A Lenda do Selo Sombrio
1 Arthur e Benjamin
Caríssimo Benjamin,
Espero que esta carta o encontre com boa saúde e em segurança. Já faz tanto tempo que nem me lembro mais a última vez que nos encontramos, você não vem ao ministério há anos e sequer se dá ao trabalho de me mandar cartas. Risos. Contudo, estou escrevendo não para repreendê-lo, mas sim para convidá-lo. Os ingleses estão solicitando nossa ajuda para uma investigação no estado do Amazonas, pedem por dois aurores promissores, lembro de ter me falado que havia encontrado um pupilo brilhante (seu nome era artur?), após tantos anos o garoto já deve estar pronto para uma missão de reconhecimento, você poderia trazê-lo e aproveitar para vir aqui me ver, tenho tanto a te contar, tudo mudou por aqui. Saudades de quando éramos uma dupla imbatível, naquela época não importa quem fosse nunca nos derrotaria em um duelo.
Para ser escolhido o garoto precisa estar aqui até as dezesseis horas do dia vinte um de novembro, não deixe que se atrase, trabalhar com aurores internacionais vai ser ótimo para o currículo dele caso queira seguir seus passos.
Mal posso esperar pelo nosso encontro.
Com respeito e admiração,
Tereza Avelar das Neves, Chefe do Departamento de Cooperação Internacional em Magia
Sentado em uma poltrona branca, tão suja e velha que parecia marrom esverdeada, um homem com cabelo e barba grisalhos, aparentando ter uns cinquenta e poucos anos, lia a carta com bastante atenção, como se fosse de alguém que já foi muito especial para ele, se pegou rindo algumas vezes durante a leitura mas no fim fez uma expressão dura e soltou um longo suspiro.
— hmph. A instituição pode ter mudado, mas você continua a mesma molenga de sempre, Tereza. – Disse para si mesmo com a expressão rígida. – Mas ir ao ministério agora até que tem seus pontos positivos.
O homem levantou lentamente, tomando vários minutos para realizar cada pequeno movimento, embora tivesse apenas cinquenta anos seu corpo parecia entrevado, qualquer um que visse aquela cena diria que ele estava precisando urgentemente de cuidados médicos.
Após finalmente se levantar, deu um berro chamando alguém que provavelmente estaria do lado de fora da cabana onde moravam.
— AAAAAARTHUR! – Gritava. – AAAAARTHUR, VENHA AQUI AGORA! – Berrava. – AAAARTH...
No meio do terceiro grito, o ar no centro da sala se agitou e o espaço se deformou por um instante, de repente um jovem rapaz de cabelo preto e olhos azuis surgiu da distorção com uma expressão confusa.
O homem primeiramente fez um rosto perplexo, parecia não acreditar na audácia do garoto a sua frente, em seguida seu rosto ficou vermelho como um tomate e exalava raiva.
— Arthur, seu discípulo inútil, se eu já não te proibi de aparatar para dentro de casa dez mil vezes, foram pelo menos nove mil. – Enquanto estava o repreendendo, nem parecia ter um corpo fraco a ponto de ter dificuldades para levantar da cadeira. – Você é teimoso como uma porta, parece que não escuta.
— Achei que o senhor estava passando mal, começou a gritar do nada. – Replicou o garoto na defensiva.
— E ainda tem a ousadia de dizer tais mentiras, você sabe que sou saudável como um cavalo. – O homem parecia estar se acalmando aos poucos. – Se você quebrar algum dos meus tesouros, vai passar três dias ajoelhado no milho. – No fim da ameaça ele já parecia estar mais tranquilo.
— Tudo bem, mestre... – Arthur respondeu de maneira desleixada, essas discussões aconteciam o tempo inteiro e sempre acabavam da mesma forma. – Como posso ajudar o senhor?
— Arrume suas coisas, vamos viajar para Brasília. – O velho ignorou o tom da resposta do garoto. – Você finalmente terá sua primeira missão.
Os olhos do garoto brilharam, seu mestre nunca havia permitido que ele saísse do pequeno sítio em que moravam. Por mais que se perguntasse o motivo dessa decisão repentina, ele não podia ligar menos para isso. Estava considerando até se beliscar pra ver estava mesmo acordado ou se era apenas um delírio baseado nos seus desejos. Finalmente ele iria conhecer outro lugar que não fosse a pequena cabana que vivem.
— Quando? – Perguntou o garoto.
— Assim que fizer suas bagagens.
Não havia se passado nem mesmo dez segundos desde que o homem havia contado do que se tratava, e Arthur estava eufórico. Sacou a varinha do bolso de trás da calça, e disse apenas uma frase embolada antes de desaparecer aparatando para seu quarto.
— Obrigado, mestre Ben. Já vou arrumar minhas coisas.
Benjamin olhava aquela cena sem palavras. Às vezes, ele se perguntava se o garoto era teimoso ou retardado. Mas já não estava mais tão bravo, sabia que viajar era o sonho de Arthur por anos.
• • •
Chegando ao seu quarto, Arthur deu uma olhada rápida ao redor, ele havia passado grande parte dos últimos dezesseis anos ali. Assim como o resto da cabana, era completamente feito de madeira e tinha uma aparência velha, não era muito grande, sua cama de solteiro, o guarda-roupa pequeno e uma escrivaninha antiga ocupavam oitenta por cento do cômodo. Ele frequentemente agradecia por não ser claustrofóbico, se fosse provavelmente acabaria se matando.
Como era a primeira vez que saia de casa ele não tinha muita ideia do que levar, pegou uma mochila preta encostada perto da parede e ficou olhando para ela por alguns instantes.
— Esqueci de perguntar qual era a missão. – Refletiu. – Vou levar só algumas mudas de roupa, se precisar de algo a mais posso usar como desculpa pra ir no Grande Mercado Mágico de Brasília. Aposto que lá é fantástico.
Arthur enfiou algumas peças de roupa na mochila, pegou sua varinha, e já estava prestes a gritar que estava pronto quando passou os olhos por uma fotografia. Ela estava em um porta-retrato dourado em cima da escrivaninha, nela havia um casal bem jovem, segurando um bebê e uma menininha de cabelo preto em um rabo de cavalo charmoso com uma feição similar a dele que sorriam e faziam algumas poses para o fotógrafo.
Arthur olhava para a foto com pesar, essa era a última coisa que sobrara da sua família. Ele era o único sobrevivente do massacre da grandiosa família Drummont, por sorte foi adotado e tomado como discípulo por Benjamin, se não provavelmente estaria em algum orfanato até hoje. Nem mesmo ele sabia direito o que havia acontecido com sua família, tinha apenas dois anos quando aconteceu a tragédia, e, desde que se conhece por gente, está ali naquela cabana, com ninguém além do seu mestre.
A magia fazia aquele pequeno grupo de pessoas na fotografia continuar se mexendo mesmo que não possam mais fazê-lo na vida real, dava uma sensação de conforto e paz observá-los tão felizes, nessas horas Arthur era realmente feliz por ser um bruxo. Depois de encarar o porta-retrato com sentimentos pesarosos, ele tirou a foto de lá e a enfiou em um dos bolsos da mochila. Ele iria leva-la só por precaução, vai que a cabana acabe incendiada e o fizesse perder a última lembrança da sua família para sempre? Ele tinha medo de esquecer quem eram seus pais.
Ele deu uma última olhada no quarto, se despediu mentalmente e desceu as escadas.
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