... O Kazekage.

Mas enfim, eu não ia comentar isso com a rosada se não o próximo assunto seria... Como Ino conquistará o... Kazekage.

–Tá... Vou fingir que acredito, porquinha.- A rosada continuou a me analisar desconfiada enquanto eu forçava o sorriso e fazia caras e bocas para fazê-la deixar de me perturbar.- Mas enfim... Sabe é que da ultima vez aquele maldito...- E lá vamos nós de novo. Sasuke... Sasuke... Sasuke... Ela ia se casar com esse Uchiha. Ah se ia. Do jeito que andava completamente apaixonada, e as repetições que ele andava fazendo nela... Realmente...

O amor estava no ar.- Ele me agarrou e... Eu não tive o que fazer Porquinha!- Eu ri quando ela falou isso. Todas as vezes era o mesmo discurso.

–Vá lá e agarre ele Sakura... Sério, você o ama, aceite isso.- Eu arrumava as jasmins distraída quando a senti me puxar para olhá-la.

–Ok... Você definitivamente ta doente! Te envenenaram lá em Suna ou o que?- Eu sorri da reação assustada da minha amiga e imaginei exatamente naquela possibilidade. Não parava de pensar naquele rapaz que se achava monstro mas na verdade era algum tipo de Lord. É...

Acho que tinham me envenenado.

–Ok... Sakura... Amanhã nos falamos.- A empurrei para fora da loja e fechei a porta de vidro na cara dela, mesmo sob imprecações de sua parte. – Eu não consigo ouvir! Está abafando o som aqui dentro! Foi mal!- Gritei rindo, pois ela sabia que eu podia ouvi-la perfeitamente, apenas estava gozando da cara dela para pode me livrar da conversa.

Fechei as cortinas e me virei para voltar as plantas, porém quando o fiz, o dono da maioria de meus pensamentos estava ali.

–Sua amiga também acha que está doente? Temari simplesmente me interrogou quando chegou de viagem.- Eu ri suavemente com o começo de conversa ameno. Desde quando ele estava ali? Bom, parecia que havia chego a pouco, roupas de viagem ainda estavam sob seu corpo. E ele havia ouvido parte da minha conversa com a rosada ou seja... Jutsu de areia.

–Sabe? Ficar ouvindo as conversas dos outros é feio, Kazekage-sama!- Ele riu com a minha piada e colocou a melhor cara de arrependimento que pôde.

–Realmente sinto muito, Srta., mas estavam tão acaloradamente conversando que não tive como evitar.- Ele se aproximou enquanto eu aguava as flores do campo e me observou mais atentamente.- Está bem melhor do que da ultima vez que eu a vi.-Eu ri com a firmação e soltei:

–Claro, Claro... Da ultima vez eu tinha quase morrido, mas estou melhorando.- Eu puxei meu rabo de cavalo nervosamente e continuei a aguar as plantas. Certo... Nos éramos... Amigos.

Mas desde que voltei não paro de pensar nele... E vê-lo aqui me deixa completamente nervosa.

–Não deveria ter vindo?- Eu levantei o olhar para encontrá-lo e ele me pareceu confuso.- Você está...

–Estranha?- Eu completei ainda nervosa.- Poisé... Normal para mim.

–Com os nervos a flor da pele, eu diria.- Ele me corrigiu olhando fundo nos meus olhos.- Quer que eu vá embora? Entendo que se sinta assim...- Ele me olhava estranho, como se não me reconhecesse, fato que me fez respirar fundo e falar:

–Antes que pense algo, não mudei meus pensamentos sobre o senhor... É só que...- Eu tentei achar uma forma clara de explicar, mas a cada pensamentos ficava cada vez mais vermelha.

Por que é que ele tinha que aparecer agora?

Ele podia vir em um dia que eu estivesse esperando e eu ia dizer “oi” e ser normal como qualquer pessoa normal. Mas não estava aqui feito uma louca, tentando esconder a minha face avermelhada.

Parei minha confusão pessoal quando o ouvi rir. Melhor... O Kazekage estava gargalhando bem na minha floricultura.

–Srta. Yamanaka... Sinceramente, não acho que tenha que ficar tão nervosa com a minha presença.- Ele parou de rir um pouco e acrescentou.- Não se preocupe... Eu vim em paz. Quem sabe conversar? Como no dia em que te achei no Oásis?- Ele riu analasado e me acalmou com isso.A face dele estava tranqüila, então... Sem chance de qualquer avanço para o lado amoroso Ino... Seja normal... Seja amiga... Seja...

–Bom, que tal irmos jantar lá em casa? Tenho certeza que mamãe adoraria conhecer o salvador da princesinha dela.- Ri um pouco com minha denominação e ele assentiu.

–Vai ser um prazer.- Ele parecia mais relaxado com a minha súbita tranqüilidade. Mal ele sabia que eu estava uma pilha por dentro.



–Há algo que quero falar com você.- A mãe de Ino fora extremamente educada e adorável. Diria que mãe e filha eram versões mais velha e mais nova uma da outra. Ambas com a mesma alegria, o mesmo sorriso e uma visão incrível do mundo. Bom, todavia, minha amiga parecera uma estranha a noite inteira.

A Yamanaka mal falara, mal rira, mal comera. Ela se manteve em uma posição tensa que me incomodou bastante. Aquela não parecia a Ino que conheci naquele dia, era apenas mais uma mulher e não a exceção que percebi em sua pessoa.

Nós estávamos em frente a porta da casa dela, após ter me despedido da forma correta de sua mãe, e eu pedira a palavra.

–Você está mais do que diferente hoje, Ino. Parece outra pessoa.- Acusei a vendo arregalar os olhos.- Há algo que deseja falar comigo? Há algo que fiz que a desagradou? O que há?- Minha face estava bem controlada, quando na verdade, eu queria demonstrar que estava muito perturbado por tal fato.

–Não, Kazakage... Digo... Gaara.- Eu havia a instruído para me chamar assim, quando ela me deu a permissão para chamá-la pelo primeiro nome.- Não há nada... É só... Que... Eu...- Ela me olhou incerta.- Não sei se tenho coragem de falar isso.... Isso é fora de qualquer normalidade e...- Eu vi o ritmo da conversa e a interrompi.

–Você mesma me disse que não há nada de errado em ser diferente do normal, Ino.- Eu sorri a encorajando a continuar.- Não volte atrás com suas palavras... Ou não é a pessoa que eu conheci naquele campo?

–Eu não sei o que há comigo...- Ela me observou por um momento antes de baixar os olhos.- Eu nunca senti nada assim por ninguém e... Gaara... Tenho medo de perdê-lo... Mais medo que qualquer coisa.- Ela afirmou e levantou o olhar.- Esses dois meses que passei longe depois de te conhecer... Foram totalmente repletos por pensamentos sobre você... E é estranho e completamente anormal, por que... Eu nunca senti isso nem nos meus mais longevos casos de amizade... –Ela tomou fôlego, mas minha percepção foi além de seu rosto. Ela pensara em mim, sentira falta... Assim como eu. Era estranho para mim também, mas acreditei que...Fosse normal.- Eu acho que... – Ela perdeu a fala e percebi. Ela estava se declarando. Yamanaka Ino... A mulher que povoou meus pensamentos, a amiga de uma noite, aquela que soube de meus medos antes mesmo de eu verbalizá-los... Estava se declarando.

Era estranho... Eu estava nervoso mesmo sabendo o que ia acontecer.

Meu monstro interior não existia perto dela. Ela domara-o.

Simples fatos... Normais fatos... Que me fizeram ter uma percepção mais comum ainda.

Eu a amava também.

E a beijei ali. Beijei a mulher que salvei e que por si me salvou. Ela domou a minha fera e eu pude, em seus braços ter a paz que necessitava.

Sabia não íamos ser um casal normal... Mas...

Qual a graça da normalidade mesmo?

Notas finais
Vejo vocês dia: 27/02!!
Bjo