A Light That Never Comes
2 Em contato extremo com o obscuro.
A chuva batia bruscamente em contato com o vidro do carro que estava me transportando até o lugar que eu menos desejava ir: A escola. Aquele lugar onde tantas coisas aconteceram, tanto boas quanto ruins. Mas o que fazer se não ir de novo e de novo para aquele lugar. Minha mãe permanecia calada dirigindo, geralmente não nos falávamos muito. Por que? Por simplesmente ela ser mais uma daquelas pessoas que não aceitam as preferências dos filhos e ficar julgando-os devido a isso. Se esse é um dos meus problemas? Sim, é, mas de longe é o pior.
Claro que ter uma mãe que não te aceita é ruim, mas te digo, tem coisas piores. Piores como ter amigos que lhe excluem, ter pessoas que falam mal de você e ter um bando de pessoas quase descobrindo o seu maior segredo, que na verdade nem eu mesmo sei. Só digo que é complicado, muito complicado.
Minha sala mais parece um zoológico, hoje não foi diferente. Os garotos se exibindo para as garotas e as garotas sendo as mesmas putas de sempre, isso é, quando eles não começavam a se agarrar a ponto de você pensar que eles iriam fazer sexo ali mesmo, na carteira da escola e na frente de todo mundo. Revirei os olhos e me dirigi para o meu lugar de sempre: A ultima cadeira, da ultima fila. O único que falava comigo como antes era meu amigo Phil, advinha? Ele era gay. Mas não um gay que você fala: Oi Phil, pegando muitos? Me apresenta um dos seus amigos, vai. Não, ele é um daqueles gays incubados. O pior é que todos desconfiam e ele nega, as pessoas não tem preconceito, mas ele nega. Não o entendo, qual o problema de dizer que prefere meninos a meninas? Não vejo mal nenhum, mas ele vê. Acho que sente medo, enfim.
O dia iria ser monótono do mesmo jeito de todos os outros dias, que são sempre monótonos, até que a professora de português (a gata da professora de português) entra na sala acompanhada de uma garota linda, simplesmente linda. Ela tinha os cabelos castanhos, pele levemente bronzeada, olhos escuros e o sorriso mais lindo que eu já havia visto na vida. Era estranho dizer isto em relação a uma pessoa a qual você acabara de ver pela primeira vez na vida, mas coisas estranhas eram comuns em minha vida, relevei. Olhei para Phil e ele me olhava com cara de safado enquanto a professora de português (que era muito gata, eu já falei isso?) apresentava a garota.
– Ela não para de olhar pra cá, percebeu? — Disse ele com aquela voz que só os gays sabem fazer.
– Você está viajando de novo, percebeu? — Respondi revirando os olhos e deitando minha cabeça sobre a mochila.
Juliet. Isso me lembrava tanto uma antiga história. Nha, que merda eu estava pensando. Fechei os olhos e os mantive fechados por toda a aula.
[...]
Eu sonhava com um gato tomando sorvete quando senti alguém cutucando minhas costelas, ao abrir os olhos dei de cara com a cara feia de Phil com um sorriso amarelo me olhando fixamente. Dei um pulo da cadeira, o que fez ele rir muito.
– O que tem na cabeça, criatura? Quer me matar do coração?
– Foi mal aí gnomo.
Ri com o comentário, meu nome era Ralf, eu sei que é estranho, mas não brigue comigo, brigue com minha mãe, foi ideia dela horas! O bom é que ninguém realmente me chamava por esse nome, por dois motivos:
1- Era simplesmente ridículo.
2- Eu tinha um apelido muito sexy.
Sabe qual o meu apelido? Gnomo. Por que? Por que eu sou uma anã de jardim. Até os professores, da pra acreditar? Pois bem, Phil estava com o caderno em mãos, era uma atividade em trio, mas eu e Phil éramos uma dupla. Então... Faltava alguém, quem iria sentar e fazer a atividade com a gente? Adivinhem? O mais clichê possível, vai gente, quem? É, a novata. Eu poderia matar ele algum dia, mais amo esse viado, fazer o que?
Nunca gostei muito de biologia, sim, biologia. Dormi a aula de português inteira, pra mim se não visse os peitos dela a aula não valeria a pena, e ela estava com um moletom, então não rola. A atividade de biologia era sobre aves, como elas voam e bla, bla, bla.
A tal Juliet não era de falar muito, mas Phil puxava assunto até do inferno com ela, enquanto eu desenhava algo no caderno e pegava as respostas prontas, como sempre fazia. Terminou que a aula chegou ao fim e nós não havíamos feito nada.
O resto do dia foi exatamente igual, Phil tentando puxar assunto com a novata. Ele gostava de puxar assunto com as pessoas novas, não sei o por que, mas ele gostava. Principalmente quando esta tal novata não parava de olhar para mim, isso realmente era verdade, ele não tinha viajado na maionese, e estava me incomodando.
A aula chegou ao fim, peguei minhas coisas e me dirigi para o portão principal, onde minha mãe sempre me esperava, mas ela não estava ali hoje e a novata se aproximava. Meu deus, qual o problema das garotas de hoje?
– Oi. — Ela falou ao se aproximar o suficiente de mim.
– Oi. — Respondi desviando o olhar para o portão e com o pensamento: Mãe chega logo, mãe chega logo.
– Te achei bem legal e tal.
– Ah, valeu. — Agora meus pensamentos eram: Mãe demore, mãe demore. Sou bipolar, eu sei.
Ela estava sem assunto, infelizmente, mas tudo bem, eu também estava. Então um carro chegou a porta da escola, não reparei no modelo, mas sei que era preto.
– Tenho que ir, meu pai chegou. — Ela se aproximou e beijou minha bochecha. O que fez estranhamente um sorriso brotar de meu rosto e meus olhos acompanharem ela. Estranho.
[...]
Uma meia hora depois minha mãe chega, com uma desculpa qualquer sobre trânsito e sobre trabalhar de mais, já estava tão acostumada que nem me importei.
A tarde foi entediante, com exceção de uma ligação inesperada que recebi: Liss. É, ela sempre me ligava, minha melhor amiga e um segredo que não quero que contem para absolutamente ninguém: Eu estava completamente apaixonada por ela. Só que não sabia como dizer ou se realmente deveria dizer, tudo bem, coisas assim acontecem.
Ela havia ido para outra escola e nós nos falávamos todos os dias, sempre a mesma coisa acontecia: Eu adormecia ouvindo a voz dela. Neste dia não fora diferente, adormeci ouvindo o doce som da voz daquela que falava ao outro lado da linha telefônica.
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