A Loucura dos Liddell

3 Capítulo 2. "Surface"


Notas iniciais
Me desculpem pela demora da postagem!

Turph procurou exibir o melhor e mais doce sorriso que pode, uma demonstração falha, Lacie observou, já que seu sorriso comprido e repleto de dentes grandes fazia-a parecer um maluco psicopata. Sentiu sua cabeça fervilhar de pensamentos ruins.

— Bom dia senhor Charles, perdão por interrompê-lo.

— Bom dia senhorita Turph e não há com quê se perdoar.

O professor era muito bom e educado para notar todo o ódio que escorria daquela mulher.

— Ora, então o senhor não se importaria deu tomar a senhorita Gardner por uns minutos, não?

— Claro que não! –ele disse contente e caduco.

— Pois bem, acompanhe-me senhorita.

Lacie voltou-se lentamente para o professor, aqueles olhos escuros brilhando como um filhote de cachorrinho.

— Professor...

— Lacie, a senhora Turph vai te levar pra comer.

Ela queria gritar com Charles, dizer tudo que já sofreu naquela casa por culpa de Turph, o trabalho forçado, os maus tratos, toda a humilhação... mas derramar a verdade sobre aqueles olhos tão doces era como fazer um recém-nascido compreender todo o mundo, Charles já havia sido manipulado por tempo demais.

Então Lacie se levantou, pegou a mão frágil do professor e a beijou, sussurrou somente para ele:

— Até outro dia professor.

— Até outro dia, querida.

Ambas saíram do quarto, Turph fechou a porta demoradamente. Assim que a lingueta travou na fechadura a senhora virou para encará-la, chamas queimavam por trás de seus olhos.

— Eu avisei que mais uma vez... seria punida!

Não houve tempo para retrucar, com rapidez e força extraordinária, a enfermeira lhe agarrou pelo pulso e os cabelos da nuca, a arrastando pelos corredores da casa enquanto tentava gritar por socorro. Fora difícil descer as escadas, Lacie embaralhava-se nos próprios pés, mal conseguindo enxergar onde pisava.

— Eu só conversei com ele!

— Me difamando! –Turph gritou em alto e bom som.

— Não! Não foi minha intenção!

Ao descer as escadas, Turph a encarou.

— Mas talvez tenha sido a minha.

Antes que pudesse questionar, a enfermeira puxou-a violentamente, prendendo-a na parede.

— O que... você...

— Não estudei medicina para cuidar de velhos malucos como seu "queridíssimo" professor Charles -sua língua estalou como um chicote venenoso- aliás, eu sequer estudei medicina garota burra!

O sangue de Lacie congelava em suas veias, Turph sorria cruelmente com a reação.

— Mas...?

— Dinheiro -Turph sussurrou com acidez.

— Charles não tem dinheiro! –ela conseguiu dizer por um curto momento em que os braços de Turph vacilaram, mas a outra somente respondeu com mais força.

— E quem disse que quero dinheiro daquele desgraçado?

Lacie então percebeu, é claro que não era do professor, mas suas irmãs.

— Ah... agora você entendeu, então saiba que estou pouco me fodendo para aquele velho lá em cima, só estou o mantendo vivo para sugar até a última gota que essas vagabundas tem a oferecer, mas sabe... você me fez mudar de ideia.

— Você... não... não toque nele!

— Se tivesse se mantido onde não fosse chamada, eu poderia tê-lo providenciado um descanso tranquilo, mas você acabou de me torrar a paciência garota burra, então pague pelas consequências!

Lacie sentiu toda a sua pele arder, um calor ameaçador invadir seu sangue e rasgar por entre seus órgãos, seus ouvidos rufavam como tambores e ela sentia que seus olhos poderiam explodir. Como... como aquela mulher poderia estar dizendo coisas tão horríveis... tão horríveis da única pessoa que ela já amou e que lhe foi recíproco na vida?

Ela não era de violência, Lacie preferia que deixassem as pessoas descontarem suas frustrações nela do que bater de frente com algo que ela sempre julgou que perderia, mas correr o risco de realmente perder tudo que tem... a fez despertar algo em seu peito.

Com um grito de ódio e choro contido, ela se desvencilhar dos braços de Turph, chutou a canela da senhora que engoliu o grito de raiva. Lacie avançou para o rosto da enfermeira, que desviou da mão direita, mas não da esquerda, ela conseguiu afundar as unhas na lateral e puxar a orelha com força para ouvir a outra choramingar. Infelizmente, Turph ainda tinha um bom punhado de fios negros enrolados em sua mão, com um puxão fez Lacie cair de joelhos e desferiu um chute em suas costelas.

— VADIA! –gritou a enfermeira- Vai ter o que merece!

Foi com tardar que percebeu o que Turph preparava, uma porta ás suas costas abriu e ela tombou por um curto lance de escadas. Lacie machucou as costas, rolando sobre sua cabeça, uma dor excruciante emergiu do pescoço, cortando parte de seus sentidos. Quando atingiu o chão, ralou os joelhos no na pedra fria e suja. Ela se agarrou aos dois últimos degraus da escada, com dificuldade ergueu a cabeça.

— Apodreça no INFERNO!

Ela fechou a porta do porão, selando toda a luz consigo, Lacie permaneceu com o som das chaves a trancando naquele lugar por muito tempo.

*

Nos primeiros minutos, Lacie permaneceu enrolada em si mesma, uma forma de se confortar, ela não conseguia pensar, não claramente, tudo que lhe vinha a mente era a imagem do professor Charles, deixado no quarto naquela tarde, seus olhos... tão gentis... se quebrando.

Quando o choque do que havia acontecido passou, ela levantou-se surpreendentemente rápido, saltou pela escadinha e passou a esmurrar a porta do porão, gritando:

— ME DEIXEM SAIR DAQUI! SOCORRO!

Gritou tanto que após dois minutos ficou rouca e quando persistiu sua garganta começou a doer, parecia que ela havia engolido lâminas e bebido álcool.

Concentrou-se apenas nas batidas da porta, socando com tudo que sobrara de seu estupor, até sentir algo escorrer pelos seus dedos e saber que já havia passado dos limites. Então ela desceu as escadas com dificuldade, só por sorte não tropeçando e limitando ainda mais sua condição.

Estava escuro como breu, não enxergava sequer suas próprias mãos. Lacie poderia muito bem ter desistido e chorado, mas as lágrimas ainda ardiam em suas bochechas, não queria largar tudo de uma vez, era teimosa, muito teimosa.

Então se pôs a explorar o tão misterioso porão dos Brown, com sorte poderia encontrar algo útil para abrir a porta. Ainda bamba, Lacie começou a seguir pela parede mais próxima, tateando com o pé menos dolorido e sempre devagar, para evitar que quebrasse algo por acidente.

Ela encontrou o que julgou ser algumas cadeiras, não ousou sentar em nenhuma apesar da vontade. Se esbarrou numa mesa coberta, Lacie tateou pela sua superfície, mas tudo que teve de resultado foi um calafrio na espinha ao sentir algo caminhar rapidamente por sobre sua mão. Encontrando outra parede, continuou a segui-la, chutando algo pesado por volta da altura dos joelhos, ao se agachar para tocar o que fosse, julgou ser um baú.

Seu pressentimento se provou correto ao encontrar o cadeado, que pingava óleo e, agora, também sangue.

Alguém tentou abri-lo, pensou, ninguém mais passaria óleo num cadeado caso tivesse uma chave.

E se não há chave...

Suas esperanças se abalaram por um momento, mas tentou se manter otimista, caso encontrasse uma lamparina ou mesmo uma vela Lacie se prometeu voltar para checar o baú novamente.

Ela prosseguiu sua inspeção, pouco depois encontrando ao que revelou ser uma cama. Lacie apertou o colchão, ouviu o lençol rasgar e um som ecoar levemente disto, provavelmente uma mola havia escapado, mas junto deste o barulho de patinhas caminhando pelo chão.

Lacie até podia tolerar insetos, mas ratos? Tentou não vomitar imediatamente.

Dando a volta, sentiu algo com a ponta de seu sapato., agachou-se implorando para que não fosse um rato, mas ao tocar e sentir uma superfície arredondada, lisa e fria, quase chorou de gratidão. Encontrou a válvula que rosqueou perfeitamente, logo uma chama fraca, porém, calorosa imergiu em seu olhar.

Graças a Deus, respirou profundamente.

Ficou sentada segurando a lamparina como se sua vida dependesse disso, deixando o cheiro de querosene penetrar seu nariz. Olhou para as próprias mãos, o sangue havia parado de escorrer, mas estavam sujas de óleo e com as palmas avermelhadas. Os joelhos estavam com machucados leves, porém com tanto barro seco preso nestes que ela tinha certeza que passaria a noite inteira para limpá-los. Estava com os pés dormentes e as roupas rasgadas, tinham o cheiro de suor, poeira e sangue. Lacie se permitiu sentir pena de si mesmo por um breve momento.

Levantou-se lentamente, ainda se apoiando na parede. O fogo iluminou um pouco da cama, “estar em frangalhos” ainda seria uma discrição bonita para aquilo. Agora com o mínimo de visão, Lacie arriscou-se mais em desvendar o porão.

Acabou não se provando um lugar tão interessante assim, sendo um pouco mais que o quarto de hóspedes, havia esse conjunto de sala de jantar despejado, com as cadeiras umas sobre as outras e a mesa com o lençol branco, encardido e furado pelos insetos. A cama antiga que servia de abrigo para os camundongos e dois manequins de ferro jogados num canto mais obscuro. Nenhuma dessas coisas, contudo, parecia que poderia abrir a porta daquele lugar.

Então Lacie mirou o baú, sentindo algo diferente ao vê-lo melhor, era maior do que cogitara, coberto por couro escuro, tinha remendos aqui e ali com a tranca dourada e o cadeado pingando sangue escurecido.

Eu conheço esse baú...

Era uma sensação angustiante ter de encarar aquilo, pois ela tinha certeza que já o vira antes, mas não conseguia se lembrar de onde ou quando. Lacie sentou-se no chão gelado, sentindo o corpo relaxar por um momento e deixando que a dor encontrasse um lugar para ir. Ela suspirou uma, duas e então na terceira vez pôs-se a examinar o cadeado. Estava bem abatido, alguém deveria ter desesperadamente tentado o abrir, sem sucesso algum, era de um brilho discreto, mesmo encharcado de negrume.

Seus pensamentos gritavam uns com os outros e isso fez sua cabeça doer. Tentou forçar sua memória ao máximo, mas sem êxito algum, soltou um grito de exaspero.

Esse baú pode ter a única coisa que pode me tirar daqui, sua racionalidade falava, mas como vou abrir?

Assim como quando se queima com fogo, Lacie sentiu uma picada rápida percorrer seu corpo, era teve uma ideia, a epifania dolorosa de obter a solução para um problema, uma dor que ela poderia suportar. Pegando a lamparina, ela retornou para as cadeiras, separou a que tinha os pés curvos mais conservados e a levou para perto dos manequins, onde um deles exibia uma ponta perfeita para destrinchar os pés do assento.

Com um certo esforço demandado, Lacie conseguiu as duas peças perfeitas para concluir seu plano. Voltou um pouco cansada, mas ansiosa para botar a questão a prova. Ela posicionou ambas as curvas no lacre de ferro do cadeado, já comemorando por ambos terem encaixado no pouco espaço que o próprio fecho do baú permitia, calculando o ângulo necessário, usou toda a força que tinha para alavancar a peça.

O estouro ecoou por todo o cômodo, por um momento a deixando sem ar e a fazendo cambalear para trás, ela viu que a madeira tinha se partido, mas junto desta o cadeado também, um sorriso satisfeito se formou nela. Levantou a lamparina para inspecionar e toda a dor que sentia se foi, o baú estava aberto. Sua curiosidade atiçou como uma lareira.

— Vamos ver que segredos você guarda.

Sentou e fixou os olhos no interior do baú. Encontrou um álbum de fotografias logo na superfície, Lacie passou os dedos pelas páginas, todas retratavam meninas bem mais novas que ela, por volta dos seis aos doze anos, algumas muito bem vestidas, outras caracterizadas, mas havia uma regra que se aplicava em todas, eram bonitas como bonecas de porcelana. Havia uma dentre elas, porém, que se destacava mais, uma menina por volta dos nove anos, com cabelos negros curtos e arrumados, tinha bochechas salientes e um sorriso pequeno quase escondido, e mesmo para sua idade aparente de criança, a garota sustentava olhos sérios de uma mulher, não que ela tivesse perdido toda a inocência, mas era o tipo de olhar autoritário que uma adulta exibiria, Lacie ficou encantada com aquele olhar.

Ela deixou o álbum de lado para voltar sua atenção ao baú, tirou um segundo livro intitulado “O mundo do Subterrâneo”, ao abrir observou que a caligrafia era tão torta e com as linhas tão borradas que a leitura tornou-se algo impossível. Deixando-o junto do álbum, seus dedos então chegaram ao que parecia ser o fundo, havia um manto, agarrou-o e puxou o lençol em um incrível estado de preservação, mas o que realmente lhe chamou atenção era algo que se encontrava ainda mais intocável.

Teve dificuldade em tirá-lo do fundo do baú, pois tinha o encaixe perfeito, mas conseguiu no fim. Era um espelho muito bem preservado, com a moldura prateada esculpida com os mais pequenos detalhes, no metal estava gravado trepadeiras, samambaias, heras e cipós, que se entrelaçavam e davam lugar a rosas, margaridas, narcisos e orquídeas. Nos cantos exibia-se quatro criaturas que rapidamente roubaram a atenção de Lacie, um coelho com um relógio, um gato sorridente, uma lagarta com um narguilé e um pássaro esquisito.

Não é possível, ela estremeceu.

Observou com horror aqueles quatro animais junto de seu reflexo. A pele pálida e esticada sobre as maçãs do rosto, o queixo e o nariz finos com os lábios inchados. Seus cabelos negros feito carvão, caíam compridos, cheios de nós, pelas suas costas doloridas, oleosos feito gordura de peixe. E os olhos... eram de toda sua face, verdes cinzentos, como os pântanos de Dartmoor, em Devon.

— Te... odeio

Era essa a verdade, Lacie não se suportava, por isso raramente se defendia por amor próprio, toda sua vontade girava entorno de apenas uma pessoa, e ela deixou esta morrer... então qual era o sentido de continuar assim? Ela se encarava no espelho e tudo que via era desgosto, não somente por si, era uma raiva crescente que ela estocava num lugar secreto para ninguém ver, mas sozinha, com a lamparina prestes a ceder, no porão de uma casa onde não ligavam para sua existência, não havia mal em deixar seu pequeno e sujo segredo ser revelado.

Não eram apenas os olhos, eram tudo, como todos diziam, pertenciam aos seus pais. Os cabelos escuros da sua mãe, o nariz da família paterna, lábios de uma linhagem de mulheres que não existiam mais, as orelhas pontudas de uma herança desconhecida, tudo era detestável pois tudo remetia a uma vida que Lacie perdeu.

Ela bateu a palma da mão no espelho.

— Não é justo... não é justo... -ela chorava- deveria ter sido eu, Charles não merecia nada disso... por quê?

Lágrimas se juntavam ao olhar, embaralhando sua visão, a chama da lamparina não tinha muito mais tempo de vida.

— Por que ele e não eu? É... é tudo minha culpa... minha culpa!

Cansada, encostou a testa na superfície fria do espelho, desejando que ele absorvesse tudo que sentia, todo o sofrimento, raiva e medo que trancava em seu coração. Ela só queria chorar e sumir...

“Você é especial”


“Estou tão feliz em revê-la”


“Para mim, o maior infortúnio que poderia ter... é ver você sofrer”


“Você sempre esteve ao meu lado... e o que é que me mantem motivado a continuar aqui”

— Professor?

A voz viera de tão perto e parecia tão forte que não poderia ter sido ilusão, enquanto perseguia atordoada com os olhos, Lacie não percebeu que era o espelho que tremia ao invés de suas mãos. Quando voltou a atenção ao reflexo, viu que ele desaparecera e a superfície do espelho tinha se transformado em algo ondulante e cristalino, feito água. Lacie gritou, queria largar o espelho, mas já era tarde, uma luz cegante preencheu o ressinto, a envolvendo como um abraço apertado e antes que qualquer rato ou barata pudesse se questionar o que estava acontecendo em seu precioso porão, a menina e sua moldura prateada já haviam desaparecido.