A Linha Tênue Entre Nós
5 Capítulo 4 – O Ritual
O parque estava mergulhado em sombras quando a equipe chegou. As fitas amarelas delimitavam a cena, e a chuva fina transformava a grama em lama escura. Policiais locais circulavam em silêncio, como se até o ar tivesse ficado pesado.
A vítima era um adolescente de dezessete anos, encontrado perto do coreto abandonado no centro do parque. O corpo estava disposto com uma solenidade perturbadora: braços abertos, palmas voltadas para cima, como numa oferenda. Ao redor, símbolos desenhados no chão formavam um círculo ainda mais intricado do que nos crimes anteriores.
Reid se abaixou imediatamente, ignorando a lama que encharcava as barras da calça. Os olhos dele varriam o desenho como se fossem páginas de um livro antigo.
— Ele está escalando… — murmurou, quase para si mesmo. — Esses símbolos não são simples variações. Estão formando uma narrativa progressiva.
Emily, a poucos passos, observava a cena com frieza, mas não conseguia esconder a tensão nos olhos.
— Explique.
Reid ergueu o olhar para ela, e havia uma urgência diferente em sua voz.
— No primeiro crime, tínhamos apenas fragmentos — a introdução de um mito. No segundo, a referência direta a Gibil, o fogo purificador. Agora… — ele apontou para o desenho — ele uniu símbolos de transição, de passagem. Este é um ritual de consagração.
Rossi se aproximou, sério.
— Consagração a quê?
Reid respirou fundo, como se a resposta tivesse um peso que preferia não dar.
— A algo maior. Ele está preparando o terreno. As primeiras mortes foram só etapas preliminares. Esse garoto… — os olhos dele pousaram na vítima por um instante, com pesar — não foi escolhido ao acaso. Ele representa o sacrifício de pureza, a chama que alimenta o próximo estágio.
O xerife, que acompanhava a cena, passou a mão no rosto, incrédulo.
— Meu Deus… vocês estão dizendo que ele não vai parar?
Hotch foi direto, a voz firme cortando o ar.
— Não. Ele só está começando.
JJ, do outro lado da cena, chamou a atenção.
— Achei algo! — levantava uma folha plástica que cobria parcialmente uma inscrição próxima ao coreto.
Escrito com tinta vermelha, quase como sangue, estava o enigma:
“Quando o fogo consumir, a verdade surgirá.”
Emily se aproximou, lendo em silêncio. Seus olhos estreitaram, a mente trabalhando rápido.
— Ele quer ser compreendido. Quer que sigamos sua lógica.
Reid completou, a voz baixa mas carregada de certeza:
— Ele está nos desafiando a decifrar a história antes que ele escreva o último capítulo.
Hotch cruzou os braços, pensativo.
— O que sabemos é que cada vítima foi escolhida por um papel simbólico. O professor de história, o bibliotecário, agora um estudante. Conhecimento em diferentes estágios.
Rossi acrescentou:
— O próximo pode ser alguém que represente liderança, ou autoridade intelectual. Ele está subindo a escada.
O silêncio que se seguiu foi denso. Cada um sabia o que isso significava: quanto mais alto o assassino subisse em seu ritual, mais visível seria a violência.
Enquanto a equipe recolhia provas, Emily ficou de pé ao lado de Reid, ambos observando o círculo de símbolos. A luz das lanternas refletia nos olhos dele, que brilhavam de concentração.
— Você estava certo — admitiu Emily, em tom baixo, quase imperceptível.
Reid virou-se para ela, surpreso, mas não disse nada de imediato. Apenas segurou o olhar por mais tempo do que deveria.
— Não é sobre estar certo — respondeu, finalmente. — É sobre não deixá-lo terminar.
Emily assentiu, mas havia algo na maneira como ele falava, na intensidade de cada palavra, que a fazia sentir-se… perto demais dele de novo. Rápido demais.
Ela desviou os olhos, retomando o profissionalismo.
— Então precisamos descobrir qual será o próximo passo.
enquanto isso uma câmera de vigilância do parque piscava discretamente, gravando cada movimento da equipe. Do outro lado da lente, em algum lugar desconhecido, o assassino assistia.
Um vulto solitário riscou mais um símbolo em um caderno sujo de tinta vermelha. Ao lado, uma vela acesa iluminava a inscrição:
“Quase completo.”
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