A Loba e o caçador
10 Capítulo 9 - Sob a pele da fera
O frio da noite mordia a pele.
Renesmee estendeu a mão, hesitante, os olhos fixos em Jacob.
Ele a segurou — e por um instante, o mundo pareceu parar.
Mas o som das flechas os despertou da ilusão.
Um assobio cortante atravessou o ar, seguido de um estalo seco e o som abafado de dor.
Jacob cambaleou, a flecha cravada no ombro.
— Jacob! — Renesmee gritou, tentando sustentá-lo quando ele vacilou.
O cheiro do sangue o cercou, forte, quente, perigoso demais.
Ele tentou se afastar.
— Vá… — murmurou, a voz rouca. — Eles estão atrás de mim, não de você.
Renesmee o segurou com força.
— Eu não te deixo.
Mais uma flecha cruzou o ar, batendo no tronco ao lado deles.
Não havia tempo.
O olhar dela mudou — os olhos dourados começaram a brilhar como brasas.
O corpo tremeu, o instinto tomando conta antes que a razão pudesse interferir.
Jacob a fitou, ofegante.
— O que está fazendo?
— Te salvando — respondeu ela, e a voz dela já soava diferente, profunda, gutural.
O estalo veio — o som do corpo dela se alterando, músculos se expandindo, ossos se rearranjando sob a pele.
A lua iluminou a transformação: o brilho do pelo prateado, o contorno elegante e selvagem da loba que emergia.
Em segundos, a mulher se fora.
Diante dele, a fera respirava pesada, viva, pulsante.
Jacob deu um passo para trás, surpreso e fraco.
A loba aproximou-se, o focinho roçando em seu braço ensanguentado.
Os olhos dourados diziam o que palavras jamais poderiam: confie em mim.
Jacob hesitou — depois assentiu.
Com esforço, apoiou-se no lombo da loba, segurando-se no pelo espesso e quente.
Assim que ele se firmou, ela disparou pela floresta.
O vento rasgava a escuridão.
As árvores passavam como fantasmas, o som das patas ecoando ritmado na terra molhada.
Jacob sentia o corpo dela vibrar sob o seu, cada músculo tenso, cada respiração sincronizada à dele.
O sangue escorria do ferimento, mas o calor da loba parecia conter a dor, como se o toque dela anestesiasse o sofrimento.
Era impossível dizer onde terminava o medo e começava o fascínio.
Ele encostou o rosto no pescoço dela, o pelo úmido, quente.
Sentiu o coração dela bater — forte, rápido, em perfeita harmonia com o seu.
O imprint queimava sob a pele, invisível, mas absoluto.
Atrás, o som da perseguição desaparecia.
Nem mesmo a Ordem ousava seguir uma loba enfurecida na noite.
Quando finalmente parou, estavam em uma clareira banhada pela luz da lua.
A loba respirava ofegante, o corpo coberto de suor e poeira.
Com cuidado, ajoelhou-se para que ele pudesse descer.
Jacob cambaleou, os joelhos cedendo.
A loba ficou ali, imóvel, observando.
Os olhos dourados não piscavam — havia medo, dor… e algo mais.
Então, lentamente, o corpo dela começou a mudar.
O som dos ossos voltando ao lugar, da pele se fechando sobre o humano.
Em segundos, Renesmee estava ali novamente, nua, coberta pelo próprio cansaço.
Jacob desviou o olhar, mas o coração insistia em acompanhá-la.
Ela se ajoelhou ao lado dele, tocando o ferimento com mãos trêmulas.
— Está queimando… — murmurou ela. — É prata.
Ele riu, sem humor.
— Que ironia. A Ordem sempre soube como ferir o que teme.
Renesmee fechou os olhos, concentrando-se.
Uma luz tênue começou a brotar de suas mãos — o dom que herdara da linhagem Cullen.
A pele de Jacob pulsou, a dor diminuiu, e o metal caiu da ferida, dissolvido.
Jacob a olhou, surpreso.
— Você curou.
— Apenas o bastante para você viver — respondeu ela, exausta.
Por um instante, o silêncio tomou conta da clareira.
A lua se refletia no rio próximo, e o vento parecia prender a respiração.
— Por que fez isso, Renesmee? — ele perguntou enfim, a voz baixa. — Por que arriscar tudo por mim?
Ela hesitou.
Depois, olhou-o nos olhos — e a resposta veio com uma força que o desarmou:
— Porque, mesmo quando tento te odiar, meu coração corre até você.
Ele a encarou, sentindo o mundo se desfazer ao redor.
— É o imprint, não é?
Renesmee assentiu, devagar.
— Não é escolha. É destino.
Jacob se aproximou, o rosto a poucos centímetros do dela.
— E o que o destino quer de nós?
Ela sorriu, triste.
— Que lutemos contra o que somos... ou que aceitemos o que fomos feitos para ser.
Por um instante, ficaram apenas ali, respirando o mesmo ar.
Dois seres marcados pelo mesmo fogo.
E nas sombras da floresta, Leah observava — os punhos cerrados, o olhar ferido.
A loba que amava o homem… e odiava a mulher que ele nunca deixaria de seguir.
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