A Linha Tênue Entre Nós

3 Capítulo 2 – A Primeira Pista


O xerife os aguardava à porta da delegacia, o chapéu encharcado pela garoa insistente. Seu rosto denunciava noites mal dormidas. Ravenbrook era uma cidade pequena, e boatos corriam mais rápido que viaturas de patrulha.

— As pessoas já falam em culto satânico — disse, entregando uma pasta de fotos. — Se não dermos uma resposta logo, isso vai fugir do controle.

Emily folheou o material com calma calculada. Seu tom, firme e sem espaço para drama, quebrou o silêncio da sala:

— Então a primeira coisa é silenciar o pânico. Quanto mais barulho, mais poder damos a ele.

Reid se aproximou, puxando uma das fotos sem pedir. O olhar dele parecia atravessar o papel. Apontou para um detalhe no canto da imagem:

— Viu isso? Não é só uma marca. É um fragmento de um ciclo mitológico sobre o fogo purificador. É uma assinatura. Ele está nos contando uma história.

Emily cruzou os braços, pragmática.

— Ou só rabiscou algo que encontrou em um livro velho.

Reid ergueu os olhos, e havia neles uma convicção febril que fez o ar da sala pesar. Deu um passo na direção dela.

— Você não entende. Ele está escolhendo cada detalhe com precisão. Isso é uma mensagem.

Emily não recuou. Pelo contrário, ergueu o rosto para encará-lo de igual para igual. A discussão parecia menos sobre o caso e mais sobre eles dois, como se ambos testassem os limites de até onde podiam ir.

Por um instante, o tempo pareceu se alongar. Emily percebeu sua própria respiração acelerar, e odiou a vulnerabilidade disso. Reid notou — e, instintivamente, baixou a voz.

— Você pode não acreditar em mim, mas eu sei que estou certo.

Ela deveria ter se irritado, mas o peso da intensidade dele atravessava suas defesas.

Foi Rossi quem quebrou o feitiço, entrando com um copo de café fumegante.

— Vocês dois parecem prestes a duelar… ou a se casar. Espero que escolham a segunda opção só depois de resolver o caso.

Emily corou, desviando o olhar. Reid pigarreou e ajeitou a gravata, como se tivesse sido flagrado em algo íntimo.

Mais tarde, reunidos em torno de mapas e registros, Emily se afastou discretamente para tomar ar. Reid a seguiu, hesitante, e parou a poucos passos.

— Eu… não quis parecer arrogante. Só não consigo desligar essa parte de mim.

Emily o encarou, surpresa com o tom vulnerável. Depois de uma pausa, respondeu baixo:

— E eu não consigo parar de tentar manter os pés no chão. Talvez seja isso que nos irrita tanto.

Reid deixou escapar um sorriso quase tímido.

— Ou talvez seja isso que nos equilibra.

Antes que ela pudesse responder, Hotch chamou a equipe.

A chuva engrossara quando chegaram ao segundo local do crime: uma biblioteca comunitária abandonada desde a pandemia. O prédio de tijolos vermelhos estava cercado por fita amarela, e as luzes das viaturas refletiam nas poças da calçada.

Hotch foi o primeiro a atravessar a linha, seguido de perto por Emily e Reid. O interior cheirava a mofo, poeira e sangue recente.

No centro da sala de leitura, a vítima estava cuidadosamente disposta entre pilhas de livros. Mas o que chamava mais atenção era o símbolo desenhado no chão, maior e mais intrincado que o do primeiro assassinato.

Reid se ajoelhou diante dele, olhos brilhando com uma estranha reverência acadêmica.

— É uma variação… Ele está evoluindo. Vejam. — Tocou o ar sobre as linhas, sem encostar. — Isso não é apenas runa nórdica. Ele inseriu elementos do mito sumério de Gibil, o deus do fogo purificador.

Emily cruzou os braços, a descrença no tom.

— Ou só copiou de algum fórum obscuro.

Reid ergueu a cabeça, a voz carregada de certeza.

— Não, Emily. Ele sabe o que está fazendo. Gibil representa a chama que consome para dar lugar ao novo. Ele não está apenas matando. Está encenando uma narrativa.

Ela bufou, andando em círculos.

— Você acha que ele pensa em mitologia antiga enquanto mata? Aposto que achou um artigo online e decidiu brincar de ritual. Está só jogando poeira nos nossos olhos.

Reid se levantou devagar, a distância entre os dois se encurtando até se tornarem quase paralelos.

— Você sempre busca o caminho mais direto. Mas esse não é um caso direto. Ele não escolheu símbolos aleatórios. Ele está tentando dizer algo.

Emily ergueu a sobrancelha, desafiadora.

— Ou só tentando confundir você.

A tensão era palpável. A chuva lá fora parecia cessar. Nada existia além do olhar fixo que trocavam.

JJ, fotografando a cena, inclinou-se para Rossi e cochichou:

— Eles vão se matar.

Rossi deu um sorriso.

— Ou se beijar. Às vezes, essas coisas andam juntas.

Hotch não comentou, mas observava. Ele sabia reconhecer quando duas forças opostas estavam prestes a colidir.

Sob a marquise, protegidos da chuva agora torrencial, Emily e Reid ficaram lado a lado, ambos em silêncio. O som das gotas pesadas preenchia o espaço entre eles.

Sem olhar para ele, Emily disse:

— Se você estiver certo, temos pouco tempo.

Reid manteve o olhar fixo nela, firme.

— Eu estou certo.

Por um instante, ela acreditou que ele não falava apenas do caso.