A Lenda dos Guardiões
4 Capítulo 4 - Aruka: "O Passado Sob a Luz da Fogueira - parte 1"
Capítulo 4 — Aruka: "O Passado Sob a Luz da Fogueira — parte 1"
A poeira foi se dissipando aos poucos e só foi possível avistar os meninos após ela se abaixar por completo. Ambos estavam deitados no chão, desacordados e com muitos ferimentos.
– ONII-CHAN!! — gritou Aruka que, desesperada correu até o irmão, temendo que o pior tivesse acontecido.
Quando se aproximou dos garotos, ela percebeu que tanto Yusuke quanto o menino estavam respirando.
Ela se sentiu aliviada.
– Seu idiota, não me assuste assim nunca mais — sussurrou ela.
Ela olhou para Yusuke e em seguida para o garoto. "Não haveria a luz sem as trevas", lembrou-se do que Ennes dissera em seu sonho.
– Ammy, vamos leva-los para um lugar seguro e cuidar dos ferimentos deles — ela levantou seu irmão e o apoiou em seu ombro, no intuito de tira-lo do meio da estrada. — Teria algo em seu livro para cuidar de ferimentos e algo macio que possamos deita-los?
Ammy assentiu.
– Sim! Na verdade, tenho algo muito melhor que isso — Ammy olhou para o menino e torceu o canto da boca. — Vamos cuidar desse menino também?
Aruka assentiu, pensando se realmente estaria fazendo o correto.
– Em meu sonho, o espírito de Ennes me disse que a luz não existiria sem as trevas e que eu não deveria julgar a aparência. Algo me diz que foi um aviso sobre ele.
Ammy sorriu para ela.
–Okay! Então, mãos à obra!
(...)
Após alguns minutos, Ammy já havia levantado o acampamento. Era uma barraca espaçosa e resistente, que se encontrava à sombra das árvores. Seu tecido era feito de pele de urso e era erguido por hastes de metal. Por dentro, possuía um grande colchão inflável, travesseiros de penas e cobertores felpudos. Do lado de fora, uma fogueira estava montada, pronta para ser acesa. À cima da barraca, três pássaros robóticos sobrevoavam o perímetro, montando guarda. Eles eram feitos de ouro e cada um era movido a um elemento diferente — das asas de um emanava uma fumaça gélida, o outro emitia ondas de calor e o terceiro faiscava eletricidade por todo o corpo.
Aruka levara os meninos para dentro da barraca e cuidara de seus ferimentos. Foi necessário fazer alguns curativos neles. Ela retirou o capuz do menino de preto e viu seu rosto. Seu cabelo era negro e arrepiado, ele usava costeletas e suas sobrancelhas eram cheias. Ela corou ao perceber que achara o menino bonito.
Ammy e ela se sentaram na barraca, esperando os meninos despertarem. O tempo passou rápido enquanto conversavam.
– Ammy, você consegue tirar qualquer coisa do seu livro? — perguntou Aruka.
Ammy balançou a cabeça em discordância.
– Não. Eu guardo nele as minhas melhores criações. Só consigo gravar nele aquilo que eu mesma construi.
Foi então que o menino se mexeu, gemendo de dor. Aruka e Ammy pararam de conversar e voltaram sua atenção a ele. O garoto abriu os olhos e, ao ver as meninas, se levantou bruscamente, mas logo ele se agachou de novo, abraçando o próprio corpo por causa da dor.
– O que vocês querem comigo? Onde eu estou? — disse ele, mal conseguindo falar.
Aruka olhou serenamente para ele.
– Se acalme. Não tenha medo, pois ninguém aqui te fará mal. Eu só pensei que eu deveria cuidar dos teus ferimentos, por isso te trouxe aqui.
– Mas eu ataquei vocês. Como você pode pensar em me ajudar? — disse ele, olhando ligeiramente para o lado.
– É difícil de explicar — informou Aruka. — Eu tive um sonho com o espírito da guardiã lendária, Ennes. Ela me disse pra não julgar pelas aparências, pois a luz não existiria sem as trevas — ela fez uma pausa e olhou para Yusuke. — E analisando a luta de vocês, creio que ela se referia a você — ela suspirou e olhou timidamente para ele e notou que ele estava pensativo.
– Temo que esteja certa — disse ele seriamente. — Há dois dias, eu sonhei com o espírito de Guster, o ceifador de almas. Ele me disse que eu seguia um caminho tortuoso, tomado por dúvidas. Mas logo encontraria "aquele que é repleto de luz" e ao seu lado eu encontraria as respostas para todas as minhas perguntas.
Aruka estava perplexa.
"Então ele também é um guardião? Ou ele dizia aquilo apenas para leva-los para uma armadilha?"– pensou ela.
– Como posso saber se isso é verdade?
– Não sei, mas a julgar que eu acredito que o menino de luz seja o cara com quem lutei, peço que confie em mim, como confiarei em você.
Aruka olhou pra Ammy, que assentiu.
– Siga o teu coração, Ka.
Aruka sorriu.
– Prazer! Sou Aruka Inuzuka! Tenho quatorze anos. Aquele é meu irmão, Yusuke. Ele tem vinte anos — disse ela apontando para Yusuke.
Ele sorriu timidamente.
– Sou Rostan Osaka. Tenho dezenove anos. E você, mocinha? — disse olhando para Ammy.
Ela estendeu a mão para cima, mostrando seus cinco dedos.
– Sou Amylle Greender, mas me chame de Ammy. Tenho cinco anos.
Aruka olhou para Yusuke ainda desacordado e suspirou.
– Ammy, acho melhor que você e Rostan fiquem lá fora até o Yusuke acordar. Eu explico a ele primeiro, antes que ele o veja, pois do contrário, ele pode não reagir muito bem.
Ammy e Rostan assentiram e saíram da barraca, deixando ela sozinha com seus pensamentos.
(...)
Após alguns minutos, Yusuke acordara assustado e Aruka lhe contou o que aconteceu depois da luta.
Yusuke arqueou uma das sobrancelhas.
– Como você pode ter certeza de que o tal Rostan é tão confiável?
– Da mesma forma que você sabia que Ammy era a pequena guerreira — respondeu Aruka. — Eu não sei explicar. Eu apenas sinto que é ele.
Yusuke permaneceu serio. Parecia perdido em seus pensamentos.
– Okay. Mas saiba que eu não concordo com isso. Ainda não confio nele.
Aruka assentiu. Ela sabia que seria assim.
– Vamos falar com ele então?
Yusuke apenas assentiu em silêncio, se levantou com dificuldade — por causa dos ferimentos — e saiu da barraca.
Aruka saiu logo em seguida e ficou maravilhada com o céu de fim de tarde. Ele estava em um azul vivo e, por causa do por do sol, as nuvens estavam em uma mistura de amarelo e cor de rosa. Parecia uma tela pintada a mão.
Ela e o irmão caminharam até Rostan, que brincava com Ammy, carregando-a em seus ombros, correndo pela planície.
"Como ele consegue ser tão fofo?" — pensou Aruka, corando em seguida.
Ao ver os irmãos, Rostan colocou Ammy no chão e seguiu com ela até eles.
Yusuke sorriu e o cumprimentou com um aperto de mão.
– Olá! Rostan, certo? — o menino assentiu em silêncio. — Aruka me contou sobre o que aconteceu enquanto eu estava desacordado. Então você é um guardião?
– De acordo com o espírito do guardião lendário, Guster, sou sim — respondeu Rostan.
– E porque atacou a outros guardiões? — interrogou Yusuke.
– Eu não sabia que vocês eram guardiões. Eu apenas estava seguindo ordens — Rostan olhou para o chão.
Aruka percebeu um pequeno tom de arrependimento em sua voz.
Yusuke suspirou profundamente.
– Olha Rostan, quero que saiba que não confio em você e só estou te dando esta chance, pois a Aruka me pediu. Não estou falando que jamais irei confiar em ti, mas que, para tê-la, você terá de conquista-la.
Rostan sorriu.
– Okay! Eu irei provar ser digno dela.
Ammy cutucou a perna de Yusuke.
– Yu, que tal nos reunirmos em volta da fogueira e contarmos um pouco de nossa história um para os outros. Assim no conheceremos melhor.
Yusuke assentiu sorrindo.
– Ótima ideia minha pequena — ele se virou para Aruka. — O que acha de irmos à floresta buscar algo para comer?
Aruka sorriu.
– Então vamos todos juntos!
(...)
Não demorou muito e eles já estavam de volta ao acampamento. Graças às habilidades de Aruka com o arco, eles conseguiram pegar peixes o suficiente para que saciassem sua fome. Yusuke limpara os peixes e Ammy ascendera à fogueira. Logo todos se assentaram ao redor da fogueira.
Todos se olhavam em silêncio enquanto Yusuke assava alguns peixes. Então Aruka pigarreou.
– Onii-chan, o que acha de sermos os primeiros?
Yusuke assentiu.
– Okay. Vejamos... Há três anos, eu e meus irmãos, Stalker e Irucky, éramos do décimo terceiro esquadrão de operações especiais de Alexandria. Ou se preferirem, Eopea 13. Éramos os melhores guerreiros de todo o reino — em seu rosto havia um sorriso fraco. Aruka sabia o quanto aquele assunto lhe trazia lembranças tristes. — Quando lutávamos, éramos imbatíveis! Nunca havíamos fracassado em nenhuma missão.
– Então existiu mesmo o Eopea 13? — interrompeu Rostan. — Sempre acreditei que fosse uma história para alertar crianças sobre os riscos que a traição nos trás.
Ammy arqueou a sobrancelhas.
– Riscos de traição?
– Exato! — concordou Yusuke. — O Eopea 13 era um esquadrão secreto e eram poucos os que sabiam sobre ele. Após sofrer sabotagem interna, os conselheiros do rei Jason VI o convenceu de vetar a real história e criar uma nova versão dos fatos, antes que a verdadeira versão viesse à tona, dando a impressão de que nosso reino era fraco. Isso, somado ao ápice da guerra, geraria uma onda de ataques contra Alexandria.
Yusuke terminara de assar os peixes e então os colocou em quatro pratos que Ammy havia criado. Ele distribuiu para todos.
Rostan segurou seu prato.
– Mas qual seria a verdadeira história?
– Eu possuía um melhor amigo antes de tudo acontecer. Seu nome era Guilherm Gander. Ele também fazia parte do esquadrão. Durante a guerra entre Alexandria e Midgard, nós recebemos uma missão para invadir sua central de comandos e roubarmos informações...
Capítulo 4 — Aruka: "O Passado Sob a Luz da Fogueira —
Parte 2"
(FlashBack)
– Guerreiros, hoje nós iremos invadir o Fury of Midgard. Sua central de comandos, que está sobrevoando o quarto distrito de Midgard. Como se trata de um Airship, só poderemos alcança-lo voando — explicou o comandante. — Stalker, você tem mais experiência em pilotagem. Então você será nosso piloto. Yusuke, Irucky, vocês irão para a sala de computadores, que estará vazia logo depois que eu provocar um pouco pequeno incêndio no mesmo andar. Tendo assim, acesso às informações. Jessie, Guilherm, vocês implantarão bombas na sala de máquinas e programa-las para trinta minutos. Alguma dúvida, pequenos?
Ninguém se pronunciou.
– Sendo assim, se equipem da melhor forma possível — continuou ele. — Entrar será fácil, mas sair... — ele fez uma pausa. — Não se preocupem! Desde que sigamos o plano, tudo sairá bem.
Quando todos estavam devidamente equipados, eles embarcaram em um Airbug — uma pequena nave do tamanho de um helicóptero militar, com propulsores a jato, mas muito semelhante a um carro comum — e se direcionaram para a nave inimiga.
(...)
Stalker posicionou o Airbug ao lado do Airship — um grande navio erguido por helisses e propulsores — como um parasita. Eles voavam lado a lado da nave inimiga, o que facilitou a entrada do grupo.
Ao entrarem na nave, eles caminharam furtivamente pelos corredores.
Yusuke sentiu um arrepio na espinha. Estava com um mau pressentimento.
– "Porque os corredores estão vazios e escuros?" - pensou Yusuke.
No escuro os espiões passavam quase despercebidos por causa de seus uniformes pretos.
Eles avançaram bastante, sem nenhum problema. Irucky olhou para Yusuke de forma séria. Eles se conheciam bem e era preciso apenas um olhar para se entenderem. Irucky também estava com um mau pressentimento.
Ao chegarem à escadaria, todos pararam para ouvir as ultimas ordens do comandante antes de prosseguirem com o plano.
– Pequenos, é aqui nos separamos. Caso precisem se comunicar conosco, usem os comunicadores — ele apontou para o seu fone com um tubo de microfone, preso em seu ouvido esquerdo. — Agora vão!
– Sim senhor, capitão Walter! — disseram Guilherm e Jessie simultaneamente e então desceram as escadas.
– Meninos, vocês irão entrar pelo duto de ventilação, e seguir para a sala de computares. Quando o alarme de incêndio tocar e a sala for evacuada, vocês entram em ação — disse o comandante, enquanto subiam as escadas.
Ambos assentiram e quando chegaram no andar correto, eles entram no duto.
Os irmãos mantinham o silêncio. Não queriam chamar a atenção de ninguém.
Então um grande "BOOOM" soou de alguma sala ali perto. Dentro do duto, uma luz alaranjada começou a crescer e se aproximar deles. Quanto mais próxima à luz ficava, maior era a temperatura dentro do duto.
Eles se apressaram até a saída mais próxima, arrombaram a grade, — justamente a da sala de computadores — pularam na sala e se afastaram do duto segundos antes das chamas consumirem tudo abaixo da passagem.
– Mas não seria um pequeno incêndio? Isso foi uma explosão! — disse Irucky.
– Eu sabia que algo estava errado! Tudo está quieto demais. Até mesmo a sala de computadores está vazia — Yusuke ergueu sua mão ao comunicador em seu ouvido. — Comandante Walter, está na escuta? — ele fez uma pausa — Comandante, consegue me ouvir? — ele fechou os olhos, suspirou e serrou os punhos. — Ele não responde.
– "Meninos, estão na escuta?" — a voz de Staker falava ao comunicador.
– Estamos na escuta onii-chan! — afirmou Yusuke.
– "Vocês têm que sair dai logo! As bombas foram programadas para quinze minutos".
– Não da tempo de voltar para sua nave — disse Irucky.
– "Eu sei e já pensei em uma forma de vocês saírem. Dois andares a baixo tem algumas capsulas de ejeção de emergência. Vão para lá agora"!
– Estamos a caminho onii-chan!
Eles correram em direção às escadas. Irucky ativou seu comunicador.
– Jessie! Guilherm! Conseguem me ouvir?
– "Irucky..." — respondeu Jessie pelo comunicador, com um tom bem baixo e com a voz fraca. — "Vocês... Vocês devem ir embora o mais rápido..." — ela tossiu — "O mais rápido possível. O Guilherm... Ele... Ele"...
Ela não continuou. Após alguns segundos um chiado soou pelo comunicador.
– Jessie!? — chamou Yusuke, mas não obteve resposta.
– Onii-chan, temos que nos apressar! — disse Irucky.
(...)
Eles desceram as escadas rapidamente e, em poucos minutos, já estavam na sala das cápsulas.
Irucky se dirigiu ao painel de comando, a fim de dar a ordem de ejeção a uma das cápsulas, na qual Yusuke entrou logo que ela se abriu.
Irucky terminou de digitar as coordenadas e caminhou até a porta que estava aberta. Mas antes de entrar ele parou repentinamente, seu corpo se estremeceu por inteiro e seu olhos se arregalaram.
Ele se virou para o painel de comando, deixando visível uma kunai de bronze fincada na lateral inferior direita de suas costas.
Antes que Yusuke pudesse reagir, a porta se fechou e sua cápsula foi ejetada.
Yusuke observava, aos prantos, a nave se afastar.
Poucos segundos antes do Fury of Midgard explodir em chamas, duas cápsulas esféricas iguais à de Yusuke foram ejetadas. Logo em seguida, a nave toda foi tomada pelo fogo.
(Fim do FlashBack)
– Cinco meses após a missão, eu comecei a receber visitas noturnas — contou Aruka. — Não estou consciente o bastante para argumentar durante as visitas, mas sei que não é apenas um sonho — os olhos de Aruka se marejaram e ela não conseguiu dizer mais nada. Se continuasse, ela iria chorar e se sentiria frágil. Ela odiava se sentir assim.
– Depois de algumas semanas, Aruka e eu saímos para investigar sobre o que ocorrido no Airship — continuou Yusuke. — Suspeitamos que tanto Guilherm, quanto Irucky, tenham escapado da explosão. Stalker também começou a investigar sobre o paradeiro de Guilherm em busca de vingança.
– Vingança? — perguntou Rostan.
– Gandeer é um atirador de facas e sua arma favorita são kunais de bronze — explicou Yusuke à Rostan. — E desde então, nós estamos buscando por nosso irmão e pelo traidor que trouxe o caos até nós.
Rostan e Ammy já terminara suas refeições, enquanto Aruka e Yusuke mal tocaram na suas.
O silêncio pairou no ar. Ninguém se arriscara a pronunciar nenhuma palavra vazia de esperança. Até mesmo Aruka, que antes possuía uma grande convicção de que encontraria seu irmão e tudo voltaria ao normal, já estava perdendo sua esperança.
Ela sabia quem era o tal visitante. Ele sempre lhe trazia palavras de apoio. Com a exceção de Yusuke, ele era a única coisa que mantinha sua fé viva em seu peito. "Não desista Aruka", dizia ele. Ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
– Entendo como vocês se sentem — disse Rostan, quebrando o silêncio e trazendo Aruka de volta à realidade. — Perder um irmão e conviver com a dúvida, sem saber se ele está vivo ou não. — ele olhava fixamente para a fogueira que ainda estava acesa. — Eu vivia em um vilarejo chamado Correl, juntamente com meu irmão caçula, Seefer. Há dois anos, nossos pais morreram em um acidente e eu passei a pescar para sustentar ao meu irmão e a mim. Durante as pescas, eu era acompanhado por Seef e por Gaiane, minha ex-namorada. E seis meses após a morte de meus pais, minha vida virou de cabeça para baixo...
(FlashBack)
– Isso é o mais rápido que vocês conseguem correr? — perguntou Gaiane, enquanto corria de Rostan e Seefer pela floresta.
Era um dia lindo. O sol brilhava e a brisa era fresca. Eles estavam na floresta de pinheiros, nos arredores de Correl, indo a mais uma tarde de pescas.
– Nós apenas estamos te dando alguns minutos de vantagem Gaie — disse Rostan, que corria com sua mochila nas costas.
Rostan adorava ir pescar. Eles sempre se divertiam.
Foi então que o solo começou a tremer repentinamente, o que fez com que Rostan e Seefer se desequilibrassem e caíssem ao chão.
Gaiane apenas parou de correr e permaneceu parada como uma estátua até o tremor sessar.
Após o terremoto, um grande estrondo ecoou na floresta e a alguns metros da menina surgiu um gigantesco buraco no chão.
Gaiane andou até a beira do buraco.
– "Qua sa orocoa e nassunnaocei di lem!" — e adentrou ao buraco.
Rostan não entendera o que Gaiane havia dito. Parecia ser em outro idioma. Ele se levantou, limpou a poeira de suas roupas com as mãos e caminhou até Seefer.
– Seef, você está bem? — ele estendeu a mão pra o irmão.
– Sim — ele se levantou com a ajuda de Rostan. — Só machuquei o ombro, mas fora isso está tudo bem. Onde está a Gaie?
– Ela disse umas coisas estranhas e entrou naquele buraco — respondeu Rostan. — Temos que ir atrás dela! Pode haver outro terremoto e causar um desabamento.
Seefer apenas assentiu.
(...)
Rostan e Seefer adentraram no buraco, no qual dava em um túnel diagonal e após trezentos metros seguia reto.
Não havia nada no túnel e a única fonte de luz provinha de uma tocha improvisada que os meninos fizeram.
Eles seguiram em silêncio. Seus passos ecoavam por toda a extensão do túnel.
Após quinze minutos caminhando, as paredes se alargaram em ambos os lados formando um grande salão circular. Não era possível enxergar o teto, pois ele era aparentemente alto e não havia luz o suficiente. Havia apenas quatro tochas ao redor da sala e no fundo havia uma espécie de trono feito de pedras. Gaiane estava assentada nele.
– Gaie! — ambos chamaram por ela.
Ela gargalhou, ecoando uma risada perversa por toda a caverna.
– Gaie? Sinto informar, mas ela não está mais aqui. Ela nem pode mais ouvir a vocês.
– Quem é você? O que você fez com ela? — perguntou Seefer.
Ela se levantou do trono de pedra.
– Eu? — disse ela, apontando para o próprio peito. — Eu sou o princípio de tudo que você conhece. Estou em tudo e tudo está em mim. Sou a rainha deste mundo, meu querido — ela fez uma pausa. — E quanto à sua amiga. Ela não passa de uma casca. Um receptáculo para meu espírito.
– Devolva Gaiane ao seu corpo, já! — ordenou Rostan.
– Sinto dizer, mas isso não faz parte dos meus planos.
Rostan cerrou os punhos.
– Então nós iremos replanejar o teu futuro!
Gaiane gargalhou novamente, mas desta vez sua voz estava destorcida.
– Você pensa que pode me deter? Te farei virar pó em questão de segundos!
Rostan sorriu.
– Tente a sorte! — suas mãos foram tomadas por energia negra. — ESFERA NEGRA! — uma esfera de energia negra se formou em cada uma de suas mãos e ele as lançou contra o espírito maligno que possuía Gaiane.
Ela ergueu sua mão direita e uma parede de pedra emergiu do chão em semicírculo, formando um escudo.
As esferas se chocaram ao escudo de pedra e uma núvem de poeira tomou conta de todo o salão.
Rostan correu para junto de Seefer a fim de proteger seu irmão.
– Fique perto de mim Seef — mesmo sem conseguir enxergar por causa da poeira, Rostan olhava para o trono tentando focar sua inimiga.
A poeira baixou lentamente e só após alguns minutos ele percebeu que ela não estava mais lá. Seu olhar percorreu por todo o salão, mas ele não a encontrou.
– Apareça! — sem resposta. — Não me diga que a "rainha desse mundo" está com medo de um simples pescador! — debochou ele.
A cinco metro deles, Gaiane emergiu da terra com um escudo em seu braço esquerdo e uma espada em sua mão direita — ambos feitos de pedra.
Rostan ergueu sua mão direita para frente.
– LÂMINA NEGRA! — uma foice feita de energia negra se materializou em sua mão.
Gaiane correu em sua direção e ao se aproximar desferiu alguns golpes com sua espada, mas Rostan se desviou de todos. Ele contra atacou com sua foice e Gaiane, por sua vez, bloqueou seu ataque com o escudo.
Rostan recuou rapidamente.
– ESFERA NEGRA! — desta vez ele lançou apenas uma esfera contra ela.
O corpo de Gaiane se transformou em areia e a esfera passou por ela sem causar o menor dano.
A nuvem de poeira se aproximou de Rostan com velocidade e se transformou em Gaiane de novo, atacando ele com o escudo. O golpe o acertara em cheio e ele caiu no chão, desacordado.
(...)
Calor. Calor vivo.
Rostan abriu os olhos por alguns segundos e viu uma labareda de fogo azul acertando Gaiane em cheio.
Assim que o fogo sessou sua visão ficou turva e ele desmaiou novamente.
(Fim de FlashBack)
– Quando acordei, estava no castelo de Darkus — explicou Rostan. — Ele disse que me encontrou desacordado na floresta e então cuidou dos meus ferimentos. Eu contei para ele o que aconteceu na caverna e ele me explicou que os antigos demônios chamados de Yacapans estão renascendo e que Gaiane foi possuída por Empera, a rainha da terra. Disse também que Gaiane havia dito, na beira do buraco, uma frase na linguagem dos Yacapans, que significa "Que se inicie a ressurreição do mal". Darkus me convidou a se juntar aos seus servos e em troca ele me ajudaria a encontrar meu irmão desaparecido.
Aruka se sentiu mal por Rostan. Ela entendia perfeitamente sua dor.
Ammy estendeu o seu dedo indicador para cima.
– Mas o que significa o tal fogo azul? Nunca ouvi falar de uma habilidade assim.
– O fogo da vida — disse Yusuke.
Rostan assentiu.
– Creio que esteja certo. Por isso eu despertei durante a luta contra Empera. Eu estava sendo curado pelo calor do fogo.
Yusuke pigarreou timidamente.
– Mas porque vocês acreditam que eu sou o menino de luz, que Guster lhe disse?
Aruka olhou para o irmão e se antecipou.
– Ora! Você é apenas um espadachim, mas mesmo assim conseguiu usar o Ataque Divino. Você não conseguiria usar magia, a não ser que sua alma já possuísse algum elemento. No seu caso, a luz.
Yusuke a olhava com os olhos arregalados. Aruka não tinha a intenção de assustar o irmão, mas ficou feliz ao saber que não era a única que confiava a ele as respostas e soluções de seus problemas.
Todos já haviam terminado a refeição, mas ainda mantinham a fogueira acesa. Aruka se sentia bem confortável com o calor da fogueira tocando sua pele pálida.
– E você Ammy? Qual sua história?
Ammy pigarreou.
– Ha seis meses atrás, eu vivia com meus pais. Eu estava passeando pela floresta quando...
(FlashBack)
– Temos que nos apressar Bia — disse Ammy. — Logo irá escurecer e o papai fica bravo quando eu chego e já está escuro.
Bia zumbiu. Era uma cadela feita de bronze.
Ammy coletava materiais para suas invenções com seu martelo em mãos — ela sempre andava armada quando estava na floresta.
Bia se virou em direção a alguns arbustos e começou a rosnar. Ammy se virou para a cadela.
– O que foi garota? Alguma ameaça?
Bia latiu em concordância.
Ammy ouviu um rugido, mas antes que pudesse reagir, um borrão negro se lançou contra Bia, estraçalhando-a.
Só então Ammy conseguiu enxergar nitidamente o inimigo e se assustara com o que viu. Era um leão de aproximadamente dois metros. Mas ele estava se decompondo e era possível ver parte da sua costela direita e os ossos das patas dianteiras.
O leão zumbi perdeu o interesse em Bia após notar que ela não possuía carne. Com isso, ele se virou para Ammy e disparou a correr em sua direção. Ele saltou até ela tentando abocanha-la, mas Ammy rolou para o lado, se desviando de sua mordida. Quando o leão passou por ela, a menina girou seu martelo contra a costela do felino.
– IMPACTO DESTRUTIVO! — seu martelo brilhou e acertou o leão em cheio, com sua força triplicada. O leão foi arremessado para longe e se chocou contra uma árvore.
Ammy correu até a árvore mais próxima e a escalou, fazendo com que ela ficasse mais alta que o leão.
Ele se levantou e caminho até Ammy e quando eles estavam próximos, ela saltou à cima dele.
– ATAQUE BOOMERANG! — a cabeça de seu martelo se desprendeu da haste e girou até o leão, em semicírculo, o acertando no focinho e retornou até ela completando o círculo enquanto ela caia. Ainda no alto, Ammy preparou outro ataque.
– SUPER FORÇA! — uma aura amarela tomou conta de seu corpo, duplicando sua força.
Quando estava perto o suficiente, ela desferiu um golpe vertical que acertou o leão bem na testa, abrindo uma grande ferida que deixou à mostra parte do crânio da criatura, fazendo-o cair no chão.
Ela olho para o céu e percebeu que já estava escurecendo. Então se virou e correu rumo à sua casa.
Sem que ela notasse, o leão se levantou e a atacou pelas costas, mas segundos antes que ela fosse golpeada, uma esfera elétrica acertou o felino, arremessando-o contra as árvores.
Um menino louro vestido com uma jaqueta de couro e uma calça preta se aproximou dela. Ele era branco e muito alto. Usava um topete e, em suas orelhas, alargadores 16mm. Ele olhou amigavelmente para Ammy e sorriu.
– Oi! Sou Scott Hendrick. Como você se chama?
– Amylle Grendeer. Obrigada por me salvar!
– Por nada! Posso te ajudar a matar essa coisa, mas você não pode ter medo de mim, okay?
Ammy assentiu.
Então a íris dos olhos de Scott ficaram amarelas e suas pupilas se tornaram fendas negras, suas unhas cresceram e se tornaram garras afiadas e na base de sua coluna surgiu uma calda, mas era feita de eletricidade.
Scott sorriu para Ammy, que retribuiu o sorriso.
– Isso vai ser chocante!
O leão se levantou e rugiu ferozmente.
– COLUNA ELÉTRICA! — as mãos de Scott começaram a centelhar. Ele socou o chão uma vez com cada mão, transferindo a eletricidade para chão, na qual seguiu até abaixou do leão e subiu ao céu, formando uma coluna amarelada de eletricidade.
O leão foi eletrocutado e o cheiro de carne queimada tomou conta do local.
Scott correu até o leão — que permanecia imóvel por causa do ataque anterior.
– ATAQUE ELÉTRICO! — suas mãos voltaram a centelhar e ele acertou uma sequência de socos e arranhões no rosto do leão, descarregando toda a eletricidade de suas mãos.
Ele recuou alguns passos.
– Amylle, juntos dessa vez, okay?
Ela assentiu.
– ATAQUE BOOMERANG! — mais uma vez a cabeça de seu martelo se desprendeu da haste e voou em semicírculo até o leão.
– RAJADA ELÉTRICA! — Scott ergueu a mão esquerda, mirando a cabeça do martelo de Ammy e disparou um raio contra ela, que ao ser acertado, passou a centelhar.
– BOOMERANG ELÉTRICO — ambos gritaram.
O golpe acertou o monstro na cabeça, transformando-o em poeira.
( Fim do FlashBack)
– Depois fomos para minha casa — continuou Ammy — e encontramos tudo bagunçado. Não havia nenhum sinal dos meus pais. Ficamos lá por mais dois dias, esperando por eles, mas ninguém apareceu. Então saímos em busca deles. Scott ficou comigo desde então. Nós sempre éramos atacados pelo pessoal de Darkus. Scott dizia que eles queriam roubar seu dom.
Aruka olhou para Rostan, que olhava ligeiramente para o chão, provavelmente estava envergonhado por ter servido à Darkus.
– Há duas semanas, ele me disse que tinha pistas de meus pais e saiu para investigar, mas ele nunca mais voltou — continuou Ammy. — Estou à procura dele e de meus pais desde então.
Rostan olhou para Ammy.
– Sinto muito, Ammy.
Ela apenas assentiu sorrindo.
– E o que faremos agora? — perguntou Aruka.
– Por ora, vamos apenas descansar — respondeu Yusuke. — Amanha já descansados, decidiremos juntos.
Fale com o autor