A Loucura dos Liddell

5 Capítulo 4. "Found"


Notas iniciais
Não tem desculpas válidas que me cabem pra ficar esses dois anos sem postar nada. Admito que vim e fui diversas vezes desse site, pensando se desistia do projeto ou se o tocava pra frente, vieram algumas pessoas conversar comigo e então, claramente, decidi pela segunda opção. Acontece é que hoje meu tempo é bem diferente do que antes, então as atualizações serão mais demoradas, mas planejo postar ao menos uma vez por mês. Fiquem atentos ao meu perfil onde falo mais sobre isso. Além disso, fiz algumas correções dos capítulos anteriores, nada que altere demasiado na história, mas sintam-se a vontade para relê-los. Obrigada pelo incentivo, paciência e atenção.

Uma lembrança tênue, como fumaça, lhe cercou a mente enquanto morria. A imagem do professor Carroll com um livro de histórias aberto no colo, sentado à beira de sua cama numa das noites tempestuosas de inverno, ele exibia um sorriso mais acolhedor que tudo.

Caronte ele disse O barqueiro de Hades, o guia das almas pelas água do rio Estige e Aqueronte...

Lacie observava o vazio e apenas isso, se havia algum barqueiro a esperando ali, ela não sabia ou não poderia vê-lo. Ainda assim ela se sentia líquida como os rios do Submundo; fria, leve, transparente, culpada.

Deixou então seu corpo ser guiado pelas águas do Estige e Aqueronte, lavando-se de seus pecados, navegou pelo túnel escuro até ele se tornar claro.

Na primeira vez, pensou que era ilusão, uma brincadeira de mal gosto do destino. Viu uma luz desfocada surgir em sua visão e uma voz calma e solene a confortar.

Vai ficar tudo bem a pessoa dizia.

Ela não se sentia viva, e não poderia realmente estar. Não tinha sucumbido ao veneno de um demônio dos piores pesadelos? Lacie sentiu um odor metálico ao seu redor, e tão logo processou isso em sua mente, a pessoa lhe abriu levemente os lábios e deixou escorrer um líquido morno, espesso e doce.

Vai ficar tudo bem lhe garantiu.

E por um momento ela acreditou.

Sua mente tornou-se confusa com o passar do tempo, sentia tontura mesmo em repouso e dores que caminhavam pelo corpo. Arrepios desconfortáveis vinham e iam, pois sentia como se aranhas a embrulhassem numa mortalha que nunca poderia escapar e isso tornava seu estômago e sonhos sensíveis.

Acima de tudo, havia culpa que ela engolia todas as manhãs, que digeria durante a tarde para vomitar no final da noite, e o ciclo se repetia. Seu único conforto era a imagem angelical, que chegava junto de um perfume reconfortante e cuidados que remendavam sua alma.

Diziam que somente o tempo poderia reparar as cicatrizes mais profundas, Lacie parou de acreditar nisso ainda quando criança, afinal seus pesadelos nunca se tornaram mais agradáveis conforme passava as noites. Eles somente cessaram em seu terceiro nas manufaturas, quando nem mesmo seus pensamentos seguiam os movimentos de seu corpo.

Ela se sentia quase assim, como nos primeiros dias de trabalho, corpo e alma cansadas, tão exaustos que mal formavam pensamentos, por mais que seus olhos abrissem e imagens dançassem á sua frente.

Lacie soltou um suspiro que há muito guardava.

— Sente dor? -questionou o anjo.

— Sim -ela admitiu.

— Onde?

— Em tudo.

E voltou a dormir.

*

Lacie acordou tão breve seu pesadelo se desfez, seu corpo suava frio e mal cheiroso, ela detectou isso com muita rapidez. Sua visão se ajustou breve, ainda tinha adrenalina no sangue e perguntas também.

— Que merda... -xingou baixinho.

Ela nem percebeu, mas torcia os dedos em punho contra a testa, tentando se lembrar da urgência que a perseguiu no sono, o que a fizera acordar tão subitamente. Resmungou e bufou, mas suas memórias não estavam certas naquele dia, decidiu que poderia se concentrar uma outra hora.

Por agora, ela estava com fome e necessitada de um banho. Lacie virou o punho para encaixar melhor em sua vista, abriu os dedos devagar, sentindo alguns estalarem em liberdade, vendo manchas secas entre os nós quase curados, enfaixados sob alguns remendos. De repente pensou:

Onde estou?

Ainda com o corpo dolorido, apoiou-se para sentar na cama. Encontrava-se em um quarto um tanto claustrofóbico, suas paredes eram curvas nos cantos e sua textura parecia terra batida, havia até mesmo riscos que lembravam raízes percorrendo por sua extensão, o pior de tudo é que não havia janelas, pelo menos visíveis, a única entrada de ar vinha de uma claraboia diante da cama. Lacie estava prestes a ter um ataque de pânico, quando sentiu uma corrente amena de vento entrar e circular pelo quarto, a tranquilidade fora quase automática.

"Quase", pois ainda não sabia onde estava, e isso não a deixava exatamente calma.

Ela aguardou por uns minutos, com uma esperança contida que a imagem angelical não fosse uma ilusão de seus delírios, mas sua ansiedade a devorou mais rápido, então ela chutou os cobertores encharcados e sujos, lutou contra suas pernas que reclamaram ao serem postas no chão e decidiu que iria sair dali.

Lacie tomou uns segundos para se avaliar, estava fedendo e suada, tinha os cabelos grudados ao redor do rosto oleoso e podia sentir que seus dentes eram como veludo, ela não ousou falar novamente com medo do cheiro que sairia dali. Quanto às dores, sua perna esquerda parecia ter se recuperado melhor que a direita, seus braços ainda estavam meio molengas, mas nada que uns exercícios não pudessem acordá-los. Ainda mantinha as roupas dos dias anteriores, em frangalhos contudo, não serviam para mais nada, mas era o nada que Lacie tinha.

Com um frio na barriga, lembrou da lâmina espelhada que a ajudou sobreviver ao ataque de sua inimiga, revirou os lençóis e a mesa mais perto de si, mas não a encontrou. Se permitiu um certo sentimento de luto, não queria abandonar sua única arma em meio a um pesadelo tão envolvente que estava vivendo, se é que todas aquelas aberrações eram mesmo de sua mente.

Bom, não adianta desistir agora pensou reconfortada.

Antes de ir, ela mirou a claraboia acima, parecia estar em algum lugar no subsolo, talvez fosse aquele um quarto do porão? Seus nervos tremeram um pouco ao se recordar de onde realmente poderia estar, mas novamente abandonou esta ideia.

Preciso voltar um pensamento mais urgente a veio.

Fosse pela sua nova vontade de viver e lutar que ganhou ao combater a morte, ou por vingança às crueldades do mundo real sob forma humana, ou pelas suas dívidas emotivas de vida para com o professor, ela tinha que voltar de alguma forma para a Inglaterra e Lacie iria persistir nisso o quanto pudesse.

Ela apertou a maçaneta da porta, a abriu e saiu do quarto.

*

Se ela soubesse que mais mitos greco-romanos a assombrariam, Lacie teria se preparado melhor. Ela sabia que estava em uma casa, provavelmente algo que poderia ser chamado de casa, havia todos os tipos de móveis e cômodos que uma casa poderia ter, mas como no quarto, nada de janelas, apenas correntes de vento que se arrastavam por todos os cantos, e mesmo que pudesse respirar normalmente, aquilo lhe apertava os pulmões.

Um porão refinado ainda é um porão pensava consigo não importa quão bonito seja.

Ela estava com raiva, pois só havia caminhado por alguns minutos e já sabia que estava perdida, se ao menos tivesse pensado como Ariadne para Teseu, Lacie poderia verificar se não estava caminhando em círculos, esperava que, ao menos, não houvesse um Minotauro para enfrentar na saída daquele labirinto.

Ao menos ela podia desfrutar de algumas coisas, o lugar possuía muitos quadros, os quais alguns ela usava de marcação após admirá-los, a maioria exibia paisagens de florestas encantadas, cheias de fadas e coelhos. Embora uma sensação ruim pairasse sobre os pensamentos de Lacie, um sentimento de que em algum lugar reconhecia aqueles adoráveis bosques, sua determinação para se desenrolar daquele lugar era mais forte.

Ela tinha certeza que encontrou a saída após horas e não minutos, mas como faltava-lhe um relógio, preferiu manter-se quieta. Encontrou uma porta redonda, poucos centímetros mais alta que si, com a maçaneta bem no centro, Lacie a girou com zelo por mais que não tenha sido nada cuidadosa ao abri-la devido ao peso que a madeira demonstrou.

Quando enfim conseguira empurrá-la, pode então finalmente respirar o ar livre.

Era uma manhã bonita de verão, pinheiros-silvestres, amoreiras e teixos circundavam onde estava, junto de pequenos arbustos com morangos e groselhas negras. Os olhos de Lacie encheram de água e seu estômago acordou para a fome, seus músculos protestaram quando levantou-se rapidamente, mas ela tinha que pôr as mãos naqueles frutos o quanto antes.

Ela os devorou com vontade, uma fome de poucas oportunidades, sujando-se como um animal, mas não importava, Lacie não estava limpa antes afinal. Quando seu estômago parou de doer e seus sentidos se reajustaram, ela soube que era hora de respirar, então inspirou longa e profundamente, deixando seu organismo absorver a informação.

Olhou em volta mais uma vez, não havia sinal de casa alguma, mirou para a porta que acabara de sair e quase não a percebeu se não fosse pela maçaneta reluzente. Era uma porta que abria-se para o chão, uma casa subterrânea, como a toca de uma marmota ou toupeira.

Ou coelho se lembrou.

Quer seja o animal, ela fechou a porta, não tinha intenções de voltar tão cedo, esperava contudo que seus hóspedes fossem compreensíveis. Ela empurrou algumas folhas e terra sobre a porta, que já tinha uma pintura camuflada no seu lado externo, espreguiçou-se esticando as costas bem, ouvindo os ossos estalarem, então voltou a atenção para o ambiente.

Não precisou se concentrar muito para ouvir a água corrente.

Um bom e merecido banho pensava e por favor, sem encrencas, sim?

Lacie não sabia para quem implorava, mas gostaria que fosse ouvida e entendida, seus músculos clamavam por uns dias a mais de descanso, assim como sua mente desejava entender o que realmente acontecia. Enquanto caminhava em direção ao som, rezava baixinho para todos os deuses que as histórias já haviam lhe apresentado.

Sem Minotauro, lembra-se? E nada de Medusas também.

*

Suas preces pareciam ter sido atendidas, pois não precisou caminhar muito para encontrar uma clareira onde se desmanchava uma cachoeira peculiar. Para começar, não havia rio ou encosta por onde a água caía, apenas uma estátua da face de uma criança, de cabelos encaracolados e com as mãos no rosto em uma feição triste, a água transbordava de onde ficava os olhos, dando a impressão que a cachoeira fosse sua torrente de lágrimas.

Lacie sentiu um leve arrepio, mas nenhum temor lhe veio à mente, o lugar em si não demonstrava nenhum perigo como na toca da "senhora aranha", presumiu que fosse a ansiedade ou o frio. O pequeno lago que se formava da cachoeira tinha águas agitadas e se dividia em dois pequenos córregos que se repartiam para direções diferentes.

Ela tirou a roupa tímida, mesmo sabendo que estava sozinha. Arrancou a camisa com tamanha dificuldade que rasgou a costura das costas, permitiu-se uma certa tristeza, era a sua peça favorita, uma das primeiras que comprou com o próprio dinheiro depois que começou a trabalhar, usava-a justamente para suas visitas ao professor e por isso tinha adquirido algo muito sentimental por ela. Supôs que pudesse consertar mais tarde, após lavar é claro.

Lacie preferiu manter a roupa íntima, uma segurança ainda estava um pouco abalada, e então entrou no lago sem qualquer outra hesitação.

Poucas foram as vezes em que ela tivera a oportunidade de se banhar apropriadamente, principalmente quando se mudou, apesar de sua leve fobia para com grandes porções de água (e consequentemente, por se afogar), ela nunca se sentiu tão... leve.

Lacie mergulhou na pequena lagoa, deixando as águas lavarem sua alma e dissolverem seus pecados e arrependimentos. Limpou tudo que há de ruim em sua pessoa, esfregando os roxos doloridos e os machucados que cicatrizavam devagar, deixou seus cabelos ficarem pesados com a água e se permitiu o deleite de brincar com os fios que boiavam rebeldes sobre as ondas inquietas.

Ela relaxou sob a cascata e descansou ás margens da lagoa, encarando a estátua da menina chorona. Aqueles traços lhe remetiam a um outro alguém. Com uma dor que atravessou o peito, Lacie se desencostou séria ao se lembrar com quem aquela estatueta se parecia.

Porém, não houve tempo para gritar "eureka!" nem nada, ela ouviu algo se rastejar por trás de si, algo que vinha veloz, seu coração acelerou como numa arritmia cardíaca, ela estava praticamente nua e desarmada, se fosse um inimigo ela não teria qualquer tipo de chances em uma luta. Onde estava sua lâmina mágica quando precisava?

Lacie se abaixou dentro da água, deixando somente os olhos para fora, conseguiu desprender uma pedra dos fundos do lago, agarrou a esta como se sua vida dependesse disso, e talvez fosse o caso.

Ela aguardou o inimigo vir, por vezes jurava que poderia ser algo pequeno e leve, feito um pássaro ou pequeno mamífero, outrora escutava passos que não poderiam ser outra coisa que não humano, galhos e folhas sendo pisoteados por algo pesado e, provavelmente, maior do que ela.

Nervosamente ela aguardou, refez suas orações e guardou junto ao peito as melhores lembranças que pode resgatar no momento. Respirou e inspirou, uma, duas, três...

Do arbusto a sua esquerda, pulou deste um coelho branco muito bonito, era um tanto maior do que a maioria dos coelhos que já tinha visto, quase do tamanho de um cão Beagle. Além disso, seus olhos eram de um azul-esverdeado intenso, que brilhavam com tamanha vivacidade que Lacie se sentiu atraída.

Ela começou a voltar inteiramente á superfície, mas bastou levantar o pescoço para o animal fugir, de maneira atrapalhada, quase como que envergonhado.

Seus nervos contudo relaxaram, apenas um coelho! Que ironia tola. Se propôs a relaxar, porém não conseguia por completo, os olhos do coelho ainda contaminavam seus pensamentos e um certo indício do que fora seus pesadelos dos últimos dias.

Ela riu fraca. Um coelho...

Quando criança, o professor Carroll costumava lhe aplicar uma rotina, ele dizia que ter horários para suas tarefas geralmente tornava a pessoa responsável, pois ela sempre tentaria cumprir os prazos estabelecidos. Lacie não foi diferente, por mais que sua rotina fosse igualmente flexível, mas para uma criança já era de bom tamanho. Para sua surpresa, após uns anos de reflexão, ela percebeu que seus pesadelos também possuíam uma certa "rotina".

Tudo começava com imensa escuridão, um breu desconfortável como numa mortalha, e então de súbito seus pensamentos eram despidos por uma luz intensa que lhe traziam os primeiros monstros da noite. Quase sempre via-se cercada por pássaros bizarros, com bicos muito longos e afiados, olhares coloridos que lhe arrancavam certezas da vida e sobre ela mesma. Então vinha o fantasma de um coelho branco, seu guia esperançoso que, contudo, fugia de seus braços pequenos e fracos de menina, sua única vontade nos sonhos era de recuperá-lo, pois sabia que ele era sua última chave para acordar em mundo um pouco mais tranquilo que sua própria mente.

Sua perseguição ía muito além da floresta negra, com árvores dentadas e rostos esculpidos em madeira enrugada, percorria rios de rostos e sangue e obstáculos de cogumelos gigantes. Às vezes ela podia descansar suas pernas curtas, mas as paradas eram a pior parte, pois era sempre interceptada por uma estranha criatura, ora o esqueleto de um gato com dentes de tubarão e um sorriso maníaco, ora uma lebre manca e sem pelos, de olhos verdes que brilhavam fúria e insanidade. O pior deles eram as fadas, criaturas humanóides com traços de inseto, olhos esbugalhados e chifres como os de pequenos diabretes.

E então havia o Rei Fada, sempre um homem esguio de fala bonita, que toda vez a convencia em sentar-se numa mesa para tomar chá. Seus cabelos eram do tom de loucura e tinham vida própria, sua palidez vampiresca era esticada sobre os ossos pontudos de sua face comprida. Se não fosse pelas risadas esganiçadas como as de um pobre vira-lata chutado de um bar sujo do porto, Lacie poderia ter aguentado todo o resto.

Outras inúmeras criaturas faziam parte de sua aventura, cavaleiros com faces familiares, carneiros que podiam andar sobre as patas traseiras e cantar numa voz grave temerosa, e damas com máscaras de porcelana. No final, ela encontrava o pequeno fantasma aos pés de uma imensa árvore oca, que drenava todas as suas forças da terra para produzir um único e mísero fruto seco.

Lacie nunca pode pegar o coelho em seus braços e recuperar seus sonhos e fé, era somente chegar perto da criatura que enfim acordava para a realidade, tremendo, com frio e medo.

Ela saiu da água não muito depois e surpreendeu-se ao encontrar uma cesta lhe esperando. Tocou-a receosa de começo e a chacoalhou, tentando adivinhar seu presente, não parecendo ser algo vivo ou que pudesse lhe matar à primeira vista, abriu a cesta. Eram roupas novas e o reforço do café da manhã apressado que tivera, talvez seus hóspedes tenham a encontrado enquanto se perdia em devaneios, algo que a fez corar um pouco, afinal estava nua e sequer percebeu a presença deles.

Trocou-se rapidamente, vestindo uma camisola azul e um casaco longo de lã branca, tomou um gole do suco de maçã, comendo um pouco do pão e queijo que acompanhavam. Embrulhou o que sobrara e dobrou a roupa suja á parte, decidiu que voltaria para agradecer.

Não fora difícil voltar pelo caminho, mas demorou um tempo para encontrar a porta no chão novamente, infelizmente não do melhor jeito, já que chutou com a ponta do pé a maçaneta escondida.

Xingou em nome de todos os injustiçados e entrou no subterrâneo.

— Olá? Tem alguém aqui?

Sua voz ecoou pelos corredores em túnel, sentiu-a quicar pelos cantos e voltar para si.

— Eu só queria agradecer pela hospitalidade, vocês foram muito bons para mim! Muito obrigada! -gritou um pouco, talvez pudessem estar no último andar?

— Eu trouxe a cesta de volta, sobrou bastante do suco, devo deixá-la aqui?

Sem resposta.

— Bom... novamente obrigada por me ajudarem... e-eu já estou indo!

Contudo antes que pudesse retornar a superfície, alguém lhe tocou.

Uma mão lhe pousava ao ombro, firme, porém não de modo ameaçador, um aroma de baunilha e canela tomou seus sentidos, Lacie girou devagar para o "alguém" e nisso sentiu suas pernas se tornarem líquido e podia jurar que se o mesmo não tivesse a segurado, teria desmaiado ali mesmo.

— Calma, não vou a machucar -disse o anjo.

Lacie não conseguiu responder, sentia a língua inútil em sua boca e um fervor lhe subir às faces, era ele! Era o anjo que a tinha resgatado e iluminado suas ilusões febris, ele existia!

Era um jovem de cabelos loiros, sedosos como plumas, e os mesmos olhos azuis-esverdeados que a encantaram, feito uma paisagem de uma campina francesa na primavera. Ele lhe exibiu o mais apaziguador dos sorrisos e a levou cuidadosamente para um dos quartos.

A porta se abriu para uma sala simples, porém adorável. Todos os seus móveis eram brancos e com estofado em remendos de tons pastéis, o jovem a deitou num divã e trouxe um dos assentos para perto de si, perguntou se queria água ou se preferia descansar, Lacie negou desajeitada, ainda encantada por ele.

Quando sentiu que o que estava prestes a dizer não fosse algo embaraçoso, perguntou:

— Quem é o senhor?

— Me perdoe os modos! -disse surpreso e envergonhado- Permita-me apresentar.

Ele levemente se curvou, deixando a canela brincar com o olfato de Lacie.

— Eu sou Willihard Gwyningen, mas por favor... me chame apenas de Will.

Ela sorriu.

— Eu sou Lacie Gardner e tenho uma dívida para com você.

— Dívida?

— Por ter salvo minha vida.

Eles se encararam sem mais nada dizer, Lacie persistiu em seu sorriso delicado até ele retribuir, Will assentiu, não para as palavras mas para o significado delas. Uns minutos depois, ela começou sentir o sono vindo em seu encalço, o mesmo que a espiava de longe quando relaxava na lagoa, percebendo o olhar cansado, Will se levantou.

— Sei que certamente está cansada, srta. Gardner, e não devo exigir que ultrapasse seus limites -disse educado- se me permite, lhe acompanharei para um quarto mais confortável e lá deixarei-a descansar.

Lacie aceitou o pedido, levantando preguiçosa, deixou que Will tomasse um dos braços para a conduzir pelos túneis embaralhados do lugar. Chegaram com rapidez sábia de quem conhece o que faz, Will lhe apresentou um quarto como a que estava anteriormente, porém limpo e com uma lareira.

Ele a levou para cama, onde deitou tão logo o sono veio pesado, antes que fosse conduzida por horas de repouso tranquilo, Lacie olhou para Will que observava de uma distância respeitosa.

— Até que enfim...

— Perdão?

— Consegui te encontrar... consegui pegá-lo, coelho branco.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.