A Lonely Girl ...

1 A Volta para Casa ...


18:07h

Frio.

Era a sensação que aquela jovem sentia ao sair da sala de aula e ganhando, finalmente, as ruas da pequena cidade do interior de Tariksson: as calçadas eram largas e a contarem com algumas árvores, proporcionando ao cenário um aconchegante e bonito cenário, misturando áreas arborizadas com casas e pequenos prédios.

A jovem possuía uma estatura mediana: entre 1,60m e 1,65m de altura, corpo comum e pele clara; seus cabelos, escuros, eram lisos, porém ela os mantinha presos em um rabo de cavalo, como algumas das demais jovens do colégio; seus olhos, sempre distantes, possuíam uma tonalidade castanho claro. Ela vestia uma blusa branca, com um sweater cinza claro por cima e uma saía, até perto da altura dos joelhos; usava uma meia cinza, também clara e sapatos marrons.

Ela suspirou, no entanto, enquanto observava os seus amigos passarem ao seu lado, estes a conversarem animadamente e a limitarem a acenos ao passar ao seu lado. Esta, apesar de permanecer em silêncio, com os fones de seu celular inseridos em seus ouvidos, distraidamente a ouvir algumas músicas, sorria gentil e cordialmente, para eles. Porém, logo ela retornava para o seu olhar distante e distraído, como se isolada em seu próprio mundo.

Um mundo feito das músicas que ela ouvia.

Estas eram geralmente selecionadas por ela, a montar listas de músicas conforme o seu humor no dia: às vezes eram músicas mais calmas e relaxantes, enquanto que outras, ela selecionava algumas mais dançantes e animadas; e, também haviam momentos que ela colocava algumas mais pesadas, a variar de algumas mais depressivas, até para algumas com ritmos fortes.

Não havia um gosto específico para ela.

Não demorou e logo ela estava já a caminho pelo centro da cidade: sua casa era bem longe e, como sempre o fazia, parou perto de um ponto de ônibus, onde um pequeno grupo de pessoas estava, a aguardarem para voltarem para os seus lares.

Vendo que não havia mais lugar vago no banco do ponto de ônibus, a jovem limitou-se a recostar no mesmo, e a observar para os veículos que passavam pelas ruas: estes, aos poucos, começavam a acenderem os seus faróis, conforme a escuridão da noite começava a cobrir o céu com a sua tonalidade. Logo, as lâmpadas dos postes também faziam o mesmo, iluminando, um pouco melhor, as ruas.

“Uh… minha jovem...” Disse uma voz, ao seu lado e esta, apesar dos fones em seu ouvido, virou-se na direção da pessoa que falou: tratava-se de uma velha senhora, a carregar uma bolsa, um tanto quanto surrada, de couro.

“… Pode me… dizer que horas são?” Questionou, a velha senhora e a jovem pegou o seu celular, aproximando-o de seu rosto, conferindo as horas.

“… São… seis e meia...” Disse, a jovem, com o seu desinteressado tom de voz e, em seguida, voltou a baixar o aparelho de celular, fixando a sua atenção novamente nas ruas, enquanto que a velha senhora resmungava sobre a demora do ônibus e entre outras coisas.

Conversa esta que a jovem sequer se interessou: ela voltava a fixar-se em seu mundo próprio e a ignorar as pessoas ao seu redor.

A velha senhora, no entanto, só parou quase uns cinco minutos depois, quando, por fim, o ônibus chegou e, após todos do ponto entrarem, a jovem seguiu e fez o mesmo.

O ônibus possuía quarenta e seis assentos, a se alternarem em um grande número de duplos e alguns poucos de assentos 'solitários' e, apesar de se tratar do horário de encerramento do comércio e das escolas, a jovem estava acostumada pois aquela linha sempre voltava quase que praticamente vazia: tal motivo devia-se ao fato do ponto final ser quase uma ou uma hora e meia de viagem, já que o mesmo deixava a zona 'urbana' da cidade, até a zona rural.

E, o ponto final seria onde a jovem saltaria.

Com um suspiro aliviado, a jovem sentou-se em um dos bancos altos e recostou-se contra o vidro da janela, observando os demais veículos, as pessoas e a cidade passar pela mesma, deixando-se levar pelo calmo tom das músicas que optara naquele dia e ver as luzes da cidade darem, lentamente, espaço para a mais completa escuridão: salvo apenas pelas luzes de outros veículos e de algumas poucas casas no trajeto.

Pouco a pouco, as pessoas iam deixando o ônibus, até que apenas ficou a jovem e uma outra garota: esta, assim como ela, também observava distraidamente pela janela do ônibus, sentada no banco na fila oposta ao dela.

Esta garota tinha a aparência mais nova do que a outra, com um tom de pele também claro e longos e escorridos cabelos negros, também a contar com uma franja em seu rosto; ela também era baixa, devendo ter uma estatura entre 1,53m e 1,57m e vestia um uniforme escolar similar ao da outra, significando que certamente ela era do mesmo colégio.

A jovem suspirou, no entanto, quando esta outra lançou um curioso olhar para si, voltando a sua atenção para a janela ao seu lado, passando a contemplar a lua cheia, que iluminava todo o local com os seus pálidos raios de luz e não demorou para que ela adormecesse.

Não haveria problema, no entanto: seu ponto era o último e ainda faltavam mais de meia hora de viagem.

Em seu sono, ela teve dispersos e estranhos sonhos, a envolverem variadas cenas, estas misturadas com antigas lembranças de sua infância, até momentos atuais e encerrou com aquela jovem, que viajava junto dela, só que, diferente do curioso olhar de antes, esta, em seu sonho, exibia um semblante assustado e parecia falar consigo.

Algo que, no entanto, ela não conseguia compreender: era como se ela apenas movesse os seus lábios, porém os seus olhares ainda pareciam de medo e desespero.

Assustada e a sentir o seu corpo convulsionar por completo, a jovem despertou, sacudindo a cabeça, no intuito de afastar aquele sonho, que mais parecia um pesadelo e viu que faltava bem pouco para chegar em casa. Como em curiosidade, ela voltou a sua atenção para o lado e aquela jovem ainda estava ali, sentada em seu banco, porém ainda desperta.

Suspirou.

Mais de cinco minutos depois, o ônibus começava a reduzir a sua velocidade, até parar por completo em uma antiga, porém requintada garagem, cuja também servia de estação para as pessoas daquele bairro.

Os postes, estes mais esparsos do que no centro da cidade, tentavam, inutilmente, iluminar as simples casas do local e mal podia se ouvir o som de algumas das famílias, a conversarem em seus lares: o único som, tão logo o motorista desligou o veículo, que se podia ouvir com mais abundância era o do vento, a assoprar as folhas secas do chão das ruas e as das árvores que, diferentemente do centro, haviam muito mais, ali.

Em um gesto de alívio, a jovem se levantou e passou ao lado da outra que, surpreendentemente, a observava, ainda sentada: parecia encará-la, mas nada falara. Com um suspiro, a jovem resolveu ignorá-la e deixou o veículo e, tão logo o seu pé tocou o chão do lado de fora do ônibus, sentiu o vento frio da noite a assoprar-lhe, o que lhe causou um certo arrepio a percorrer-lhe o corpo, porém não tinha muito o que reclamar, pois já estava habituada aquele clima, cujo ela considerava agradável, já que amava o frio.

A caminhar pelas ruas daquele bairro, a jovem seguiu em suas lentas passadas, a atravessar as ruas de paralelepípedos onde, vez ou outra, podia ver algum tipo de animal, como cavalos e cachorros a cruzar-lhe o caminho, fazendo-a esboçar um fraco sorriso.

Ela gostava dos animais, porém não tinha mais tanto jeito com eles, o que fez com que ela suspirasse e reassumisse sua expressão distante e vazia, voltando a curtir o som melódico de uma das músicas que ela mais curtia ouvir, dentre as tantas que ela tinha em seu celular.

Porém, um som fez com que ela voltasse o olhar para trás e viu aquela jovem, a caminhar atrás de si.

Quem era ela? Questionou-se, a jovem. Ela sequer lembrara de já tê-la visto, antes e a jovem podia afirmar, veementemente, que conhecia todas as pessoas que ali, viviam. Porém, o que mais lhe fazia estranhar era o fato dela ter um olhar arregalado e uma expressão curiosa e incomum em seu rosto.

Deveria perguntar quem era, ou o que fazia em sua espreita? A jovem se questionou, novamente. Porém, ela logo negou com a cabeça, em especial, pelo fato daquela outra ter parado e fixado a sua atenção ao lado, como se estivesse a ver uma das casas daquela rua: logo, ela atravessou a vazia rua e parou perto do portão da casa.

A jovem suspirou, dando de ombros: deveria estar se preocupando a toa. Talvez fosse apenas alguma sobrinha ou visita de alguém que ali vivia, ou talvez não estivesse mais tão certa das pessoas que moravam em seu bairro. Logo, ela voltou a caminhar, seguindo aquela longa rua onde, no final da mesma, estava a sua casa: em seus passos, agora mais lentos novamente, ela levaria entre quinze a vinte minutos para alcançar o seu destino.

Porém, para ela, tanto faz: não tinha pressa para chegar, pois gostava de ver o cenário noturno de onde vivia e sequer se preocupava com segurança: o único incidente que ali, aconteceu, faziam mais de cinco anos e foi relacionado a um incêndio em uma daquelas casas. Mortes, assaltos ou qualquer coisa do gênero nunca ali, aconteceu.

Quando, por fim, alcançou o final da rua, a jovem pode ver a sua casa: tratava-se de uma casa de dois andares, cuja a mesma era feita de blocos de pedra, envolta em uma ampla área que servia de jardim, com algumas árvores – algumas frutíferas e outras não – e vários arbustos; as janelas, escuras, indicavam que o local estava entregue a mais completa escuridão, como a jovem estava habituada.

Ela vivia ali, sozinha.

A fazer um breve rangido, a jovem abriu o portão de ferro e adentrou a área do jardim e seguiu, pelo caminho feito por alguns blocos de pedra, devidamente posicionados para cada passada, até alcançar a porta de entrada da mesma, pegando a chave em sua bolsa, ela a abriu e finalmente entrou.

Ela prepararia algo para comer e tomaria um bom banho: antes de dormir, no entanto, cuidaria da lição de casa e deixaria o celular carregando durante a noite, ao constatar que a bateria do mesmo estava quase no fim.

Porém, quando ela se aproximou da janela da sala, pôs-se a ver mais uma vez, distraidamente, o luar, mas foi algo além que lhe chamou a atenção: parada, a frente do portão de ferro, estava a jovem de antes.

Esta a observava, com apreensivos olhares, com as mãos firmemente fixas no portão.

“O que… ela quer…?” Pensou, a jovem.

Deixando a sua mochila sobre o sofá da sala, a jovem fechou a cortina ruidosamente e removeu os fones de ouvido e, determinada, apertou os passos até a porta de entrada. Em seguida, ela ganhou novamente a área externa, com sérios olhares sobre aquela garota.

“… O que… você quer?!?” Questionou, a jovem, séria, para a outra, cuja recolhia-se, soltando as suas mãos do portão, percebendo-as sujas, mas o temor que sentia, fez com que ela ignorasse isso.

“… Você… estava realmente me seguindo, não? O que quer?!? Eu te… conheço, por acaso?!” Questionou, novamente, a jovem, com os seus olhares semicerrados, mas atentos nela.

A jovem, então, abriu lentamente a sua boca e, como no sonho, ela balbuciou incompreensíveis palavras.

Apenas, no entanto, no começo.

“… L-Lyse… v-você…” Começou a dizer, por fim, a jovem e a outra, ainda séria, continuava a observá-la, a aguardar por explicações.

“… O que tem eu…?” Questionou, a jovem Lyse. A outra engoliu em seco, meio cabisbaixa, mas ainda com os olhares a se voltarem nela.

“… Er… m-me desculpe...” Murmurou, em um tom bem baixo de voz, a jovem. Lyse, no entanto, a observou.

“… Me… desculpe… o quê?! Quem é você?! O que quer de mim?!” Questionou, novamente, Lyse.

A jovem se calou por alguns minutos e foi o suficiente para que Lyse se virasse e caminhasse de volta para a sua casa.

“Olha… peço que vá embora… eu não lhe conheço… e se, continuar a me seguir, eu vou chamar a polícia!” Exclamou, Lyse e, como não obtera resposta, prosseguiu a apressados passos para casa.

Sentia inquietação com aquela estranha garota: se fosse nas grandes cidades, estaria receosa e com medo, mas nunca se preocupou com isso ali.

Estaria enfrentando pela primeira vez, um caso de uma louca obsessiva? Questionou-se, mas preferiu ignorar tal ideia. Porém, foi o comentário daquela jovem que a fez parar.

“… L-Lyse… s-sou eu… A-Aria...”

Lyse, confusa e surpresa em ouvi-la falar, novamente, voltou-se para trás, com curiosos, porém ainda sérios, olhares na direção da jovem: para a sua surpresa, no entanto, ela vertia lágrimas e cobria, parcialmente, a sua boca com as mãos, manchando a área em volta com a sujeira do portão.

“… Aria…?!” Questionou, Lyse, no intuito de rebuscar, em suas lembranças e memórias, se já havia ouvido este nome, antes: dentro de si, ela podia dizer que este lhe trazia uma certa sensação de conforto, porém ela sequer se lembrava de algo mais concreto.

“… S-Sim… L-Lyse… A-Aria… v-você...” Continuou a dizer, Aria, com as lágrimas a verterem ainda mais copiosamente e com a voz completamente embargada por conta das mesmas.

Lyse a observou novamente e, um olhar mais atento lhe fez sentir resquícios de uma antiga lembrança: nesta, Lyse podia ver alguém, muito parecida com Aria, mas nada além.

“… Aria… eu...” Começou a dizer, Lyse e a jovem ergueu parcialmente o seu rosto, em um ímpeto, exibindo as lágrimas a lavarem o seu rosto.

Lyse sentiu uma pontada em seu peito, ao ver aquela jovem em tal estado, porém, o que mais lhe incomodava era: por que ela estava chorando assim?

Engolindo em seco, Lyse virou-se de frente para ela, com certa expressão de pesar por ela.

“… Aria… por que… está chorando…?”

Tal questionamento, no entanto, fez com que a jovem Aria apertasse novamente os olhos, voltando a chorar mais. Porém, Lyse também demonstrava certa surpresa em seus olhos, conforme uma memória veio-lhe a mente.

Na memória, ela recordava-se de ter feito esta mesma pergunta.

“Mas… quando?” Questionou-se, em seus pensamentos, Lyse, observando-a com desconcertados olhares.

“L-Lyse… você...” Repetiu-se, sujando ainda mais o rosto, em uma mistura enegrecida com as suas próprias lágrimas.

Lyse, no entanto, voltou a ficar inquieta.

“… O que… tem eu? Fale, Aria!”

Aria, no entanto, voltou a chorar. Seu peito doía, enquanto os seus olhos vertiam mais e mais lágrimas e, por fim, ela caiu de joelhos ao chão, cobrindo o seu rosto com ambas as mãos.

Assustada, Lyse fez menção de avançar em sua direção, no intuito de impedi-la de cair de tal jeito, mas agora, ela recuara um pouco, conforme Aria ergueu parcialmente o seu rosto e, com a voz bastante embargada, ela voltou a falar.

“Você… o que… Você… está… fazendo…?”

Lyse se interrompeu, observando-a de forma confusa, enquanto que Aria voltara a chorar.

“Eu… fazendo…? O que… eu estou fazendo?!” Questionou-se, Lyse, olhando de sua casa, para a jovem, aos prantos, a sua frente.

“Eu ia preparar… uma comida… tomar um banho… e estudar… até ver você!” Exclamou, Lyse, porém logo refreou-se, ao ver que agia de forma ríspida: por mais que aquela estranha jovem lhe parecesse familiar, agora, e ela estava a lhe seguir, sentia piedade pelo estado em que ela se encontrava.

Em um ato de desculpas, Lyse se aproximou dela e abriu o portão, agachando-se a frente de Aria que, naquela altura, já nada mais falara: apenas chorava.

Penalizada, Lyse a tocou no ombro… apenas para comprovar, que a sua mão a trespassou.

Lyse arregalou os seus olhos, em um misto de pavor e pânico: ela tentara novamente e, como na primeira vez, a sua mão a trespassava em todas as tentativas.

“O… quê…?” Questionou, ainda assustada, Lyse.

Aria, que a observara naquele instante, murmurou, com a voz bastante embargada.

“… Você… não… percebe…?” Questionou, Aria.

Lyse a observou, porém era apenas como se ela não mais estivesse no controle de suas ações e emoções: sua mente era um turbilhão de pensamentos, estes sendo fragmentos de memória e lembranças.

Algumas destas lembranças envolviam Aria, enquanto que outras eram relacionadas a sua casa; ela lembrava também de sentir medo, pânico, os mesmos pensamentos que agora ela estava a ter, conforme sua mão voltava a trespassá-la.

“LYSE!!!”

Foi o grito que, por fim, silenciou todos os seus pensamentos, dentro de sua mente e, este veio de uma única lembrança, cuja cobriu todas as demais: era a lembrança de fogo e chamas.

Como se, por fim, ela se lembrasse, Lyse voltou, temerosamente, para trás e pode ver.

Ela pode ver o que, antes era uma confortável e arrumada casa, agora se encontrava destruída, marcada por sinais de fogo, sendo a única coisa intacta, as pedras que compunham as paredes.

Os jardins, antes repletos de arbustos, flores e as árvores, agora possuíam um aspecto sombrio e triste, sem mais nenhuma flor, ou sinal de vegetação.

Ao voltar, ainda assombrada com todas aquelas constatações, para Aria, pode ver o portão, também sujo da marca de fuligem, cuja Aria sujara as suas mãos e o seu rosto.

Foi quando, finalmente, Lyse compreendeu: ela estava morta.

Lyse sentiu o seu corpo convulsionar-se e ela caiu para trás, tamanho o medo e o pavor proporcionado pelo choque daquela realidade tão violenta que ela recebera.

“L-Lyse… p-por quê…?” Murmurou, Aria, ainda aos prantos. “… P-Por quê… v-você teve que… morrer… e me deixar…?!?”

Lyse não tinha respostas: mesmo se ela estivesse com a cabeça centrada e organizada, ela saberia responder. A jovem agora revivia os momentos, como um filme, do dia quando ela morrera.

Cinco anos atrás...

Lyse havia deixado o ônibus, acompanhado de Aria e ambas caminhavam, juntas, a conversarem animadamente, partilhando os fones para que ela pudesse ouvir a música que Lyse ouvia, naquele momento.

“… É linda, Lys… você… sempre tem bom gosto para músicas!” Exclamou, animadamente, Aria e Lyse sorriu.

“Já eu… queria ter o seu dom para escrever… aquela história que você me mostrou, ontem, era linda!” Disse, gentilmente, Lyse e Aria sorriu, levemente corada.

“Ah… você só diz isso… por que gosta… de mim...” Disse, bastante embaraçada e afastando-se dos olhares de Lyse.

Esta sorriu e negou, enquanto acariciava dos longos cabelos negros de Aria, fazendo-a voltar a sua atenção para ela: logo que o fez, no entanto, Lyse aproveitou-se do momento para beijá-la brevemente nos lábios.

A princípio surpresa pelo repentino ato, logo Aria relaxou-se, deixando-se levar por aquele beijo e demonstração de carinho por parte de Lyse.

Quando, por fim, afastaram os seus lábios, Aria a afastou de si.

“… Ah… meus pais… podem estar olhando, Lys...” Disse, visivelmente embaraçada, Aria e Lyse sorriu.

“Desculpa...” Disse, Lyse e, apesar do receio, Aria a beijou novamente, porém de forma breve e logo se afastou dela, preparando-se para atravessar a rua, em direção de sua casa.

“Amanhã… é sábado… eu… vou te visitar e… passaremos a tarde juntas, ok?” Disse, Aria e Lyse sorriu, levemente emocionada, concordando com a cabeça.

“Ok… eu te esperarei!”

Logo, a lembrança de Lyse passou para ela já em sua casa, a preparar uma comida rápida e ela foi banhar-se: tinha pressa para logo se deitar e ir dormir, para que logo o sábado viesse. Porém, ela não percebeu quando, ao seguir em direção ao banheiro e ligar a luz, o gás da cozinha estava a vazar.

E a sua memória foi coberta por um clarão, logo a seguir pelas tonalidades vermelho-amareladas das chamas a consumir todo o local.

“… O gás...” Disse, Lyse, ainda sentada ao chão, com os olhares fixos no vazio e Aria, percebendo que, por fim, ela se lembrara, concordou timidamente com a cabeça.

“S-Sim...” Limitou-se em dizer, Aria, porém Lyse sequer a ouviu: em sua mente, ela continuava a se lembrar.

Lembrar dos eventos posteriores, dela mesma a repetir, todos os dias, durante todos estes anos, a mesma atividade: sair do colégio, pegar o ônibus e chegar em sua casa para que, no dia seguinte, como em um 'loop', repetisse tudo, novamente.

Questionava-se, no entanto, da velha senhora a falar com ela e resmungar em seguida. Porém, como na sua revelação, ela se recordou de, na realidade, estar parada no ponto e, ao seu lado, com assustados olhares, estava Aria e a velha senhora falar com esta, não com Lyse, sobre as horas e os resmungos do atraso do ônibus.

Na viagem, Lyse recordava-se agora e podia ver que Aria, o tempo todo, a observava, com olhares chorosos, mas a se conter.

E, quando por fim, chegaram em casa e Aria a segui-la, como se não acreditasse, em vê-la, a vagar, de volta para a destruída e abandonada casa.

Lyse, sem mais se conter, começou a chorar e, entregue ao desespero, tudo o que fez foi deixar um grito agoniado escapar de sua garganta: Aria tentou até consolá-la, mas sendo ela uma fantasma, ela sequer conseguiu tocá-la.

“L-Lys… m-me perdoa…” Disse, Aria, aos prantos, porém Lyse, recolhida, começou a chorar, desconsoladamente e ambas ali, ficaram, a chorarem.

Quando uma hora se passou, ambas já não mais choravam, porém exibiam estáticas expressões: Aria estava sentada, com as pernas encolhidas contra o peito e os seus braços a envolvê-las, recostava sua cabeça entre os joelhos, enquanto que Lyse estava deitada ao chão, de bruços, com fixos olhares em sua antiga casa.

Aria, no entanto, se assustou e voltou a realidade, quando Lyse se levantou, caminhando lentamente em direção da casa.

“L-Lys…? O-Onde… vai?” Questionou, Aria, mas não obteve nenhuma resposta: Lyse caminhou até um determinado ponto, próximo da intacta parede, próxima de onde ficava a janela onde, algum tempo atrás, ela avistara aquela 'estranha' garota, parada ao seu portão. Ali, ela viu algumas flores: algumas delas estavam murchas, porém outras pareciam recentes e ela tentou tocá-las, levemente.

“… F-Fui eu… eu sempre… estou aqui… deixando-as… no dia que nós...” Começou a dizer, Aria, aproximando-se lentamente, mas a sua tristeza impediu dela continuar o que dizia.

Lyse suspirou.

“… No dia que… nos declaramos…?” Questionou, Lyse, sem esperar por resposta. Um tanto quanto cabisbaixa, a jovem suspirou, novamente.

“… Aria… eu… sinto muito...” Disse, Lyse, com bastante pesar, olhando para Aria e esta negou com a cabeça, sentindo ímpetos em voltar a chorar.

“N-Não… f-foi sua… culpa… a c-culpa foi… minha...” Disse, Aria, não mais contendo as suas lágrimas. Vendo-a em tal estado, no entanto, Lyse se aproximou dela e, mesmo que não conseguisse tocá-la, fingiu acariciar a cabeça dela.

“… Nem… sua… a culpa foi de ninguém… foi uma… fatalidade...” Corrigiu-a, Lyse, mas Aria negou repetidas vezes.

“… S-Sim… foi… e-eu não… devia… e agora… nós… e-eu… eu quero… eu quero morrer também!!!” Exclamou, revoltosa e agoniada, Aria e Lyse arregalou os seus olhos.

“N-Não!” Exclamou, Lyse e Aria a observou, em choque.

“V-Você não… entende! E-Eu não… eu não p-posso… viver s-sem você!! N-Não mais!!!” Exclamou, Aria, com as lágrimas a verterem copiosamente.

Lyse, no entanto, concordou com a cabeça.

“V-Você pode… você viveu… todo este tempo… sem mim...” Respondeu, Lyse, porém Aria negou com a cabeça.

“… V-Você chama… isso de… viver?!” Questionou, incomodada, Aria e Lyse a observou.

“… Todos… os dias… eu apenas… vivo… sem alegria e todos os momentos… na tola esperança… que nada aconteceu!!! Pego… o ônibus para casa… sem você ao meu lado… v-vou dormir… a base de remédios… pois se não… eu fico as noites todas chorando...”

“Você… chama isso… de viver?!” Questionou, Aria e Lyse baixou a cabeça.

“Então… me deixe… m-morrer… eu… ficarei ao seu lado…” Continuou, Aria, ao perceber que Lyse nada dizia.

“Eu… não posso… permitir, Aria...” Disse, Lyse e Aria a observou, magoada.

“… V-Você… sequer pode me tocar… como… como pretende me impedir!?!” Questionou, Aria e Lyse suspirou.

Porém os seus olhares estavam diferentes do que antes, mas Aria não percebeu.

“Eu… posso não… poder te tocar, mas...” Começou a dizer, Lyse, porém Aria já caminhava para encontrar algo que ela pudesse usar para poder se matar.

Foi neste momento que aconteceu.

Lyse, com o corpo mais leve do que antes, moveu-se em um veloz movimento, indo de encontro de Aria e, quando ela se chocaram, o fantasma de Lyse se fundiu ao corpo de sua antiga namorada: Aria, com os olhos arregalados, de surpresa e espanto, caiu ao chão, em convulsões, enquanto que, em sua mente, várias memórias surgiram.

Memórias felizes e alegres, delas, juntas, como vários e pequenos filmes a transbordarem em sua mente, fazendo-a chorar: não mais de dor ou tristeza.

Mas, sim, de alegria.

Quando, por fim, a memória do beijo que elas se deram, na fatídica noite, Lyse reapareceu, ao lado de Aria, enquanto que esta, já mais relaxada, chorava copiosamente.

“Eu… Eu te… amo… Lys…” Dizia em repetidas vezes, Aria, recolhendo-se e Lyse, sentada ao seu lado, a tocou: desta vez, no entanto, ela pode finalmente senti-la, porém Aria sequer a sentiu, pois se tratava de um toque frio e mais leve do que um toque humano.

“… Eu… também… Ari...” Disse, pesarosamente, Lyse. “… Não se… mate… por favor...”

Aria nada disse, mas naquele momento, Lyse podia perceber que ela desistira da ideia, graças as lembranças felizes que ela incutiu em sua antiga amada.

“Fique… comigo...” Murmurou, Aria, aos prantos e Lyse sorriu, brevemente.

“Isso… eu posso fazer...”

Aos poucos, sem que elas percebessem, a luz do Sol começava a colorir a escuridão do céu, banhando-o com tons de laranja e dourado e Lyse se levantou, caminhando lentamente em direção de sua antiga casa.

“Volte… amanhã, Aria...”

Foram as últimas palavras que Lyse disse, naquele dia e Aria, ainda a chorar, concordou, porém, ao voltar a sua atenção para onde Lyse estava, esta já havia desaparecido.

E, todas as noites, desde então, Aria, ao voltar para casa, ela parava a frente do portão daquela casa e ali, ela podia ver o fantasma de Lyse: ela já não estava mais em silêncio ou com a dor da realidade a consumir-lhe.

Ela estava feliz, mesmo que não mais estivesse viva.

No entanto, o que ela não sabia era que, aos poucos e sem o seu consentimento, ela se alimentava lentamente da vida da jovem Aria.

Até que, dez anos se passaram e, diagnosticada por uma forte fraqueza, a jovem veio a falecer, o que foi uma terrível dor para os seus pais e para os demais daquele bairro que a conheciam: seus amigos e conhecidos mais próximos, cujos conheciam o seu relacionamento com Lyse, optaram por enterrá-la ao lado dela.

Dois túmulos simples, situados perto do local onde as duas haviam sido encontradas: Aria, em seus últimos momentos, fora encontrada a segurar uma flor – um lírio –, deitada ao lado do túmulo de Lyse.

Suas últimas palavras foram suas últimas juras de amor por sua antiga namorada.

— Fim -

Notas finais
Esta história me veio em mente após ler alguns capítulos do mangá Their Story, porém, excetuando o elemento estudantil, sequer foram utilizados outros mais.

A ideia original da história envolvia contar o dia a dia da personagem, ou melhor explicando: seria contar uma história onde o foco seria em uma única garota e o seu percurso até o lar. Porém, como amo contos sobrenaturais - histórias de fantasmas são as minhas prediletas! -, resolvi inserir o evento sobre Lyse, a protagonista. Na primeira ideia, ela voltaria para casa e, na realidade, ela nunca saberia o que realmente havia ocorrido, apenas o leitor.

No entanto, senti que ficaria deslocada, a ideia e o fato da velha senhora no ponto de ônibus, a conversar com Lyse, ficaria estranho, então acresci o elemento 'yuri' na história, na forma de Aria.

Apesar de curta, foi algo que eu gostei de trabalhar. Talvez eu volte a fazer algo do tipo, em breve.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!