A Loba e o caçador

19 Capítulo 18 - Sob o mesmo fogo


A fogueira já havia se apagado, restando apenas brasas, pequenas manchas de luz tremulando no chão escuro.

A noite estava fria e úmida, e o ar trazia o perfume da floresta depois da chuva — terra, pinho e o leve toque metálico do sangue ainda fresco da caçada.


Renesmee caminhava à frente, em silêncio. Jake a seguia a poucos passos, observando o balanço suave dos cabelos dela sob a luz pálida da lua. Nenhum dos dois falava. A tensão entre eles era densa, quase física, mas não havia espaço para palavras: ambos ainda sentiam o peso do que acontecera durante o conselho.


Quando chegaram à casa — uma construção antiga de madeira escura, escondida entre as árvores — Renesmee empurrou a porta e entrou sem olhar para trás. Jake hesitou antes de segui-la. Por um instante, pensou em recuar, em se afastar antes que as coisas se tornassem irreversíveis. Mas o som da voz dela o deteve.


— Jake…

Foi suave, quase um pedido.


Ele entrou.

A sala era ampla, aquecida por uma lareira acesa. O fogo refletia nas paredes e projetava sombras que pareciam se mover vivas.

Renesmee estava perto da janela, com as mãos apoiadas no parapeito, o olhar perdido na escuridão.


— Eu não devia ter deixado Leah falar daquele jeito — disse ele, quebrando o silêncio. — Ela passou do limite.


Renesmee não se virou. — Eu precisava que ela mostrasse quem realmente é. Às vezes o inimigo se revela quando acha que tem poder.


Jake se aproximou, devagar. — Você parecia pronta pra despedaçá-la.


— Eu estava — respondeu ela, com um leve sorriso cansado. — Mas isso é o que ela queria. Me fazer perder o controle.


Houve um breve silêncio. O fogo estalou alto, e Jake percebeu que ela tremia levemente, mais de emoção do que de frio. Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou o braço dela.


Renesmee virou-se então, e o olhar dos dois se encontrou.

Foi como se o mundo lá fora desaparecesse.


Os olhos dela refletiam a chama da lareira — dourados, selvagens, mas também humanos, cheios de algo que ele não sabia nomear.

Jake sentiu o impulso de recuar, mas ela não deixou.

Renesmee ergueu o olhar.

— Ainda tem medo de mim, Jake? — murmurou.


Ele balançou a cabeça, lentamente. — Não de você. Do que sinto quando estou perto.


A resposta dela foi um sussurro. — Então para de fugir.


O toque se transformou em aproximação.

O calor das mãos dela subiu pelo pescoço dele, enquanto o espaço entre os dois desaparecia. A testa de Jake encostou na dela, e por um momento, ficaram apenas assim: dois mundos opostos tentando encontrar um mesmo compasso.


A respiração se misturou, e o ar pareceu tremer.

O primeiro beijo não foi suave — foi urgente, cheio de força contida.

Mas depois, veio o segundo. E o terceiro. Cada um mais lento, mais profundo, como se o tempo tivesse deixado de existir.


Jake a segurou pela cintura, e ela o deixou guiar o movimento, rendendo-se àquilo que já não podiam negar. O toque, antes tímido, se tornou familiar — como se já se conhecessem há séculos.

O calor da pele, o som do coração, o arrepio breve ao contato dos dedos.


Não havia pressa.

Havia intensidade.


O fogo parecia reagir, subindo em labaredas quando ela o puxou mais para perto, até que o limite entre o que era desejo e o que era vínculo se apagou completamente.


O beijo se alongou, e o mundo se dissolveu — não restou nada além de respiração e batimentos compassados.


Quando o silêncio voltou, o fogo ainda queimava, agora mais calmo, iluminando os dois sob uma luz suave.

Renesmee encostou o rosto no peito dele, os olhos semicerrados, o corpo relaxado.


Jake passou os dedos pelos cabelos dela, sem dizer nada.

Ela sorriu, quase imperceptível, e sussurrou:

— Agora entendo… o que era o que me chamava em você.


Ele não respondeu, mas o olhar disse tudo: ele também sentia.


Era o imprint.

O vínculo que nem o sangue, nem o destino poderiam romper.


Lá fora, a floresta repousava em silêncio, como se o mundo esperasse o desfecho do que acabara de começar.

— Eles estão juntos. — A voz saiu baixa, quase um sussurro. — Mais do que imaginávamos.


Do outro lado, a resposta veio fria:

— Então está feito. Prepare o próximo passo.


Seth desligou, mas não conseguiu se mover.

No fundo, algo no olhar de Renesmee durante o conselho, algo na forma como Jake parecia diferente perto dela…

Tudo isso começava a mexer com ele.


A missão era simples: observar, enganar, esperar o momento certo.

Mas agora havia dúvidas — e nas sombras, até uma dúvida podia se tornar um perigo mortal.


O vento soprou forte, apagando o último vestígio de brasa no chão da floresta.

Seth ergueu o capuz e desapareceu na noite, enquanto dentro da casa, Renesmee e Jake dormiam sob o mesmo fogo — sem imaginar o que a aurora traria.

Ele respirou fundo, tentando afastar as dúvidas.

Mas, à medida que o sol se erguia sobre a floresta, a linha entre lealdade e traição tornava-se cada vez mais tênue.


E nas sombras, Leah já se preparava para o próximo movimento — o que poderia selar o destino de todos.