Bem, mas assim que eu voltei a ir para a escola, eu passei noites fora bebendo. Muitas. E eu estava cada vez mais destruindo minha família. Meu pai nem tanto, eu nem aparecia bêbado perto dele, nunca tive coragem mesmo. Mas sim minha mãe e Scooter. Foram várias fases. A primeira começou quase uma semana depois.

Era uma noite de sexta-feira. Umas oito e meia da noite. Estava no meu quarto, jogando no computador, aqueles games para PC. Eu desci as escadas para beber um copo d’água, quando parei na frente do quarto da minha mãe e de Scooter. Ouvi os dois lá, discutindo. Sobre mim. A curiosidade aflorou, e eu fiquei parado do lado da porta, ouvindo tudo.

-Não pode continuar assim! É ruim pra ele, ruim pra mim, ruim pra você, pra gravadora, pra todo mundo! – Scooter dizia. Ele estava bravo. Irritado.

-Eu já tentei convencê-lo a parar! Vamos só dar mais um tempo, até a poeira baixar, e falar com ele! – Minha mãe retrucou.

-Não vai dar! Ele disse que não quer acabar como Lindsay Lohan e Amy Winehouse! Se não agirmos agora, ele vai acabar como elas, e mais cedo! – Scooter respondeu, mais irritado ainda.

-Por que você não pára pra entendê-lo?! Ele está passando por uma fase muito ruim! Se você descobrisse ter Aids, e ao mesmo tempo perder quase todas as pessoas que ama, o que faria?

-Olha, eu... – Minha mãe não o deixou terminar, e disse, mais calma:

-Scooter, só por que ultimamente ele não tem sido o que nós queríamos, não é motivo para enfiá-lo numa clínica de reabilitação á força! – Scooter deu uma risada baixa, quase inaudível, e disse, irônico:

-“Não tem sido o que queríamos”?! Ele vai acabar sendo cotado como a pior influência do ano! – Fechei os olhos, e uma lágrima escorreu de meu rosto. Eu não era o que minha mãe e meu padrasto queriam? Então, quem eu era?

-Scooter, ele é meu filho, lembra?

-Lembro! Mas não dá pra continuar assim, está afetando todo mundo! – Eu sei que é repetitivo, mas eu escapei de casa de novo. Suspirei e fui embora de lá, acho que fazendo barulho. Fui para a sala, escrevi “Desculpe não ser o que vocês queriam”, e saí de casa. Não me importei com a roupa que usava, um jeans, uma camisa branca, um tênis, e uma jaqueta que peguei antes de sair, junto com a minha carteira e meu celular. Desci as escadas bem rápido, abalado pelo que ouvi. Quando entrei no elevador, meu celular tocou.

-Alô?

-Justin? É o Russell!

-Por que você tá gritando?! – Perguntei.

-Por que eu estou numa festa! Quer vir?

-Aonde?

-Não sei ainda, haha.

-Ah... – Daí percebi que havia esquecido a chave do carro. – Olha, eu não estou legal pra festa, acabei de ir embora de casa, e...

-Sério? Você vai melhorar seu astral aqui!

-Não vai dar, esqueci a chave em casa...

-Ah, qualé, vai perder uma festa por causa que tá sem carro?!

-Ah, quer saber? – Falei, dando de ombros. – pegar táxi não mata ninguém!

-Esse é o Jb que eu conheço! – Ele disse.

Estranhei o fato dele ter me chamado de “Jb”, mas nem liguei. Russell desligou, e nisso o elevador se abriu. Fui para o hall do prédio, e antes de ir embora, falei para o porteiro, entregando uma nota de 100 dólares a ele:

-Josh, se minha mãe perguntar por mim, diz que não me viu, valeu?

-Valeu... – Ele disse, hipnotizado pela nota. Sorri e saí. Peguei um táxi e disse para o motorista:

-Havana Club.

-Você não é muito novo pra ir pra lá?

-E isso te interessa? Vamos logo, eu tenho hora! – Falei. O pobre homem bufou, e foi em disparada para a boate. Assim que cheguei, vi que deu 20 dólares no taxímetro. Peguei uma nota de 50 e entreguei para ele.

-Pode ficar com o troco, amigo! – O homem olhou incrédulo para mim e disse:

-O-obrigado...

-Tenha uma boa noite. – Disse, antes de sair correndo para os fundos da boate, e o táxi arrancar. Entrei com facilidade na boate, mesmo sendo menor, e logo encontrei Russell. Ele estava tão bêbado que mal conseguia se por de pé. Ele mal lembrava o próprio nome.

-Quantas você bebeu? Você está bem?

-Quantas? Eu não faço idéia!! – Ele disse, soltando uma baforada de ar em cima de mim, depois dando uma gargalhada esquizofrênica. Deus, aquele foi o pior bafo que eu já senti na vida! – Se eu estou bem? Tá tudo a mesma bosta!!! – Ele disse, dando outra gargalhada.

-Vou tomar como um “não”... – Disse, indo embora. Foi nisso que eu comecei a ver o lado ruim da atitude que tomei. Coisas que aconteceram lá me assustaram. Acabei apanhando de um monstro, tendo a carteira roubada, ficando com um olho roxo, e me trancando no banheiro. Vi que eram meia noite quando me tranquei.

Estava sentado no chão, no encontro entre a parede e a divisória que divide as cabines do banheiro, abraçando as pernas, chorando. Eu precisava sair dali. Não tinha dinheiro, só meu celular e a roupa que vestia. Era muito longe para eu ir andando, e não iria me arriscar daquele jeito. Espera... Celular! Liguei para Usher, ok que eu iria ligar para minha casa, torcendo para que ele atendesse.

-Usher Raymond falando.

-Usher? Sou eu, Justin!

-Little Beatle? O que aconteceu?

-Eu preciso de ajuda. Fugi de casa sem carro, fui para uma festa, me roubaram, e eu preciso sair daqui! – Disse.

-O quê?

-Eu... Eu estou com medo! Tentaram me empurrar para quartos, inclusive homens, e coisas que eu não sei se eram homem ou mulher, — Usher definitivamente deu uma risada naquele trecho. – acabei apanhando de um homem ao tentar resistir, me roubaram a carteira, estou trancado no banheiro e preciso de ajuda! – Falei, quase que chorando.

-Calma, calma, está tudo bem. Aonde você está?

-Havana Club.

-Eu já estou indo aí te buscar. Espere um pouco e logo eu estou aí, tudo bem?

-Tudo... Obrigado.

-Disponha. – A linha caiu, e eu apoiei a cabeça na parede.

O tempo passou lentamente, olhei no relógio e eram três e meia da manhã. Será que ele tinha esquecido de mim? Ou simplesmente desistiu?

Mais um tempo passou, agora eram quatro e dez, quando Usher abriu a porta do banheiro. O encarei com uma cara digna de Jason McCann, mas por dentro, meus olhos brilhavam e eu dizia, no tom mais infantil já criado: “Você não me esqueceu!”. Ele me estendeu a mão, para que eu pudesse me levantar, e eu me pus de pé.