A Lenda dos Guardiões
1 Lucia
Notas iniciais

O corpo de Lucia relaxou ao sentir o toque lento e gelado da água em sua pele, a garota deu um suspiro leve quando entrou na banheira de mármore branco e relaxou. Fechou seus olhos, e lhe vieram em mente as cenas de sua viagem para Boston.
Ela havia deixado praticamente tudo para trás, amigos, escola, o namorado, e embarcou (de má vontade) em uma aventura com sua mãe para uma cidade totalmente nova: e que coisa ótima, desconhecida! Infelizmente, isso não era bom; seria como no começo do ano, em que era uma completa deslocada entre os alunos e que com muito esforço conseguira formar amizades. E então, cá está ela, em Boston.
A casa que sua mãe havia conseguido comprar não era exatamente o tipo de mansão super linda que Lucia pensou que fosse, mas ainda sim era muito. Era na zona suburbana da cidade do tipo que tem cercas brancas como todas na vizinhança e tinha um gramado frontal um pouco grande demasiado, sinal de que fazia um tempo que não era cortado, era de um azul descascado pelo tempo e precisava urgentemente de uma pintura nova. Verde ficaria bom, lembrou de sua mãe comentando e logo em seguida deram um uníssono “Não!”.
Quando se entrava na casa havia um corredor ao norte, uma pequena sala de estar ao leste, outra sala ao oeste e se você passasse pela porta ao norte chegaria na cozinha. Há uma escadaria no corredor que leva ao segundo andar, que dava para outro corredor para a esquerda. Tinham três quartos, e as duas concordaram em deixar a maioria das caixas da mudança no último, Lucia ficaria com o da direita e sua mãe com o da esquerda. Lucia tinha uma janela com vista da cidade, que em todo fim de tarde, lançava tons de laranja, vermelho e rosa por seu quarto – era um espetáculo e tanto.
Lucia é uma garota caucasiana relativamente bonita se você não tiver nenhum problema com cabeleiras indomáveis e encaracoladas, ou como ela mesma chama “uma tempestade loira e completamente maluca”, os fios alcançam até o meio das costas, mas se encontram desta vez presos em um coque. Seus olhos são seu traço mais incomum, são âmbares e parecem estar sempre luminosos. Desde que se lembra, as pessoas caçoavam dela por isso, e por ser baixinha. Seu rosto tem traços finos, com lábios delicados e bem desenhados, com sardas ao redor dos olhos. Sempre fora muito baixa para a idade.
— “É genética!” — Murmurou ela, imitando a resposta da mãe sempre que lhe perguntava sobre isso, com cuidado pra ela não escutar, claro.
Lucia não teve tempo para curtir o banho, pois já conseguia ouvir sua mãe gritando do andar inferior mandando ela ir se arrumar logo. Ok, pensou ela, primeiro dia de aula aí vou eu. Limpou-se, enrolou uma toalha branca ao redor do corpo, e saiu do banheiro indo diretamente para seu quarto. Trancou a porta, colocou as caixas com suas roupas na cama e começou a se vestir. A primeira coisa que se deve saber sobre os tão temidos primeiros dias de aula é que: primeiro, é a primeira impressão a que fica, e segundo, é sua roupa quem fala sobre você. O problema era que Lucia não sabia quais caixas tinham todas as suas roupas, por isso teve que improvisar.
Vestiu o sutiã e a calcinha primeiro, ia ser esquisito fazer isso depois. Tirou uma blusa branca com estampas florais e babados de uma das caixas. Era simples, e podia combinar com qualquer coisa – vestiu ela. Em seguida, achou uma calça, graças a Deus, e vestiu ela também; não era tão escura quanto queria, mas era um azul utilizável. Revirou as outras caixas à procura de suas botas, e as encontrou junto com alguns acessórios. Calçou-as e colocou um colar com um pingente de falcão prateado com as asas abertas, pôs umas pulseiras no pulso direito e começou a pentear os cabelos.
Aquele era um pingente especial. Seu pai era um piloto de avião muito bom, e o Exército Americano acabou contratando ele para pilotar aviões das bases para os acampamentos no Iraque. Era um trabalho relativamente simples, Lucia se lembra de que na época ela tinha cinco anos e que a família estava passando por dificuldades financeiras muito graves; o pouco era divido em pagar as contas do apartamento alugado e almoçar hambúrgueres em barraquinhas em Miami. Não havia jeito, era isso ou ir morar na rua, e a resposta foi bem simples. Antes de partir o pai da loira lhe presenteou com aquele pingente, dizendo a ela que o falcão era o símbolo da família, e partiu para o Oriente Médio. Alguns messes depois oficiais vieram conversar com as duas, Lucia se lembra daquela tarde chuvosa de Outubro.
— Algum problema, oficiais? — A mãe de Lucia sentou-se no sofá quando viu a expressão no rosto do homem.
Eram dois, ambos com o corte de cabelo ao estilo militar bem aparado e sem barba. O que parecia ter patente superior era negro e tinha brilhantes olhos verdes, apesar de trazerem tristeza no olhar, ele tinha um curativo na bochecha esquerda. O outro tinha traços latinos e era mais baixo que o oficial negro, tinha olhos castanhos e grandes. Lucia teve de se esforçar para ler os nomes: Sargento Hope e Recruta Sanchez. Sanchez estava apoiado em uma muleta, e suas botas pareciam novas em folha. Os dois vestiam uniformes azuis, com uma águia prateada como broche em um dos lados do peito.
— Senhora Bloom, nós lamentamos muito – Disse Sanchez.
— Infelizmente, o Oficial Sebastian Bloom foi ferido em vôo. – A voz do Sargento era embargada, apesar de mantê-la firme. — O avião em que estava pilotando foi bombardeado. Sua morte foi heroica.
Lágrimas começaram a desatar dos olhos de Lucia, sua mãe pôs as mãos no rosto: repetindo várias vezes “Oh, deus, não, não, não!”. Era uma memória triste, Lucia sacudiu a cabeça e saiu do quarto – sem a certeza que não passaria o dia chorando por falta de seu pai.
Ela olhou na tela do celular e viu a hora: 6:40 AM, Segunda-feira, 2 de Março. A luz do sol lançava raios tímidos por entre as cortinas da cozinha, apesar de não saber como era possível já que a janela tinha vista pra lateral da casa.
— Bom dia, dona Mercy. — Disse Lucia quase cantarolando como de costume, andando pela cozinha e se sentando à mesa.
Lucia sempre achou ser parecida com sua mãe, exceto pelos olhos, idênticos ao do pai. Mercy não era muito alta, mas o suficiente para que Lucia se sentisse baixinha perto dela. Tinha a pele clara e delicada, sem imperfeições, e um sorriso caloroso. Tinha cabelos louros como a da filha, e encaracolados, presos em um rabo de cavalo desleixado. Os olhos azuis eram sempre bonitos, Lucia duvidava muito que houvesse algum dia sequer que sua mãe estivera feia.
— Bom dia, querida. Acordou de bom humor, é? — Disse ela, pondo ovos e bacon de uma frigideira pro prato da garota. Lucia começou a comer.
— Nada como um primeiro, longo e possivelmente vergonhoso primeiro dia de aula. — Respondeu Lucia antes de comer, praticamente engolir já que estava um pouco atrasada. — É, eu diria mais pra que tudo acabe logo e rápido.
— Ah, não seja assim, — Mercy limpou as mãos em um pano de prato e gesticulou pra filha. — você se lembra do nosso acordo, certo?
Lucia deu um suspiro, terminando seu bacon.
— “Nada de se fazer de isolada, procurar fazer alguns amigos e se divertir”. — Lucia respondeu. — Ah, mãe, não é como no seu tempo que todo mundo era amigo e saía pra tomar sorvete no final da aula.
— Eu queria que no meu tempo fosse assim. — Disse Mercy
O relógio da cozinha apitou. Sete horas em ponto.
— Tchau, mãe. Nos vemos mais tarde! — Lucia se levantou, pondo a bolsa no ombro e colocando o prato na pia. Ela não ‘’bebeu’’ o suco de laranja, ela praticamente ‘’enfiou goela abaixo e rezando pra não se engasgar’’
— Tchau querida, e não se esqueça..!
— ...fazer amigos! — Disseram em uníssono
Lucia deu um aceno rápido e disparou para a saída. A porta de madeira deu um rangido alto, o sol lá fora brilhava. Pássaros cantavam, o céu estava azul e haviam poucas nuvens vagando por lá. A garota respirou fundo.
O dia perfeito para desastres.
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