A Luta

1 Capítulo 1


Em um lugar havia pessoas cansadas, sujas, sem esperanças, consumidas pela dor, sem vida. Ele –o governador- tomou tudo delas, deixou apenas pele e ossos.

Suposta pele, supostos ossos.

Vivíamos em uma espécie de cidade subterrânea, dizem por ai que o local acima de nós se chamava B1, era perfeitamente habitável, até que houve a disseminação de uma peste, a qual matou milhares de pessoas, o governo na época construiu esse lugar e jogou o resto das pessoas saudáveis aqui.

Isso são apenas boatos, somos proibidos de falar sobre o que ocorreu no passado, e de expressar opinião. Como a população estava aumentando, eles não hesitavam em sair atirando em todo mundo, qualquer preocupação não é exagero por aqui.

Somos obrigados a trabalhar para eles, quem se via livre da escravidão eram apenas os idosos e as crianças.

Desde que nasci vivo nesse lugar, presencio diariamente várias mortes, mas a pior cena é ver quem amo sofrendo todos os dias. Os olhos de minha mãe não tinham mais brilho, nem muito menos vida.

Queria fugir, vê-la sorrir de novo.

—Frank, saia dessa janela! –sentar naquela sacada e observar a podridão onde moro, pensando em soluções utópicas, havia se tornado um hábito.

Dirigi-me até a cozinha a procura de minha mãe.

—Quer ajuda com o jantar? – perguntei assim que a avistei.

—Não querido, pode sair com Bert, mas não demore a voltar, sabe como são esses recolhedores.

—Tem certeza?

—Claro, guardo sua parte do jantar –disse guardando a louça limpa.

—Papai já voltou? –já conhecia a resposta.

—Não Frankie, mas não se preocupe ok? –movi minha cabeça positivamente e minha mãe deu-me um beijo protetor, me empurrando carinhosamente para fora de casa.

Pessoas mortas, brigas por um pedaço de pão, castigos em vias públicas, mulheres se insinuando para pagar as contas.... que cenário!

Às escondidas, fui até uma árvore um tanto afastada do centro a encontro do meu melhor amigo, Bert. Aproximei lentamente já o avistando sentado sozinho, olhando para aquela paisagem horrenda.

—Olá Frankie! –Bert disse exibindo um sorriso amistoso. Robert era meu único amigo ali, não se podia confiar em ninguém, todos eram inimigos, mas nele eu confiava, éramos amigos desde pequenos.

—Tive novos pesadelos... –falei baixo, já sentando-me ao seu lado.

—De novo Frank? Estão se tornando mais frequentes do que o normal, não? –concordei com a cabeça.

—E sempre a mesma coisa. Estou sendo julgado por algo que não fiz, por alguém que não consigo ver. Estou começando achar que não são sonhos... são lembranças –não conseguia mais guardar isso para mim, a agonia e o desespero que sentia ao acordar desses pesadelos estava me matado, e eu sabia que podia contar com Bert.

—Frank, isso parece uma tremenda bobeira, não? –ele estava certo.

—Não sei cara, são muito reais... estou desesperado –me encostei na árvore e fechei meus olhos, por um momento toda a dor e morte foram engolidos pela escuridão de minha mente, ignorar o problema não iria resolver, mas, naquele momento me senti aliviado. No segundo seguinte senti algo em meu abdômen, algo como uma picada, abri meus olhos e nada estava ali, mas a dor se espalhava pelo meu corpo, olhei para o lado e meu amigo desaparecera, pisquei e pessoas com vestes negras, de aspecto horrendo e mãos ensanguentadas me cercaram, seria aquele meu fim?

Um dos homens ergueu uma espada prata com pedrarias desconhecidas por mim e antes de me acertar, abaixou-se e sussurrou:

—Você perderá sua vida por ser covarde e não lutar contra –olhei com mais clareza no rosto que dali alguns segundos seria o último que veria e o reconheci... era Bert, uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto, era óbvio que ele estava sendo forçado a fazer isso, em um golpe certeiro a vida não me pertencia mais.

Abri meus olhos, era claro que aquele era mais um de meus sonhos, mas este havia sido completamente diferente.

—Bert! – gritei. Ele me encarou assustado –Você está escondendo algo de mim? Só pode ser isso –ainda encarando-me com seu cenho franzido, contei-lhe o que acabara de sonhar, Bert não parecia estar surpreso e aquilo era muito estranho. Minhas suspeitas estavam sendo respondidas, só que estas eram totalmente irreais.

—Frankie, confie em mim, deixe esse assunto de lado.

—Não! Explique-me tudo Bert... por favor – ele parecia extremamente nervoso, olhando para os lados de uma forma quase que paranoica, havia algo ali, esse não era seu comportamento normal.

—Vamos para a sua casa, agora –se levantou rapidamente, sem esperar pela minha resposta meu amigo me puxou pela mão, fazendo-me levantar –Rápido, Frank –disse já andando apressadamente, de uma forma que não parecesse suspeita eu o segui até a minha casa.

Minha mãe já estava dormindo, a casa estava em um silêncio mórbido, indiquei a porta do meu quarto e ele seguiu até lá. Sentei-me em minha cama e ele em uma cadeira que havia ali. O encarei pedindo mudamente para que falasse algo.

—Não podemos ser ouvidos, ok? É extremamente perigoso...

—Do que raios você estava falando? –o interrompi.

—Apenas me escuta. Tudo o que eu disser pode parecer fantasia, mas não é –lancei-lhe um olhar de compreensão e ele entendeu que eu iria confiar nele –Antes desse lugar deplorável existir, morávamos na B1 –acenei com a cabeça em concordância, disso eu sabia –Nossa espécie era conhecida como GEMIS, cada pessoa possuía um poder interno específico, vivíamos em harmonia, claro que havia conflitos, nenhuma população é perfeita. Nós tínhamos funções dentro da sociedade, os que possuíam poderes mais fortes obtinham um cargo de maior nível. Mas houve um golpe de estado, o que hoje chamamos de governador na verdade se chama Shadow, ele era um dos seres habitantes da parte escura de B1, onde os que pertenciam a luz não poderiam ir, mas tudo mudou tão rapidamente... –seu olhar agora estava distante, amargurado e cansado. Desde quando Bert carregava esses sentimentos? –Shadow implantou uma praga no mundo que fazia com que as pessoas esquecessem tudo, para assim controlar-nos. Mas essa tal praga tem seus defeitos, por isso você sonha com o seu passado.

—Quem eu era? Por que eu estou sempre sendo julgado? Por que no último sonho você estava me matando? -ele pareceu desconfortável e extremamente nervoso.

—V-Você era um pertencente do Clã Aurorus, o grupo defendia a luz, combatia Shadow diretamente. Quando houve o golpe, ele te levou ao tribunal não para julgá-lo corretamente, mas para te ver sendo humilhado, de qualquer jeito você já estava destinado à morte. Como eu trabalho no cumprimento de sentenças, tive que lhe dar a morte, mas não tive coragem e te acertei em um ponto não vital.

—Vocês aceitaram a derrota? Não vejo nenhuma manifestação pelas ruas.

—Temos um grupo -ele deu uma pausa e olhou a rua pela janela, depois voltando seu olhar a mim -Somos em três, fomos um dos poucos a não ser atingidos pela praga. Nesse grupo, estamos planejando outro golpe de estado, Miles conseguiu achar uma espécie de antídoto para injetarmos na população e eles voltariam com suas memórias originais, assumiríamos o poder e o antigo presidente voltaria.

—Espera um instante... por que vocês não foram atingidos pela praga? -Bert agora parecia um pouco mais aliviado, mas ainda sim extremamente preocupado.

—O pessoal do governo foi avisado antes da disseminação para quem quisesse se aliar a eles, receberiam um antídoto. O antigo presidente implorou para Henry, Miles e eu aceitássemos, para que no futuro, derrotá-lo -me mantive pensativo, afinal era muita coisa para processar de uma vez só.

Milhares de sentimentos e perguntas tomaram conta de mim, mas apenas um se sobrepôs. Eu queria ajudá-los.

—Sei que você deve estar confuso, afinal, tudo isso parece ser uma loucura total, mas não é.

—Quero ajudá-lo -Bert encarou-me orgulhoso, sabia que eu não iria aceitar a miséria em que nosso povo vive. -Mas antes tenho uma pergunta... -ele assentiu, dizendo mudamente para continuar -Minha família... é apenas uma ilusão?

—Infelizmente sim -desviei meu olhar encarando o teto. Minhas lágrimas foram descendo pela minha face sem permissão. Senti Robert apertar meu ombro em consolo.

—Você supera -sorriu tristemente.

...

—O plano é o seguinte, hoje às 5h iremos invadir a Mansão Negra, passaremos pelos guardas que ficam na frente do jardim de entrada até chegarmos ao corredor principal onde fica o dormitório de Shadow. Frank e Henry irão assassiná-lo enquanto Robert e eu mataremos quem tentar impedi-los, entendido? -Miles perguntou a nós. Todos concordaram

...
Um mês havia passado desde que descobri a verdade e quem eu realmente era. Eu encontrava com meus colegas todos os dias em um esconderijo para discutirmos nossos planos, estudar as variáveis e decorar os mapas da Mansão Negra.

Hoje seria o dia em que livraríamos nosso povo da escravidão.

Reunimos nossos armamentos. Vesti uma calça preta justa ao corpo, junto a minha coxa esquerda se encontrava uma pistola de energia vermelha, que paralisava quem o tiro acertasse, acoplada a cada bota que calçava descansava uma pequena faca bem afiada, na cintura, pequenos explosivos, que usaria apenas em casos extremos. Vesti um casaco negro que beirava minhas canelas e juntei-me a Bert e os outros que já me esperavam. Em minha mão direita jazia a espada purificadora, dizia meus companheiros que aquela era minha velha amiga e juntos fazíamos maravilhas.

Pelas sombras avançamos até a tal mansão. Escondidos atrás de um arbusto, Henry e eu aguardávamos o sinal dos outros para avançarmos.

Pude ver Bert imobilizar um guarda e amarrá-lo junta a uma árvore, enquanto Miles tinha uma calorosa luta corporal com o segundo, facilmente mais um coitado foi fazer companhia para a tal árvore.

Avistei o tão aguardado sinal e corremos pelo gramado, segurei fortemente minha espada, adentrando a mansão. Como o esperado três guardas estavam no corredor principal. Robert e Miles conseguiram ocupá-los enquanto eu e minha dupla nos dirigíamos aos aposentos reais.

—Não acha estranho não haver guardas em frente à porta? –sussurrou meu colega, assim que chegamos.

—Ele nos subestima, acha que controla tudo –dei uma pausa respirando fundo, aquele era o momento –No três!... um... dois... TRÊS! –chutei com toda a força que possuía a porta, ela cedeu, o estrondo foi alto o suficiente para acordar o traidor que estava dormindo. O quarto estava escuro, sendo apenas iluminado pela Lua. Pude ver quando Shadow levantou-se rapidamente da cama e apanhou sua espada da noite.

—Isso é covardia, não acha? –disse sarcasticamente para nós, assim como eu, Henry também estava em posição de luta, esperando qualquer ataque.

—Covardia é o que você fez com os inocentes, atrás da porta dessa mansão! –gritei. Um sorriso maléfico surgiu em seus lábios.

Em um piscar de olhos, Shadow atingiu de raspão meu braço esquerdo –Maldito! –avancei tentando acertá-lo com um golpe de fúria, mas como o previsto, ele possuía ótimas habilidades de defesa e desviou das três vezes que investi sobre ele, o desgraçado era veloz.

No segundo seguinte, senti respingo de algum líquido batendo contra o meu rosto, no chão estava Henry se agonizando de dor, sua roupa estava encharcada de seu próprio sangue. A fúria de vê-lo naquele estado, fez com que a adrenalina tomasse conta de mim, acertei com minha espada o braço de meu oponente, o pressionei contra a parede segurando-o pela espada, em um movimento rápido saquei a arma que estava em minha coxa e disparei contra o seu peito, paralisando-o. Deixei escorregar de minhas mãos um corpo quase inerte e fui socorrer Henry. Retirei do bolso de meu casaco um líquido que curava os ferimentos internos e aliviava a dor. Cuidaria dele depois, tinha um assunto a ser finalizado.

Levantei minha espada –tirando-a de seu braço- e em um único golpe acertei seu coração. Finalmente eu o matei.

...

Segurando algumas rosas brancas, caminhava lentamente entre os leitos eternos de conhecidos e oponentes, até chegar onde estava a foto de Robert, colada naquela lápide de mármore escuro.

A observei e curvei meus lábios em um sorriso desengonçado. As lágrimas de tristeza desciam uma trás da outra pelo meu rosto.

—Sabe Bert... –funguei, tentando melhorar minha voz, já falhada pelo choro contido. Acariciei sua foto –Você é meu melhor amigo e eu só queria te agradecer... –não aguentei continuar e despenquei em um pranto profundo, ele fazia falta. “Eu tenho que continuar” falei pra mim mesmo –E-Eu te agradeço –funguei novamente –Por me mostrar que a liberdade vale a pena. Você tinha que ver aquelas crianças quando devolvemos suas memórias, elas nos agradeciam sorridentes, as mães diziam-nos palavras bonitas de agradecimento e nos abençoavam. Você tinha que ver os sorrisos. Vi com meus próprios olhos o que um governo repleto de escuridão e ganância fez, mães perderam seus filhos, filhos perderam seus pais... eu te perdi, mas sabe de uma coisa? Você não foi em vão.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!