A Linha Tênue Entre Nós
6 Capítulo 5 – Confissões Noturnas
A madrugada envolvia Ravenbrook em silêncio, quebrado apenas pelo gotejar da chuva fina que escorria pelas calhas da pousada. O quartel-general improvisado finalmente se aquietara: cada membro da equipe havia se recolhido, buscando algumas horas de sono precário. Mas o sono não veio para Emily.
Ela desceu até a varanda lateral, o frio da noite cortando-lhe a pele. O céu pesado refletia o peso dentro dela. As imagens voltavam em ondas — os corpos, os símbolos, o vermelho contra a pele, o fogo que nunca cessava. Mas, por mais que tentasse, não era só o caso que a perseguia. Era ele.
— Você também não consegue desligar? — a voz de Reid a fez sobressaltar.
Emily se virou. Ele estava parado no batente da porta, a gravata solta, os cabelos um pouco desfeitos. Não era o gênio brilhante que se escondia atrás de dados e lógica — mas um homem, vulnerável, exausto, perigosamente próximo.
Ela esboçou um sorriso cansado, mais para disfarçar o turbilhão interno.
— Depois do que vimos hoje? Não sei como alguém conseguiria.
Reid caminhou até ela, cada passo lento, medido, como se também tivesse consciência da linha que cruzava. Encostou-se na grade ao lado dela. O silêncio entre eles ficou mais denso do que o ar úmido da chuva.
— Às vezes eu penso que esses casos nos quebram aos poucos — disse ele, baixo. — Cada símbolo, cada detalhe, cada vida perdida… como se tirassem algo de dentro da gente.
Emily o olhou de relance, surpresa.
— Sempre achei que sua mente fosse sua armadura.
— Não é. — Reid não desviou os olhos. — Eu só aprendi a esconder melhor.
O coração dela disparou. Era como se, naquele instante, ele tivesse despido mais do que a mente. Quis tocá-lo. Quis dizer que entendia, que carregava as mesmas cicatrizes invisíveis. Mas ergueu o queixo, endurecendo a própria voz.
— Reid… isso não pode acontecer.
Ele avançou um passo, e agora estavam perto demais.
— Por que não?
— Porque precisamos manter o foco. Há um assassino lá fora. Vidas dependem de nós. — Ela falou firme, mas sabia: sua voz não escondia o desejo que queimava nos olhos.
Reid ergueu a mão, hesitante, e roçou os dedos na pele do rosto dela. Emily fechou os olhos, respirando fundo, como se fosse pegar fogo sob aquele toque.
— E depois do caso? — ele sussurrou.
Foi a pergunta que a desarmou. Emily sabia a resposta certa. Sabia que deveria afastá-lo, cortar pela raiz qualquer chance, erguer o muro de ferro que sempre a mantivera firme. Mas quando abriu os olhos e encontrou o olhar dele — tão intenso, tão cheio de certeza —, sua resistência ruiu.
E cedeu.
O beijo explodiu como um relâmpago: urgente, profundo, faminto. Era a soma de todas as noites de tensão, de cada olhar contido, de todas as discussões que escondiam algo mais. Emily se perdeu no gosto dele, no calor que queimava sua pele, no arrepio que percorria seu corpo inteiro.
Quando se afastaram, estava sem fôlego, os lábios trêmulos, o coração em disparada. E foi ali, naquele instante, que veio a batalha mais cruel.
Ela queria mais. Deus, como queria. Queria puxá-lo de volta, levá-lo ao quarto, sentir cada limite ruir. Era um desejo selvagem, visceral, quase sobrenatural, impossível de negar.
Mas dizer não a ele foi a coisa mais difícil que já fizera em toda a vida. Mais difícil do que encarar um assassino, mais difícil do que carregar todos os segredos que guardava.
— Não… — sua voz saiu quebrada, como se suplicasse a si mesma. — Nós não podemos. Se cedermos agora… vamos perder o foco.
Reid não recuou. Seus olhos ainda ardiam sobre ela, desnudando sua luta, sua fraqueza, sua paixão.
— Então me diga, Emily… e depois?
Ela fechou os olhos por um instante, tentando reunir forças. Quando os abriu, ele ainda estava lá, tão perto, tão impossível de resistir.
E ela respondeu, quase sem voz:
— Não podemos ....
Reid sorriu de canto, um sorriso pequeno, satisfeito, como se soubesse que já tinha vencido a guerra antes mesmo dela admitir.
Emily desviou o olhar, tentando ignorar o incêndio que queimava dentro dela. Mas ainda sentia o gosto dele em sua boca, a pele arrepiada, o corpo clamando por mais.
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