A Loucura dos Liddell
2 Capítulo 1. "Downhole"
Notas iniciais
Ela ouviu ao longe a manhã dar seus primeiros suspiros, o grande Big Ben despertava seus sinos que ecoavam por todas as redondezas de uma Londres coberta pela fuligem das fábricas e das chaminés dos quem tinham lares quentes para morar, o que para Lacie era considerado um baita golpe de sorte.
Seu quarto era escuro, gelado e com a maior parte da pintura desgastada com focos de mofo nos cantos, havia somente a cama, um balde com água do outro lado e uma cadeira próxima da porta. Pôs-se de pé com rapidez, sentou-se na cadeira para pegar o balde no colo. Lavou o rosto e os pés, após um longo suspiro decidiu: É hora de começar o dia.
Trocou-se rapidamente para sair do alojamento. Deparou-se com outros operários que a cumprimentaram com cara de poucos amigos. Encantador, ela pensou.
Se encontrou parada na fachada do edifício, uma construção um tanto acabada se fosse parar para pensar que tinha tão pouco tempo de fundação. Lacie caminhou pelas ruas encarando mais o chão do que a frente, levando-a tombar com algumas pessoas e receber xingamentos indecentes, lembrando-se com temor daquela noite.
Seus sonhos duraram somente mais alguns anos. Quando numa mesma noite rastejante para o quarto do mesmo homem que deveria a proteger, ela descobriu o corpo do mesmo caído no assoalho e toda a situação se reverteu, de protegida ela se tornou protetora.
Calafrios subiram em seu corpo, como a cortina de fumaça que saía do trem que parava a sua frente. Subiu na máquina movida pelo carvão e o homem, em rumo direto para Guildford, em Surrey.
Ela se lembrava daquela noite muito bem, quando saíra às pressas gritando pelos corredores escuros da igreja, procurando por ajuda dos bons fiéis que sempre os auxiliaram. Fora então que uma jovem freira viera em socorro e ambas o levaram para um médico próximo. Por sorte ou não, o médico dissera que era apenas uma forte gripe, que com um bom repouso logo estaria curado, passaram-se semanas, meses e até anos, mas nada realmente melhorou.
Eram quase oito e meia da manhã quando chegou em seu destino, foram mais alguns minutos de caminhada até a casa que tanto tinha horrores desde pequena. Logo na entrada, o próprio diabo a esperava.
— Bom dia, senhorita Turph.
A mulher lhe dirigiu o costumeiro olhar de desprezo que carregava junto da carranca mal humorada de todos os dias, tinha os cabelos presos num coque alto, o nariz proeminente destacava-se mais do que seus outros atributos, tinha um bigode fino quase despercebido. Vestia roupas pretas com adornos brancos, a forma de um crucifixo era perceptível abaixo das vestes.
— Bom dia para você também –respondeu rápido como se não quisesse que mais ninguém visse que estavam conversando- Agora vamos, entre! Rápido!
Ela adentrou a casa das Irmãs Brown, não era bem esse o nome das governantas que dividiam a moradia com seus maridos e filhos, mas o professor gostava e achava graça em referir a elas assim, apesar da piada nunca ter sido entendida por mais ninguém.
A casa não era lá muito grande, possuía dois andares mais um porão, um pequeno complexo aos fundos, tinha móveis bonitos de baixo custo, com poucos tapetes e quadros para decorar. Em compensação, tudo era arrumado com grande sofisticação. Lacie tirou o casaco para pendurar no cabideiro da entrada, mas Turph a impediu na mesma hora.
— Espera mesmo que eu deixe você pendurar essas vestes repugnantes e fedorentas justo no hall da entrada? –questionou- Arrume uma caixa, jogue no lixo, ou qualquer outro lugar, mas não amole as anfitriãs! Menina tola.
Lacie estava acostumada aos xingamentos desde que pôs sua cara ao mundo, tendo perdido os pais e os mesmos não terem levado uma vida "digna", era rotina ser rebaixada pelos mais variados motivos. É claro que, por consequência, ela conquistou feições fortes e um olhar intimidador, uma forma silenciosa de combater os estranhos, mas isso não significava que a armadura era implacável e, portanto, que não se ferisse de vez em quando.
Ao menos existia alguém naquela casa que não a criticava. Ela abriu um pequeno sorriso.
— Vá já limpar a cozinha, agora!
— Sim, senhorita Turph.
Andou depressa pela casa, conhecia-a muito bem, infelizmente não por casos que a fizessem ter boas lembranças. Fora Junho de 1892, quando ela e o professor se mudaram para cá. A situação dele não melhorara e, sabendo disso, as Irmãs Brown resolveram trazê-lo para viver com elas, já que tinham condições. Lacie fora junto, apesar de não ter ficado por muito tempo. Assim que as Brown perceberam que a situação de Charles era pior do que aparentava, contrataram uma enfermeira, Turph.
Lacie nunca confiara em pessoas que não gostassem de crianças, mas as irmãs também não nutriam muitos sentimentos por ela. Então, logo quando fizera quinze anos em 1895, Lacie decidira trabalhar nas manufaturas, tornou-se uma operária competente e conseguira alugar um próprio quarto em Londres. Em "dias de folga" conseguia permissão para ir em Guildford, pois admitia que não poderia deixar o homem que a criara sozinho ser escravizado por aquela enfermeira ranzinza, de longe ela deixaria isso acontecer.
Lacie chegou na cozinha, alguns empregados já se embolavam naquela pressa ansiosa das manhãs, travessas levavam o desjejum da família, cristais refletiam a luz do fogo e do sol, e no meio de tudo isso havia migalhas por todo o chão, peças sujas de vidro e porcelana e mulheres mandonas gritando uma com as outras. Sem pestanejar, ela amarrou um avental encardido e arregaçou as mangas, não importava se era uma cozinha ou uma indústria, sempre haveria trabalho para fazer.
*
Por volta das duas da tarde foi quando pode ter seu descanso. Ela tremia vagamente, tinha o estômago vazio e o corpo suado do trabalho, pois havia neve caindo lá fora. Tendo servido o almoço, a senhora Bower lhe fez um sanduíche, agradecendo pela ajuda com a louça, mas pedindo para que comesse fora do ambiente de trabalho. Lacie se juntou aos fumantes para comer, mas nem sua tranquilidade ou fome obtiveram sossego.
— GARDNER! Venha cá!
Com o susto, levantou ás pressas, saindo correndo pelos corredores atrapalhada. Voltou para hall da entrada, onde Turph a aguardava com uma vassoura numa das mãos.
— Está vendo isso? -questionou indignada.
Lacie poderia ficar calada, quase sempre era a melhor coisa a se fazer, mas sabia que com Turph tudo era meio diferente.
— Vendo... vendo o quê?
— O tapete, diabos! Não vê o quanto está empoeirado? Limpe isto já! Você sabe muito bem que o pequeno Jeremy tem alergias.
Lacie conhecia as crianças da casa por nome, mas pouco teve acesso para criar qualquer tipo de laço com elas, como ela poderia adivinhar que Jeremy tinha alergia? Talvez nem Turph sabia disso até poucos minutos atrás. Contudo, ela não questionou, deu duas mordidas rápidas e bem dadas em seu sanduíche, pegou a vassoura e voltou ao trabalho.
Ela varreu qualquer resquício que os tapetes pudessem ter, tirou pó dos corrimões e ajeitou quadros tortos nas paredes. Percebeu, após abrir uma das janelas próximas da escada, um dos maiores mistérios daquele lugar.
Curioso, pensou com gosto.
Lacie sabia do porão da casa, as irmãs tiveram de abrir mão de alguns móveis para abrigar o professor, elas não os venderam pois tinham esperanças de retorná-los ao quarto um dia. Por algum motivo nem ela ou outro empregado da casa eram permitidos entrar no porão, ninguém sequer sabia onde se encontravam as chaves.
Muito curioso...
Ela investigou ao redor, estava sozinha ali, abaixou-se o suficiente para espiar pela fechadura, viu apenas escuridão...
Um estalo a atravessou como um tiro, engolindo um grito, ficou extremamente aliviada de ver que fora apenas um gato que entrara pela janela.
— O que um rapazinho como você faz por aqui?
Lacie o acariciou, ele ronronou em aprovação, uma vez lhe disseram que não poderia conversar com animais daquele jeito, quando questionou o “porquê” lhe disseram que era coisa de gente maluca. Ela nunca se considerara uma pessoa normal mesmo.
"Você é especial”
— O que diabos é isso?! –gritara Turph ás suas costas.
Lacie pegou o gato em seus braços e o empurra janela a fora.
— Ele entrou aqui sem querer! –se explicou.
Turph avançou, ergueu a mão como um chicote em riste, porém hesitou.
— Sabe muito bem que as madames não permitem animais dentro de casa! Mais uma vez que isso acontecer, será punida senhorita Gardner.
— Sim, senhorita Turph, mil perdões.
— Agora que já limpara por aqui, se concentre no resto casa, ainda há o segundo andar inteiro! Espero que termine tudo antes do chá da tarde.
Turph saiu arrastando com suas vestes negras, como a morte a procura de uma alma penada. Lacie somente percebeu que estava tremendo quando alcançou a vassoura, sentou-se por um momento para pegar folego, não é como se nunca tivesse apanhado, mas a ideia de violência sempre a assustara de alguma forma. O gatinho miou lamentoso no quintal.
Talvez os pesadelos só tenham me deixado cada vez mais medrosa, pensou.
Novamente ela retornou ao trabalho.
*
Eram quase quatro horas quando enfim ela terminou seus deveres. Antes que pudesse pensar em outra coisa, Lacie desembrulhou o resto de seu sanduíche e o devorou sem dó, parecia até mesmo mais delicioso do que provara até mais cedo.
Assim que começou a raciocinar melhor, veio a prioridade de estar ali, o motivo de estar se matando quando poderia estar em seu apartamento mofado, ao menos descansando.
Ela não queria demonstrar o quão ansiosa estava, mas era difícil. Lacie deslizou até onde sabia que as Irmãs Brown poderiam estar naquela hora e sentiu um pingo de felicidade ao ver que sua intuição estava certa. Junto a eles, Turph se inclinava com uma empatia fingida e um sorriso mascarado, feito um abutre com seu nariz comprido e roupas escuras.
Ela está ocupada, Lacie falou consigo mesma, se eu for agora posso ver o professor.
Ela subiu as escadas deslizando pelos longos tapetes do corredor, encontrou-se á frente de uma porta entreaberta de um dos quartos e deu duas batidas antes de entrar com um grande sorriso.
— Querida! –ele cumprimentou.
— Professor Charles!
Lacie deixou-se cair nos braços do homem que mais amava em todo o mundo, abraçando-o com força e ao mesmo tempo cuidado para não o machucar.
— Estou tão feliz em revê-la!
— Eu também professor, como passa rápido!
Não, não passava para Lacie que trabalhava naquelas fábricas escuras e fétidas, mas se fosse para ser recompensada com aquele olhar, ela o faria pelo resto de sua vida.
— Sinceramente querida, já faz tanto tempo que não saio deste quarto que nem sei como contá-lo mais... até parece que já faço parte desta cama!
Ambos riram até serem cessados por uma crise de tosse, Lacie imediatamente pegou o copo d’água do criado-mudo, quase que num infeliz movimento automático.
— Me perdoe, meus pulmões não são mais os mesmos.
— Não é sua culpa professor.
Ele exibiu um sorriso fraco, acompanhado de olhos azuis escuros e gentis.
— E você? Como anda minha querida?
— Vou bem, trabalhando bastante.
— É surpreendente que seus chefes deixem você matar trabalho para vir ficar com um velho como eu.
Lacie sorriu um pouquinho.
— São pessoas bondosas, os meus chefes...
Era verdade, num mundo que se transformou em uma cobiça pelo "mais", poucos chefes se davam ao luxo de permitir direitos aos seus fiéis funcionários, não era à toa, pois havia quem queria comer e havia quem tinha de dar o que comer. Todavia, Lacie era um dos poucos felizardos a ter os Turner como empregadores, homens jovens que compartilhavam de uma história semelhante a dela: pais falecidos, um avô que lutou pelo futuro dos netos, uma chance de ganhar na vida com as pessoas certas, e logo puderam retribuí-lo. Com uma história dessas, não se esperaria nada menos que compreensão.
— Fico muito feliz em ouvir isso, para mim, o maior infortúnio que poderia ter... é ver você sofrer Lacie.
Seus olhos vacilaram por um momento, a tosse retornou, porém ele recusou o copo d’água. Respirando fundo, voltando a se encostar nos travesseiros, ergueu o braço para tirar o cabelo dos olhos da menina.
— Está tão moça –sorriu- parece tanto com sua mãe...
Por mais que quisesse, Lacie não conseguiu sorrir. De novo não, ela pensou rapidamente. Era um assunto dolorido ainda.
— Mas os olhos... certamente são de seu pai.
Por favor, pare.
— Gostaria tanto... tanto...
— Professor...
— Sim querida?
— Porque meus pais... meus pais... –ela reformulou a pergunta- como eles eram mesmo?
O professor sabia que não era esta a pergunta que ela queria fazer, contudo ele nada contestou.
— Sua mãe parecia uma deidade, linda, tão linda... –suspirou- como você minha querida, era gentil e bondosa, tinha um coração valente, o suficiente para seu pai viver atrás dela tentando a fazer não se meter em encrencas.
Lacie riu forçadamente, ela conhecia a história muito bem.
— E seu pai, que homem engraçado! Tinha um excelente senso de humor, faziam todos rirem até doer a barriga, foi assim que conquistou sua mãe –ele sorriu bastante- formavam um casal... diferente, mas funcionavam bem.
— Acha que sou parecida com eles? –arriscou-se.
— Você tem os olhos dele –repetiu- olhos misteriosos, ás vezes age como ele também... correndo nas pontas dos pés por aí.
Ele ponderou.
— Mas acho mais parecida com sua mãe –admitiu- é forte como ela.
Lacie suspirou, às vezes era difícil imaginar seus pais como... os seus pais. E como poderia? Eles não tinham fotos ou amigos próximos, nem mesmo familiares. Eles sofreram um acidente, apesar de não saber como, todas as vezes que perguntou Charles sempre recuava ou acabava por inventar uma história diferente, as vezes era um trem, outras uma carruagem, ou ainda um barco, nunca era a verdade, mas sabia que apenas Lacie sobrevivera, sendo acolhida pelo membro mais próximo da família, seu padrinho, o professor Charles.
Então, desde que se conhecia por gente, ela foi criada por Charles, com certa ajuda de pessoas ao seu redor, mas não fora uma criação difícil ou conturbada, afinal, ele era professor e sabia de algumas coisas sobre crianças. Logo quando Lacie tinha seis anos já sabia fazer contas de multiplicação sem precisar de papel ou lápis, além de citar corretamente passagens Shakespearianas.
— Professor, o senhor sente... muita dor?
— Desde que soube da morte de sua mãe, eu nunca parei de sentir dor.
Ela sabia que esta fora a deixa para se levantar e sair. O professor tinha este péssimo hábito de falar sobre seus pais, a atiçando falar sobre eles, mas sabia que de todas as pessoas que tiveram um dia contato com eles, de longe era o professor Charles quem mais se importava, então, justamente falar sobre a morte deles era algo ainda muito doloroso.
— Contudo, você sempre esteve ao meu lado depois disso –ele se forçou a sorrir- isso foi... isso é o que me mantêm motivado a continuar aqui, do seu lado.
Lacie guardou as lágrimas em seus olhos, engolindo o choro como engolia os brócolis quando criança.
— Eu nunca vou te deixar professor... nunca! Mesmo que –hesitou- mesmo que “certas” pessoas tentem fazer isso.
Ele riu.
— Está falando de Turph não é? Por favor Lacie, ela não é nenhum bicho de sete cabeças.
— Não confio nela.
— E nem eu em você.
Lacie virou-se, Turph já a esperava na porta do quarto.
— Espero que esteja com fome, senhorita Gardner, pois preparei algo delicioso pra você.
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