Os sonhos começaram três anos depois da morte do meu pai.

Ainda me lembro das suas últimas palavras antes de cruzar pela porta desgastada da nossa casa em Romero.

– Cuide de sua mãe enquanto eu estiver fora.

Olhava tão intensamente para mim que mesmo hoje é impossível não se perguntar se ele já não sabia que aquele seria o nosso último encontro. Se aquele olhar não queria me dizer alguma coisa.

Cuide de sua mãe, pois eu não voltarei mais. Era isso o que seus olhos diziam.

Será que ele já sabia que Olson perderia o controle do velho caminhão de transporte na rodovia principal da saída leste? Será que ele viu, minutos antes do acidente acontecer, uma sombra mortífera pairar sobre sua cabeça revelando o fim ao qual estava destinado? Essas perguntas costumavam me atormentar nas primeiras noites. Como monstros insistentes que cravavam ferozmente suas garras em meu cérebro, me levando a um estado de entorpecimento tão profundo, que nem os remédios com os quais minha mãe passou a se drogar durante todas as noites seguintes seriam capazes de proporcionar.

Hoje já não me assustam mais.

Quando tento lembrar daquele dia, uma sucessão de cenários desbotados e silhuetas negras parecem se formar diante dos meus olhos. Um borrão que se afasta cada vez mais do meu foco. Desfragmentando-se em meus pensamentos como cinzas levadas pelo vento ou como se tudo não passasse de um sonho distante.

Um pesadelo, que meu corpo aprendeu — não sem antes terminar completamente esgotado — a rejeitar.

O sonho que eu tenho sonhado ultimamente, porém, é diferente de todos que já tive na vida.

Começa com uma escuridão. Uma completa escuridão que não me permite enxergar absolutamente nada, nem mesmo minha própria mão quando a aproximo a centímetros do meu rosto. Sei que há algo errado. A impressão que tenho é que estou em um estado de inconsciência profunda, embora esteja perfeitamente lúcida e ciente de todas as percepções físicas.

Depois vem o frio. Um sopro gelado vindo de lugar nenhum que preenche o vazio e invade cada minúsculo poro do meu corpo. Instintivamente, me abraço num gesto protetor. Sinto um arrepio percorrer minha espinha levantando os pelos da minha nuca. Arregalo os olhos, tentando compreender a origem da mudança de temperatura ou atribuir algum sentido para tudo aquilo. Nada. Apenas a escuridão completa e o frio desconcertante.

Como eu cheguei ali? Que lugar era aquele? Antes de ao menos tentar responder, sinto algo subindo pelo meu corpo como uma corrente elétrica. Como um animal selvagem buscando sua presa ou um ácido poderoso corroendo tudo por onde passa, deixando para trás uma sensação que não me faz pensar em outra coisa que não seja a morte.

Medo.

Penso em coisas ruins. Sinto a umidade nas bochechas e percebo que estou chorando. Minhas mãos tremem contra meus braços, apertando-os tão forte que consigo sentir as unhas cravando na carne, embora não sinta a dor. Meu corpo parece não responder aos estímulos dolorosos. Talvez o frio esteja adormecendo meus membros, mas não há como ter certeza. Espero por um instante, sabendo que algo horrível acontecerá em breve.

Um cheiro pútrido invade minhas narinas.

Não há como evitar a ânsia de vômito. Consigo respirar fundo antes de cair de joelhos e despejar todo o conteúdo do meu estômago no chão duro que eu sou incapaz de enxergar. Sinto uma ardência imediata na garganta. Meu estômago está vazio, e o ácido agora queima como brasa. Por um segundo penso em um copo de água. Consigo sentir as gotas de suor frio escorrendo lentamente pelo meu rosto. Enxugo-o com a manga da blusa.

Eu não sei onde estou, mas sei que vou morrer aqui. A certeza me atinge em cheio e logo se apodera de mim, de tudo o que eu sei e o que eu sou. De repente, para a minha surpresa, sinto um alívio. Um sentimento de calma que atravessa meu corpo como uma onda batendo em uma rocha.

Agora eu posso ver claramente. Só há uma única maneira de sair daqui.

Deixando de existir.

No instante em que me dou conta disso, algo inesperado acontece. Uma luz amarelada, como a luz de um holofote, se acende a apenas alguns metros de mim. Se são trinta ou quarenta metros, não consigo estabelecer uma distância correta. Aperto os olhos para enxergar a fonte, mas tudo o que vejo é o cone de luz pairando no ar, como se flutuasse em meio ao negrume de uma escuridão eterna.

Tenho um mau pressentimento. Tudo aponta para que eu caminhe em direção da luz, embora meu instinto pareça gritar dentro de mim. Não vá. Não se aproxime. Espere. Levanto do chão e junto os braços na lateral do corpo. Há algum tipo de força que me impede expressar qualquer reação.

Algo muito ruim está para acontecer, eu simplesmente sei.

Ouço um passo.

Meus músculos se retesam. Meu coração faz força contra o peito, batendo em um ritmo acelerado e tão audível que consigo contar as batidas.

Outro passo.

Alguém está caminhando na minha direção. O fedor de carne podre aumenta e levo as mãos ao nariz e a boca imediatamente para não inalar aquele ar fétido. Há vários passos agora. Seja quem for, não está sozinho. Além do cone de luz, consigo ver uma imagem se projetando na escuridão.

Um sapato gasto. Uma calça preta. Errado. Aquilo estava muito errado.

Tenho a sensação de que as veias do meu pescoço vão explodir com a força com que prendo os braços contra as laterais do corpo. O desconhecido caminha na direção da luz do holofote, mas hesita e para antes de chegar ao centro, permitindo que eu só consiga visualizar seu corpo do pescoço pra baixo. Seu rosto totalmente engolido pelas trevas. Atrás dele, vejo alguns vultos. Sombras dentro de sombras. Formulo a frase mentalmente, sem conseguir encontrar um sentido para ela.

Um silêncio toma conta do lugar. Eu me pergunto por que meus olhos ainda não se ajustaram àquela escuridão, sem conseguir parar de encarar a silhueta a minha frente.

Algo na sua roupa e no modo de andar desperta em mim uma lembrança, embora eu ainda esteja atordoada demais para compreender qual. Ficamos ali por um minuto, apenas nos encarando. Apesar de estar mergulhada no breu, tenho certeza de que ele sabe da minha presença.

Inesperadamente, ele limpa a garganta e fala:

– Salve-nos, Julia. — Sua voz é grave e doce, quase reconfortante. Me faz pensar em família, calor e abraço. O pensamento se desfaz automaticamente e fico aterrorizada. Ele sabe meu nome.

– Salvá-los? — Pergunto, desejando não transparecer o terror que sinto. Minha voz em um tom praticamente inaudível. — De quê?

Silêncio novamente. Ouço a respiração do sujeito e das sombras atrás de si. É um sibilar freqüente, como o som do vento chacoalhando as folhas de uma árvore. Aquilo me tranqüiliza. No fim de cada respiração ouço uma rouquidão. Praticamente imperceptível, mas está ali. Um ruído estranho e não natural que não faz o menor sentido. Não consigo me lembrar de ter ouvido nada parecido.

Salvá-los de quê? , penso. E como eu faria isso, se sou apenas uma garota de dezessete anos que mal consegue parar de tremer?

Então, como se tivesse a capacidade de ler meus pensamentos, ele dá um passo e responde.

– Da morte.

Mas sua voz não é mais a voz suave que ouvi há pouco tempo. É um grave gutural. Um grunhido assustador e grotesco, saído bem do fundo se sua garganta. Tento olhar para o rosto do homem no exato segundo em que a luz cai sobre ele, mas antes que eu consiga raciocinar, vários outros holofotes começam a acender, lançando dezenas, centenas, milhares de luzes no ambiente. Em segundos, um mar de cones de luz parece flutuar na escuridão.

Olho fixamente para o homem e então eu vejo. Tenho a impressão de que meu coração vai sair pela boca. Pisco os olhos de incredulidade e caio novamente de joelhos, sujando a calça com o líquido ácido que vomitei agora a pouco. Foi por isso que achei sua roupa e seu comportamento familiar, a voz reconfortante e calorosa que me fez lembrar imediatamente de casa. Ali estava ele, há poucos metros de mim.

Meu pai.

Mas havia algo errado. Segurei o impulso de correr até lá, dizer o quanto sentia sua falta, o quanto o peso da sua ausência pareceu ter sido capaz de revirar o mundo de cabeça pra baixo. Meu instinto me impede no ato. Não é ele.

Claro que é ele. Quem mais seria?

E é então que eu o vejo realmente: Seu olhar inexistente, nada mais que duas órbitas vazias, dois buracos tão negros quanto aquele infinito onde estávamos presos. Sua pele estava pálida, porém as extremidades do nariz, da orelha e da boca eram de um tom de azul-enegrecido macabro. Torço o nariz e vomito novamente. Dessa vez apenas o ar sai da minha boca.

O cheiro estava vindo dele.

Vejo larvas saindo pelo canto esquerdo dos seus lábios. Pelo lugar onde deveria haver o olho direito. Por uma ferida enorme em sua garganta coberta por uma camada de sangue coagulado, o que explicava o ruído estranho que eu havia escutado enquanto ele respirava.

Aquilo era um cadáver.

Olho na direção onde antes havia apenas sombras e vejo centenas, senão milhares de outros mortos iluminados pela luz dos holofotes: Crianças, jovens, adultos, velhos... Todos eles cantando uma melodia macabra, caminhando em minha direção. O som me atinge como um terremoto e sinto o chão estremecer sob meus pés. Percebo imediatamente que estou em um pesadelo e sei que estou acordando.

– O tempo está chegando. — Disse aquele que um dia deveria ter sido o meu pai. — Salve-nos.

Um rosto se destaca em meio à multidão de corpos desfigurados e coloridos com as cores macabras da morte. Um jovem alto, que poderia muito bem ter sido bonito em vida, de cabelos castanhos, pele branca e queixo esculpido, me encara com uma expressão estranha.

Estava confuso, como se existissem dúvidas sobre quem era e o que estava fazendo ali.

– Salve-nos. — ele disse.

E a escuridão preencheu o lugar novamente, deixando apenas o frio, o cheiro da morte e o som de uma multidão entoando uma canção ao mesmo tempo agonizante, triste e melódica.

Salve-nos. Salve-nos. Salve-nos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.