A Lona Romana
1 One-shot
Notas iniciais
Marcelo estava deitado em sua cama no hotel em Tókio, desfrutando das mordomias do lugar, descasando preguiçosamente antes do jantar.
Yuu entrou no quarto, abrindo a porta estrondosamente e Marcelo se assustou.
– Não bate mais na porta, não? – o garoto vociferou.
– Se não queria que ninguém entrasse, devia ter trancado... – Yuu disse, rindo e fechando a porta. – O que está fazendo?
– Nada... – o garoto ainda parecia mal humorado, o que fez Yuu rir ainda mais, jogando-se na cama, com os braços atrás da cabeça ao lado de Marcelo. – Por quê?
– Sei lá... A gente podia sair então... — o mais velho disse, inexpressivamente, fazendo o outro rir e sacudir a cabeça.
– Você não devia se preparar pro show de amanhã? – Marcelo perguntou, desconfiado e Yuu lhe encarou, surpreso.
– Se não quer sair é só falar... – ele brincou.
– Ai, idiota! Não é isso! Só não quero ser o culpado por você não ter um bom desempenho no show! – o garoto respondeu, alarmado e Yuu riu.
– Não se preocupe com isso. Meu desempenho no show vai ser o mesmo se eu ficar trancado dentro do quarto descansando ou com você na rua a noite inteira – Yuu riu, passando o braço pelos ombros de Marcelo e bagunçando-lhe os cabelos já desalinhados.
– Ah, desculpe, grande e insuperável Aoi! – o garoto debochou. – Eu não deveria duvidar de seus dons artísticos dessa maneira...
– Está perdoado! – Yuu brincou. – Então, aonde quer ir? Tomar um refrigerante? – ele disse, entre gargalhadas e levou um soco no ombro.
– Vai se foder! – Marcelo disse, bravo.
– Ah, isso não foi nada gentil... Eu não vou te empurrar no balanço do parquinho se continuar com essa boca suja... – Yuu ria, desvairadamente, ainda apanhado do mais novo.
– Você quer morrer, quer? Eu posso providenciar!
Marcelo fechou o punho, mas Yuu foi mais rápido e segurou a mão do garoto, prendendo seu braço nas costas com força.
– Ter duas irmãs mais velhas foi tão ruim pra você quanto foi pro Kouyou – Yuu zombou, vendo o adolescente tentando se soltar.
– Obrigado pelo diagnóstico, doutor Shiroyama! – ele disse, sarcástico.
– Que bonitinho, criança! – Yuu soltou-o, voltando a se deitar na cama.
– O que foi? – Marcelo bufou, sentando-se sobre os calcanhares como um monge e encarando a cara divertida do mais velho.
– Você acha que foi de graça... – Yuu gargalhou.
– Yuu, você ta bêbado?
– Ah, como se você já tivesse me visto bêbado, né, criança? – Yuu soltou uma risada divertida.
– Cacete! Pára de me chamar de criança! – Marcelo explodiu, furioso.
– Tá bem, ta bem! Não precisa ficar bravinho – Yuu sabia o quanto o outro ficava irritado ao ser tratado daquele jeito. – Se apronta pra gente dar uma volta... – o guitarrista disse, pondo-se de pé.
– Por onde? – Marcelo perguntou desconfiado, mas não conseguindo esconder sua ansiedade.
– Sei lá... Só respirar um ar... Ver a noite... – Yuu suspirou.
– Yuu, eu acho que você é gay! – Marcelo zombou.
– As duas senhoritas que me acompanharam ontem à noite acham que você está errado...
– “Respirar um ar”... “Ver a noite”... Não acho que eu esteja errado!
– A noite de Tókio é muito bonita, seu babaca! Agora pára de falar merda e se troca – Yuu riu.
– Então saí – Marcelo disse. – Ou além de gay é pedófilo também?
– Você disse que não era criança... – Yuu riu, cínico e Marcelo arregalou os olhos e corou.
– Saí daqui, porra! – o garoto gritou e Yuu caminhou até a porta, gargalhando.
– E depois eu que sou gay... Pelo menos eu não dou chilique...
– Yuu, eu vou te afogar na Baía de Tókio!
– Então, espero que saiba tocar guitarra como eu... Porque o the GazettE vai precisar de alguém no meu lugar e como foi você quem me matou...
– Cala a boca e só saí, Yuu! Nem se eu te matasse, eu teria paz na minha vida... – o garoto empurrou Yuu e trancou a porta. Vestiu sua calça jeans escura, uma camiseta branca de manga comprida e uma blusa preta de manga curta por cima. Pegou o casaco, o cachecol e o gorro. Estava sempre frio lá fora.
Saiu de seu quarto, guardando a carteira no bolso e viu Yuu encostado à parede.
– Vamos? – Marcelo perguntou, se aproximando.
– Não vai avisar sua irmã que a gente vai sair? – Yuu disse, sério, parecendo pela primeira vez o mais velho e responsável.
– Ela está com o Kouyou... E eu não quero nem saber o que estão fazendo... – Marcelo sacudiu a cabeça, afastando tais pensamentos.
– A ignorância às vezes é uma benção, não? – Yuu foi seguindo pro elevador ao lado do outro.
– Demorei pra aprender isso... – Marcelo suspirou.
Os dois saíram do hotel, caminhando pelas ruas ainda movimentadas.
– Você não gosta de ficar muito tempo trancado, né? – Marcelo observou, sem olhar o outro.
– Está estampado na minha cara? – Yuu perguntou, divertido, girando o chaveiro.
– Não – Marcelo disse, simplesmente. – Mas é que você arranja qualquer desculpa pra sair do hotel...
– Ah... – Yuu assentiu com a cabeça. – Eu me sinto meio sufocado... É quase claustrofóbica essa vida...
– Saquei – Marcelo sacudiu a cabeça afirmativamente, esfregando uma mão na outra pra aquecê-las.
– Mas antes eu saía menos... Os outros não... Entendem, eu acho... – sua voz foi morrendo.
– O que eles não entendem? – Marcelo perguntou, confuso.
– A mim... – Yuu suspirou, pesadamente. – Não me entenda mal... – ele completou, preocupado. – Nós cinco somos muito amigos, mas... Quando se convive tanto tempo como nós convivemos, cada um luta com mais força por sua privacidade... Seu espaço... – Não sei se você consegue entender isso... Você e suas irmãs têm uma harmonia misteriosa...
– Então, o que no fundo quer dizer é que vocês juntos são cinco solitários?
– Não. Que, às vezes, eu me sinto um intruso... Solitário mesmo perto deles... É vergonhoso... – ele riu, triste.
– Não te acho uma vergonha – Marcelo colocou as mãos nos bolsos. – Sabe que é como se fosse meu irmão mais velho...
– Não sou o tipo de irmão em que você se espelharia...
Marcelo riu.
– É, eu acho que não...
– Que bom – Yuu suspirou, aliviado. – Não sou mesmo um bom exemplo e sua irmã me mataria se você fosse como eu em qualquer aspecto...
– Não tenho dúvida!
Os dois continuaram andando em silêncio. Yuu tirou o maço de cigarros, colocou um na boca e acendeu. Marcelo fez uma cara feia.
– Eu nem faço idéia de como você encara toda essa situação... – ele disse e Marcelo ergueu as sobrancelhas.
– Que situação?
– Estar aqui no Japão, nessa viagem não planejada, suas irmãs namorando o Taka e o Kou... Sei lá, quantos anos você tinha quando começou a curtir the GazettE?
– Dez – Marcelo riu. Sabia que era uma idade muito pequena e da surpresa que Yuu teria.
– Era praticamente um bebê – Yuu riu.
– Vai se foder! – Marcelo respondeu, zangado.
– Eu paro... – Yuu suspirou e deu uma tragada no cigarro, soprando a fumaça contra o vento, pra longe do outro.
– É estranho... Estar nessa situação, sabe? Não é algo que eu poderia ter previsto...
– Não, não poderia... Mas, você não gosta da situação? Não se sente à vontade com o namoro deles?
– Não é nada disso... É só... Nojento! – Marcelo fez uma careta e Yuu gargalhou.
– Entendo... Eu acho que você tem muita sorte de ter irmãs tão legais...
– É, eu tenho mesmo...
Os dois caminharam novamente em silêncio, quando algumas fãs foram pedir autógrafos de Aoi.
– Vida de famoso não é fácil, né? – Matheus brincou, quando todas as garotas foram embora.
– Tem seus altos e baixos... – Yuu suspirou, coçando a cabeça, sério.
– E quais são os baixos? – Marcelo riu.
– Não poder andar na rua em paz, ficarem inventando coisas sobre a sua vida... Todo mundo deseja a fama, mas não é fácil lidar com toda atenção que ela atrai...
– Vocês cinco até que se saem bem...
– Acho que sim... – Yuu continuou andando, mas percebeu que o outro tinha parado. – O que foi? – quando se virou, viu os olhos do garoto brilhando, vidrados mais a frente numa exposição de mitologia romana.
O mais velho voltou alguns passos e estralou os dedos na frente do garoto, que pareceu despertar do transe, mas mantinha o sorriso eufórico e não desviava o olhar do cartaz.
– Você deve estar brincando... – Yuu sacudiu a cabeça e Marcelo ergueu as sobrancelhas, recobrando seu autocontrole.
– O quê? – o garoto disfarçou.
– Vem... Vou te mostrar um dos pontos altos de ser famoso – o mais velho caminhou até a exposição.
Yuu conseguiu convencer os organizadores que, se ele fosse visto dentro da exposição, seria uma grande publicidade, por isso, os dois entraram sem problemas.
Marcelo rodou maravilhado por cada canto do interior da lona, um entendedor muito melhor que os monitores que ali estavam. Yuu riu do deslumbramento do outro, ouvindo atentamente tudo que o garoto dizia, entusiasmadamente. Todos começaram a seguir o músico e Marcelo concordou que já estava na hora de voltar pro hotel. Agradeceram na saída e voltaram a caminhar.
– Foi incrível, Yuu! – Marcelo ainda estava entusiasmado. – Muito obrigado!
– Que isso, Marcelo. Foi muito... Educativo – o guitarrista riu. – Como consegue armazenar tantas informações?
Marcelo deu de ombros.
– Eu gosto... – os dois ficaram em silêncio. – Será que o jantar já foi servido? Tô morto de fome!
– Sua fase de crescimento ainda não acabou, é?
– Você disse que ia parar, porra!
– Desculpa, não resisti!
– Você é mais criança que eu...
– Ué... E você acha que a gente se dá bem por quê?
– É, né? Seu babaca – Marcelo riu e Yuu passou o braço por seus ombros, despenteando-lhe os cabelos.
Os dois foram pro hotel, ainda brincando e se ofendendo e se empurrando como duas crianças de primário presas em corpos maiores. Porque era assim que os dois sempre eram juntos, não importava a diferença de idade entre eles e sim como os dois se entendiam.
Fale com o autor