A Lenda do Pokémon Espada
1 O Traidor
Os cadetes do exército do reino começavam jovens. Todos os anos, soldados escolhiam a dedo cem crianças de até dez anos que apresentassem as melhores aptidões e as retiravam a força de suas famílias. A família que não concordasse, era executada no mesmo instante.
Essas crianças não tinham nome, apenas números. E nenhuma delas poderia vestir roupas normais ou exibir seus rostos, apenas o uniforme e uma máscara preta.
Hoje era o dia do cadete 0562 se apresentar para auxiliar na sala de controle pokémon. Ele já estava no exército a sabe-se lá quantos anos e faltava apenas um mês para se formar como soldado. Mas até lá, ele estava encarregado de serviços menores, como qualquer cadete. O menino jamais havia visto um Pokémon em toda a sua vida. E não sabia a menor idéia do que fazer nessa sala.
Chegando lá, ele nota centenas de aparatos eletrônicos, não faz idéia da serventia dos mesmos, mas os observa com muita atenção. No centro da sala, estava um homem vestindo um jaleco branco, provavelmente o cientista responsável, de frente a um enorme aparato eletrônico com um tubo de vidro, igualmente enorme no centro e repleto de um líquido esverdeado.
Era a primeira vez que 0562 via uma pessoa sem a máscara preta. As ordens de seus superiores eram recebidas por áudio, dentro de seu quarto. O homem tinha a pele escura, era careca e tinha uma barba grisalha e mal feita.
— Cadete 0562 se apresentando, senhor!
— Eu tenho assuntos para resolver, preciso que fique aqui e acione este botão sempre que esse pokémon se mexer. – O cientista careca saiu da sala sem dizer mais uma palavra.
0562 estava curioso, seria a primeira vez em que ele veria um pokémon de verdade. Antes ele só os havia visto em livros. Mas o líquido esverdeado era muito espesso, o que dificultava a visão, então ele se aproximou até o ponto em que seu rosto estava grudado no tubo e, cerrando a visão ele identificou uma forma comprida, era uma espada. Ele se lembrou do que leu nos livros e identificou o pokémon, era o Honedge, um pokémon metálico e fantasma. Era intrigante, pois, mesmo sendo uma criatura viva tinha a forma de um objeto. O estranho ser estava provavelmente dormindo pois, ao que tudo indica, ele tem um olho e o mesmo se encontra fechado.
POW! O pokémon dá uma estrondosa investida contra o vidro e o cadete caiu para trás, assustado. Rapidamente, ele aciona o botão que o cientista havia falado e feixes de luz vindos do tubo iluminam toda a sala, fazendo o jovem proteger os olhos com seu antebraço. Depois de aproximadamente 10 segundos, os feixes pararam. A luz veio de um disparo de eletricidade contra o Honedge. Aparentemente, a sala de controle era na verdade uma sala de tortura.
O jovem escuta um leve som de choro, não se sabe de onde. Ele olha para os lados e não vê ninguém. “Por que? Por que vocês me torturam? o que eu fiz de errado?”
Assustado, o cadete presume que o choro e os murmúrios poderiam vir apenas de um lugar, do Honedge.
— Você fala? Mas como?! Você não tem nem mesmo boca!
O pokémon observa o menino por alguns instantes.
— Já faz dias que eu choro. Você parece ser o primeiro a se importar, ou a ouvir, então estou tão surpreso quanto você. Então me responda, por que me tortura? Que mal eu lhe fiz?
— Apenas obedeço ordens, você é uma arma viva pertencente ao império.
— Arma? Eu sou um ser-vivo assim como você! Eu não escolhi vir pra esse lugar! Eu não quero sentir dor! Vocês me chamam de Pokémon, o monstro de bolso, os monstros aqui são vocês!
0562 estava perplexo, jamais se imaginou nesse tipo de situação. Nunca pensou naquilo que Honedge lhe dissera. Ia contra tudo o que lhe foi ensinado.
— Me desculpe, eu só estava obedecendo ordens. É uma pena mas é assim que tem que ser.
— E por que você obedece estas ordens tão cegamente?! Eu sei o que fazem com vocês! Você tem uma família que foi obrigada a te deixar! Você teve sua infância roubada!
— O que você quer, afinal? Por que está me dizendo isso?
— Deixe-me ir.
— Você só pode ser louco. Aquele choque foi forte demais. Eu seria executado se fizesse isso. E por que eu faria isso por você?
Antes que o pokémon pudesse lhe responder, o cientista chega.
— Está dispensado. – Disse o careca. 0562 não gostava dele nem um pouco.
O cadete faz o seu caminho de volta, eram por volta de 11:30, horário de almoço. Então ele se encaminhou para o refeitório.
A hora das refeições e do treinamento físico eram os únicos momentos em que os cadetes se encontravam. Mas mesmo assim não podiam nem mesmo conversar. As máscaras eram apenas levantadas para possibilitar a alimentação. 0562 tinha uma forma de contornar isso. Ele era provavelmente um dos únicos cadetes alí que tinha um amigo, o outro era provavelmente o seu amigo, que o tinha como amigo. Ele sempre conversava com 0561 em linguagem de sinais. Ele não se lembra exatamente como aprendeu essa linguagem, mas sabe desde que entrou lá. 0661 entrou junto com ele na academia de cadetes. Desde então, os dois sempre conversam.
Na fila do almoço, os dois amigos sempre ficam distantes, para que os supervisores não percebessem nenhuma ação estranha. Enquanto um se senta numa mesa, o outro se senta na mesa da frente, sempre se sentando no ponto cego das câmeras. Pondo as mãos nas costas, 0561 começa a falar em linguagem de sinais.
— Cara, a tia da cantina tava com muita catinga de sovaco. Deu pra sentir a um metro de distância!
O amigo quase se engasga com a comida tentando segurar o riso.
0561 iria se formar como soldado no dia seguinte. Os cadetes sempre se formam com um mês de diferença, para evitar o contato. Provavelmente eles nunca mais iriam poder conversar, mas 0561 deixou um presente para o amigo. Ele ficaria responsável pela segurança assim que se formasse e lhe deu as senhas das portas.Tanto a que é usada para abrir a porta dos quartos quanto a que é usada para abrir as portas de saída. “um presente se você quiser roubar um bolinho da cantina ou se quiser sair daqui pra dar uma voltinha. Mas se sair, é melhor não voltar”
Com o término do almoço os cadetes foram treinar. Correr, escalar paredes, nadar, esse tipo de coisa. Os dois amigos não tiveram mais oportunidade de se falar depois do almoço. Após o término dos treinos, eles se encaminham para seus quartos individuais, onde a porta é trancada assim que entram. 0562 estava exausto. Talvez nunca mais fosse ver seu velho amigo e não conseguia parar de pensar no assunto do pokémon espada. Ele tomou um banho e se deita na cama, sem conseguir dormir. Ele pega sua enciclopédia pokémon e abre na seção dos tipo fantasma.
“Os pokémon fantasma podem ser muito traiçoeiros, alguns podem até se comunicar por telepatia. Atraem as pessoas para armadilhas com intuito de prejudicá-las. As vezes é uma brincadeira e as vezes é pura maldade.”
Ele não parava de pensar, aquilo não poderia ser brincadeira. A dor que Honedge sentiu era claramente verdadeira.
A porta do seu quarto se abre, o cientista careca estava lá.
— Cadete, você utilizou mais de uma vez a ferramenta de choque?
Assustado e sem entender o que acontecia, ele respondeu.
— N-não.. senhor, apenas uma vez. Ele investiu contra o vidro e eu o eletrocutei, como o senhor mandou.
— Hmm.
Sem dizer mais nada, o cientista se virara e estava pronto para ir embora
— Aconteceu algo de errado, senhor?! 0562 estava receoso, falar dessa forma com um superior poderia ser entendido como insubordinação.
Provavelmente o cientista entendeu da mesma forma, pois o olhou com um mau-humor aparentemente claro.
— Sim, o pokémon perdeu os movimentos. Continua vivo, mas parado. Geralmente isso ocorre depois de muitas descargas elétricas, mas como foi apenas uma, indica que ele era fraco. E não precisamos de pokémon fracos. Amanhã ele será descartado e incinerado.
Dizendo isso, o cientista se virou e foi embora, com a porta se fechando atrás dele.
0562 estava estava em choque. Sentimentos de tristeza e culpa atormentavam seu coração. Ele foi até o banheiro lavar o rosto e tentar se acalmar.
Quando estavam no quarto, na hora de dormir, os cadetes não precisavam usar máscara.
Se olhando no espelho, 0562 não se reconhecia. Tinha pele clara, olhos azuis e cabelo ruivo. Mas o que isso significava? Ele era bonito? Existia alguém que sentisse sua falta? Ele era uma boa pessoa? Ele não sabia responder. Mas sabia o que tinha que fazer. Ele iria salvar o pokémon.
Algo em torno de 30 minutos haviam se passado após a saída do cientista. Então ele resolve dizer a senha que seu amigo lhe passara.
— BJ027M! Após reconhecer a senha, a porta é aberta. O jovem corre desesperado para o corredor, sempre evitando passar na frente das câmeras rotativas. Além de evitar os guardas. Era uma tarefa suicida, além de tola. Mas ele tinha de fazer.
Talvez fosse um milagre, ele conseguiu chegar até a sala de controle (ou tortura) de pokémon. E lá estava ele, Honedge, estático, como o cientista havia falado.
— Como eu te tiro daí?
Honedge nada respondeu.
— Responde, droga! Eu to arriscando minha vida vindo até aqui!
— Está perdendo seu tempo, mesmo que eu saísse não tenho como me mexer, o que eu ia fazer? Aliás, devo agradecer a você por isso. – Disse Honedge.
— A gente cuida dos seus movimentos depois! Eu vou ficar com você até você se curar! Agora me diz como te tirar daí!
Após alguns segundos encarando o menino, o pokémon respondeu.
— Nesse teclado aí embaixo, tem um botão verde bem grande escrito “abrir”, acho que isso deve ajudar.
Além de tudo, era um pokémon sarcástico.
Depois que o cadete esmurra o botão, o líquido esverdeado começa a descer e depois que que o tubo está vazio, ele também desce, libertando assim o pokémon.
Um barulho enorme começa a ecoar e luzes vermelhas piscam por todo o lugar, é o alarme de segurança que começou a soar.
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