Azriel acorda de mais um sonho terrível, ele sonha com a morte de seus pais, no dia em que Meridian foi atacada pelos albas. Perplexo Azriel se levanta de sua cama, calça suas sandálias de couro e vai escovar seus cabelos prateados. Após fazer suas necessidades de todas as manhãs, ele se assenta ao lado de Herótos.

— Azriel, preciso conversar com você garoto. — disse Herótos enquanto segurava uma rosa.

— Me diga senhor, o que há? — responde Azriel.

— Nesses dois anos que passara, eu criei um amor forte por você, é o filho que nunca tive, mas há um problema. — diz Herótos triste.

— Pode falar meu senhor, estou aqui para ouvir você.

— Azriel, você não pode ficar aqui, meridianos não podem ser como albas. — explica Herótos. — Você deveria ser um escravo, mas eu não tenho coragem de escravizar você meu querido.

— Mas senhor, o que você acha que deveria ser feito? — responde Azriel em um tom assustado.

— Existem comerciantes que precisam de escravos, sou obrigado a vendê-lo para um deles. — responde Herótos com um tom muito triste.

Herótos é um grande general alba, em uma de suas guerras ele achou Azriel gravemente ferido no chão. Os guerreiros de Alba não são treinados para matar, e sim para escravizar. Herótos ao ver Azriel naquele estado, logo o colocou em cima de seu cavalo e levou-o pra casa. Azriel havia sido alvo de uma espada, que perfurou seu corpo passando entre a sua aorta e sua cava. Herótos havia adotado Azriel como seu filho, mesmo sabendo que se alguém descobrisse que Azriel era um prisioneiro poderiam até matá-lo.

Mesmo triste Azriel sabia que não poderia viver como filho de Herótos por muito tempo e diz.

— Tudo bem meu senhor, eu sei os problemas que posso causar se continuar a morar com você. — diz Azriel enquanto olha para baixo.

— Então vamos filho, levarei você ao comerciante. — diz Herótos com seu coração aos prantos.

Enquanto Azriel é levado para os comerciantes ele começa a pensar em sua vida e tudo o que ele passou, Azriel nota que todos o olham com uma cara de desprezo. Ele percebe que todos já desconfiam que ele seja um meridiano. Chegando à área comercial do reino de Alba, o comerciante avista Azriel e nota que ele não tem porte físico necessário para ser um bom escravo, ele é um garoto de quinze anos, pequeno e de aparência delicada. O comerciante acha que Azriel é bonito de mais para ser um escravo, mesmo assim, Azriel é um meridiano.

— Bom dia general Herótos, este é o escravo que você tem para me oferecer? —diz o comerciante em um tom de sarcasmo. Ele parece muito forte.

— Sim Euclides, ele é um de meus melhores escravos, mas esta tendo um caso com a escrava de meu vizinho, e não pode continuar a trabalhar em meu terreno. — mente Herótos, para que Euclides compre Azriel.

— Fale alguma coisa, pequeno polaco — diz Euclides. — deixe-me ouvir sua voz.

Azriel não deixa escapar uma única palavra, apenas olha para a esquerda franzindo suas sobrancelhas.

— Anda escravo, eu ordeno que fale algo! — diz Herótos com tom autoritário.

— Obedeço apenas ao meu mestre senhor Euclides. — responde Azriel a Euclides.

— Hmm. Um escravo muito obediente não?! — afirma Euclides.

Euclides finalmente decide comprar Azriel. No caminho de casa, Euclides pergunta a Azriel. — Garoto, você não tem medo de ser torturado? Seu físico não é de escravo.

— Eu tenho meus valores. — responde Azriel enquanto suspira.

— Como ousas falar assim comigo, pequeno polaco? Você não sabe nem o que é uma pergunta retórica? — altera-se Euclides. — Hoje não precisaremos nem de carrasco, eu mesmo me encarregarei de açoitar você!

Ao chegar a casa, Euclides empurra Azriel com violência ao chão. — Anda polaco, vá até meu celeiro e traga-me meu chicote. Rápido! — grita Euclides.

O pequeno Azriel não faz ideia de onde fica o celeiro de Euclides, depois de alguns minutos procurando, ele finalmente encontra o chicote de Euclides. Mas depois da demora de Azriel, Euclides está ainda mais irritado com seu escravo incompetente audacioso.

— Por que demorou tanto, seu filhote de mula? — diz Euclides enfurecido.

—Eu estava procurando seu chicote. — responde Azriel calmamente.

Euclides então pega seu chicote e conta 200 açoitadas nas costas de Azriel. Aos poucos, o pequeno Azriel ia perdendo seu fôlego até que ele desmaiou de tanta dor. Descontente com o ocorrido, Euclides tem um ataque de fúria e começa a chutar Azriel com toda sua força. Os hematomas de Azriel são tão severos que ele se mantem adormecido até o início do outro dia.

— Acordem escravos, aqui está a comida, bando de porcos sujos! — grita o carrasco de Euclides—

“Todos os escravos levantam-se e correm para comer, que coisa desumana, se não consertarmos isso cedo, as pessoas continuarão sendo desorganizadas e repulsivas futuramente. Vejo pessoas serem escravas mesmo com o fim dessa escravidão, vejo também que existirá um mérito a quem trabalha, e os escravos serão os sem méritos” — pensou Azriel, sem botar um grão de trigo na boca.

Azriel acordara num lugar pouco iluminado e pouco ventilado, ele via dejetos humanos espalhados pelo chão, apenas observara os carrascos jogando comida no meio daqueles dejetos, ele não conseguia compreender o porquê de tantas pessoas se satisfazerem sendo prisioneiros, já que nessa quantidade de gente era tão fácil fazer uma revolta.

Azriel ouve uma voz dizendo — Ei garoto — e pensa “nossa, que voz baixinha, só pode ser coisa de minha imaginação”. E a voz continua a chamar.

— Ei garoto dos cabelos prateados, venha aqui. — diz a voz sussurrando.

Azriel olha para o lado, e vê que é apenas mais um escravo meridiano o chamando.

— O que foi amigo, o que você quer de mim? — pregunta Azriel ao escravo.

— Você veio do reino de Meridian também certo? — responde o escravo com outra pergunta.

— Sim. — responde Azriel perplexo — como você sabe?

— Achei você meio familiar — diz o escravo sorrindo.

Azriel espantado sorri para o escravo, e em alguns minutos um carrasco vem buscar Azriel.

— Ei polaco, venha aqui, estamos precisando de suas mãos.

— Estou indo — responde Azriel enquanto levanta-se.

Azriel então se dirige pelo meio daquelas fezes e comida apodrecidas em encontro ao carrasco. O carrasco então o pega com força pelo braço e leva Azriel até Euclides.

— Olá pequeno prodígio, está pronto para me servir? — diz Euclides com um tom sarcástico.

— Olá grande covarde, estou pronto para sair daqui quando puder — corta Azriel enquanto tira seu braço da mão do carrasco.

Enfurecido Euclides pega Azriel e o amarra numa cadeira.

— Você fala de mais pequeno polaco, vou resolver esse seu defeito — diz Euclides com uma agulha e fio de costura.

Euclides então costura os lábios de Azriel para que ele não fale nada mais, e apenas cumpra suas ordens. Azriel tenta conter suas lágrimas, mas a dor é extrema. Euclides chama o carrasco para que bote Azriel para trabalhar no pesado, cuidando dos moinhos de trigo e do gado. Azriel é um garoto fraco e não consegue fazer com que o moinho gire, então ele passa alguns meses apanhando intensamente. As feridas de Azriel já haviam se transformado em calos grandes, e ele já conseguia suportar as dores como ninguém.

Por meses Azriel reparava que toda vez que aquele escravo presenciava seu sofrimento, o escravo caía aos prantos de lágrimas dolorosas, sabendo que Azriel não podia falar, o escravo não conversou mais com Azriel. Se sentindo muito sozinho, ele foi até as grandes árvores do terreno de Euclides e arrancou um grande pedaço da casca da árvore. Então Azriel escreveu com um pedaço de carvão “porque o senhor chora tanto quando eles me açoitam?”. O escravo retira do meio de suas vestes uma pena azul claro.

Azriel lembra-se de sua infância, de seu sonho de ser o melhor arqueiro do reino de Meridian, ele se lembra de um dia de caça, em que ele acertou um passarinho azul. Era um passarinho lindo, ele retirou uma pena como lembrança e entregou ao seu pai. Logo Azriel nota que aquele homem não é apenas um escravo, e sim seu pai biológico, que havia sido dado como morto no dia da guerra entre Alba e Meridian.

— Pai? É você mesmo? — diz Azriel com muita dificuldade, o som sai abafado e muito aerado.

— Sim meu filho, eis me aqui reencontrando você, senti tantas saudades de você meu filho, dês do dia em que atacaram Meridian, nunca mais tive contato com você, hoje estou aqui acabado e irreconhecível.

“E minha mãe, como esta?” — escreveu Azriel.

— Sua mãe? — disse espantado a Azriel— Bem, sua mãe não está mais entre nós, Euclides queria se casar com sua mãe, eu não pude fazer nada, sua mãe negou o casamento com Euclides, como castigo ele a estuprou depois matou ela com uma marreta de abater o gado.

Azriel arregala seus olhos e chora como nunca chorou antes, seu ódio por Euclides vem á tona.

No outro dia, o carrasco vem jogar a comida e chamar os escravos, como faz todos os dias, Azriel então arrancou o chicote da mão do carrasco, e antes que o carrasco pudesse gritar, todos os outros escravos o abateram. Azriel esconde o chicote em suas vestes e se dirige até Euclides com todo seu ódio á tona.

— Onde está seu carrasco, polaco idiota? Guardas peguem-no agora! — grita Euclides com medo.

Antes que Azriel pudesse acertar Euclides com seu chicote, os guardas acertam uma flecha em seu joelho. Azriel despenca violentamente ao chão.

— Ora pequeno polaco tolo, achou mesmo que poderia me matar assim tão fácil? — diz Euclides rindo dessa situação.

— Grande covarde, depende de seus capachos para bater numa pequena criança! — grita Ezequiel, pai de Azriel.

— Nossa polaco, vejo que você fez novos amiguinhos nesses meses. Guardas tragam-me esse escravo idiota! — ordenou Euclides. — Dê a ele uma armadura e uma lança. Vamos brincar um pouco.

Ezequiel antes de ser aprisionado, fora um dos maiores generais do reino de Meridian, era um arqueiro nato, porém não tinha habilidades com lanças.

— Azriel, venha! — disse Euclides — Assistirás tudo de boca fechada.

Euclides leva Ezequiel e Azriel até um coliseu no reino de Alba, o coliseu era enorme, tinha assentos de couro de leão.

— Guardas, quero minha juba de leão dourada para assistir isto! — diz Euclides.

Enquanto os capachos de Euclides vão buscar sua juba, Azriel chora por seu amado pai no meio da arena, o que ele sonhara alguns meses atrás este perto de se realizar, ele sente o cheiro de sangue podre do meio da arena, ouve os rugidos dos leões, enquanto seu pai se ajoelha e reza, Azriel aos poucos vai perdendo a crença ao seu Deus. Até que chega o grande momento. Ezequiel equipado com armaduras de couro e uma lança de pedra contra cinco leões famintos.

Como o coliseu possuía um formato meio ovalado, os leões partiam de todos os lados de Ezequiel. Enquanto ele corre de um lado para o outro, da de cara com cada vez mais leões, e com aquela lança ele consegue matar apenas um leão. Ezequiel cansado de lutar, se ajoelha no chão aos prantos e grita — Eu te amo meu filho — enquanto os leões começam a devorar suas partes aos poucos ele começa a rezar por seu Deus. Azriel movido pelo ódio empurra Euclides do alto do coliseu.

Azriel olha para as vísceras de seu pai e se ajoelha no alto do coliseu.

— Meu Deus, o que eu fiz de tão errado pra ter que passar por isso — clama Azriel.

“Não importa o quanto você seja bom, sempre terá alguém pra transformar sua bondade em ódio, acho que o mundo não foi feito para conviver, mas sim apenas para viver. Jamais deixe com que seu ódio controle você, após eu ter agido por impulso empurrando Euclides do coliseu já sinto que arranjei problemas para mim”.

Um ano após toda essa luta, Euclides já está curado de seus ferimentos, e decide castigar Azriel por isso.

— Carrascos, tragam-me o escravo Azriel, precisamos ter uma conversa — ordena Euclides.

Azriel acaba de acordar na sua prisão, olha para suas mãos trêmulas, e começa a refletir sobre seu Deus. “Será que Deus me enxerga? Será que ele vê o quanto me fazem sofrer? Ou será que ele simplesmente não existe?” pensa Azriel com tristeza.

— Azriel, venha aqui, Euclides precisa falar com você sobre o ocorrido no museu. — diz o carrasco. — Leve este cutelo á ele, aparentemente ele irá usá-lo.

Chegando a casa de Euclides, ele o entrega o cutelo.

— Muito bom pequeno polaco, aprendeu a ter respeito pelo seu mestre é?

— Estou apenas cumprindo minha pena — diz Azriel suspirando e revirando seus olhos.

— Ainda bem que você sabe garoto. — corta Euclides.

— Abaixe suas calças garoto, já notei que você não tem sentido mais as dores de suas torturas.

Azriel obedece pacientemente o pedido de Euclides.

— Carrasco, traga-me a Luna.

Luna era uma garota com um corpo escultural. Era morena magra e com curvas bem detalhadas, como líder do harém de cidade de baixo ela tinha um poder de sedução enorme. O pobre Azriel era virgem, então assim que Luna chegou, com pouca roupa, Azriel ficou excitado, e no ápice de sua ereção, Euclides cortou seu pênis com o cutelo que Azriel o entregara. Enquanto seu sangue escorria pelo chão, rapidamente Euclides aquece sua espada até ficar vermelha, e passa no ferimento de Azriel. Sua dor é tão grande que ele cospe na cara de Euclides.

— Como tens esta audácia de cuspir em meu rosto seu polaco idiota? — grita Euclides enquanto segura Azriel pelos cabelos. — Darei um fim nisso.

Euclides pega sua espada e direciona ao peito de Azriel.

— Lúcifer, o que posso fazer agora? — grita Azriel desesperado segundos antes de a espada acertar seu coração.

Ao ouvir isto, Euclides dá um pulo para trás e sente seu coração pegar fogo. Enquanto Azriel morre aos poucos vendo seu sangue escorrendo pelo chão, até que finalmente Azriel morre.

Euclides suspira, ao pensar que tudo aquilo terminou, mas de repente abre-se um buraco de fogo no chão. Uma entidade sai do fogo do inferno.

— Euclides olhe para mim e sinta a dor!

— Quem é você criatura? — pergunta Euclides após urinar em suas calças de tanto medo.

Euclides olha para aquela aberração de cabelos vermelhos e olhos negros, a entidade vestia um sobretudo preto com alguns desenhos de cruzes brancas. Ele carregava um livro que haviam escrituras numa língua incomum. Ele tinha asas de gárgulas negras.

— Eu sou Mashith, uma entidade infernal encarregada de castigar no Inferno os que cometem assassinatos, incesto e idolatrias. O meu nome significa destruidor e uma das minhas missões é levar a cabo a morte das crianças.

— O que você quer? — pergunta Euclides.

— Idiota, não se deu conta de seu assassinato? Você vem comigo, temos contas a acertar com você Euclides.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.