A Loba e o caçador

17 Capítulo 16 - Sombras ao amanhecer


A manhã nasceu fria, coberta por uma névoa prateada que parecia ter se infiltrado por entre as frestas da floresta e da alma de quem ali vivia.

O sol, tímido, mal conseguia atravessar o manto cinza sobre Forks.

Renesmee acordou antes dele — não o sol, mas ele. Jake.


Por um instante, esqueceu o mundo.

Ele dormia ao seu lado, o corpo relaxado, o rosto calmo pela primeira vez em dias.

Havia uma leve sombra de barba em seu queixo e o cabelo desgrenhado caía sobre a testa, de um jeito que fez o peito dela se apertar.

Na penumbra do quarto, ela o observou como quem olha algo que teme perder.


Mas o silêncio não durou.

O som de passos firmes ecoou pelo corredor, seguido por uma batida contida na porta.


— Renesmee? — A voz de Edward.


Jake abriu os olhos, instintivamente em alerta.

Renesmee se apressou em se levantar.

— Fica aqui. Eu cuido disso — sussurrou.


Edward não esperou permissão. Entrou.

O olhar dele, frio e cortante, passou por ela e pousou sobre Jake, ainda sentado à beira da cama.

A tensão se instalou como um trovão silencioso.


— Ele dormiu aqui? — Edward perguntou, cada palavra um golpe.


Renesmee cruzou os braços.

— Sim. Ele precisava descansar, estava ferido.

— Ele é um caçador. — O tom era baixo, mas carregado de veneno contido. — E você sabe o que isso significa.


Jake se levantou, alto, firme, mesmo desarmado.

— Com todo o respeito, senhor Cullen, eu não sou uma ameaça pra ela.


— Ainda assim, você é treinado pra matar o que ela é. — Edward deu um passo à frente. — O que nós somos.


Bella apareceu à porta, a voz calma, mas a expressão preocupada.

— Edward, por favor…


— Não, Bella. — Ele não desviava os olhos de Jake. — Quero ouvir da própria boca dele o que o mantém aqui.


O silêncio se estendeu. Jake olhou para Renesmee, depois voltou-se para Edward.

— Ela.


A palavra soou simples, mas carregava tudo.

Edward cerrou o punho, mas Bella tocou seu braço antes que dissesse algo.


— Ele salvou a nossa filha. — A voz dela era firme, doce e devastadora ao mesmo tempo. — E, pelo que vi, ela confia nele.


Renesmee respirou fundo.

— Pai… eu sei o que estou fazendo.

Os olhos de Edward suavizaram por um segundo. Ele a olhou — e viu a mulher onde antes havia apenas a menina.

Suspirou e recuou um passo.

— Espero que saiba mesmo. Porque o que está vindo… vai exigir mais do que confiança.


Ele saiu, deixando um rastro de tensão no ar.

Bella lançou um olhar breve para o casal e o seguiu em silêncio.


Renesmee se virou para Jake.

— Sinto muito por isso.


Ele deu um meio sorriso, cansado.

— Não precisa. Eu faria o mesmo se tivesse uma filha como você.


Ela riu de leve, mas a risada se apagou rápido.

— Você fala como se eu fosse algo que precisa de proteção.


Jake se aproximou.

— Talvez não precise. Mas eu quero proteger. — O olhar dele se prendeu ao dela. — É diferente.


Por um momento, o tempo pareceu parar.

Ela o tocou no rosto, os dedos roçando a barba por fazer.

O gesto era pequeno, mas dizia mais do que qualquer promessa.

O som de motores vindo da estrada que levava à casa quebrou o clima entre eles.

Renesmee franziu o cenho.

— Isso é estranho… ninguém deveria vir hoje.


Ela desceu primeiro, sentindo o instinto de alfa despertar dentro dela.

Quando a caminhonete escura estacionou diante da casa, um cheiro familiar, selvagem, veio com o vento.

Cheiro de terra, chuva e lobo.


Leah.


A loba desceu do veículo com o mesmo olhar de sempre: frio, arrogante, mas com algo novo — urgência.

Renesmee cruzou os braços.

— O que está fazendo aqui?


Leah a mediu de cima a baixo antes de responder.

— Notícias. Da Ordem. E não boas.


Jake surgiu na varanda atrás de Renesmee. Leah desviou o olhar para ele e sorriu, um sorriso que não tinha nada de amistoso.

— Vejo que a alfa anda ocupada com novos aliados.


Renesmee cerrou os punhos.

— Diga logo o que veio dizer.


Leah deu um passo à frente.

— Seth mandou um aviso. A Ordem está se movendo. Eles descobriram que um dos híbridos desaparecidos foi morto… e que você estava lá, Renesmee.


O ar pareceu congelar.

— Eles sabem de mim? — Renesmee perguntou.


— Ainda não tudo. Mas estão procurando. — Leah a encarou, o tom misto de respeito e provocação. — E parece que seu caçador de estimação está no topo da lista de interesse deles.

Jake franziu o cenho.

— O que isso significa?


Leah deu um meio sorriso.

— Que talvez não sejamos tão diferentes quanto você pensa, caçador. A Ordem caça lobos. E você… caça por instinto.


Renesmee avançou um passo, o olhar faiscando.

— Cuidado com o que diz, Leah.


A loba mais velha levantou as mãos, fingindo rendição.

— Só estou avisando, alfa. Mas se quiser continuar dormindo com o inimigo, é problema seu.


O silêncio foi cortante.

Jake deu um passo à frente, o tom baixo, mas firme.

— Você devia medir as palavras.


Leah sorriu, provocante.

— Só digo o que vejo. E o que vejo… é uma loba distraída demais pra perceber o que se aproxima.


Ela entregou um envelope amarrotado a Renesmee.

— Informação sobre o próximo ataque. Um aviso… ou uma armadilha. Decide você.


Antes que alguém respondesse, Leah já estava voltando para o carro.

— Ah — disse por cima do ombro — e cuidado, Ness. Nem todos que dizem te amar, realmente te escolhem.


O motor rugiu, e o veículo desapareceu estrada abaixo.


Renesmee ficou parada, o envelope nas mãos trêmulas.

Jake se aproximou, tentando falar, mas ela levantou a mão.

— Não agora.

Ela subiu as escadas de volta para o quarto, sem olhar para trás.

Jake a seguiu em silêncio, mantendo distância.


Quando ela finalmente abriu o envelope, o sangue gelou nas veias.

Dentro, havia uma foto — borrada, mas inconfundível.

Ela, em forma de loba, e Jake, ferido, nos braços dela.


A Ordem sabia.

E o jogo tinha acabado de mudar.













Notas finais
Curiosa (o)?