A Lua de Sangue

1 Minha gata aprende a falar


Se você está lendo esse livro, aconselho a fechá-lo. Aqui estou registrando minha experiência de vida, minhas decepções, meu aprendizado, e tudo aquilo o que você provavelmente não gostaria de saber. Se você acredita em magia e sente que a mesma circula em suas entranhas, sugiro novamente que não apenas feche, mas queime este. Caso você seja alguém que lê apenas por diversão, arisque-se, espero que não se decepcione ao descobrir algo que não gostaria.

Manhã de 26 de agosto. Faltavam apenas três dias para completar meus quinze anos e eu jurava que não conseguia ficar empolgado. Poderia dizer que minha família faria uma festa, me acordaria com beijos, abraços, sustos talvez e até amigos meus em casa, porém não era essa a minha realidade. Pais extremamente religiosos me cercavam, e até peidar no banheiro poderia ser um crime se estivesse escrito em algum livro a ser seguido. Eu não teria festa, eu apenas ficaria mais velho e observaria mensagens em meu facebook, essa era a minha realidade.

Naquele dia em especial minha cama estava mais confortável e meu corpo relativamente mais pesado. Ou eu adoeceria ou levantaria com a fome de um bicho. Dito e feito, foram os dois. Levantei-me da cama e fiz exercícios de alongamento matinais. Nunca me entendi por fazer algo do tipo mesmo sendo relativamente sedentário, mas eu gostava, sentia meu corpo mais leve depois que aquela cama baú desconfortável me prendia todas as noites em um sono mais pesado que gordo de barriga cheia. Desci as escadas e me direcionei até a copa onde eu estava sozinho em casa. Aurora, minha gata permanecia deitada sobre uma das cadeiras como se me esperasse para arfá-la enquanto tomava café. Naquela manhã em especial eu estava sem paciência até para isso, e sinceramente não entendia o porquê. Primeiro, estava doente, depois estava relativamente relaxado mesmo que doente, e por ultimo, mesmo que doente e relaxado estava sentindo vontade de comer um bode sozinho.

Abri a geladeira, peguei leite, biscoitos e um pequeno cupcake com um bilhete: Mamãe te ama, come direito e vê se lava a louça, estrupício.

A princípio, poderia achar que era de minha mãe, mas aquele bilhete tinha a escrita torta de Dakota. Dakora, ou Dake, como costumava chamar era uma das poucas pessoas que me cercavam, frequentavam minha casa e ignoravam totalmente quando meus pais eram ignorantes, o que fazia com que eles gostassem dela, não me pergunte por que. Ri do bilhete e o joguei fora, logo peguei o bolinho, coloquei na mesa, me servi de café e coloquei tudo pra dentro. Não sei porque estava sorridente, e especialmente naquele dia eu não sabia o porque de nada. Eu estava estranho e não conseguia explicar. Você deve estar imaginando minha cara de bobão com cabelos desgrenhados e cara de quem acabou de acordar. Muito bem, era exatamente isso, e um detalhe pequeno: Eu havia esquecido completamente da aula. O ônibus da escola buzinou e a minha única reação foi pular, pegar a mochila e enfiar a escova de dentes dentro dela, além de pegar mais comida. Não foi uma única reação, admito, mas a gente pode fingir que foi.

Ao subir naquele carro amarelo fedorento, olhei algumas pessoas dentro do mesmo. Algumas me olhavam torto, outras acenavam e eu correspondia e o motorista apenas arrancava enquanto eu nem acomodado estava. Sentei em um banco com espaço para dois e lá fiquei. O dia estava bonito, o sol brilhava, poucas nuvens, alguns animais andavam nas ruas e eu podia jurar que vi um gato muito parecido com Aurora sentado em uma árvore me observando. Deve ter sido apenas a minha imaginação. O ônibus parou na frente da casa de Dakota e, como esperado, a rainha da beleza subiu no ônibus. Ela não era exatamente bonita, era bem mais baixinha que eu e seus olhos grandes e cinzas arregalados sugeriam que algo estava errado.

– O que foi, garota? – Perguntei, mas sinceramente achei que iria me arrepender pelo resto de minha vida.

– Olha só, você está todo cagado, saiu tarde de casa, tá parecendo um mendigo e aposto que esqueceu nosso trabalho de física.

Pronto, meu mundo caiu. Fechei a cara e continuamos viagem sem falar absolutamente nada, na verdade, ela tinha razão, eu havia sido irresponsável, ela estava estressada e eu não podia julgá-la, até porque o erro fora meu. Eu detesto errar. Eu não erro. Eu estou com fome. Passei os dedos dentre os cabelos e observei a escola ao longo da via. Estávamos quase chegando quando uma das janelas do prédio de dois andares explodiu em chamas.

– Produção, alô, alguém diz que é brincadeira. – Brinquei por um único instante onde vi que a coisa era realmente séria. O fogo se alastrava pelas salas e o ônibus ficava parado. O corpo docente corria para fora da escola e aparentemente ninguém havia se ferido, mas aquelas chamas continuavam a se espalhar pelo prédio. Observei Dakota ficar com os lábios entre abertos de surpresa enquanto muitos alunos gritavam eufóricos. Você poderia imaginar gritos desde “MEU MATERIAL ESTA NO ARMÁRIO” até “FÉRIAS ANTECIPADAS GALERA!”, bem, era essa a realidade daquelas crianças que só iam para dar trabalho para a maioria dos professores. Observei bem a janela que havia explodido e vi um vulto aparentemente de um homem.

– Dakota, você viu?

– Vi o que, animal?

– Um vulto, sei lá. Acho que tem alguém lá dentro.

Naquele instante, as janelas explodiram com o calor e a pressão do ar dentro das salas e um vulto saiu voando do lugar.

– E agora, você viu? – Perguntei.

– Era um homem? Não pode ser. – Ela respondeu abismada, mas pior que a gente certamente eram os outros alunos dizendo que um corvo estranho saíra da escola. Seja lá o que eles haviam visto, eu não entendia. O motorista deu meia volta e decidiu deixar-nos em casa, até que então o ônibus quebrou, ou foi o que eu pensei. O tempo parecia ter ficado mais devagar e eu escutava o “tic tac” do relógio de pulso dos outros ficar mais lentos. Tudo ao meu redor ia ficando preto e branco, exceto eu e Dakota que por sua vez demorava um pouco mais para perder os sentidos e se congelar como acontecia com os outros. A porta do ônibus abriu e um homem de cabelos brancos e longos subiu olhando para mim.

– Muito bem, olha o que temos aqui – Balbuciou o mancebo – Parece que é um herdeiro também. Você virá comigo, é o sacrifício perfeito para despertar minha mestre. O homem sacou uma lâmina e caminhou em minha direção. Dakota por sua vez me olhou e a cor cinzenta sumiu de seu corpo, e foi ai que tudo começou. O homem fitou a garota e disse logo em seguida:

– Ora ora, não apenas um, mas dois... É hoje que eu me divirto.

Quando ele foi para cima, minha reação principal foi abraçar Dakota e me preparar para um chute, mas no instante que o homem ia me tocar, um pequeno felino apareceu girando com uma lâmina em seus lábios quebrando um dos vidros do ônibus e se colocando entre nós. Observei o gato por alguns instantes e pude notar que estava babando ao observa-lo.

– Aurora?

– Já saiu daqui? – Respondeu a gata.

Bem, eu não iria questionar minha gata mesmo se soubesse que durante todos esses anos aquela corna nunca falara comigo, mesmo quando eu mais precisava. Levantei-me e pulei junto de Dakota a janela do ônibus pelo vidro estilhaçado. Cai em pé e Dake sobre mim, derrubando-me no chão. Quando pensei em correr, dois homens apareceram na rua e eu tinha certeza que Aurora não iria dar conta daquilo.

– E agora? – Perguntou Dakora.

– Já sei! – Respirei fundo – Aurora, eu ordeno que nos proteja, como seu dono, seu amo, ou você vai ficar sem ração.

Ora, se a gata podia falar, ela com toda a certeza poderia fazer mais que aquilo. De dentro do ônibus, um balançar bruto surgiu e o homem fora arremessado para fora da janela. Pulou então um felino similar a um guepardo, entretanto usava armadura de prata e possuía uma lâmina em sua boca, no qual era segurada com uma mordida. Os outros dois homens recuaram e a espada da gata, ou guepardo tamanho família se desmaterializaram.

– A gente precisa ir. – Disse Aurora com a voz áspera como a de uma mulher com dor de garganta. – Subam.

A gata se esticou e tive a impressão que a mesma ficara ainda maior, quase como um felino no tamanho de um cavalo. Ela iniciou corrida e nos levou até um bosque, onde adentramos o mesmo e logo nos vimos em mata fechada. Esse era o começo de tudo, e eu estava tão louco tentando entender a ordem que aquilo estava acontecendo, ou como tudo fora tão rápido que nem notava que Dakota havia desmaiado me abraçando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.