Notas iniciais
Por favor, me desculpem pela demora. Eu realmente me desculpo. Então, confusos? Espero que sim.

A britânica observou a grande paisagem da universidade que se estendia a sua frente. Era enorme, mal dava para acreditar que seria ali que ela estudaria. Depois de pagar o táxi, pegou suas malas e desceu do carro, ainda maravilhada. Ao seu lado, outra estudante chegava à universidade. Ela tinha cabelos negros e compridos, braços cobertos de tatuagem e maravilhosos olhos castanhos. Usava uma touca cinza, uma blusa vermelha e uma calça jeans, calçava all-stars também vermelhos e olhava, a sorrir, para Sophia.

— Oi, nova por aqui? — Falou a garota num perfeito alemão, mas ainda com um pequeno sotaque inglês.

— Sim, também venho da Inglaterra. Não precisa falar alemão comigo. — Respondeu a ruiva, a abrir um leve sorriso.

— Isso é tão… — Fez uma pausa, a procurar uma palavra que definisse o que estava sentindo. — Estranho, maravilhoso, assustador.

— É. Estar acostumado com um país, uma cultura, uma família perto de você… E, num instante, você sai da Inglaterra e vem parar na Alemanha, longe de tudo, onde você sabe que nada vai ser do mesmo jeito…

— Que curso veio fazer?

— Arquitetura. — Falou, a encarar novamente o prédio a sua frente. — E você?

— Também. Desde pequena sou perdidamente apaixonada pelo esplendor das construções… Sou simplesmente fascinada pela arquitetura.

— Onde vai ficar? Eu vou para um apartamento aqui perto, fiquei insistindo o tempo inteiro para dividir com uma das pessoas que já tinham compro. Aliás, ela também é uma garota nova.

— Vou ficar no mesmo canto. Eu lhe surpreenderia se eu lhe dissesse que sou eu que vou dividir o apartamento com você? — Zaria riu.

— Nossa. — Riu também. — Você deve me odiar! Zaria, certo?

— Sim, Zaria. Sophia?

— Sim. Eu vim logo para cá para ver um pouco da universidade. Conhecer.

— Eu também. Prefiro conhecer logo, mesmo ela estando um pouco… Vazia. As aulas já começaram?

— Não que eu saiba. Até onde eu me lembre, elas começam daqui a dois meses. Ao menos as nossas.

As garotas puseram-se a andar pelo campus, a ver onde elas iriam supostamente passar os próximos quatro anos a frequentar.

Mas não. Não seria como o planejado. Nada seria como o planejado.

• • •

Mais uma vez, a lua reinava em Moscou. Às nove horas da noite, Mikhail e Dmitri se encontravam no Grande Palácio do Kremlin, onde deveria ser a morada oficial do suverennoyeAleksandr, mas todos sabiam que ele residia no enorme palácio místico situado ao extremo oeste da cidade. Na verdade, o local estava sendo utilizado para as reuniões do grupo que planejava o atentado à esfera de poder antes pertencente a Kira, liderado pela própria Morte como mais uma manobra desta.

Até o momento, tudo que eles tinham feito era dançar conforme a música proposta pelo grande mestre do Tempo, mas que ele não percebia que estava a tocá-la. Um tolo. Depois da morte da ex-mulher de Aleksandr, tudo ficara simples, o senhor completamente frágil e vulnerável. Mais do que nunca.

— Como nosso soberano está se preparando para o ataque de amanhã? — Indagou Mikhail, sentado no trono do meio.

— O velho está desesperado. Reuniu hoje duas dúzias de demônios menores e a senhora do Destino, Nikita, para proteger a sala onde está a esfera de Kira, a que tem o poder de remover todas as outras esferas e controlar o sol, a mais cobiçada. — Respondeu Dmitri, à direita da Morte. — Eu diria que ela está garantida, porque ele pensou em defender apenasuma entrada. Todas as outras secretas e inclusive a principal não estão protegidas. Mas, claro, você tem que ter certa cautela, elas podem não ser protegidas por força bruta, mas estou certo de que serão observadas. Ele não é estúpido a esse ponto.

— Já passei as instruções para Orrel e Pheodora. Quantos minutos faltam?

— Não se apresse. — Checou a posição da lua na janela. — Mas faltam um pouco menos de dois minutos.

As horas. A certeza que o demônio tinha a olhar a posição da lua no céu. Uma de suas principais — e únicas — qualidades. O mestre do Frio podia calcular milimetricamente o local do astro, a dizer as horas com uma precisão surpreendente.

— Devo começar a recitar?

— Claro.

Pôs-se a recitar uma das magias mais ocultas, mesmo ali, no mundo dos mortos. Ela tinha origem séculos antes, fruto da habilidade do próprio Mikhail. O que ela fazia? Uma das coisas mais fenomenais. Permitia o tráfego de seres entre os dois mundos, algo que geralmente só ocorria com nascimentos ou mortes e que permitiria o assassinato do grande soberano.

• • •

Sentadas à mesa em seu humilde apartamento, Sophia e Zaria saboreavam umKartoffelpuffer, prato alemão que a ruiva aprendera a cozinhar assim que soube que poderia estudar no país e, por acaso, era delicioso. A gastronomia alemã contrastava fortemente com a britânica e, ao paladar das inglesas, era diferente e completamente saboroso.

Subitamente, um arrepio percorreram seus corpos. Um estranho misto de relaxamento, horror e tristeza que fez elas quererem cuspir a comida. As garotas se entreolharam desconfiadas e aterrorizadas. A morena largou os talheres e se levantou em direção ao banheiro.

— Droga, Sophia! Isso me deu um mal-estar!

Levantou a tampa do sanitário para poder vomitar e abriu a boca, mas nada saiu. Nada, a não ser um odor que a fazia querer vomitar. E depois, fumaça. Uma névoa azul clara, da cor do gelo. Uma voz na sua cabeça balbuciou algo que ela não conseguiu entender, pois estava concentrada em sua provável alucinação.

Numa imagem meio distorcida, conseguia ver o rosto de um moreno com os olhos castanhos que tinha uma expressão muito raivosa.

Olá!”, desta vez, a voz foi mais clara.

— Sai daqui! — conseguia ouvir a nova amiga horrorizada na sala de jantar. — Vá embora! — Repetia a ruiva, em tentativas fúteis de expulsar o espírito que se hospedava nela.

Zaria continuava confusa, com a mente numa mistura esquisita de pensamentos enquanto a voz em sua cabeça tentava se apresentar.

Calma”, pensava, todavia era silenciada. “Olá!

Pro inferno com o seu olá”.

A garota fechou os olhos, a se reservar a seu próprio espaço. Tapou os ouvidos, a se privar também de estímulos sonoros. Inspirou e expirou lentamente repetidas vezes, até que conseguiu finalmente responder o “olá”.

Você acredita em espíritos?”, perguntou a voz.

Prefiro. Ou eles existem, ou eu sou esquizofrênica”.

Eles, no caso, nós. Meu nome é Harris. Sou um espírito, muito poderoso. O que eu vou te contar agora é muito improvável, mas se lembre: ou é verdade, ou você é esquizofrênica. Primeiro, você vive, literalmente, num mundo controlado por demônios, principalmente por Aleksandr, o mestre do Tempo. O mundo costumava ser governado por mim e um amigo, até que os demônios saquearam Moscou secretamente. Ah, espere. O mundo dos vivos é comandado pelo mundo dos mortos, que por sua vez é espelhado no dos vivos. O centro de tudo é Moscou. Deixe-me continuar. Eles foram mais fortes que nós e o demônio da Morte, Mikhail, inventou uma magia e me baniu para este mundo, onde eu tenho que ficar me hospedando em almas para me manter vivo. Eu até saquearia a cidade de novo, se alguém mais tivesse conhecimento da magia. Mas só a Morte o tem. Fora a magia, os únicos jeitos que me fariam ir pro mundo dos mortos são o nascimento, mas eu não tenho a chance de estar vivo, e a morte, mas eu já me criei morto.”

Atordoada, Zaria demorou para processar todas aquelas informações. Se ao menos o maldito espírito soubesse contar uma história, tornaria a compreensão menos difícil. Mas não. Além de coisas confusas e um tanto incoerentes aos olhos da morena, uma péssima explicação.

E por que estou te notando agora?”

Estive dormindo por todos esses anos. O toque de Mikhail, ou de um outro demônio, é a única coisa que me desperta.”

Está tentando me dizer que um demônio me possuiu?”

Tentou. Eu o expulsei assim que acordei.”

Finalmente, a britânica abriu os olhos. A imagem, antes distorcida, era um homem a sua frente. Ele era incrivelmente magro, de pele branca manchada por inúmeras tatuagens de caveiras, números, entre outras coisas. Usava um enorme alargador na orelha esquerda, cabelo e barba ralos e castanho-claros. Seu olhar penetrava profundamente no espírito da jovem a sua frente, como se tentasse extrair algo; porém, só a deixava morrendo de frio.

— Vejo que esse inútil já lhe contou como as coisas funcionam… Me surpreende que ele não a tenha incorporado e me dado uma bela surra. Ou ao menos tentado. — Sorriu ele. — Se ele ousasse me enfrentar sem a ajuda do “amiguinho”, se afogaria no próprio sangue. — Seus dentes enchiam a garota de horror, ela só queria fechar os olhos novamente e agir como uma criança de sete anos que tivera pesadelos. — Permita-me uma apresentação: sou Dmitri, o mestre do Frio.

Ela continuou parada.

— Diga algo, imprestável! — Deu um tapa na cara da garota.

Vá embora, porra! — Foi a única coisa que saiu da sua boca, enquanto as lágrimas molhavam sua face. Uma tentativa besta e falha.

— Sua vadia, preste atenção como fala comigo! — O demônio estendeu a mão e fez com que duras camadas de gelo apertassem o pescoço da inglesa. Buscou a esfera de Nikolay em seu interior e as trevas agarraram os membros de Zaria. — Entendeu?!

No entanto, a garota só gritou com mais forças, de um modo que poderia ter arrebentado as pregas vocais de qualquer um: — Vá embora, porra! Vá! Saia!

Ela já parecia estar fora de si, sobre o controle de algo maior. Harris. Seu corpo manifestava desespero e ódio, entretanto, na sua mente, ocorria algo bem diferente. Certamente, o hediondo tentaria matá-la ali, quer obtivesse êxito ou não. O espírito falou que um dos dois sozinhos não conseguiria nunca derrotar um demônio no mundo dos vivos — pois, impressionantemente, eles ficavam mais fortes por ali —, então ele sugeriu que suas almas se fundissem, formando um único espectro a controlar aquele corpo.

E fizeram-no.

Naquele momento, tudo que estava a prender a garota se afastou de súbito, a provocar uma grande admiração do imundo que perdeu por um breve momento todo o seu poder.

• • •

Sophia se encontrava numa situação não mais fácil. O belo Mikhail se estendia a sua frente, desta vez com os olhos extremamente vermelhos de tanta raiva que sentia. Ele evocou sua foice logo depois de ter falhado em sua missão. A ruiva não tivera a mesma sorte de Zaria, com um oponente um tanto imbecil que lhe dera tempo para pensar. Louis — o espírito do mesmo tipo de Harris que se hospedava coincidentemente na jovem — ainda estava aos gritos em sua mente, mas a garota não o escutava. Atirava chutes e murros no ar aleatoriamente tentando impedir a Morte de ceifar sua alma, mas nada adiantava. Seria só uma questão de tempo. Em poucos segundos, o demônio estaria com a ponta da foice em seu pescoço, prestes a matá-la. O desespero era deveras que não demorou muito para a ruiva começar a correr desesperadamente pelo pequeno apartamento. Mas parou no banheiro, onde a colega estava enfrentando outro demônio. Era gelo contra gelo, trevas contra trevas, magia contra magia. Escutara os berros dela não muito mais cedo e deduzira que estivessem em situações parecidas, mas, ao visto, a britânica estava obtendo um grande sucesso.

Sua parada bruta fizera a morte gargalhar.

— Decidiu aceitar seu triste destino? — Disse, em meio às risadas.

Não. A inglesa presumiu que seria bom escutar o espectro que gritava em sua cabeça.“Depois eu te explico tudo. Vamos nos unir.”, falou ele. Sophia seguiu seu conselho e deixou que fizesse o trabalho. Em instantes, pegou-se unificada com Louis, a controlar seu corpo que empunhava uma grande espada com um punho azul e lâmina prata. Gravada na lâmina, havia a palavra “sonho” em várias línguas — mas, não por coincidência, o russo era omitido.

— Meu caro Mikhail, esqueceu-se que, como humana, quem traça o destino de Sophia é Nikita? — Riu. — Não acho que ocorreria a ela deixar que a garota morresse, ocorreria?

— Posso mudar o destino.

— Por acaso, também pode distorcer o Tempo? — zombou enquanto fazia um perfeito giro na espada que acertou em cheio o lado esquerdo do peito do demônio e cortou-o, a manchar a lâmina do amargo sangue de Mikhail.

— Receio que não — gemeu a Morte. Afastou-se e falou: — Por acaso, pode matar a própria Morte?

— Receio que não — Sophia cuspiu as palavras, por mais verdadeiras que fossem.

Aproximou-se do demônio e tentou desferir uma diagonal para cortar o cabo da foice, mas a própria lâmina defendeu. Louis, por não lutar há tempos, já estava um pouco desgastado, e a britânica nunca teve disposição para batalhar. Ambos perguntavam a si mesmos até quando deveriam continuar a golpear, defender, recuar e avançar, ao passo que Mikhail estava mais disposto que nunca. Não era o tipo de luta a qual podia chamar-se dança: mais se parecia com um ato de uma peça de horror.

O duelo arrastou-se até que a ruiva pediu ajuda a Zaria, que já conseguira aprisionar Dmitri àquela altura. A morena não matara o demônio, não tinha poder para tal, nem ela, nem Harris, mas conseguira deixá-lo preso em correntes de sombras no banheiro. A utilizar magia, as duas conseguiram prender a Morte.

Depois das duas se separarem de seus espíritos novamente, Louis conseguiu explicar para a ruiva como as coisas eram e, junto a Zaria, a inglesa chegou à conclusão que ele era o amigo de Harris.

Juntos, ele e Harris controlavam quase tudo que os demônios controlavam, mas, pelo silêncio do golpe e cada esfera a ter seu dono próprio e controle reservado, eles acabaram a ganhar.

Dúvidas desfeitas e pensamentos no lugar, forçaram Mikhail a sair dali e levar Dmitri consigo, os dois a bufar de ódio.

Todos sabiam que as coisas não iam acabar assim e tudo seguiria como sempre fez.

Restava agora saber quando seria a partida das garotas para a Morte. E teriam que levar consigo, assim como Mikhail fez com Dmitri, Harris e Louis.

Era muita complicação. Mesmo depois de todas as histórias e explicações, ainda parecia que toda noite fora parte de um sonho maluco.

Notas finais
Pronto. É isso por hoje. Aposto que vocês estão achando isso tão confuso quanto as duas, pelo menos é como eu quero que se sintam.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.