A Lenda do Clã dos Pokémons Lasanha
13 Ferida
Emanuele caminhava impaciente de um lado para o outro esperando alguma coisa, qualquer que fosse. Na verdade, nem ela sabia o que esperava.
— O que está fazendo? – perguntou Larissa para a amiga.
— Estou com raiva! Você viu o jeito que ele nos tratou?
— Quem? Satanás?
— Não! Aquele idiota do Matheus! “Vocês apenas me atrapalharão” – arremedou o garoto, apesar de não ter se saído bem.
— Ele deve ter tido um motivo para isso.
— Qual? Nos chamar de lixo ou algo assim? No final ele é igual aos outros demônios que matou.
Larissa suspirou.
— Larissa tem razão – falou Gabriela se juntando a conversa. – Talvez ele... – parou de falar repentinamente, seu olhar estava extremamente focado em algo, as amigas perceberam isso e olharam para trás.
Um corpo, mais precisamente o corpo de Matheus, emergia do chão, da sombra de uma árvore. Estava coberto de sangue. Sua transformação ainda estava se desfazendo, os únicos traços eram suas unhas compridas e seu cabelo negro, ambos voltando ao normal lentamente.
— Larissa, chame a Rafa! Eu vou levar o Matheus para a cabana.
Larissa não discutiu e foi procurar pela outra, Emanuele acompanhou Gabriela quando esta usou o vento para erguer o corpo do garoto e o levar para dentro do construto o deitando de barriga para baixo.
Alguns minutos depois a amiga retornou com Rafaela, que segurava uma bacia d’água, e o resto do grupo. Apenas Matheus, Rafaela, Gabriela e Amanda ficaram dentro da cabana, o restante aguardava do lado de fora. A porta estava fechada.
Mesmo sabendo que isso a deixaria completamente exausta, Rafaela iniciou o processo de cura. O sangue ainda escorria pelas costas e pelo ombro do garoto, pouco, mais ainda escorria. Ela priorizou o estancamento do sangue e cicatrização, o que levou mais tempo do que o esperado. Gabriela havia saído para buscar mais duas bacias de água para a amiga, ganhando tempo, desse jeito quando a primeira acabasse ela já teria outras à disposição.
Matheus ainda estava inconsciente, mais isso não o impedia de soltar um ou outro gemido devido a dor da desinfecção que a amiga realizava.
Levou alguns minutos até que uma grande ferida se formasse em suas costas e mais alguns minutos para que o mesmo procedimento fosse realizado em seu ombro também, no fim haviam sido necessárias quatro bacias de água. Mais uma ou duas bacias e consideráveis minutos seriam o suficiente para remover as feridas e deixar a pele do garoto como nova, porém Rafaela estava extremamente cansada e se certificou de que elas não iriam se abrir tão facilmente.
Amanda ajudou Gabriela a virar o corpo do amigo.
— Verifiquem o pulso – pediu Rafaela.
— Vocês sabem como? – perguntou Amanda, recebendo respostas negativas.
— Há um jeito mais fácil de fazer isso – disse Gabriela, se abaixando e colocando o ouvido no peito dele, poucos segundos depois se levantou encarando, assustada, as amigas. – Está batendo, mas está fraco, começando a falhar, se continuar assim...
Amanda pediu par ambas se afastarem um pouco e juntou as mãos sobre o peito do outro. Um pequeno raio saiu de suas mãos e percorreu o corpo dele, reativando o coração. Ela pode sentir o coração do amigo voltando a bater normalmente, chegando à conclusão de que ele estava bem.
As três garotas saíram de dentro da cabana e acompanharam os amigos, que ainda as esperavam do lado de fora, para um lugar mais afastado, onde poderiam conversar, ou berrar caso fosse necessário, sem que Matheus os escutasse, se chegasse a acordar.
— Agora que ele está fora de perigo, podem me dizer porque vocês o salvaram? – Emanuele iniciou a discussão. – Sempre lutamos ao lado dele e hoje ele nos jogou de lado sem pensar duas vezes!
— Deve ter tido um motivo – sugeriu Arthur, ganhando um aceno positivo de Gabriela e Larissa.
— Sim, mas que motivo? – indagou Amanda. – Até parece que ele não confia em nós.
— Concordo! – falou Victor.
— Não percebem? Ele nos salvou! – declarou Gabriela recebendo olhares dos companheiros, desde curiosidade até indignação. – Vocês sabem o quanto aqueles demônios eram fortes. Nós passamos por dificuldades enormes para enfrentá-los e quase não conseguimos, mas Matheus os derrotou facilmente quando liberou seu poder. Quando voltou para cá, ele estava transformado e seriamente ferido. Se ele, mesmo após desbloquear seu poder, quase não sobreviveu a essa luta, que chance nós tínhamos?
Todos se calaram diante do que foi dito. Aquele argumento tinha sua lógica.
— O que faremos agora? Quanto tempo vai levar até que ele acorde?
— Não faço ideia. Considerando o tratamento que dei a ele, não deve demorar muito.
O silêncio novamente tomou conta do grupo, porém foi contornado por um garoto cheio de bandagens e expressão sonolenta.
— Bom dia!
Nove pares de olhos se viraram e encararam quem havia dito aquelas duas palavras. Matheus não notou o ato e bocejou.
— Como assim bom dia? – perguntou César. – Você já nos viu hoje.
— Sério? Ah, me lembrei.
— E Satanás?
— Morreu! Eu cuidei dele, não precisam se preocupar.
— Sei... – comentou Rafaela ao se lembrar de como ele estava à beira da morte poucos minutos atrás.
Victor pediu detalhes sobre a luta e Matheus contou aos amigos desde o local que ele escolhera para lutar até o momento em que usou o que lhe restou de forças para retornar aos amigos através das sombras. Em diversos momentos alguém pedia que ele esclarecesse algo que não tinham compreendido muito bem. O assunto se seguiu até o cair da noite.
Cecilia agradeceu aos donos da cabana pela hospitalidade e se juntou aos amigos.
Matheus novamente usou os portais, dessa vez para deixar os amigos em casa, em suas respectivas cidades. Mesmo sobre os protestou que alegavam que ele deveria descansar e se aquietar, o garoto sorriu e afirmou que estava bem e que poderia fazer isso tranquilamente. Todos ali sabiam que ele não mudaria de ideia assim facilmente e resolveram aceitar a oferta, mesmo a contragosto.
—
— Vejo vocês amanhã? – perguntou Larissa para Gabriela e Matheus, que eram seus colegas de aula.
Se encontravam em Marau, a última parada, já que Matheus havia deixado os outros em suas casas antes.
— Claro! – responderam ambos em uníssono.
Os cinco se separaram, cada indo para sua casa. Victor parou Matheus, que estava prestes a ir embora também.
— Tem certeza de que está bem? Quero dizer, aquela luta não parece ter sido nem um pouco fácil.
— Não foi e, sinceramente, ainda estou dolorido, mas nada que alguns dias de descanso não resolvam, logo estarei novo em folha – respondeu com um sorriso.
O amigo pareceu se contentar com a resposta e o deixou partir, apesar de ter mais algumas perguntas para fazer. Victor conhecia o amigo suficiente para saber que ele não responderia algumas dessas perguntas, como “Como você conseguiu manipular a escuridão? Achei que só pudesse controlar as sombras”, então nem perdeu tempo em perguntar. Confiava nele e, apesar de estar curioso, deixou o assunto de lado.
—
— Oi! – disse Gabriela que vinha correndo para encontrar os amigos que a esperavam na esquina da escola. – Isso é injusto! – declarou. – Por que temos que ir à escola logo depois de lutar contra um bando de demônios?
Nenhum dos outros dois se incomodou em silenciá-la pelo fato de estar comentando sobre os demônios em público. Qualquer um que passasse por eles pensaria que estavam falando de alguma série ou jogo, ou simplesmente achariam que estavam loucos. Qualquer que fosse a conclusão das pessoas que os escutava, não estavam se importando.
— Talvez porque ninguém aqui saiba da existência de demônios e coisas do tipo, não sabem quem somos e o que fizemos? – Matheus sugeriu o óbvio.
— Além disso pare de reclamar, a professora vai nos matar por ter faltado aula nos últimos dias e não estou nem um pouco afim de olhar para a cara daquela velha – disse Larissa arrancando uma risada dos amigos.
Tudo havia começado nas no terceiro dia das férias de julho, no meio do ano, porém acabou quatro dias depois das aulas retornarem. Todos estavam exaustos e nem sequer pensavam em recuperar a matéria perdida.
— Minhas costas ainda estão doendo, aquele Isahia chutava forte – comentou Gabriela quando entraram na escola.
— Suas costas estão doendo? – perguntou Matheus fingindo indignação. – Sou eu que estou com uma ferida enorme nas minhas e não reclamo.
Os três foram para a sala comentando sobre as lutas ou qualquer assunto trivial que lhes vinha a mente de vez em quando.
Matheus parou um instante e olhou para o céu, tendo a sensação de que ainda não havia acabado. Ele tinha perguntas em sua mente, perguntas que necessitavam de respostas. Quem controlou os humanos para libertar os demônios? Onde estavam? O que queriam?
— Tudo bem? – perguntou Larissa ao notar o olhar do rapaz.
Ele sorriu e voltou a fazer seu trajeto para a sala, deixando suas preocupações de lado. O que quer que fosse, resolveria depois, com a ajuda dos amigos.
Gabriela colocou a mão no ombro de Matheus, como que para confortá-lo, gesto que foi retribuído com mais um sorriso.
No segundo seguinte, a porta à sua frente foi aberta e os três entraram em sua sala.
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