A Lua e o Silêncio

1 Dualidade de Sentimentos


A luz da lua, junto com o silêncio da noite, quando todos os outros estavam dormindo e apenas eu acordada. Esse cenário me era precioso. O jardim do Castelo de Serdin era imenso, cultivado pelo enorme apreço da Rainha por coisas bonitas e delicadas.

Estar ali me lembrava da minha infância, quando eu não precisava assumir um papel que não era meu por causa da saúde frágil de Adel. O ambiente agradável me lembrava das vezes em que eu e meu irmão escapulíamos pela noite para brincar entre as hortênsias de mamãe, lembrava dos serviçais, que nunca realmente nos censuraram por saber que a mente traquina de uma criança só quer fazer algo escondido dos pais – embora eu e Adel estivéssemos bem cientes de que nossos pais ficariam sabendo daquelas nossas aventuras.

A lua me trazia sensações divergentes. Ao mesmo tempo que me recordava das noites em que nosso pai saía da pose de general e brincava de nos jogar às alturas, enquanto nossa mãe e os empregados mais antigos e mais próximos da família riam e se divertiam, também me lembrava a fatigante noite em que a mansão foi invadida.

Todos aqueles seres circulando pela minha casa... todos os meus empregados, os meus amigos, os meus soldados, todos sob o controle daquela aranha demoníaca... Essa lembrança que me traz arrepios ainda hoje. Eu vejo meu irmão indo embora, eu lembro do rosto, da expressão dele, que demorei por muito para perceber que não era realmente ele ali. Era uma noite de lua minguante, disso eu nunca me esqueci.

E o silêncio, que também me trazia conflitos internos. Desde muito nova eu aprendi a apreciar o silêncio, porque ele era sinônimo de paz. Eu gostava de, enquanto Adel estava ocupado com nosso pai, passear pela ilha, aproveitar o silêncio, que por diversas vezes era quebrado apenas pelo vento contra as árvores, pelos pássaros cantando ou por algum criado correndo atrás de mim. Essa simples lembrança, que muitas vezes se misturava também com o cheiro das plantas e a textura da terra contra meus pés, me fazia sorrir com muita facilidade.

Mas o silêncio também me remetia a sufoco, à solidão. Porque enquanto eu custava a entender o que aquela maldita aranha tinha feito com a minha casa e a minha família, tudo o que me restava era o silêncio e a sensação de impotência. E aquilo me sufocava. Eu não tinha meus criados comigo, eu não tinha meu irmão comigo, tudo o que eu tinha era um título que eu nem ao menos queria ter herdado e as expectativas da Rainha.

Hoje, eu olhava as flores que eu ainda tenho tanto apreço e me perguntava como foi que eu deixei que um momento que deveria me trazer paz me deixasse oscilando entre a calmaria e a tempestade.

—Edel? – A voz sonolenta de Lin me acorda, e eu travo antes de me virar para ela enquanto eu vejo o céu começar a clarear e a lua sumir da minha vista. Outra visão familiar. – Você não dormiu de novo?

Ponderei sobre responder. Eu poderia dizer que havia acabado de acordar, eu estava constantemente com olheiras de estresse, não era difícil disfarçar. Mas era Lin ali. Ela tinha alguma coisa de ler a aura das pessoas, e por isso ninguém da caçada nunca conseguiu mentir para ela.

Virei em sua direção com um sorriso amarelo, o que me rendeu um olhar de censura. Lin sempre sabia quando alguém não estava em seu normal, e isso geralmente nos custava horas ouvindo seus sermões ou consolos.

Pensei que ela começaria a falar como era ruim para minha saúde física e mental que eu não dormisse e todas aquelas coisas que eu sempre escutei desde sempre, mas ela apenas sorriu e se sentou ao meu lado, começando a murmurar uma canção de ninar que me deixou com sono em pouco tempo. Deitei a cabeça em seu colo e deixei que a canção me embalasse.

Era isso que Lin queria, era disso que eu precisava, de qualquer jeito.

Uma noite de sono sem fantasmas da Frostland me assombrando.

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