A Lenda do Exílio
2 O guia e os seguidores.
Notas iniciais
No íntimo das coisas, talvez não houvesse essencialmente alguém ali com ele. Mas ele quis acreditar que sim. Acordou, inesperadamente, de pé sobre um terreno alagadiço. Era noite e a água enlameada e gelada cobria seus pés e chegava à altura de seus joelhos. Os sons das trovoadas ecoavam distantemente no horizonte e tudo parecia ser um lúdico pesadelo. A rasa lâmina d’água se estendia por quilômetros ao seu redor. Como havia chegado ali? Ele não sabia. Tudo era confuso e obscuro.
De repente, deixou de lado aquela paralisia corporal que o mantinha fitando o horizonte e decidiu olhar para trás. Viu algo que deveria assustá-lo, mas que foi encarado com tremenda indiferença, não se sabe se por incredulidade ou por desesperança. Havia quatro pessoas em fila única, colunadas atrás dele, nuas, com frio e com medo, sentindo as violentas rajadas de vento. Eles arqueavam-se e cruzavam os braços sobre o peito para se aquecerem. A cada relâmpago que os fotografava, eles reduziam suas silhuetas, agachando-se com medo.
Ele andou alguns passos, forçando as pernas na água densa, trazendo o típico ruído do movimento encharcado. E logo atrás ouvia os ruídos dos quatros homens que o seguiam. Tornou a olhá-los, mas nada foi dito nem feito. Estes quatro indivíduos seguiram-no por numerosos passos no terreno inundado. A resistência da água os fez caminhar durante muitas horas até que eles chegassem a uma parte seca do solo.
Talvez fosse conveniente chama-lo de líder, pois não havia mais ninguém para estar à frente. E assim que eles puseram os pés na terra seca, olhou para trás e viu que mais dois indivíduos tinham aparecido, não sabia de onde. Provavelmente seu moral estava despedaçado demais para encarar esse curioso fato como algo digno de seu questionamento. Não havia um grande objetivo em pauta, ou um plano complexo de fuga do holocausto; ele andava apenas porque seu instinto de sobrevivência o obrigava a fazê-lo. Entender porque o seguiam não fazia parte do processo de deliberação. Mas, em algum lugar de sua mente, uma frase latejava, mesmo que ainda não pudesse entender o sentido dela: Já ouviu falar em simbiose?
A frente daqueles homens se estendia um terreno pedregoso indefinidamente amplo e, no horizonte, eles avistavam grandes montes, cobertos ainda por vegetação remanescente. Como qualquer outro animal, eles buscavam vestígios da vida e não era difícil deduzir que onde houvesse arbustos e folhas, haveria alguma chance de sobrevivência. As montanhas formavam um lindo paredão como uma cordilheira e recebiam sobre as encostas o manto verde, tingido às minúcias. Por pura casualidade aquela formação geológica não havia sofrido transformações recentes; escapara das inúmeras ondas de angústia do Criador. Mas não havia uma maneira fácil... a ânsia em chegar lá era tão grande que o grupo deixava os pés esfolarem-se nas ásperas pedras sem importar-se com os passos ininterruptos. Os viajantes empoeiravam-se e ralavam-se, tomando cada vez mais a expressão de cansaço e de agonia.
Certo dia chegaram ao sopé de um íngreme pico, ainda muito distante da cadeia montanhosa que servia de objetivo para eles. O aclive acentuadíssimo de rochas quebradiças e farelentas agrediam seus corpos, retardando a viagem. Subiam em fila indiana e frequentemente um deles escorregava, retrocedendo o movimento dos demais. Em pouco tempo, não puderam mais continuar, pois seus corpos sucumbiam pela falta de líquidos e comida. Então cada um deles passou a beber a própria urina e ingerir porções de pedras secas e inertes.
O grupo demorou alguns dias para subir o pico e, ao atingir a crista, todos atiraram-se no chão suspirando de cansaço. O líder resolveu olhar para trás e notou que o grupo tinha aumentado. Surgiram outros homens desnutridos e moribundos e passaram a seguir a fila. Embora o conceito de numeração ainda não fizesse parte do raciocínio do chefe, ele pode notar que a quantidade de seguidores havia ao menos dobrado. E, por mais que isso tenha chamado atenção dele, não havia nada que o fizesse mudar seu comportamento ignorante e desprovido de emoção.
Lá de cima, todos conseguiam observar o exuberante conjunto de montanhas se projetando no horizonte; isso os animou a prosseguir na jornada. Novos dias de caminhada, pois, os levaram a um vale onde conseguiram encontrar lama entre as pedras. Ali consumiram líquido, minhocas, vermes e larvas de algum inseto. Por falta de um local mais apropriado imerso naquele gritante cenário de horror, eles resolveram acampar. E como nada tinham para se protegerem do frio da noite, eles enterraram-se na lama e nas pedras e dormiram para recuperarem o sono dos dias de caminhada.
Ali, entocados como as minhocas que eles haviam arrancado do lar, eles se encolhiam. O desespero e a dor ocupavam a mente deles e se derramavam por cada gota de sangue dos pés que ia ao solo. E a improvável verdade era que o Criador pouco caso fizera deles e nem mesmo notara o sofrimento incandescente. Suas preocupações limitavam-se à pura manifestação de sua solidão, que foi martelada na cabeça de um pobre ser humano na deixa de uma proposta ainda não revelada, não se sabe o porquê. O que ele quisera dizer com simbiose?
Durante incontáveis dias eles andaram no terreno duro e agressivo. Seus pés iam moendo-se nas pedras, ardendo em bolhas e cortes, até que não aguentassem mais e parassem. Alguns deles não suportavam a dor, adoeciam e iam sendo deixados para trás até estarem sozinhos e morrerem. Outros pequenos grupos de sobreviventes juntavam-se a fila, que logo se desestruturou e passou a ser um bando confuso e disperso. O líder, que até então seguia sem queixar-se, sentiu que sua vez havia chegado. Subitamente ele parou de andar e passou a fitar estaticamente a cordilheira, agora não tão distante.
Em um ato brusco, ele veio de joelhos ao chão e sentou-se sobre os calcanhares. As pessoas que o seguiam pararam nos arredores, como se esperassem o guia levantar-se, mas ele não fez nada. Ele achou que ali, com sua barba empoeirada e seca, as mãos soltas por cima das coxas, ele deveria deixar a vida. Desmotivado, abaixou a cabeça lentamente, olhando para as pedras, e murchou os ombros. Todos aproveitavam para sentar-se e descansar, mas sem fazer um ruído sequer. O vento ainda era forte naquela tarde nublada e escura. E de repente, alguém agachou-se a seu lado e o envolveu com o braço passando pelas costas, depois o pressionou contra seu corpo pelo ombro direito em um gesto de apoio. Em seguida, este indivíduo aproximou os lábios de sua orelha e cochichou uma frase, tampando a boca com a mão esquerda, como se contasse um segredo.
Esses homens nem mesmo tinham desenvolvido a comunicação, de maneira que, quando necessário, tentavam entender-se por urros e gestos, embora a demanda pela comunicação frequentemente fosse suplantada pelo instinto animalesco. Apesar disso, ele pode atribuir algum significado ao som que ouvira, que provavelmente queria dizer para que ele não desistisse. Era estranho pra ele se deparar com aquela interpretação, mas a frase de estímulo não funcionou, de modo que ele continuou arriado no chão, sem demonstrar reação. Então o homem deixou de abraçá-lo, levantou e sentou junto aos outros membros. O líder não sabia qual deles o acolhera, mas não importava, tudo estava desmoronado.
Alguns minutos se passaram ao som das rajadas de vento, até que um dos seguidores pronunciasse algo como “irauã”. Em seguida, outros dois indivíduos pronunciaram algo semelhante, apontando para o grande paredão de montanhas. Logo, outros começaram a repetir aquela pronúncia, modificando-a. E em poucos minutos quase todo o bando repetia insistentemente sílabas parecidas, até que todos passassem a dizer a mesma palavra: “siourã.
Não se sabe se a pronúncia desta palavra representava apenas um urro de esperança ao verem que se aproximavam das montanhas ou se tentavam motivar o líder. O fato é que, a partir deste momento, passaram a se referir ao guia como Ciorã. E este foi o primeiro nome que o homem foi capaz de criar, ao menos naquele grupo. E logo ele percebeu que todos falando em conjunto formavam um coro, de ritmo musical e entusiasmado, como se quisessem convencê-lo a erguer-se e continuar o caminho.
Ciorã sentia ali que não estava sozinho, que o grupo estava começando a criar aderência e força. Foram nestas condições que ele se pôs de pé e recomeçou o deslocamento. Todos o seguiram com vividez e passaram a aprimorar a comunicação, apelidando uns aos outros. A mera junção de sílabas, unido aos gestos, os permitiu atribuir significado às coisas mais importantes como sinal para andar, parar, defecar e avisos de perigo.
Novos dias de caminhada aconteceram... A cada quilômetro que andavam, viam mais de perto a paisagem esplêndida da cadeia montanhosa. Aqueles picos lhes serviam de farol e tornavam o passar do tempo menos rancoroso. Depois de muita dor e cansaço, eles chegaram ao sopé das montanhas. Ali encontraram grama e algumas poucas árvores frutíferas, cujos frutos foram consumidos às pressas para saciar a fome de dias de privação.
Margearam as encostas dos morros por algumas horas até encontrarem uma enorme brecha entre duas grandes elevações. Naquele local os raios de sol conseguiam penetrar a densa camada de nuvens, ainda que de forma acanhada, e tingir as dobras do terreno com um amarelo pálido e receoso. Eles não aguentavam mais deslocar-se na subida, por isso a empolgação foi maior ao encontrarem o grande vale que levava ao centro da cordilheira.
Era uma formação geológica belíssima, virgens do contato indiscriminado das ondas de ódio emanadas por Ru. Um local raro e preservado em meio ao caos e ao arraso. As montanhas emendavam-se umas nas outras fechando um cerco de milhares de hectares. Elas pareciam proteger o que havia no interior da alça geográfica. O caminho de mais fácil acesso era aquele pelo qual o grupo chegara. Guarnecida pelo paredão ficava uma floresta e, de uma montanha, desaguava um volumoso rio, que ia penetrando e serpenteando boa parte da área cercada. As curvas dos rios desenhavam um fantástico cenário e podiam ser ouvidos de onde os nômades se encontravam.
Quando escutaram o som do rio, o desespero tomou conta de suas emoções e todos correram desenfreadamente para a direção dele. Logo chegaram às águas límpidas que drenavam o local e se abasteceram como não faziam há muito tempo. Ciorã observava o seu grupo... Talvez tivesse vinte homens ou mais. E não demorou muito para que todos percorressem as proximidades em busca de alimentos. O vale era mesmo exuberante e belo, pois servira de refúgio não só para os homens, mas também para pássaros, cavalos, peixes, porcos, galinhas, onças, répteis, insetos e muitos outros animais, mesmo aqueles cujo habitat natural tinha características diferentes.
Horas de descanso levaram aqueles sujeitos a rirem como não faziam há muito tempo. Como qualquer outra espécie de animal, eles permaneceram juntos, em bando, deleitando-se nos recursos que o local fornecia. Ciorã, sentado na grama, observando seus homens, questionava-se sobre aquele singular momento. Era estranho aceitar que ainda estivesse vivo, pois mais de uma vez tocara o frágil fio da existência. Quem sabe ele já não devesse ter partido daquele mundo... Apesar da tranquilidade aparente, germinando de um paradoxo abrupto ao tramitar do caos para o paraíso, sua cabeça parecia não estar em ordem, pois uma frase borbulhava em sua mente: “Aceita uma proposta tentadora? Já ouviu falar em simbiose?”
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