A Linha Tênue Entre Nós
8 Capítulo 7 – Quando a Lógica Falha
Reid sempre acreditara no poder da mente.
A lógica era seu escudo, a matemática sua armadura, o raciocínio rápido sua forma de sobreviver ao caos. Durante anos, vivera sustentado pela certeza de que se existisse um padrão, existia também uma resposta. Sempre.
Mas naquela manhã em Ravenbrook, ele descobriu algo que não sabia catalogar, algo para o qual não existia fórmula, nem estatística, nem artigo acadêmico.
Emily.
A lembrança ainda queimava. O beijo — rápido, intenso, voraz — não saía da sua cabeça. Ele tentava encaixá-lo em caixas mentais, chamá-lo de erro estratégico, de vulnerabilidade momentânea, de efeito colateral da pressão do caso. Mas nada disso cabia. Não era acidente. Não era impulso. Era inevitável.
Reid sabia ler pessoas. Reconhecia padrões de comportamento, microexpressões, alterações mínimas no tom de voz. E sabia que Emily estava travando uma guerra interna. Vira em seus olhos. O desejo não era unilateral, não era fantasia dele. Ela queria. E a simples constatação o desarmava.
No quartel-general improvisado, espalhou os arquivos sobre a mesa com um zelo que parecia foco, mas era apenas disfarce. JJ falava sobre a logística das buscas, Rossi fazia anotações com aquele ar experiente e cansado. Hotch mantinha o tom firme de sempre. Todos estavam imersos no caso.
Ele também deveria estar.
Mas a cada página, a cada foto de símbolo pintado em vermelho, Reid enxergava o rosto dela.
Concentre-se.
Ele repetia isso como mantra.
A mente corria para o símbolo encontrado no moinho. O círculo, as runas, o padrão crescente de complexidade. Evolução ritualística. Mitologia do fogo purificador. Ascensão, renascimento. Tudo fazia sentido, cada detalhe se encaixava.
Mas logo a lembrança voltava: Emily mordendo o lábio ao recuar, Emily desviando o olhar como se carregar aquele beijo fosse a tarefa mais pesada da sua vida.
Ele fechou os olhos por um instante.
Não deveria ter acontecido.
E, ainda assim, tudo dentro dele gritava o oposto.
Reid sempre vivera entre livros, teorias, equações. As pessoas o viam como distante, quase intocável, e talvez fosse mesmo. Mas Emily tinha conseguido quebrar isso — não com gentileza, mas com atrito. Ela não se intimidava com seus discursos, não aceitava suas conclusões sem questionar.
Era fogo contra lógica.
E pela primeira vez, ele sentia prazer em perder.
Quando JJ o chamou para revisar os mapas da cidade, ele respondeu maquinalmente, apontando rotas, sugerindo áreas de busca. A mente funcionava — claro que funcionava —, mas não estava inteira ali. Metade de si permanecia no corredor da pousada, revivendo o instante em que Emily dissera “Nós não podemos” com a voz embargada, como se quisesse exatamente o contrário.
Era cruel.
Quase desumano.
Ter de olhar para ela na sala de briefing, com todos ao redor, e fingir que nada havia acontecido. Fingir que a tensão elétrica que vibrava entre eles era apenas impaciência profissional.
E a cada vez que Emily se aproximava, a cada vez que o braço dela roçava o dele por acidente, Reid sentia que estava à beira de algo que nunca vivera: a perda de controle.
Ele tentava racionalizar.
É transferência emocional. É resultado do estresse. É um fenômeno psicológico comum em ambientes de alta pressão.
Mas quando ela o encarava de soslaio, como se lutasse contra o mesmo incêndio interno, Reid sabia: não era só isso. Não era teoria. Não era estatística. Era ela.
E por mais que tentasse se convencer do contrário, havia apenas uma verdade impossível de negar:
Se Emily estava certa, resistir era a única forma de manter o foco.
Mas se ele estava certo… então não resistir era a única forma de se manter vivo.
Naquele instante, Reid, o homem que sempre encontrava respostas, teve de admitir: diante dela, não havia equação que resolvesse.
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