A Linha Tênue Entre Nós
16 Capítulo 15 – Cinzas
A estrada estava vazia.
Não havia carros. Não havia testemunhas. Apenas o asfalto escuro cortando a mata e o som distante do vento, como um aviso tardio.
Emily Prentiss dirigia com as mãos firmes no volante, o olhar fixo à frente. O rádio permanecia desligado. O celular, abandonado no banco do passageiro. Aquela solidão não era acidente — era escolha.
Ela sabia exatamente onde estava indo.
O ponto de encontro fora calculado para parecer erro: uma rota secundária, mal iluminada, longe das câmeras principais. O tipo de lugar onde acidentes acontecem. Onde histórias terminam.
O carro atrás dela surgiu no retrovisor sem faróis.
Emily não acelerou.
— É agora — murmurou para si mesma.
O impacto veio pela lateral.
Metal contra metal. O mundo girou. O volante escapou de suas mãos quando o carro foi arremessado para fora da pista. O som foi ensurdecedor — vidro estilhaçando, ferro retorcendo, ossos protestando.
O veículo capotou uma vez.
Duas.
Na terceira, o tanque foi atingido.
A explosão iluminou a noite como um falso amanhecer.
O fogo subiu rápido, faminto, engolindo o carro em segundos. As chamas rugiam alto demais para qualquer pedido de socorro. O calor distorceu o ar, fazendo a estrada parecer derreter.
Quando tudo cessou, restaram apenas destroços em chamas.
E silêncio.
A equipe chegou tarde demais.
Reid foi o primeiro a sair da viatura. Não esperou ordens. Não ouviu Hotch chamá-lo. Correu.
O cheiro de combustível queimado invadiu seus pulmões antes mesmo que ele visse o carro.
Ou o que sobrou dele.
— Não… — a palavra escapou como um soluço, antes que pudesse impedir.
Os bombeiros tentavam conter o fogo, mas já não havia o que salvar. O carro era apenas uma massa carbonizada, irreconhecível. As chamas haviam feito um trabalho preciso.
Reid caiu de joelhos.
— Emily… — sussurrou, a voz falhando, como se chamá-la pudesse trazê-la de volta.
Hotch se aproximou, o rosto rígido demais para ser apenas profissional.
— Reid… — tentou.
— Não! — Reid se virou, os olhos vermelhos, desesperados. — Ela estava comigo. Ela estava bem. Ela prometeu.
Hotch não respondeu.
Porque não havia resposta.
Um dos peritos se aproximou, sério, segurando um saco plástico.
— Encontramos os documentos — disse, baixo. — E o distintivo.
O distintivo de Emily Prentiss.
Derretido nas bordas.
Reid estendeu a mão com dificuldade. Os dedos tremiam quando tocaram o metal deformado. O peso daquele objeto parecia maior do que qualquer arma que já segurara.
— Isso não prova nada — murmurou, negando com a cabeça.
Mas provava.
O corpo fora encontrado dentro do carro.
Carbonizado.
Irreconhecível.
A identificação veio pelo que restara dos pertences pessoais.
O relatório foi frio:
Agente Especial Emily Prentiss — Falecida em serviço.
A notícia se espalhou rápido.
Na BAU, ninguém falou por longos minutos.
Garcia chorou em silêncio, abraçada a JJ. Rossi permaneceu sentado, encarando o vazio. Hotch assinou papéis com a mão pesada de quem sabia que aquilo nunca sairia da memória.
Reid ficou sozinho.
No quarto escuro, sentou-se na beirada da cama que ainda cheirava a ela. Pegou o travesseiro, pressionando-o contra o peito como se pudesse arrancar dali alguma resposta.
— Você disse que ficaria — murmurou para o nada.
Não houve resposta.
A cidade seguiu.
O caso foi encerrado.
O arquiteto observou as manchetes com satisfação silenciosa.
Emily Prentiss estava morta.
Queimada.
Reduzida a cinzas.
E, para o mundo inteiro, aquela era a verdade final.
Não havia corpo a ser velado.
Não havia despedida.
Apenas o vazio deixado por alguém que se foi sem deixar.
E, naquela noite, enquanto a estrada esfriava e as cinzas se misturavam ao asfalto, uma promessa antiga finalmente pareceu cumprir seu destino.
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