A Lenda do Clã dos Pokémons Lasanha
16 Luxúria
Matheus acordou cedo no dia seguinte, pois teria de conferir algumas coisas. Saiu calmamente de casa, trancando a porta e se dirigindo ao colégio do amigo.
Estava quente, mas era suportável, apesar de sua vontade mesmo ser de ir até onde devia voando. Quando chegou no colégio do amigo era hora do intervalo e o pátio estava cheio.
Entrou na escola furtivamente, tendo certeza de que não havia sido notado. Estava prestes a se misturar a multidão quando uma ouve uma voz atrás de si.
— Demoro bastante! É melhor ser mais cuidadoso na próxima.
O garoto de cabelos castanho pode sentir seu coração quase estourar, instintivamente pulou um metro e, quando seu pé tocou o chão, se atrapalhou e caiu, arrancando uma risada do outro que o havia assustado.
— Você quase me matou! – gritou.
— Não coloque a culpa em mim, isso só aconteceu porque você foi descuidado – disse Victor se justificando enquanto o outro se levantava.
— Onde ela está?
— Lá na frente. Vamos!
Ambos se puseram a caminhar com o de óculos na frente mostrando o caminho, adentraram o prédio seguindo para o segundo andar. Dava para ver boa parte da escola de onde estavam, na sacada.
Victor apontou para um grupo particularmente grande e os olhos de Matheus o seguiram, parando especialmente em uma garota de saia curta no meio do grupo e, sinceramente, não era à toa que o garoto ao seu lado a descrevera como uma puta.
— Agora entendo porque você chamou ela de puta. Ela fez alguma coisa estranha durante a aula?
Ao soprar do vento Victor se escorou no guarda-corpo, talvez tentando ver melhor a cena.
— Só o que faz todo dia, mostrar que está no cio – ironizou arrancando uma risada do outro. – E lambendo a caneta sensualmente. Aliás, você nem estuda aqui, como tem esse uniforme?
— Seria engraçado ver uma coisa desse tipo – confessou. – Essa roupa é feita de sombras. Lamber a caneta “sensualmente” não é algo meio clichê?
— É, é sim – se espreguiçou na varando. – Mas acredite, ainda funciona. Quer ir lá com ela?
Matheus não disse nada, apenas acenou afirmativamente com a cabeça. Começaram a andar, dessa vez para o primeiro andar. Pouco depois que saíram do prédio, o sinal bateu, porém eles continuaram a caminhar, ignorando o barulho.
O grupo de Karen se aproximava cada vez mais dos garotos, quando ela passou por eles Matheus a encarou com o canto do olho. Assim que se afastaram, Victor perguntou:
— E aí? O que achou.
— Você tinha razão. Tem algo estranho aqui e essa energia...
— Descobriu alguma coisa?
— Talvez. Tenho uma teoria, mas nenhuma certeza – quando viu o que o outro iria pedir tratou de continuar falando. – Prefiro não falar nada enquanto não tiver certeza. E você tem que voltar pra aula.
Após dizer isso ele o deixou para trás.
—
Assim que a aula acabou Matheus apareceu e tratou de seguir Karen, sem ser notado é claro. Porém surpreendeu-se com o fato de ela não fazer nada que fosse suspeito. À tarde a garota ficou indo de loja em loja, vendo joias.
Os passos da garota eram rápidos e curtos. Ela parou em frente a mais uma loja que, assim como as anteriores, vendia joias e outras coisas do tipo. Matheus estava observado tudo o que a menina fazia da janela do segundo andar do prédio que ficava do outro lado da rua, exatamente na frente da loja na qual ela havia entrado.
Uma estante estava exposta em uma das paredes, continha vários manequins com colares, pulseira e brincos, todos com alguma pedra preciosa ou bijuteria. Esperava que fosse embora sem comprar nada, assim como havia feito nas outras, porém Karen parecia verdadeiramente interessada nas mercadorias dessa vez.
O homem que estava no balcão, que devia ter em torno de 35 anos, foi até ela e falou algo que ele não pode ouvir, mas deduziu ser algo como “o que deseja?”, “posso ajudar?” ou alguma coisa do tipo.
Karen apontou para um colar na qual havia uma pedra verde, ambos conversaram um pouco até que a garota o abraçou, a boca dela foi se aproximando e beijou-lhe o pescoço, pouco depois sussurrou algo no ouvido do homem que se separou dela delicadamente, pegou o colar e entregou para ela. Instantes depois a garota estava saindo da loja.
Que tipo de retardado daria um colar desses de graça? Mesmo que não pudesse ver direito de onde estava, via o suficiente para deduzir que aquele colar valia um bom dinheiro. E aquela energia...
O garoto se apressou em voltar a seguir a garota, antes de deixar o prédio um sorriso percorreu seus lábios quando uma ideia arriscada lhe passou pela cabeça. Depois de algumas quadras ela entrou em uma casa de dois andares. Matheus permaneceu na esquina, observando a casa por detrás de um prédio. Ficou lá durante mais dez minutos, olhou com cuidado ao redor. Nenhum carro, nenhuma pessoa, as ruas estavam vazias. As sombras o envolveram e ao abrir os olhos novamente estava dentro da casa na qual Karen entrou.
Analisou o cômodo em que estava e deduziu ser a sala: uma mesa pequena, um sofá e uma televisão. Pelo barulho alto de água se encontrava perto do banheiro, onde Karen deve estar tomando banho. Deu alguns passos em direção a mesa, ela havia deixado o colar em cima dela e o menino o analisou.
Havia acertado. Aquele colar devia valer um bom dinheiro, porém bem mais do que imaginava. A joia verde estava encantada. Um feitiço poderoso! O que ela estaria fazendo naquela loja?
“Merda!” foi o único pensamento após perceber que o barulho de água havia cessado. Não havia tempo para fugir. Não que fosse ajudar, ele havia se entregado algum tempo atrás.
Um som de porta abrindo encheu a sala, pouco depois uma Karen de cabelos molhado e envolta em uma toalha apareceu com uma expressão confusa ao ver o garoto parado no meio do cômodo. Sorriu.
— Que surpresa boa! – falou rindo. – Posso ajudar? – perguntou se aproximando.
— Pode sim. Que tal me dizer quem é você de verdade? – sugeriu com naturalidade.
— Como assim?
— Você não é humana, obviamente. O que você é?
— Do que está falando? – perguntou ofendida. – Aliás, por que está me seguindo? Desde que estava voltando para casa você está atrás de mim. Se quiser algo é só pedir. Eu posso te dar qualquer coisa – pôs ênfase no “qualquer coisa”.
Matheus sorriu mais uma vez. Um sorriso vitorioso.
— Você mente muito mal – recebeu um olhar confuso. – É muito óbvio que você não é humana. Primeiro: a energia que você anda liberando exageradamente ao seu redor, era só questão de tempo até ser notada. Segundo: o jeito que ludibriou o homem da loja e o jeito como percorreu a cidade um bom tempo até achar esse colar, a qual possui um joia encantada. Terceiro: estou te seguindo há horas, porém você apenas me notou quando saiu com o colar e tudo porque eu permiti, comecei a liberar uma onda pequena do meu poder, e foi através dela que você me achou, porém nenhum humano teria percebido. Logo, você não é humana.
Karen que até então estava ouvindo tudo atônita começou a rir. Uma gargalhada alta que mostrava o quanto ela estava se divertindo.
— E daí? O que vai fazer?
Matheus a encarou e, por fim, perguntou o que estava em sua cabeça desde a conversa com Victor.
— Você por acaso é uma súcubo?
A expressão de divertimento da garota logo deu lugar à raiva. Sua mão foi de encontro ao rosto do outro em um forte tapa.
— Não me insulte dessa maneira! Não sou tão fraca!
Ele ignorou o tapa. Se ela não era uma súcubo, então o que era? De fato algumas coisas não se encaixavam, porém não lembrava de nenhuma outra criatura com poderes parecidos. Alguma criatura tão lasciva, tão ninfomaníaca, com toda essa luxú...
Foi aí que a verdade o atingiu com um tapa, um mais forte do que o desferido pela garota. Ao ver sua expressão, Karen começou a gargalhar novamente, dessa vez bem mais divertidamente.
— Parece que finalmente entendeu – disse tentando controlar o riso. – Deixe que eu me apresente. – suas pernas se dobraram, ela ergueu a cabeça olhando-o diretamente nos olhos, uma de suas mão foi até a nuca, enquanto a outra foi até sua boca. – Eu sou Karen da Luxúria, e você vai morrer.
E mão que estava em sua boca se estendeu até o peito do garoto e este foi lançado através da parede, para a rua deserta. Seu corpo atingiu a parede de um beco do outro lado. De onde estava pode ver Karen de toalha, ela estava parada sobre o buraco na parede e seus cabelos balançavam junto ao vento.
Antes de Karen ter chance de atacar novamente, Matheus fugiu pelas sombras.
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