A Little Piece Of Heaven

7 Capítulo 7 - FlashBack


Papai, mamãe e eu éramos felizes em Aberystwyth, em uma casa simples, mas que satisfazia todas as nossas necessidades. Lembro-me como se fosse ontem. Foi no meu aniversário de sete anos. Papai estava voltando do trabalho pelo caminho sinuoso e estava nevando. Mamãe e eu nos preparávamos para sair, comemorar meu aniversário em um parque de diversões da cidade, como era de costume. Toda a alegria acabou quando ligaram para mamãe pedindo para que fosse ao hospital o mais rápido o possível. Chegamos ao pronto socorro, eu de mãos dadas a minha mãe. Queria ir junto a ela para ouvir o que o médico dizia, mas a enfermeira me pegou, me forçando a ficar longe dela. Eu só me lembro de ver mamãe se ajoelhar no chão enquanto me debatia no colo da enfermeira. Era somente uma criança, mas entendi tudo o que aconteceu. Depois desse dia, nunca mais nossas vidas foram normais. Três anos depois do acontecimento do papai, vinha a pé da escola em uma sexta feira. Minha rua havia sido interditada com carros dos bombeiros e faixas. Tudo em volta da minha casa, que estava em chamas. Minha única reação foi... Ficar sem reação. Tudo o que eu tinha, tudo o que eu era, tudo o que me sustentava, tudo tinha acabado. Meu pai agora a minha mãe, tudo antes do 10 anos. Tia Truddie ficou em um hotel comigo por alguns dias enquanto a papelada sobre minha guarda era arranjada. Titia era legal comigo e sempre quis ter um filho com o Tio John, casado com ela há uns sete anos só um problema de hormônios não a permitia realizar o seu sonho. Seu desejo se realizou quando fui morar com ela em Mullingar em Weatmeath, na Irlanda. Por incrível que pareça, eles eram nossos parentes mais próximos. A cada dia que passava, a vontade de viver diminuía. Não pelo fato de eu viver com tia Truddie e com o tio John, mas pelo fato de que nada na minha vida parecia dar certo. Fiquei nessa vida por mais ou menos três anos, quando tudo mudou. Estava chovendo muito forte. Voltei a pé para casa, como todos os outros dias. Havia uma sensação no meu peito, como o que eu senti quando voltava para casa quando ela explodiu. Mas essa parecia de outro tipo. Um sentimento que indicava uma coisa boa. Não dei muita bola porque nada de bom acontecia na minha vida. Andava com dificuldade por causa da bota pesada de plástico e morria de frio. A poucos metros de casa, meu guarda chuva voou e foi para na árvore do vizinho. Bom, só no terreno vizinho porque lá ninguém morava. Estava muito cansada para escalar aquela árvore imensa e estava muito escorregadio também. Desisti e entrei em casa. Tia Truddie fez uma comida maravilhosa como sempre e eu agi como de costume, fingindo estar bem e feliz. Cheguei ao meu quarto, me deitei na cama e chorei até dormir. O dia amanheceu com o sol brilhando como eu nunca tinha visto.


Fui acordada pelo ronco de um motor, muito barulhento por sinal. Não era comum ouvirmos tanto barulho assim em nossa rua, que sempre foi tão calma. Levantei-me da cama e foi espiar pela fresta que a persiana fazia. Eu vi um homem carregando algumas caixas e uma mulher o ajudando. Ao que me parecia, eles estavam se mudando para a casa ao lado. Olhei para a árvore gigante para ver se o meu guarda chuva ainda estava lá e como já sabia, estava. Tentei bolar um plano de subir na árvore sem ninguém me ver, mas meus pensamentos foram interrompidos pela picuinha que acontecia na frente da casa vizinha. Dois meninos, muito parecidos, estavam brincando. Um pulando em cima do outro e vice-versa. Os observei por bastante tempo, os invejando um pouco por serem felizes. Fiquei tão concentrada que esqueci que estava espiando e abri a persiana toda e é claro, como sempre, bati a cortina na janela fazendo um ruído alto. No mesmo instante, a atenção dos garotos foi para a minha janela, na qual eu estava pendurada cuidando da vida dos outros. Senti minhas bochechas ficarem vermelhas e me joguei no chão. Desse dia em diante prometi para mim mesma que não ficaria espiando os outros e nem cuidando das suas vidas. Não vi os vizinhos novamente até que o fim de semana chegou. Fiz minha visita ao supermercado, rotina de sábado. Tia Truddie queria dar uma reunião para os amigos do Tio John e me pediu para acabar com o estoque. Levei tão a sério seu pedido que não aguentava mais carregar aquelas sacolas pesadas. Minha visão foi obstruída pelos pacotes que a tampavam. Já estava na calçada de casa quando as coisas pareciam ter criado vida e começaram a saltar da sacola. A cada tentativa de alcançar algo no chão, mais coisas caiam.

-- Oh Deus. – pensei em voz alta.

-- Precisa de ajuda? – uma voz me perguntou. Rezei para que não fosse um dos vizinhos novos. Mas parece que quanto mais eu rezo mais assombração aparece. Não que ele parecesse uma assombração, mas... Ah, deu para entender. – Deixa que eu te ajudo. – ele pegou uma das sacolas e sorri. Tentei não sorrir, mas foi impossível.