Matheus acordou em uma pequena cabana de madeira com um pano molhado em sua testa. A cabana era simples, havia uma pequena estante na parede com alguns remédios, duas cadeiras e alguns cobertores. Quando conseguiu pensar mais claramente percebeu que estava no chão e um cobertor branco o cobria até a cintura.

Sua cabeça estava dolorida e sua visão começava a ficar embaçada. Correu os olhos pelo resto do lugar e percebeu que Manu estava deitada ao seu lado, ainda inconsciente.

— Já está melhor? – indagou uma voz masculina.

Matheus virou o rosto dirigindo sua atenção a porta, encontrando Arthur parado diante dela.

— Mais ou menos – respondeu. – Apenas um pouco cansado. O que aconteceu? Onde estamos?

Arthur o colocou deitado novamente e ajeitou o pano molhado.

— Calma, uma coisa de cada vez. Estamos em uma cabana. Depois da luta contra os guardas demoníacos você e Manu estavam acabados, e o resto de nós, cansados. Por sorte encontramos este lugar, uma família vive em uma casa aqui perto, esta cabana é deles. Rafaela tratou os ferimentos de vocês, mas ainda não podem lutar, principalmente ela – apontou para a Ninfa Celeste.

Matheus olhou para a garota, notando pela primeira vez as bandagens sobre sua barriga.

— O que houve com Reina e os outros guardas? – indagou.

— Você os matou. Não se lembra? – perguntou, surpreso que o amigo não lembrasse do ocorrido.

— Entendo. Então não foi um sonho, afinal. Eu fiquei inconsciente por quanto tempo?

— Três dias.

— Tudo isso? – sua voz subiu por conta da surpresa. – E onde estão os outros?

— Patrulhando – respondeu simplesmente. – Victor ficou preocupado que o resto dos demônios pudesse nos atacar enquanto estivéssemos aqui, então todos estão vigiando os arredores, menos Rafaela e eu.

— Por que vocês dois não foram juntos com eles?

— Victor me pediu para proteger vocês e Rafaela ficou para o caso de a situação de vocês acabar piorando – ao ver que Matheus não tinha mais perguntas, resolveu fazer as suas. – Qual era o poder da Reina? Ela fez Manu piorar simplesmente tocando-a.

Matheus o encarou novamente, logo depois fechando os olhos.

— Reina, a Personificação da Morte. Ela controla o miasma. Quando algo orgânico entra em decomposição, começa a liberar miasma. Por exemplo, quando uma pessoa morre e seu corpo começa a se decompor, o cheiro é insuportável, contato direto com ele por muito tempo pode acarretar em diversos malefícios. Reina é capaz de usar esse miasma como quiser, trazendo inúmeras enfermidades para seus oponentes, até mesmo a morte.

— Certo, próxima pergunta: o que era todo aquele poder?

O castanho engoliu em seco, procurando pela melhor resposta.

— Era o meu verdadeiro poder, porém eu poderia fazer muito mais do que aquilo. Se eu lutasse com tudo, destruir um ou outro país seria fácil.

Arthur ficou tenso diante da resposta, mas ainda mais curioso.

— Por que não lutou à sério desde o início? – suas próximas palavras eram gritos enfurecidos. – Se tivesse usado seu poder antes, Emanuelle não estaria desse jeito.

— Eu odeio esse poder! – rebateu Matheus no mesmo tom. – Eu não controlo ele! Se eu fizesse isso eu não sei o que poderia ter acontecido, eu poderia ter machucado vocês, ou pior. Foi por isso que o selei, porque não queria machucar mais ninguém, e ainda assim...

O garoto ficou quieto diante da revelação do amigo. Nunca nem sequer considerou a possibilidade dele não controlar aquele poder.

Antes que qualquer um dos dois tivesse a chance de falar qualquer coisa que fosse, César entrou aparentando não estar muito paciente.

— Eles ainda não apareceram, ainda acho que deveríamos ir atrás deles antes que... – parou ao ver que Matheus acordara. – Esperem um pouco, já volto!

César saiu voando por onde veio e retornou 5 minutos depois com um pedaço de carne em um prato descartável, entregando-o para Matheus.

— Coma! Deve estar com fome depois de ficar três dias dormindo. E pensar que um dia eu teria que bancar sua babá.

Os garotos riram diante da piada, amenizando o clima entre eles. Mas César acertara, mesmo sendo uma piada, Matheus estava realmente faminto. Quando terminou de comer pôs o prato de lado.

— Que horas são?

— São quase uma da tarde – respondeu o Filho da Luz.

Diante do silêncio dos amigos, César pronunciou-se novamente.

— Ainda acho que devemos ir atrás dos outros demônios antes que eles consigam fugir ou nos atacar.

— Infelizmente, são eles que nos acham – respondeu Arthur.

— Na verdade, eu até tenho uma ideia, mas preciso falar com todos sobre isso antes de tentar qualquer coisa – foi Matheus quem se pronunciara desta vez.

Após dizer isso, Victor entrou na pequena cabana se juntando aos demais, como se fosse invocado... se bem que o demônio ali era Matheus.

Foram necessários alguns minutos para que o Príncipe do Submundo pudesse esclarecer sua proposta para localizar os demônios. Enquanto explicava, Rafaela também se juntou ao grupo. A ideia fazia sentido, o único problema é que não havia como.

O garoto propôs usar Manu para achá-los usando as árvores, dessa maneira saberiam exatamente aonde estavam e a distância entre eles, além de que também teriam o elemento surpresa consigo. O problema, porém, era que Manu estava inconsciente e não sabiam quando a garota acordaria, além de que, quando acordasse, não havia como saber se ela conseguiria andar sozinha.

— Eu posso cuidar disso – falou Rafa, atraindo o olhar dos demais. – O tratamento dela estava quase completo, se eu usar mais um pouco de magia ela com certeza acordará, mas não sei dizer se conseguirá andar.

— Vale a pena tentar – disse César.

Com um aceno positivo, Rafaela se retirou e voltou com uma bacia com água. Suas mãos estavam posicionadas logo acima dela e no segundo seguinte, a água começou a flutuar na forma de uma bolha e pousou na testa de Emanuelle, o brilho esverdeado que se seguiu era forte, forçando os presentes a fechar os olhos, quando os abriram novamente, o brilho havia cessado e a água não estava mais lá, tudo o que viram foi Rafaela deitada no chão totalmente exausta.

Curar outras pessoas exigiam demais dela, e nos últimos dias vinha fazendo isso mais do que desejava. Não era por nada que estava caindo de cansaço.

— Onde eu... estou?

A pergunta foi feita por Emanuelle, que acordava e se postava sentada com certa dificuldade.

— Não se esforce demais – aconselhou Victor, ajudando-a a se sentar.

Assim como fora com Matheus, César foi em busca de algo que a garota pudesse comer, enquanto Arthur respondia suas perguntas e Victor fora chamar os outros. Ao terminarem, Matheus explicou seu plano a Manu que o encarava sem interromper, quando acabou, ela assentiu.

— Faz sentido. E pode dar certo.

Manu se forçou a ficar em pé, porém vacilou por um segundo e deslizou, se não fosse por Larissa que a segurou teria caído de cara no chão.

— Obrigada!

— De nada! Está óbvio que você não consegue andar sozinha ainda, vou ajuda-la.

— Nesse caso, me leve até lá fora, até alguma árvore.

Larissa obedeceu e, apesar da dificuldade inicial, agora estavam em frente a uma imensa árvore. Larissa a soltou e Manu se apoiou na árvore, fechando os olhos.

“Me empreste seus olhos e ouvidos”, falou em pensamento, “Mostre-me onde está o Clã Demônio”. No segundo que se seguiu, uma caverna lhe veio à mente, a imagem começou a se ampliar, como o zoom de uma câmera, logo pode ver Satanás, Siegar e Abel, haviam mais três pessoas com eles, porém não era possível enxergar seus rostos por causa da escuridão da caverna.

Seus pensamentos saíram da caverna e voltaram para junto de seus amigos. Manu tinha a habilidade de se comunicar com árvores e outras espécies de vida vegetal, assim como acessar suas memórias e ver através delas.

— Eles estão em uma caverna, não muito longe daqui. Quinze minutos voando eu diria, em direção ao norte.

A animação tomou conta do grupo instantaneamente. Agora que sabia onde o inimigo estava, podiam encurralá-lo com a guarda baixa, pois contavam com o elemento surpresa.

E era exatamente isso que fariam.