A Lenda dos Imortais: A libertação dos Selos
6 A Primeira Batalha
Notas iniciais
Todos desembainharam suas espadas, exceto Allansty, Celesthia e Strugger, que optaram por seus arcos para proteger os flancos de seus companheiros. Todos estavam preparados para iniciar o ataque, só aguardavam o sinal de Dragnvikt. Os gobargs foram os primeiros a perceber o cheiro de carne, e ficaram alerta.
Os bandos de gobargs, scross e korens não sabiam o que estava para acontecer, mas tinham uma leve desconfiança da presença de seres pelo cheiro de carne que sentiam. Gobargs são criaturas pequenas de aproximadamente um metro e meio, possuem narizes tão grandes quanto suas orelhas. Os gobargs sempre andam em bando de cinquenta ou mais, sempre comandados por um Gob, que é sua versão mais feroz e terrível. Suas armas são pedaços de paus, pedras e espadas de antigos guerreiros que ousaram atravessar a Grande Montanha.
Já os Scross, nem sempre foram monstros, um dia já foram Grantz que graças à magia negra foram corrompidos em demônios verdes com pele escamosa e espinhosa que formam quase uma armadura pra seu enorme corpo. Seus olhos são dourados, brilham durante a noite como tochas enfurecidas e que traz a lembrança que tais monstros outrora já foram bons. Eles ajudavam os azonianos do norte naquilo que precisassem, e foram os próprios que ergueram a grande muralha que protege os azonianos dos grantz. Eles andam em grupo de até cinco Scross.
Dragnvikt fica em silêncio por um breve momento, aguardando as feras baixarem a guarda, e quando o mesmo percebe que a hora chegou, desembainha sua espada. Longa, fina e mortal, ao qual a nomeou “Alma do Taurientron”. Dragnvikt aperta o cabo de sua lâmina, preparado. O mesmo lança um olhar a seus aliados para confirmar se os mesmos estão preparados, e nesse momento Dragnvikt faz o sinal. Um assobio longo e perturbador, com duas notas que ecoam pela montanha e faz com que as raízes das árvores tremam, os pássaros abandonem seus refúgios e voem dentre a folhagem dos pinheiros fazendo as árvores balançarem.
Toda sua companhia parte para o ataque, até mesmo o velho mago, Feleps que estava exausto. Dragnvikt prova que mesmo sem poder é digno do título de Senhor das Armas, pois desfere golpes com sua espada nos gobargs tão rapidamente que mal conseguem ver qual lâmina os atingiu. Sua espada é tão afiada, que nenhum gobarg que caiu diante dela ficou sem um membro se quer.
Os irmãos Rhunder batalhavam contra um Koren, Jollin havia superado seu medo e tentava golpear o monstro. Quando Jollin finalmente percebeu que não podia continuar fazendo aquilo para sempre, gritou para sua irmã:
— Eu vou distrai-lo! Você terá que escalar seu corpo e perfurar seus olhos!
— Está bem! – Respondeu Mellin aos berros, como seu irmão.
— Venha aqui sua besta deformada comedora de pedras! – Gritou Jollin para o monstro, na tentativa de ofendê-lo e chamar sua atenção.
O gigante de pedra tentou responder os insultos de Jollin com poderosos socos, mas o mesmo foi rápido e conseguiu se esquivar. Ele distraia o gigante com insultos e leves golpes com sua espada no exoesqueleto do mesmo. Nesse momento Mellin aproveitou a chance que teve e escalou uma árvore que perto do gigante estava com tal habilidade e rapidez. Ela estava preparada para pular, só esperava o momento certo.
Mas os Korens não são idiotas, assim que o monstro percebeu que Jollin apenas o distraia se virou e agarrou Mellin no momento em que a mesma pulou. O gigante de pedra ruge, mas antes que esmagasse com as próprias mãos, uma flecha de coloração azul atingiu o olho esquerdo do Koren, fazendo-o largar Mellin.
Jollin correu até o corpo de sua irmã para socorre-la, sua sorte era que o gigante estava distraído com a dor. Allansty também se aproximou para ajudar Mellin.
— Cuide dela! Depressa, eu te dou cobertura!
— Está bem! – Jollin a pegou no colo e correu em direção a algumas rochas, o único lugar seguro que o mesmo encontrou no momento. Assim que a deitou no chão, lhe perguntou: — Você está bem? Droga, me desculpe...
— Um pouco... Estou com uma dor nas costas... – Mellin colocou a mão no local onde sentia dor, e continuou: — Acho que quebrei uma costela...
— Droga, não sei como te ajudar. – Jollin já estava entrando em desespero, mas Allansty apareceu para verificar se estava tudo bem.
— O que houve?
— Ela quebrou uma costela, ou mais... Não sei exatamente.
— Deixa comigo, me dê cobertura. – Allansty falava com tanta confiança e frieza, que Jollin não podia acreditar que ele conseguia agir de tal maneira em uma situação como essa. Ele quase perdera a irmã. – Você vai ter que ficar de pé.
— Está bem. – Mellin se levantou com a ajuda de Allansty, e perguntou: — E agora?
— Isso vai doer. – Allansty procurou pela costela quebrada, mas nesse momento percebeu que Mellin tivera sorte, a costela estava apenas deslocada. Depois, com movimentos conscientes colocou a costela no lugar ignorando os gritos de dor de Mellin. – Você apenas deslocou a costela no momento em que o Koren te agarrou, você teve sorte. Jollin, leve-a para Celesthia e Strugger, ela não está em condições de lutar, além disso, ela é muito importante para morrer agora, não falhe de novo Jollin.
Mellin se conseguia andar com certa dificuldade devido à dor que sentia, mas com a ajuda de Jollin conseguiu chegar até Celesthia e Strugger rapidamente. Ambos estavam em cima de uma rocha com ampla visão do campo de batalha que se encontravam. Strugger se aproximou e perguntou:
— O que houve?!
— Ela deslocou uma costela, Allansty a ajudou, mas ela não está em condições de lutar. – Respondeu Jollin. – Tenho que voltar a batalha, cuidem dela.
— Tudo bem, deixe-a comigo. – Interferiu Celesthia ao abater dois gobargs que se aproximavam.
Jollin deixou Mellin sobre a proteção de Celesthia, e rapidamente se recompôs e voltou para a batalha. Mas, dessa vez Jollin estava mais agressivo, estava com raiva, estava lutando por sua irmã, por causa de sua fraqueza sua irmã quase morreu, e se ela tivesse morrido, uma das dez bestas se tornaria indestrutível e poderia espalhar o caos eternamente.
Bastosk e Clatos batalhavam sozinho contra duas dezenas de gobargs e um Scross. Ambos eram realmente fortes e brutais, eram truks, derrubavam os gobargs com facilidade, mas para derrotar o Scross precisaram da ajuda do cozinheiro, Nim, que ao acertar a parte de trás do joelho do monstro, fazendo o cair de joelho, e graças também a Bastosk que com um golpe de baixo pra cima com sua marreta acertou o queixo do Scross, e para finalizar o massacre Clatos cortou lhe a garganta e cravou sua espada no peito do mesmo.
Allansty e Lursty lutavam juntos contra um Koren. Mesmo Lursty sendo um utheriano, Allansty conseguia acompanhar seus movimentos com quase a mesma rapidez. Porém, o gigante de pedra protegia seus olhos sempre que atacado, Jarik e Bour chegaram para ajuda-los, mas trouxeram consigo algumas dezenas de gobargs e um scross. Strugger viu a situação perigosa que se encontravam seus amigos, e decidiu ir ajuda-los, deixando Celesthia sozinha com Mellin.
— Essa situação me é familiar!- Gritou Bour para Jarik, seu companheiro de caçadas. – Lembra aquele ogro da montanha que tinha domado alguns gobargs? Pois é, a única diferença é que esse gigante tem um exoesqueleto e nós não tínhamos ajuda!
— Isso vai ser divertido! – Disse Strugger ao se juntar aos seus companheiros, desembainhando sua espada. – Venham monstros! Provem o sabor de mel da minha espada!
— Sabor de mel? – Jarik soltou uma risada zombando de seu amigo Strugger, e disse: — Desde quando sua espada tem sabor de mel?! Que seja! Vamos!
— PROVEM O SABOR DO MEU MACHADO TAMBÉM! – Gritou Bour ao esmagar dois gobargs com um único golpe.
Os três caçadores lutavam de uma maneira diferente, ao invés de estarem sérios e concentrados, estavam rindo e zombando um do outro, e apesar disso eram tão bons quanto qualquer espadachim, nada era páreo para suas espadas, machados e marretas.
E ao contrario dos três caçadores, Lursty e Allansty lutavam calados e sérios, pois ambos tiveram um treinamento rígido e pesado, o que faz com que seus golpes sejam mais efetivos e rápidos, derrubavam gobargs com apenas um golpe. E, após uma sequencia de golpes contra o Koren, conseguiram fazer o monstro baixar a guarda e perfurar seus olhos antes que o mesmo pudesse perceber.
Feleps usou a magia do fogo para transformar meia dúzia de gobargs em cinzas, e conseguiu matar um scross após o eletrocutar usando o feitiço “Eletruns Féx”. Já Dragnvikt decapitava e dilacerava os gobargs com facilidade, pois sabia todos seus pontos fracos, e foi assim que Dragnvikt derrubou o último Scross, acertando uma veia que fica logo abaixo da nuca, uma das veias principais que matou o monstro no mesmo instante.
A batalha finalmente terminou, durou cerca de duas horas, todos estavam exaustos e com fome, exceto Feleps, o mesmo estava apenas com fome, a batalha não lhe deu muito esforço. Dragnvikt só estava cansado e com fome porque não tinha seus poderes. Mellin ainda sentiu dor, e por isso Feleps usou a magia de cura “Mitrus”, que a deixou perfeitamente bem.
Nim fez uma fogueira, onde cozinha algumas batatas e assou um cervo que Strugger havia caçado. Lursty, Celesthia e Dragnvikt preferiram beber o suco de melion e comer a fruta do rei, uma fruta que faz com que a energia gasta volte rapidamente. Nim trouxe o barril de vinho que havia escondido na mata antes da batalha e serviu para seus companheiros. Apesar da vitória contra um pequeno grupo de monstros não significar nada, naquele dia significou que ainda há esperança. Os três caçadores cantaram muitas canções, mas só uma atraiu a atenção de todas.
Oh, cante uma canção!
Uma típica de verão.
Sobre fogo, e dragão!
Uma dos velhos tempos.
Uma quando éramos jovens.
E explorávamos o mundo.
Oh, mundo maravilhoso.
Cheio de encanto e beleza.
Com uma vasta e infinita natureza.
Além de montanhas, colinas e vales.
Campos, lagos, rios e mares.
A todo lugar nós íamos.
Riamos e comíamos.
Oh, vida!
Maravilhosa vida!
Que me presenteou com aventuras.
Grandes amigos, companheiros e irmãos.
Irmãos de puro coração!
Avante com eles irei!
Até a morte irei!
Nossa amizade é mais forte que o aço.
Mais resistente que o couro de dragão!
Oh, meus irmãos! Meus grandes irmãos!
Quando a canção terminou, alguns começaram a beber e comer, outros ficaram apenas conversando. Mellin aproveitou o momento e foi agradecer a Allansty pelo o que ele fez por ela durante a batalha, o mesmo estava sentado embaixo de uma árvore com um copo de vinho na mão, afastado de todos, mas atento ao mundo.
— Allansty... – Começou Mellin, porém, um pouco tímida. – Eu queria...
— Me agradecer? Não precisa, eu apenas fiz o que tinha que ser feito. – Mesmo estando sem sua mascara, seu rosto não podia ser visto, o capuz escurecia e não se podia ver qualquer expressão do rosto de Allansty.
— Sim... Bom, não precisava responder dessa maneira. Mas, de qualquer maneira, obrigada.
— Me desculpe, não consigo evitar esse meu lado. – Por um breve momento foi possível ver os olhos azuis de Allansty brilharem sobre o luar.
— Muito bem... – Assim que Mellin se virou para voltar junto dos outros, Allansty segurou a ponta da sua capa: — O que foi Allansty?
— De nada. – Disse ele com tal frieza. – Não quer passar ficar aqui comigo até cair no sono?
— Sim, pode ser... Só vou pegar mais um pouco de vinho. – E assim Mellin fez, pegou mais uma rodada de vinho com Nim e voltou para continuar sua conversa com Allansty.
Mellin e Allansty conversaram até caírem no sono, já o resto da companhia acabou desmaiando de tanto beber. Feleps que está do lado de Dragnvikt, lhe fala:
— Por que os deixa beber? Amanhã vão estar de ressaca.
— Dê um tempo a eles. Eles tiveram um longo dia. – Respondeu Dragnvikt, com a postura firme como sempre. – É incrível, mesmo nos estando em uma situação devastadora eles são capazes de sorrir. Você devia sorrir Feleps.
— Não tenho motivos para sorrir! Ah! Vou dormir e passar a noite comigo mesmo! Sabe por quê? Por que só eu me entendo. – Feleps saiu resmungando e foi dormir ao lado de uma pedra.
Lursty se levantou, e acompanhado de Celesthia foi até Dragnvikt.
— Apesar de ele ser meio estranho, ele é muito poderoso. – Disse Lursty com seriedade.
— Meio estranho? Não tinha um termo melhor não? – Falou Dragnvikt, que observava as luas e planetas com admiração no céu limpo e estrelado. – Como ele disse, seu excesso de inteligência o deixa confuso. Ele é o mago mais poderoso e sábio existente, foi o primeiro a existir, ele sabe a verdade sobre a batalha contra os dez por que ele batalhou ao meu lado. E fato de ser um dos seres racionais mais velhos existentes o deixa mais confuso ainda.
— Ele tem mais de setecentos anos, não? – Perguntou Celesthia, e Dragnvikt respondeu assentindo. – Nunca conheci alguém com essa idade, ou pelo menos perto dela... Bom, além de você é claro. O rei de Celestron tem pouco mais de quinhentos anos, e o de Turion tem cerca de quatrocentos...
— Ser mortal tem suas vantagens. Eu posso viver para sempre, mas, aqueles que estão a minha volta não. – Dragnvikt respirou fundo e voltou a falar. – Eu gostaria de ter uma vida normal sabe, como vocês, como todos que vivem em Gloown, quem sabe até ter uma família, se eu pelo menos possuísse sentimentos... Mas, tudo isso é impossível para mim.
— Seus pais fizeram algo impossível, não? – Lembrou-lhe Lursty. – Quando se ama, não existe o impossível Dragnvikt.
— Exceto quando Amar é impossível... – Disse Dragnvikt parecendo um pouco triste. – Vão descansar, eu ficarei acordado durante toda a noite.
— Você está bem Dragnvikt? – Preocupou-se Celesthia.
— Sim, eu estou bem.
Celesthia e Lursty foram até seu lugar designado para descansar, embaixo de uma árvore ao lado de uma grande rocha. Ambos estavam sem sono, e Lursty aproveitou o silêncio da noite para perguntar a Celesthia:
— Por que será que ele nunca dorme?
— Talvez o fato de ser imortal interfira nisso.
— Mas, ele perdeu seus poderes. É praticamente um vashe.
— Ele não gosta de dormir. – Disse Feleps, entrando na conversa, não muito longe dos utherianos. – Quando ele dorme, ele sente tudo o que suas criações sentiram e sente. Ou seja, ele sente a dor de uma morte e a dor de perder alguém, até mesmo dos animais. Exceto os descendentes dos Skrinkes e os nascido da terra.
— Então, se ele dormir, digamos que ele sentirá a mesma dor que Mellin sentiu ao deslocar uma costela? – Perguntou Celesthia.
— Sim, eu só o vi dormindo uma vez. E vi como ele é torturado em seus sonhos. – Respondeu Feleps com a voz cansada e triste. – Agora descansem, temos um longo dia pela manhã.
A companhia de Dragnvikt teve apenas cinco horas para descansar, e antes mesmo do amanhecer Dragnvikt acordou todos, e ordenou que preparassem o equipamento para a descida da montanha. Assim como na subida, Bastosk também guia a companhia pela estreita e perigosa trilha usada para descer a montanha.
Durante a descida, Dragnvikt fala para Feleps:
— Os olhos dos gobargs e Scross estavam vermelhos. Magia dos Tauriens, Verlkorn está usando sua magia e o ódio que as criaturas têm por mim para servi-lo.
— Sim, creio que se ele é capaz de controlar os descendentes dos Skrinkes, ele é capaz de controlar as dez bestas.
— Ele é, mas não o suficiente. Por isso liberta uma besta por vez e espera um pouco. Será que pereceremos?
— Talvez, ter esperança é o primeiro passo meu Taurientron. A esperança é capaz de vencer qualquer coisa, até mesmo o que parece impossível.
Durante a descida da montanha, Dragnvikt pensou consigo mesmo sobre as palavras de Feleps, “A esperança é capaz de vencer qualquer coisa, até mesmo o que parece impossível”. Dragnvikt também se lembrou das palavras de Lursty “Quando se ama, não existe impossível...”. Dragnvikt olhou para o nascer do sol, e pela primeira vez o Taurientron sorriu.
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