Texas, 1983. Me lembro como se fosse ontem. Lá estava eu, no trailer onde morava. Minha filha, Alma Jr., tinha acabado de ir embora, com o marido dela, que não me recordo o nome, agora. Já faziam, mais ou menos, 10 meses, desde que eu havia recebido a notícia do falecimento de Jack. Bom, admito que não tinha me acostumado com o fato, ainda.

Alguns meses se passaram, e a Alminha não viera me visitar, mais. A vida dela estava corrida, trabalho e filhos para cuidar. O lado positivo da história, é que minha filha tinha uma boa vida, ao contrário de mim. Minha vida continuava medíocre, como sempre foi. Eu continuava trabalhando no rancho, cuidando dos cavalos, das vacas, e de todos os animais que lá haviam. Sempre com aquele chapéu manjado, de cowboy metido à merda. Tudo estava na mesma, mas, sabe quando você tem aquela sensação de que tudo vai mudar?

22 de Janeiro, de 1984, eu estava voltando do rancho, na minha velha caminhonete, azul e velha. Eu pretendia passar o fim de semana na montanha Brokeback, já que eu não ia lá há um bom tempo. Cheguei em casa e fui direto arrumar uma pequena bagagem, para que eu ficasse na montanha. Parei, por um momento, fitando as camisas penduradas na porta do meu armário, junto com a foto de Brokeback, já um pouco manchada, pelo tempo. A mancha de sangue ainda existia na manga de ambas as camisas. Como de costume, pousei minha mão no local aonde seria o coração, de quem a vestisse e foquei-me na bela imagem das montanhas cobertas de gelo, que pendia sob um pequeno pedaço de fita adesiva. Voltei a me concentrar na bagagem da curta viagem, então arranquei algumas poucas peças de roupa do armário, colocando-as dentro de uma pequena mochila de couro.

Depois que arrumei tudo, arremessei a mochila na cadeira e me sentei, na beirada da cama, fitando a pequena janela que havia ao lado do armário. Eu tinha bobas esperanças de reencontrar Jack, algum dia na minha vida. Ou, até mesmo, quando eu morresse, o que seria bem mais provável. Meus olhos embargaram, um pouco, e isso foi um fato que andara acontecendo nos últimos nove meses de minha vida. Cheguei um pouco para trás, encostando-me na parede, com um certo cuidado, para não bater minha cabeça na prateleira. Flexionei o joelho, apoiando meu braço ali, passando a fitar o armário fechado, como se eu conseguisse enxergar as camisas, através da porta de madeira clara.

Não queria dormir muito tarde, então me levantei, saindo do transe que minhas memórias provocaram, e segui ao pequeno banheiro que havia no trailer, que nem era tão grande, também. Me banhei, rapidamente, espantando todo aquele cheiro de rancho, do meu corpo. Voltei ao armário e retirei, dali, um moletom, folgado, num tom cinza, e uma blusa branca, sem mangas. Vesti, ambas as peças, e segui até o espaço que parecia ser uma cozinha. Abri o pequeno armário que pendia na parede, sob uma janela fina e longa, que dava um pouco mais de claridade no local, e retirei um pacote de bolachas, que eu havia comprado há algum tempo. Sentei-me no banquinho, que havia diante de uma tábua branca, em forma quadrada, sustentada por pés de ferro, um pouco enferrujados. Coloquei um pouco de café na caneca que havia ali, e comi, lentamente, pensando no dia de amanhã. Joguei a caneca na pia, e o pacote de bolachas de volta no armário. Escovei os dentes, no pequeno banheiro, e segui à cama, deitando-me ali, e me afundando, novamente, em minhas memórias.

Eram 5:30AM, quando abri os olhos, e me deparei com o teto de metal branco do trailer. Me sentei, como de costume, na beirada da cama, e passei as mãos sobre meu rosto, como se aquilo me livrasse do sono. Não queria demorar muito, então me levantei, e fui ao banheiro, lavar o rosto. Arrumei-me, sem muita demora, colocando minhas botas, minha calça e o meu sinto, que eu usava de costume. Vesti uma blusa de mangas compridas, quadriculada, verde e branca e, por cima dela, minha jaqueta bege, manjada e velha. Peguei meu chapéu, o de sempre, colocando-o sobre minha cabeça. Arranquei a mochila da cadeira e abri a porta do armário, dando uma breve olhada nas camisas. Sai do trailer, trancando-o, muito bem, entrei em minha caminhonete, arremessando a mochila sobre o banco do carona e segui, até o rancho, afim de conseguir algum cavalo emprestado, e uma barraca, para eu dormir. Não foi muito difícil. Saí do rancho com a barraca de acampar, e um cavalo de bom porte, marrom e branco, trancado na jaula, em cima da caçamba da "azuladinha".

Foram, aproximadamente, umas 6 horas de viagem. Claro, que parei para comer alguma coisa, num simples restaurante de estrada. Cheguei em Brokeback, na faixa de, 12:30PM. Armei a barraca, deixando minha mochila dentro da mesma, e amarrei o cavalo num tronco de árvore, já celado. Sentei-me numa pedra alta que havia ao lado do tronco, segurando uma garrafa de Whisky e, como nos últimos 30 anos de minha vida, com um cigarro, aceso, entre os dedos. Eu dava algumas baforadas e goles, enquanto permanecia de olhos fechados.

Jack celava a égua preta, enquanto eu permanecia sentado nos pequenos "bancos" que havíamos feitos, com troncos de árvores, em volta da fogueira, observando-o em silêncio. Ele lutava para amarrar o animal, que relinchava bastante, e saltitava, impedindo-o de agir sobre ela. Soltei alguns muxoxos, e sorrisos baixos, achando graça na situação dele.

— Está assim porque não é você quem está aqui, Ennis! - Ele gritou, me olhando. Percebia-se, claramente, que ele queria rir, assim como eu, da situação. Mas ignorei tal comentário, e dei um longo gole no Whisky que havia ao meu lado. Percebi, então, que ele, finalmente, conseguira celar a égua, então me levantei, e segui, em lentos passos, até ele. Parei diante dele, agora bem mais alto, montado na égua, com as mãos enfiadas no bolso do casaco.

- Lhe vejo no jantar. - As palavras dele saíram baixas. Um pequeno sorriso estava estampado no rosto dele, e seus olhos permaneciam estáveis, em meu rosto. Sorri, afirmando, e o vi partir, em direção ao topo da montanha, onde estavam as ovelhas que estávamos pastorando.

Reabri os olhos, e me desencostei do tronco. Olhei para o lado, observando o cavalo. Ergui, um pouco mais, o olhar, percebendo que, atrás do animal, estava o caminho que Jack seguira, em minhas memórias. Joguei o talo do cigarro fora, e tampei a garrafa de Whisky, levantando-me da pedra, e indo em direção à barraca, para montar a fogueira. Eu me sentia inconformado com aquilo tudo. Montei a fogueira, sem muita dificuldade, e me pus de pé, olhando o topo da montanha, de longe. Então, minha voz saiu num pequeno sussurro.

- Foram memórias... apenas memórias.

Continua...

Notas finais
Eu chorei escrevendo isso, vish.