A Little Bit Longer
39 Eu Fujo (de novo) de Casa
Notas iniciais
Oficina G3 - http://www.youtube.com/watch?v=qjmTav1HkNo
Entrei na RangeRover e a liguei. Assim que ouvi o motor roncar em alto som, dirigi até o portão da garagem. Assim que ele se abriu e eu me vi livre, arranquei com velocidade e saí do prédio. Já estava escuro, mais ou menos. Já deviam ser lá umas sete e meia, oito horas. E estava frio, tive que ligar o aquecedor.
“Pode voltar pro fim de mundo de onde veio e voltar a ser o zero à esquerda que sempre foi...”.
Voltar pro fim de mundo de onde vim... Ser o zero à esquerda que sempre fui...
Aquelas palavras voltaram a martelar minha mente. Lágrimas voltaram a escorrer por meu rosto, a dor que eu estava sentindo é inexplicável. Até hoje eu não entendo por que Scooter falou aquilo. Eu não tinha pra onde ir, estava mal demais para ir beber, seria muita idiotice minha, eu já estava me tocando que eu precisava me internar, mas a ficha ainda não tinha caído totalmente. No fim das contas fui para a casa de Katy. Mas antes liguei pra ela.
-Alô? Katy? – Minha voz estava trêmula, e eu ainda estava soluçando.
-Justin? – A sua voz serena e doce soou em meu ouvido como uma melodia angelical quando ela atendeu o telefone. – O quê houve?
-Posso ir pra sua casa? Eu te explico aí...
-E precisa perguntar, menino? Sabe que “mi casa es su casa”! – Ela riu com seu sotaque espanhol furreco. Dei um mínimo sorriso.
-Ok... Obrigado... Já estou chegando.
-Ok. Tchau.
-Tchau. – Desliguei o telefone e me concentrei no trânsito. Assim que cheguei no portão da casa dela, ela já estava à porta, me esperando. Assim que abri a porta, só a abracei, sem falar nada, só chorando mais.
-Calma, Justin, respira... – Ela disse, ao sentir meu desamparo. – Vem, vamos entrar... – Andamos pelo corredor de videiras que fazia um caminho até a sala de estar de Katy. Quando nos sentamos no sofá, ela me abraçou e começou a afagar meu cabelo. Quando eu estava mais calmo, ela me pediu para contar o que tinha acontecido.
-Eu briguei com Scooter... A gente começou a discutir, daí ele... Ele... – Parei pra respirar fundo. – Falou que eu não era nada. E que eu podia voltar pra onde vim e não aparecer mais que não iria fazer diferença.
-Que horror... O que ele disse?
-Pode voltar pro fim de mundo de onde veio e voltar a ser o zero à esquerda que sempre foi... Nem vai fazer falta... – Disse, olhando para baixo. – Eu não vou ligar...
-Você deve estar arrasado... – Katy sabia da minha afinidade com o Scooter. Assenti, e disse:
-Eu sou mesmo?
-O quê?
-Um zero à esquerda. Que nem o Scooter disse. Eu sou mesmo?
-Claro que não! – Katy me abraçou e disse:
-Na real, você é o único garoto que eu chamo de “irmão”. O Scooter estava irritado, só isso. Ele com certeza falou sem pensar.
-E se ele não falou sem pensar? E se eu for mesmo um zero à esquerda pra ele?!
-Está pensando demais... Com certeza o menino do Canadá de cabelo pro lado chamado Justin Drew Bieber que está comigo agora não é um zero à esquerda...
Fiquei quieto. Não falei mais nada para ela, preferi ficar quieto, ainda abraçado à Katy. Umas meia hora depois de quando eu cheguei lá, o telefone de Katy tocou.
-Alô? Sra. Mallette? – Ela disse, ao atender o telefone. -Se o Justin está aqui? – Ela olhou para mim e eu sussurrei, fazendo um sinal com as mãos:
-Eu não tô aqui! Não tô!
-Não, ele não está aqui... – Ela respondeu, relutante. Katy sempre me disse que nunca soube mentir. – Ok, tchau. – E, desligando o telefone, disse:
-Ok, só dessa vez que eu fiz isso!
-Claro, claro... – Respondi.
-Você vai voltar pra sua casa pra dormir? – Ela perguntou. Olhei pra baixo, e disse:
-Não sei...
-Se quiser pode dormir aqui. Eu não me importo. Entendo quando se tem problemas na família. Principalmente com os pais. – Dei um sorriso torto para ela e agradeci.
-Mas Scooter não é meu pai. – Complementei.
-É seu padrasto, que dá quase no mesmo.
-Ele não é meu pai. Um pai não trata o filho como ele me tratou.
-Sinto-lhe dizer, mas alguns tratam.
-Ele não me ama...
-É claro que ama! – Ela me cortou. – Você pirou?
-Não pirei. É verdade! Se você visse como ele olhou pra mim... – Falei.
Katy suspirou, e eu me calei. Não toquei mais no assunto, conversamos sobre sorvete e SNL, até eu sentir sono. Bocejei.
-Já está com sono?
-Não eu... – Bocejei de novo – É, tô... – Ela riu um bocado.
-É, eu também já estou... Espere aí que eu vou buscar um travesseiro e um cobertor pra você. – Ela disse, atenciosa.
-Ok. – Apoiei minha cabeça no braço do sofá dela, e pisquei os olhos algumas vezes para que as lágrimas que se acumularam em meus olhos escorressem. É, eu tava com preguiça de limpar. Logo Katy apareceu novamente com um travesseiro e um cobertor.
-Não se importa de dormir no sofá, não é? É que Russel encheu os quartos de hóspedes de tranqueiras e eles estão instrasitáveis.
-Eu te falei pra não casar com um roqueiro maluco. — Falei. Ela bufou para mim.
-Eu já te disse que foi a minha escolha, ciumento. Mas, enfim, se importa ou não?
-Desde que eu durma e esteja quentinho, não... – Respondi, num bocejo.
-Que bom. Tome. – Ela me entregou o travesseiro e o cobertor, e eu ajeitei-os direito. Tirei meus tênis e coloquei-os perto da mesa, e deitei no sofá.
-Ah, Katy... – Chamei-a. Ela olhou para mim. – Obrigado.
-Disponha. Boa noite. – Katy me deu um beijo na testa e apagou a luz.
-Boa noite.
Ouvi os passos dela subindo a escada e fechei os olhos. Dormi bem rápido, talvez em questão de segundos. Não lembro de ter sonhado. Quando acordei, ainda eram seis e meia da manhã, ninguém estava acordado ainda na enorme casa. Silenciosamente, coloquei meus tênis nos pés novamente, dobrei o cobertor e arrumei o sofá, deixando-o do jeito que o encontrei, e fui embora sorrateiramente, sem fazer barulho nenhum.
Quando me vi fora do condomínio de Katy, eu suspirei e tentei pensar em algo que eu poderia fazer. A única coisa que me veio à cabeça era “COMER, COMÊER, COMER, COMÊER, É O MELHOR PARA PODER CRESCEER...”. Fazia sentido. Eu estava morto de fome.
Parei na primeira lanchonete que apareceu. Estacionei o carro e puxei o capuz, cobrindo grande parte do meu cabelo e do meu rosto. Depois, entrei na lanchonete e sentei em uma mesa. Veio-me à tona uma vontade muito intensa de beber. E dessa vez eu não consegui retrucar. Logo uma garçonete apareceu, e perguntou o que eu queria. Pra falar a verdade, a garçonete parecia ter a mesma idade que eu, ou um ano a menos.
-Um petit gateau e uma Vodca. – Pedi. A menina olhou para mim com descrença e disse:
-Vodca? Não é muito novo pra beber?
-E você não é muito nova pra se meter na minha vida? – Rebati. Ela, derrotada, disse, num tom bufante:
-Seu pedido já vem... – E foi embora. Logo o que eu pedi chegou, eu abri a garrafa de Vodca e coloquei metade da bebida que estava nela para dentro em questão de segundos. Minha cabeça teimou em doer a cada gole que eu dava, mas eu nem liguei, já estava me acostumando com a sensação que dava. Quando esvaziei a garrafa de Vodca, comecei a garfar o petit gateau. Quando terminei de comer, paguei a quantia certa para a garçonete, dei uma gorjeta, e fui embora, mesmo bêbado.
Eu sei que dirigir bêbado é errado, mas eu não sinto diferença de quando bebo para quando estou sóbrio. Sem visão turva, nem falta de orientação. Eu fico na boa, se tirar meu hálito e meu humor modificado um pouco, alguns nem conseguem me diferir de quando estou bêbado ou não.
Enquanto eu dirigia, rumo à minha casa, mudei o rumo da RangeRover para um lugar que eu costumava ir quando queria pensar, ou quando eu simplesmente não tinha nada pra fazer. Era perto do centro da cidade, no ponto mais alto de um parque que nunca lembro o nome.
Eu sentava lá e podia ver toda a cidade, era como se o tempo parasse à minha volta, era só eu e meus pensamentos, às vezes eu ficava naquele lugar por horas, era um lugar inspirador, a visão era muito bonita. Primeiro o lago, depois mais grama, às vezes algumas crianças brincando no parquinho, depois o portão do parque, uma estrada repleta de árvores, e aí a cidade. Tanto movimento, tantas luzes, tantas pessoas andando, apressadas...
Assim que sentei na grama úmida pelo orvalho da madrugada, abracei minhas pernas, e fiquei olhando para aquela paisagem. Só aí que eu senti que meus braços ainda estavam doendo, devido à briga da noite anterior. Voltei a lembrar-me dele, Scooter falando comigo que eu não era nada...
O vento frio da manhã bateu em meu rosto, balançando meus cabelos, me lembrando que o fato de tempo parar era só uma sensação minha. Resolvi ocupar o meu tempo com algo que não me deixasse tão mal e peguei meu Ipod, que estava no meu bolso. A primeira música que apareceu eu coloquei para tocar. Mentira, eu passei algumas até achar alguma que se adequasse a o que eu sentia.
O vento toca o meu rosto
Me lembrando que o tempo vai com ele.
Levando em suas asas os meus dias,
Nessa vida passageira.
Minhas certezas, meus conceitos,
Minhas virtudes, meus defeitos.
Nada pode detê-lo...
O tempo se vai, mas algo eu sempre guardarei.
O Teu amor, que um dia eu encontrei...
Os meus sonhos, o tempo não pode levar,
A esperança, encontrei no Teu olhar.
Os meus sonhos, a areia não vai enterrar,
Por que a vida, recebi ao te encontrar...
Nos Teus braços, não importa o tempo,
Só existe um momento de sonhar (De sonhar...)
E o medo que está sempre à porta,
Quando estou com você, ele não pode entrar...
O tempo se vai, mas algo eu sempre guardarei.
O Teu amor, que um dia eu encontrei...
Os meus sonhos, o tempo não pode levar,
A esperança, encontrei no Teu olhar.
Os meus sonhos, a areia não vai enterrar,
Por que a vida, recebi ao te encontrar...
Os meus sonhos, o tempo não pode levar, (Levar...)
A esperança, encontrei no Teu olhar
Os meus sonhos, a areia não vai enterrar,
Por que a vida, recebi ao te encontrar (Te encontrar)
Os meus sonhos, o tempo não pode levar,
A esperança, encontrei no Teu olhar (No teu olhar...)
Os meus sonhos, a areia não vai enterrar, (Enterrar...)
Por que a vida, recebi ao te encontrar...
(Eu encontrei...)
Por quê eu escolhi essa música? É uma boa pergunta... Além de a melodia ser muito bonita, ela fala sobre o tempo, vida, esses negócios. E, falar sobre “vida” era uma coisa que me atormentava, por que, vamos combinar, a Aids iria me levar à morte, se eu não me matasse antes.
Hey, por que eu falei essa última parte?! APAGA, APAGA!! Eu não ia me matar! Poderia estar á beira de um colapso nervoso, mas eu nunca vou tirar minha vida!
Eu fiquei sentado lá, meditando na música, por mais um tempo, até meu celular tocar. Fui ver quem era, e estava escrito no visor do Iphone “Scooter”. Deixei tocando até dar caixa postal, e Scooter desligar. Depois desliguei o celular mesmo, eu queria ficar lá por mais um tempo. Um bom tempo.
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