A Loba e o caçador
31 Capítulo 30 - A caçada Invertida
O ar da madrugada pesava sobre o vale. Do lado de fora, as árvores se agitavam como se pressentissem o que estava por vir. Dentro da casa, o fogo ainda crepitava, mas a calma havia desaparecido — substituída por uma tensão cortante.
Alice permanecia imóvel diante da janela, os olhos perdidos em alguma visão distante. Sua voz, quando veio, soou fria e precisa:
— Eles estão vindo. Não é mais uma possibilidade. É agora.
Jacob se levantou imediatamente, o corpo reagindo antes da mente. — Quantos?
— Muitos. — respondeu Alice. — Embry está com eles. E Leah... ela lidera a ofensiva.
O nome da loba pairou como uma ferida aberta no ar. Renesmee, apoiada contra a parede, respirou fundo. Sentia o instinto querendo dominá-la, pedindo a transformação, o grito primal que sempre a libertara. Mas o corpo agora era outro. Havia algo mais dentro dela — uma nova vida que a impedia de se entregar à fera.
Ela tentou mesmo assim. As veias pulsaram, o calor subiu pela pele, os olhos cintilaram com o brilho âmbar que anunciava a loba... mas nada. Um espasmo atravessou seu corpo, e ela caiu de joelhos, arfando.
— Ness! — Jacob correu até ela, ajoelhando-se ao seu lado.
— Eu… não consigo — murmurou, ofegante. — Algo me impede… o bebê...
Jacob a segurou, desesperado. O coração dele batia forte, o medo estampado no rosto.
— Então você não vai lutar. — disse, a voz firme, mas trêmula. — Eu luto por você.
Renesmee o olhou, as pupilas dilatadas de angústia. — Jake, eles são muitos. São humanos, caçadores. Você não pode enfrentar todos sozinho.
— Eu nasci pra isso. — respondeu ele, segurando o rosto dela entre as mãos. — Mas agora… eu luto por você, não contra você.
Atrás deles, Edward se aproximou em silêncio.
— Ele tem razão, Ness. — disse, com a calma sombria que só os séculos trazem. — Você e o bebê são nossa prioridade.
Carlisle já organizava o restante da família. Emmett afiava as estacas de metal como se fossem brinquedos. Jasper, calado, movia-se com precisão militar. Bella, pálida e tensa, se colocou ao lado da filha.
— Nós lutaremos juntos — disse ela, com uma firmeza que fez Jacob encará-la com respeito.
Renesmee tentou se erguer, mas Jacob a impediu. — Fique aqui. Protegida.
Ela segurou a mão dele. — Não. Se você for, eu vou também.
— Não, Ness! — ele retrucou, a voz rouca. — Você está vulnerável. Eu não vou perder você também.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas havia algo mais ali — fúria e amor.
— Então volte pra mim, Jacob. Não como caçador… mas como o homem que eu amo.
Ele assentiu, encostando os lábios na testa dela. — Eu volto. Sempre volto.
Do lado de fora, o som dos passos e o cheiro de pólvora romperam o silêncio. As luzes dos archotes cortavam a escuridão, revelando dezenas de figuras humanas avançando entre as árvores — a Ordem, armada e impiedosa. À frente, Embry e Leah.
Jacob saiu para a varanda, o rifle nas costas, o olhar frio e determinado. Edward, Jasper e Emmett tomaram posição. Bella e Alice ficaram junto de Renesmee e Caren, que estendeu as mãos e deixou que um brilho prateado emanasse delas — seu dom criando uma barreira sutil de energia, quase invisível, ao redor da casa.
Leah avançou primeiro, em forma de loba, o pelo negro faiscando sob a luz da lua. Embry vinha logo atrás, com o olhar turvo de ódio e ressentimento.
— Jacob! — rugiu Leah, a voz ecoando entre os troncos. — Não é tarde pra voltar pro seu lugar.
— Meu lugar é com ela. — respondeu ele, firme, apontando a arma. — E se tocar em Renesmee, eu juro que não vai sair viva.
O primeiro disparo partiu do escuro — e a guerra começou.
Emmett foi o primeiro a saltar, derrubando dois homens de uma só vez. Jasper se movia como uma sombra, desviando e atacando com precisão. Edward lia os movimentos antes que acontecessem.
Mas eram muitos. A cada queda, surgiam outros.
Leah investiu contra Jacob, mas ele desviou, usando a força e a agilidade que os anos de treinamento lhe deram. O rugido da loba ecoou como trovão. Ele girou, disparou — o tiro acertou o chão, rente às patas dela. Leah recuou, furiosa, os olhos brilhando em puro ódio.
Dentro da casa, Renesmee observava pela janela, o coração em desespero. Tentou se erguer novamente, mas as pernas fraquejaram.
— Caren, eu preciso ir! — gritou.
— Você não pode, Ness! — respondeu a prima, mantendo a barreira. — Você está protegendo algo maior agora!
Renesmee levou a mão ao ventre, sentindo o pulsar de uma vida ali. Lá fora, o som das balas, dos gritos e da madeira quebrando se misturava ao seu próprio coração acelerado.
Jacob, ferido no ombro, ainda lutava. Viu Embry se aproximar, os olhos manchados de raiva e arrependimento.
— Por que, Embry? — gritou ele, desviando de um golpe.
— Porque ela nunca olhou pra mim como olha pra você! — rugiu Embry, avançando.
Os dois se chocaram com força, caindo no chão coberto de folhas e sangue. Jacob conseguiu desarmá-lo, mas hesitou por um segundo — um segundo que quase custou sua vida. Leah saltou novamente, mas uma rajada de luz prateada atravessou o ar — Caren. Sua barreira expandira, atingindo a loba e a fazendo recuar, atordoada.
Renesmee correu até a porta, o instinto vencendo o medo. Jacob a viu e, mesmo exausto, ergueu-se.
— Volta pra dentro! — gritou.
Mas ela já estava lá, ajoelhada ao lado dele, tocando seu rosto ensanguentado.
— Eu te disse pra voltar pra mim — sussurrou ela.
— E voltei. — respondeu ele, entre um sorriso e um gemido. — Sempre volto, Ness.
Leah recuava, os humanos se desorganizavam, e os Cullens — mesmo em menor número — permaneciam firmes. A batalha cessava, por hora.
No horizonte, o primeiro raio de sol tingia a floresta de dourado. O chão estava marcado por sangue e fumaça.
Jacob segurava a mão de Renesmee, o corpo cansado, mas o olhar firme.
— Eles voltam.
— Eu sei — respondeu ela. — Mas da próxima vez, não vão nos pegar de surpresa.
Ele a puxou para perto, encostando a testa na dela.
— Você, eu, nosso bebê... somos a nova aliança agora.
E enquanto o sol nascia, iluminando as ruínas da noite, a loba e o caçador sabiam: a verdadeira guerra ainda estava por vir.
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